segunda-feira, 29 de abril de 2013

Dinheiro e apenas dinheiro: Eis o problema da Renamo (*)

 
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Afonso-Dhlakama 605x230A liderança da Renamo acaba de confirmar, de forma tácita, que exige mais dinheiro do governo, para além dos três milhões de meticais (cerca de 100 mil dólares ao câmbio corrente) que, segundo o seu antigo secretário-geral, vem recebendo e que em 1992 se situava naquele montante e que agora pode ter sido incrementado no orçamento deste ano de 2013.
Este montante faz parte do que tem direito o Erário público como um dos três partidos com assento na Assembleia da República, o parlamento moçambicano.
A Renamo diz que precisa de mais dinheiro acima dos três milhões para para garantir a transição da sua antiga força militar em partido político de forma “tranquila e sem grandes sobressaltos”.
Esta exigência vem contida numa carta endereçada ao Executivo moçambicano, datada de 26 de Abril corrente, na qual solicita a retomada urgente do diálogo mantido entre as duas partes no ano passado e que veio a ser abandonado pela prórpia Renano alegando que não havia seriedade da parte do governo.
Na carta, a liderança da Renamo exige este aumento do dinheiro sob o argumento de que tendo “a Renamo sido signatária e parceira do Governo no AGP, não entende porque razão continua pura e simplesmente excluída do usufruto de toda a riqueza que é fruto da paz que ajudou a conquistar e manter durante estes vinte anos”.
Este extracto desta carta assinada pelo Dr. Augusto Mateus, Chefe do Gabinete do líder da Renamo, indica claramente que a Renamo sente-se no direito inalienável de desfrutar elasticamente das riquezas do país, apenas pelo facto de ter sido um dos signatários do Acordo Geral de Paz (AGP) de Roma em 1992. Digo elasticamente porque os três milhões que já recebe são provenientes dessas riquezas e não uma oferenda divina.
Os que tiveram acesso a referida carta, como foi o meu caso, interrogam-se como é que a Renamo exige mais dinheiro quando sabe que até serviços vitais para o povo de que tanto fala, tais como os serviços de saúde, funcionam com um orçamento exíguo e incapaz de garantir a assistência sanitária para os 23 milhões de moçambicanos.
No AGP, que evoca para que lhe seja pago mais dinheiro, a Renamo comprometeu-se a parar com a guerra que então movia ao serviço do então regime do apartheid da vizinha África do Sul, e que a usava como um dos seus tentáculos para tentar derrubar o governo moçambicano, apenas porque apoiava a luta que o povo sul-africano travava então para destruir aquele sistema diabólico considerado até pelas Nações Unidas como “um crime contra a humanidade”.
Muitas pessoas questionam se a Renamo exige que lhe seja paga pelo facto de ter movido uma guerra de desestabilização, que provocou a morte de um milhão de moçambicanos e reduziu o país às cinzas, o que dizer do outro signatário do AGP que soube defender esse povo que estava sendo dizimando por todos os meios possíveis por aquele antigo movimento rebelde?
Vincam que se o governo tiver que pagar a Renamo por ter deposto as armas e garantir a paz em Moçambique, não será legítimo que a Frelimo exija também que seja paga por ter sido um dos seus subscritores?
Ademais, caso se pague à Renamo, a Frelimo poderá ver nesse precedente razão suficiente para também exigir retroactivamente que lhe seja paga por ter subscrito o Acordo de Lusaka com Portugal, e que resultou na independência de Moçambique.
Muito embora seja temperada com argumentos e até sofismas com que tenta dar-lhe cores que tornem esta sua exigência aceitável, a liderança a Renamo diz que ela não está em condições de fazer a transição de uma organização militar para partido político.
“O processo de transformação de um movimento militar para um Partido Político, impõe a criação de um leque de condições materiais de vária índole com vista a assegurar uma transição tranquila e sem grandes sobressaltos”, diz a Renamo na sua carta.
A Renamo apresenta muitas outras exigências que deverão ser satisfeitas pelo governo e vinca que “para manter uma máquina como a Renamo, exige-se uma robustez financeira que passa, necessariamente, pela criação de condições concretas”.
É aqui onde a liderança da Renamo omite os milhões que foi recebendo ao longo destes 20 anos em que abandonou as armas e tentou transformar-se em partido político que agora diz que ainda não conseguiu ser.
Por isso, exige mais dinheiro. O mais grave é que nunca justificou a aplicação desse dinheiro.
Como já disse, a Renamo recebeu avultados fundos do Orçamento do Estado que lhe é canalizado pelo Tesouro em função do número de deputados na AR.
Esses fundos chegaram a ser bem mais chorudos quando tinha uma bancada de 119 deputados de entre os 250 que compõem o parlamento moçambicano.
Renamo-bandeiraO antigo Secretário-geral da Renamo, Viana Magalhães, confirmou em 2012 numa entrevista, pouco depois de ser substituído pelo actual Manuel Bissopo, que a Renamo recebia três milhões de meticais por mês.
Ele alegava que não era suficiente, pois a suas despesas estavam orçadas entre nove a 10 biliões. Mas nunca o partido justificou o destino dos três milhões, até ao ponto de nunca terem feito um único Congresso de relevo, contrariamente à Frelimo e o MDM que fizeram o ano passado congressos, apesar deste último ter pouco mais de dois anos de existência.
Além de não ter realizado nenhum congresso ou se transformado em partido politico, é o facto de Magalhães ter dito que a Renamo possui uma dívida estimada entre 20 a 23 milhões de meticais contraídas junto de várias instituições e pessoas singulares.
Na verdade, a Renamo não conseguiu transformar-se em partido político viável e robusto porque a sua liderança geriu mal o dinheiro concedido pelo Estado, bem como geriu mal todos os fundos que recebeu de outras fontes ao longo destes 20 anos, como os que amealhou da então ONUMOZ, ou seja, das Nações Unidas que, neste caso, supervisionaram durante dois anos a implementação do AGP.
A má gestão foi a causa que ditou a falência da Renamo e inviabilizou a sua transição de uma organização militar a partido político.
A prova de que o insucesso da Renamo deve-se à má gestão é o facto de o MDM, um partido com apenas dois anos de existência, estar a dar sinais que é melhor que a Renamo, apesar de possuir uma bancada muito reduzida e, por isso, uma fatia reduzida que lhe cabe do bolo concedido pelo Estado aos partidos políticos com representação na AR.
A Renamo sempre usou a sua força militar para exigir o que não tem direito á luz da lei. Este facto tem sustentação pelo seu passado bem documento num estudo da revista Africa Watch, publicada nos finais dos anos 90.
O estudo revela que o falecido multimilionário, Tiny Rowland, pagou ao líder da Renamo, Afonso Dhlakama, para que este aceitasse deslocar-se a Roma e assinar o AGP com o antigo presidente Joaquim Chissano.
Com isso, Rowland queriam impedir a destruição dos seus empreendimentos em Moçambique e que eram geridos pela Lonrho Moçambique.
Nesse estudo, que eu tive acesso através de um dos seus autores, o conceituado académico britânico Alex Vaines, agora á frente da Chantam House em Londres, revela que Dhlakama assinou o AGP em troca do que recebeu, e foi essa a maior motivação para acabar a guerra em Moçambique.
Por Gustavo Mavie, da Agência de Informação de Moçambique (AIM)

sábado, 27 de abril de 2013

Afonso Dhlakama movimenta-se das matas da Gorongosa a cidade da Beira

Afonso_dhlakama-01x13x625x210O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, movimentou-se nesta quinta-feira das matas da Gorongosa a cidade da Beira, em Sofala.

É a primeira movimentação do líder desde que fixou residência nas matas da Gorongosa em Setembro do ano passado e a seguir aos recentes ataques em Muxúnguè protagonizados pelos seus homens armados.
Afonso Dhlakama chegou a cidade da Beira a noite, escoltado pelos seus militares. É um aparato militar enorme, que está a criar forte impressão no seio dos citadinos da Beira.
Desde que o público tomou conhecimento da presença do líder da Renamo na cidade da Beira vive-se ambiente de agitação na urbe, incluindo no seio das forças de defesa e segurança. Assiste-se a uma movimentação invulgar da Força de Intervenção rápida na cidade.
A cada lugar da cidade para onde o líder da Renamo desloca-se acompanhado de seus homens fortemente armados, estão presentes os elementos da FIR, num cenário que mostra que as duas forças estão prontas a confrontar-se, esperando apenas que um comece.
Dhlakama veio a Beira orientar as actividades políticas do seu partido.
 
O AUTARCA –26.04.2013
Fonte Aqui

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Será o Desarmamento da Renamo uma Prioridade Nacional?

A atmosfera de ameaça que nos rodeia desmoraliza-nos os esforços de edificar o país que queremos. É bom assumirmos por vezes as nossas próprias culpas. Se pretendemos a vitória, temos que conquista-la. Assim, debaixo de ameaças, nunca a conquistaremos. Durante as nossas vidas, vimos por inúmeras vezes os moçambicanos, contra os seus desejos e tradições, contra argumentos cuja força é impossível não compreender, serem irresistivelmente arrastados para viverem com coração na mão receosos do retorno da guerra. Por inúmeras vezes tiveram alguns moçambicanos de enviar seus filhos para outros locais, ao encontro da paz. Decididamente, deveríamos trabalhar com determinação para uma pacificação geral do país, no quadro do que a opinião pública considera viável. Mas isto não passa pelo desarmamento forçado da Renamo. Nas circunstâncias actuais, nas quais a opinião geral parece tender a ver na polícia um instrumento de opressão do que de protecção, não é possível imaginar uma Renamo desarmada sem que muitas vidas sejam postas em causa. A Renamo tem a causa a defender e as causas, quase sempre, nunca morrem.
Por todo o país, estabeleceram-se alianças que operam em total união e absoluta obediência na linguagem às directivas que recebem do centro de decisão que pretende ver a Frelimo fora do poder. Por todo o país, são cada vez mais visíveis sectores descontentes com o status quo e recentemente foi firmada uma Santa Aliança (Liga dos Direitos Humanos, Imprensa independente e oposição) com bênção de alguns prelados cujos pronunciamentos constituem um desafio crescente. Ainda estamos na infância dos desafios e já tivemos factos sombrios de enumerar, mortos e feridos, além de danos materiais avultados. Os desafios de Moçambique não são os partidos políticos que estão sendo combatidos. Os problemas de Moçambique não são o desarmamento da Renamo nem as bandeiras do MDM. Os desafios de Moçambique resumem-se numa única palavra: pobreza. E esta, por sua vez, chama outra palavra: justiça. Seremos extremamente insensatos se não encararmos a pobreza e a justiça de frente enquanto há tempo e incluirmos todos os actores políticos no seu combate e na sua observância. Precisamos de abandonar as consequências para abraçarmos as causas da crise. Precisamos de coabitar politicamente nas diferenças.
As ameaças que a Renamo faz, longe de trazer efeitos negativos a sua imagem, são catalisadoras da mesma, o que mostra que há moçambicanos que depositam sua esperança nas ameaças, como única saída viável. Porquê? Sinto-me na obrigação de retratar a sombra que se abate sobre o país porque ainda tenho na mente uma impressão muito forte da situação em que vivemos no passado, sobretudo no começo da rebelião, e é-me doloroso compará-la com a que se verifica actualmente. Naquela época, havia grandes esperanças e uma certeza absoluta de que a guerra não teria lugar e que aqueles eram Bandidos Armados com os quais não se podia negociar. Hoje, quando os discursos e actores são os mesmos, não vejo nem sinto essa mesma confiança, nem sequer as mesmas esperanças, no turbulento país de hoje. Repudio a ideia de que uma nova guerra é inevitável. É por ter a certeza de que ainda temos o nosso destino nas mãos, nas nossas próprias mãos, e que temos o poder de salvaguardar o futuro, que senti o dever de falar agora, quando a ocasião e a oportunidade se me apresentaram. Trabalhemos juntos e cheguemos a um entendimento político duradouro.
Não acredito que a Renamo deseje a guerra. O que ela deseja são os frutos da Paz. O que aqui devemos considerar enquanto ainda há tempo, é a prevenção permanente da guerra e o estabelecimento, o mais rapidamente possível, de condições de liberdade e democracia efectiva de todos os partidos, sem excepção. As dificuldades e os perigos não serão eliminados se lhes fecharmos os olhos. Não serão eliminados se ficarmos à espera para ver o que acontece, nem praticando uma política de apaziguamento. Os desafios não serão eliminados enquanto a polícia continuar a invadir sedes de partidos políticos que são, por lei, propriedades privadas. O que é necessário é um acordo, e quanto mais for adiado, mais difícil será de obter e maiores se tornarão os perigos que nos ameaçam. Pelo que vimos nos recentes acontecimentos de Muxungue e dos madjermanes em Maputo, ficamos convencidos de que para a polícia não há nada que tanto admire como a força das espingardas, e de que não há nada que menos despreze do que o homem desarmado.
Por isto, por esta razão, não é válida a velha doutrina de que as coisas se resolvem por si próprias, bastando ter o poder de instrumentos de opressão. Não nos podemos dar ao luxo, se o pudermos evitar, de ter pouco espaço de manobra, dando azo à tentação de teste de força. Se os moçambicanos se mantiverem unidos, em estrita adesão aos princípios da Constituição, a sua capacidade para promover esses princípios será imensa e não é provável que alguém os incomode. Porém, se se dividirem e vacilarem no seu dever, se deixarem fugir estes anos tão importantes, poderemos todos ser vítimas de uma catástrofe. Da última vez, os atenciosos viram a guerra a aproximar-se e avisaram aos compatriotas e ao mundo, mas ninguém lhes prestou atenção. Até 1979, ou mesmo 1980, Moçambique poderia ser salvo do horrível destino que lhe coube, e todos nós poderíamos ter sido poupados às misérias que a guerra lançou sobre os moçambicanos.
Nunca houve, na história, uma guerra mais fácil de evitar actuando atempadamente do que a que acabou de desolar tão vastas áreas do país. Poderia ter sido evitada, na minha opinião, sem se disparar um único tiro, e Moçambique poderia ser hoje poderoso, próspero e honrado entre as nações, mas ninguém quis ouvir e fomos todos sugados, um a um, pelo terrível turbilhão. A decisão será nossa, mas de modo nenhum podemos deixar que isto volte a acontecer. Só o conseguiremos se agora, em 2013, neste ano de 2013, chegarmos a um bom entendimento com a Renamo e com outros partidos a todos os níveis, e mantendo esse bom entendimento por muitos anos. Não são as armas que fazem a guerra, mas a vontade. Há muitos meses que a roda do destino e o impulso da calma determinação dos moçambicanos avançam em direcção ao objectivo. Nestas últimas horas, o ritmo aumentou e já nada o pode parar. Não se trata apenas de um grupo em marcha para o seu objectivo, mas de 22 milhões de moçambicanos marchando atrás de seus líderes, esperançosos de verem concretizados os seus sonhos de um Moçambique melhor.
 
Pedro MAHRIC

terça-feira, 23 de abril de 2013

Reescrever a História ao serviço da Política?


Quando lerem a obra de um historiador, prestem muita atenção à sua voz. Se não ouvirem nada, é porque são surdos ou porque o vosso historiador é um perfeito maçador. Não, na verdade, os factos não se assemelham aos peixes expostos na montra do comerciante. Assemelham-se aos peixes que nadam no oceano imenso e muitas vezes inacessível; o que o historiador apanhará depende em parte do acaso, mas sobretudo da região do oceano que tiver escolhido para a sua pesca e do isco de que se servir. Estes três factores são, evidentemente, determinados pelo tipo de peixe que se propõe apanhar. Em geral, o historiador obterá os factos que deseja encontrar. História significa interpretação. De facto, se, pondo Sir George Clarck de pernas para o ar, eu reconhecesse que a História é um «duro caroço de interpretação, rodeado de uma polpa de factos discutíveis», a minha asserção seria incontestavelmente unilateral e induziria em erro, mas menos – arrisco esta tese – do que a asserção original[1]. 

Alguns intelectuais e filhos da oposição ao regime fermentam prodigiosamente com os olhos virados para o poder e os lamentos diários têm-lhes surgido como um astro brilhando no meio de uma noite profunda. Empreenderam um enorme trabalho de ideias não apenas políticas, mas também históricas auxiliando-se no método do livre exame de expressão e pensamento julgando-se capazes de abalar o regime até aos alicerces. Todavia, os factos mostram que o regime conta com uma arma temível – o povo – por meio da qual é capaz de sabotar o edifício corroído pelas velhas crenças numa alternância política via milagre, por vezes, fundamentada na desvalorização da História dos outros. Tudo se discutiu em profundidade, sem poupar nenhum traço que a geração 25 de Setembro tem como legado para deixar à posterioridade. Assistimos ao pôr em causa todo o processo da luta pela libertação, com promessas de reescrita da sua HISTÓRIA ALTERNATIVA à luz das imaginações do raciocínio do século XXI e insistentes apelos da substituição de símbolos presentes na nossa bandeira.

Nisto, deram início à uma campanha de desinformação histórica promovendo uma propaganda subtil que tem tornado público o perigosíssimo adágio segundo o qual «a História conforme narrada, pelos que detêm o poder e por amigos destes, deve ser encarada com máxima cautela» porque é, à partida, enganosa, omissa e mentira. Começaram a definir a sua linha de pensamento que marca uma orientação nociva para a própria História por privilegiar o Homem ignorando o tempo, por sinal, o verdadeiro amortecedor da História. Nos seus dizeres, há provas materiais do ódio cego votado à Frelimo identificando-se, para cúmulo, com posições anti-democráticas e intolerantes. A título de curiosidade, um partidário fervoroso da oposição afirmou com S.I.M. maiúsculo que todos os que votam na Frelimo são ignorantes. Essa afirmação, hoje banal, mostra o tipo de reservistas com que a nossa oposição conta, prontos a serem introduzidos no arsenal dos seus opinion makersO que me força a redigir estas linhas é o facto de, no TUDO SERVE, estarem presentes argumentos que extrapolam os limites de simples vias justificativas para se chegar ao poder político, ao abarcar o campo da História que é uma das pré-condições para que o povo se sinta UNIDO. Pelo contrário, ela tem sido usada como arma de divisão! 

Trata-se de um esforço bastante extensivo e que faria presumir um trabalho exaustivo se não fosse em grande parte a repetição de comentários dispersamente localizáveis, feitos por pessoas magoadas no processo da luta e, desde logo, também de credibilidade suspeita para a reescrita da História. De resto, elucidam-nos de que tomaram como ponto de partida e de referência a necessidade de reconciliação nacional. Que astutos! Que astúcia! Estou a pensar no diálogo entre o Diabo com Jesus «transforme essa pedra em pão» cujo conteúdo contém manhas consagradas a esta temática. Com ódio, num tom subjectivo, procuram demonstrar que a morte de Mondlane e quase de todos os heróis conhecidos, foi uma conspiração urdida a partir do interior da própria Frelimo, para, de seguida, proclamá-los heróis. Descrevendo pormenorizadamente a situação de então, mais particularmente após a morte de Mondlane, citam vários exemplos próprios de uma revolução, apesar do seu carácter de veracidade ser contestável. Omitindo o lado sombrio dos coutros pretendem fazer crer que eles foram vítimas, em desprezo às várias almas que, pelas decisões adiadas ou divisões mal orquestradas por aqueles, foram tombando no campo da batalha, um por um. Sem justificarem as sucessivas inconsistências de muitos deles em terem um pensamento fixo, acrescentam, porém, os representantes desta discórdia, que a História Oficial se encontra em muitos pontos desactualizada, especificando verificar-se esse facto no que diz respeito aos «verdadeiros heróis», uma mostra de que pretendem destruir todos os fundamentos da nação moçambicana. E é pena que não haja um objectivo precioso para se identificarem, na integridade das suas intenções, as coordenadas exactas do lugar geométrico em que se encontram os adversários do regime.  

No meio de tudo isso, os alunos, do primário ao secundário e até universitário, ficam confusos por ter que enfrentar a História Oficial na Escola a qual não pode ser complementada em casa, porque o encarregado, soprado por informações flutuantes de proveniência com sede de poder, diz que aquela é falsa. O mesmo se diga da confusão no professor que tem de responder conforme as inquietações dos alunos, sob risco de ser chamado de ignorante. Paira, portanto, uma nuvem de incerteza sobre os fundamentos ideológicos da posição assumida e o impacto disso no Ensino. Tornou-se inevitável uma proposta, não uma dessas de que a História dos Jornais nos oferece muitos exemplos, propostas superficiais e unilaterais, que apenas podem substituir uns factos por outros, mas profunda, radical, inclusiva que terá de descer até às entranhas das suas convicções no seu todo para aí operar a mudança científica desejada. Soubemos, quando muito, que particularmente se orgulham de desprezar a história da Frelimo, que infelizmente também é a deles, a uma regra de constância e se abonam de uma larga tradição de insultos que, segundo dizem, lhes têm acarretado dissabores de vulto no Aparelho do Estado. No entanto, a dificuldade com que, no nosso tempo, adoptam e rejeitam a História Oficial, revela que é necessário um certo ecletismo, para evitar lançar os jovens aos argumentos desprovidos de estabilidade e coerência.  

Fazem os autores dos artigos populistas questão fechada de serem homens livres que pretendem mudar o rumo dos acontecimentos e é natural que isto explique a naturalidade com que não analisam o impacto dos seus pronunciamentos e as próprias soluções que preconizam. Reescrever a História não significa negar o que já foi escrito, pelo contrário, é enriquece-la, é corrigi-la, é explica-la à luz das novas concepções ditadas pelo tempo. Todos parecem convertidos de quererem a outra História que não a conhecem, movidos pelos desejos políticos atávicos. Sublinhando essa característica do seu comportamento político, os oposicionistas julgam beneficiar da influência favorável da verdade e dos ventos da História. O surgimento destas posições constitui uma contribuição interessante para a questão da pertinência de reescrever a História, onde tais problemas que se têm levantado façam parte e sejam racionalmente justificados. No exemplo que nos ocupa, a decisão plausível seria a escrita da História das Correntes em Torno da História de Moçambique onde todas as versões até aqui avançadas façam parte, de modo a denunciar o carácter egocêntrico que esta área tem tomado, nos últimos tempos.  

Ignorar o papel do tempo como historicamente sem importância tentando julgar o passado à luz das frustrações presentes constitui erro, sobretudo quando começam a pôr em evidência o papel dos seus ídolos que não encontram fundamentos sólidos quanto ao papel desempenhado. Se as suas investigações, no caso de as terem empreendido, tivessem confirmado que estes indivíduos deram contributo merecedor de registo nos anais da História Oficial, isso não teria diminuído em nada Revolução e não a teria reduzido apenas ao problema de conspiração, tal como não modificaria a nossa opinião decididamente suspeita sobre a obra de alguns combatentes da primeira gesta. Mondlane completa de certa maneira a vitória. A sua concepção apocalíptica, levada até ao misticismo, condu-lo na sua «Lutar por Moçambique» a uma maneira singular de conceber os factores da vitória: a Unidade. Só uns poucos podiam fazer o trabalho «sujo» por razões óbvias que consistia em rejeitar a pessoa de Mondlane desde o começo. Só uns poucos podiam dominar as tendências de união com a refundação de outros movimentos paralelos; só uns poucos podiam dominar as forças centrífugas da Frelimo, reforçando assim o tribalismo e a divisão.

 
Pedro MAHRIC


[1] E. H. Carr. What is History, op. cit. p. 18

domingo, 21 de abril de 2013

A Guerra: O dia em que tive medo da noite!


«Os recentes discursos belicistas da Renamo me recordam capítulos idos e despertam-me o inconsciente. Segredos, mágoas, ressentimentos no coração, mas também esperança, porque se não posso mudar o passado, ao menos posso escolher o futuro que desejo. Este texto não tem propósito de manchar quem quer que seja, apenas contar episódios por mim presenciados. Se suscitar dúvidas, o mesmo terá contribuído para o seu propósito».
 
Sábado, 1 de Junho de 1985. O sol desponta e o gado bovino e caprino faz barrulho em sinal de protesto pela fome. A mesma que afecta as pessoas. Mas não me posso preocupar tanto porque hoje é dia do mercado. A minha avó a quem, desde há cinco anos que a minha mãe foi raptada a chamo de mamã, ausentou-se. Foi ao mercado vender couves. Talvez de lá volte com um bolinho, uma banana e umas bolachas. Não tenho razão de ter medo. Ninguém vai zangar pelo meu atraso. A aldeia está calma. Aqui e ali só se vêm crianças e algumas mulheres. Os homens, estes, já se foram alistar nos exércitos para defender a pátria ou aos Bandidos Armados. É o que se fala. Outros tantos já fugiram para o país vizinho. Crianças, estas altas, como o meu caso, correm o risco de serem levados a qualquer altura, para irem defender os exércitos, porque como nos sopraram, esta guerra só vai acabar quando as mulheres daqui deixarem de dar à luz varões.
 
Marten e eu estamos duvidosos se devemos ir pastar o gado na mesma planície de ontem. Talvez seja melhor irmos para o outro lado da montanha. Lá onde fomos ontem, há muitas hienas. Na noite passada viemos com algumas infiltradas entre os cabritos. A vida do campo é esta, mas sobretudo a vida do pastor de gado. Tem de saber lidar-se com os diferentes animais porque como disse avó, antes de morrer, um pastor de gado deve aprender a ser gado. E nós interiorizamos este conceito. Marten pergunta se já temos uma decisão acertada. Não, respondo eu. Mas não tenho medo das hienas, até porque elas são giras. Também não tenho medo do leopardo, só aquele da semana passada que eliminou-nos os 15 cabritos. Rimo-nos um do outro. E Damião? Pergunta ele. Ah, aí vem ele, bem apressado. Damião chega e faz-nos uma pergunta se temos conhecimentos do que está a acontecer na aldeia. Nós não sabemos de nada. Ah, vieram os madjubas. É este o nome pelo qual são conhecidos os rebeldes. Renamo? Não sei quando é que ouvi falar desse nome. Neste momento ninguém chama por Renamo, mesmo eles. Renamo é um nome inexistente aqui...
 
Estão a recolher os bois daqui da aldeia e a recrutar pessoas para o transporte dos mantimentos. É a coluna, temos de ficar preparados. Ficamos assustados, e tentamos acertar o que vamos fazer com o nosso gado! Ah, é melhor deixarmos que tomem conta, responde Marten. Samson, que até então não tinha aberto a boca recusa-se e diz que irá defender os seus, até a última consequência. Persuadimo-lo, para não o fazer. Nós somos crianças, nada podemos fazer. Mas ele recusa-se. Ele tem acima de 61 cabeças do pai, eu tenho 48, Damião tem 24 e Marten tem 37. Só de nós vão ter que levar para cima de 150 cabeças. Uff. É maningue. E o que havemos de dizer aos nossos pais? Dois homens armados chegam e ordenam a abertura dos nossos currais. Receosos abrimos e o gado começa a sair. Vocês vão ter que ir pastando esse gado enquanto vamos caminhando. Samson recusa-se a abrir o seu curral, mesmo sob ameaça da espingarda enquanto nós olhamos atentamente a saída de cada um dos nossos gados. Incrédulos no que está a acontecer. Somos levados para junto das demais pessoas, preparadas para iniciar a viagem para Matenge, a grande base da província. Informações que temos é que a viagem leva três meses.

O chefe da coluna explica: viemos aqui tomar o vosso gado porque soubemos que os homens desta terra trabalhavam no governo marxista. Viemos aqui porque soubemos que os homens desta aldeia fugiram todos só deixando as mulheres e crianças. Viemos aqui porque vocês nunca contribuíram para os nossos víveres. Hoje vamos levar todos, todos! A viagem é longa e espinhosa! Aqueles que chegarem ao destino deverão agradecer, mas agradecer mesmo. Depois, dá instruções de como é feita a caminhada. O caminho é o mesmo. Onde pisa a primeira pessoa, toda a gente aí deverá pisar, caso não, corre risco de pisar mina. Inicia com a separação por sexo, idade e robustez. As meninas serão as nossas mulheres e algumas senhoras daqui do grupo. Ouvem-se prantos de todo o tipo, mas aqueles homens estão determinados! E Samson? Ele está preso, por ter recusado abrir o curral. Um dos homens, o que aparenta ser o chefe do grupo avisa a todos: este rapaz vai ser o exemplo do que poderá acontecer com qualquer um que tentar contrariar as ordens. Nós somos Matsangas! Diz em tom vingativo. Perguntem Mandebvu quem somos nós.
 
Primeiro é a contagem e dá a entender que somos mais de 70, excluindo crianças. Caminhamos em direcção a um local. Depois nos dizem que paremos! Todos que fiquem deitados, a viagem prossegue a noite. Os pastores devem conduzir atentamente o gado. Afinal, eles sabem que o gado tem esse instinto de obedecer ao pastor. Pastamos, pastamos! Os cabritos foram mortos no local e a carne levada. Dizem que será a comida ao longo da viagem. E os porcos e as galinhas? Ficam, os primeiros requerem fogo para o seu tratamento e as galinhas, o seu barrulho. Medo do fumo. O fumo denuncia. Melhor os bois! E Samson? Ele está preso, desobedeceu a ordem. Olho atentamente para os lados e procuro saber de Marten o que podemos fazer para ajudar Samson. Nada! Avisa-me ele com um dedo nos lábios. De repente uma criança chora, do meio daquele silêncio sepulcral. Ah, diz o chefe! Tinha me esquecido.
 
Não caminhamos com crianças do colo mas também não podemos libertar as suas mães senão seremos denunciados. Vocês não sabem de onde viemos nem para onde vamos. A caminhada é longa e espinhosa. Chama a mãe da criança e diz-lhe que tem uma opção: matar o bebê. Murmúrios!! Enquanto ela recusa, um tiro sai de um lado desconhecido e atinge o bebê. É o fim da primeira vítima, com aviso: esta noite vamos eliminar todas as crianças.  E será a facada. Não podemos gastar munições! Olho para o Samson, ainda amarrado aí perto. Pergunto-me se ele será o próximo. Reparo para os impiedosos homens e pela cabeça me passam as imagens dos bebés da aldeia, um por um, lindos! Lanço olhos para poder vê-los pela última vez, porque tudo leva a crer que tem horas contadas. As mulheres com crianças são separadas e agrupadas num único local. Estou com medo da noite!
 
Continua!
 
Pedro MAHRIC

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Ajuda externa: o embrulho venenoso mais atraente

No grau de suspeitas em que nos encontramos levando em conta os dados recentes, torna-se claro que os problemas relacionados com ajuda externa são mais complexos do que se pensava e não podem ser reduzidos a um esquema simplista, cheio de contradições. Recentemente, falou-se de desvio de donativos destinados às vítimas das cheias, em esquemas que indiciam corrupção. Pouco depois, falou-se da rejeição de algumas toneladas de medicamentos de proveniência taiwanesa, destinados às mesmas vítimas. Se por um lado vemos vantagens na ajuda externa, por outro não somos capazes de ver com profundidade as suas desvantagens, sobretudo aquelas relacionadas com a promoção da corrupção no país. É fácil menosprezar e exagerar os seus malefícios, uma vez que a sua extensão e a sua incidência não podem medir-se. Factores sociais, económicos ou históricos reforçam ou enfraquecem a sua acção. Embora a experiência noutros quadrantes pareça sugerir que exista uma relação constante entre a abundância de auxílio estrangeiro e o grau de corrupção nos países beneficiários, aqui, felizmente, ainda não é um facto. Muita da propalada corrupção é produto das ideias e não dos factos. Entre as ideias e os factos a verdade aproxima-se à estes.
Os factos mostram que na última década, o governo, diferentemente do que sucede nos países que nos cercam, tem evitado que o aviltamento da moral pública possa ver vantagens na corrupção; ao mesmo tempo impede que a função pública encontre-se grotescamente dilatada. Tal poderia suceder se se erguesse um aparelho diplomático absurdamente numeroso e luxuoso para encaixar os parentes, os amigos e os clientes políticos em potência, ou para proporcionar um exílio agradável aos rivais. Até aqui, o corpo diplomático moçambicano vive uma «pobreza franciscana». De igual modo, tem sabido evitar recompensar opositores políticos com símbolos da deserção social como automóveis, vivendas, viagens ou missões caras cujas despesas estariam em desproporção com as vantagens colectivas que daí podem advir. É um facto que todos os líderes da oposição vivem em Moçambique, a pisar o mesmo chão, uns em Gorongosa, outros em Quelimane e Beira e outros ainda em Maputo e noutros relevos, mantendo-se distantes do centro de gravitação do poder. Basta que nos recordemos quanta suspeita recaiu sobre Raúl Domingos, Sibindy e Dhlakama, na vez que estes tentaram aproximar-se ao centro!
Voltemos ao auxílio e sua relação com a corrupção. A nossa consciência geral comporta a noção de dois reinos: o da natureza e o do espírito. O reino do espírito compreende tudo o que é produzido pelo homem em ideias ou em actos. Nos países onde a corrupção é endémica o nepotismo e a venalidade vão de mãos dadas. A delapidação dos fundos públicos, conseguidos pela boca e não pelo trabalho, torna-se geral e uma parte importante dos lucros da exportação e das receitas de auxílio é desviada antes de poder ser objecto de uma utilização construtiva. Frequentemente, a rapidez no acesso ao poder é proporcional ao abuso deste em proveito pessoal. A posição de poder dos governantes é explorada sem vergonha em verdadeiras pilhagens cujas consequências são degradantes para os interessados e o fosso entre governantes e governados alarga-se fatalmente. Ora, com a política de unidade nacional, e essencialmente virada para áreas sociais, Saúde, Educação, Infraestruturas, etc., a realidade moçambicana encontra-se bem distante de ver essas características na sua governação, o que reforça a constatação segundo a qual, vivemos mais uma corrupção de espírito. Pela própria natureza da corrupção, as suspeitas não têm praticamente nada para oferecer neste domínio.
O tamanho da boia deve ser proporcional ao corpo que pretende manter a flutuar. Isto pode ser calculado. Na verdade, temos de reinventar a utopia, deixar de viver das suspeitas sempre que vemos alguém sobressaindo-nos em frente, pois a política de auxílio mostrou que tende a perpetuar e mesmo recriar a situação de necessidade de que a corrupção é apenas um de seus condimentos. Um povo que se quer desenvolvido não pode flutuar nas necessidades criadas por outros e muitas vezes de natureza aditiva. Precisamos, de forma independente e livre de pressões, redefinir a utopia criando vias de um desenvolvimento autónomo capaz de tornar o auxílio menos importante e talvez mesmo inútil. Mas é necessário coragem para esticar o perímetro de acção visto que haverá quem fique contente em manter o status quo e, sobretudo, nos manter escravos e pedintes crónicos. E quais as vias para a nossa independência económica?
A primeira é a compreensão de que o desenvolvimento depende de três factores principais. O primeiro, de longe o mais importante é a mobilização dos recursos internos, tanto materiais como humanos. E nisto, a oposição deve ser envolvida, ser vista como parte da solução e não simples ameaça. O segundo, menos decisivo, é representado pelas exportações, a fim de fornecer o grosso das divisas estrangeiras necessárias à compra dos instrumentos indispensáveis da modernização que o país não pode produzir. As facilidades na concessão de benefícios às multinacionais deve ser vista como um perigo porque a exportação dos recursos em estado bruto cria mais emprego fora de Moçambique do que internamente. É preciso que as concessões incluam a atracção de indústrias de processamento.
O terceiro utensílio do desenvolvimento, dispensável, é o próprio auxílio. Precisamos de receber dos doadores e parceiros de cooperação a ajuda necessária para diversos projectos. Mas esta ajuda seria mais proveitosa se fosse ministrada por instituições da Sociedade Civil e confissões religiosas comprometidas com os reais problemas das populações. O governo deve ser mero regulador e não executor, podendo criar uma instituição coordenadora de todo o auxílio recebido. Precisamos de auxílio, mas este tem sua limitação pois ao aliviar o esforço e o sacrifício do beneficiário influencia a ordem das prioridades e dos dois factores anteriores conforme o conteúdo do embrulho do doador. O aviltamento da moral pública não pode traduzir-se unicamente em vantagens do auxílio externo. Precisamos questionar e vasculhar constantemente o embrulho da ajuda externa a fim de verificar em que ângulo se esconde o veneno.
 
Pedro MAHRIC

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O MDM, da promoção da ociosidade ao culto da personalidade

O presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), Daviz Simango, mostra ter mais tempo para atender questões partidárias do que questões municipais. Até nos parece ter secundarizado o município da Beira. Trata-se de um ponto em que apenas poderei dizer uma coisa: é que ao nível em que tudo chegou o contrato social em vigor com os munícipes não será escrupulosamente executado e cumprido. Segundo narra o Genesis, Deus disse a Adão, depois do pecado original: tirarás da terra o teu sustento com muitas fadigas todos os dias da tua vida. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que te tornes na terra de que foste tornado, porque tu és pó e em pó hás de tornar. Relevemos esta conhecidíssima citação bíblica que não vem ao acaso porque é desta realidade viva que temos de partir para a construção de uma válida sociedade.

O homem expulso do paraíso, isto é, o homem entregue a si próprio, determinado por seu livre arbítrio, havia de edificar o Mundo em que tinha de viver. Este penoso encargo constitui a história da nossa política e esta, em tempos actuais, a história dos partidos políticos, desculpe-me, a história do papel dos partidos políticos da oposição cuja constituição e fins oferecem, ao longo dos tempos, uma pequeníssima contribuição para o combate à pobreza. Pela mão amável da realidade social, quando Daviz Simango foi expulso do Éden – Renamo – encontrou abrigo e carinho acolhedor na Beira. Interessa, para agora, situarmo-nos em alguns dos seus problemas, de que se ocupa o MDM, entre os quais sobressai o da divulgação da sua imagem, pelo país. E não posso deixar de recordar que nesta maratona, não poucas são as vezes que o movimento tem encarado dificuldades de inserção. Diz-se vítima de vandalizações, suas bandeiras queimadas, seus membros perseguidos.

Não será, porventura, descabido repetir, a este propósito, o que afirmei, há um mês, perante a insistência dos meus amigos de longa data, desejosos de saber a minha apreciação sobre esta aparente realidade de intolerância política. Aí tive ocasião de referir que precisávamos oposição que dirigisse as suas iniciativas e as suas actividades em prol do desenvolvimento e não uma oposição que se converte, a cada dia, em travões de progresso. Aí tive ocasião de referir que algumas das vandalizações são orquestradas pelo próprio MDM para dar a imagem de que está a caminhar numa estrada sinuosa e que a Frelimo era intolerante e a justiça ineficaz. Aí tive a ocasião para dizer que foi esta mesma justiça que declarou a vitória do MDM em Quelimane. Aí tive ocasião para dizer que o desprezo pelas autoridades locais, por mais analfabetas que sejam, constitui a causa da revolta destas que vê nas actividades do movimento uma ameaça, uma vez que declarou guerra, não apenas à polícia e tribunais, como também a Administração Estatal de que aquelas entidades dependem.

Porque será que está sendo rejeitado? É porque a sua progressão é inversamente proporcional ao fim das autoridades tradicionais! Quem poderia colaborar com aquele que, após a vitória, poderá removê-lo? É porque a natureza do trabalho que este movimento tem feito no país, mais do que contribuir para combater a fome, a miséria e a penúria, contribui sobremaneira para a paralisação das actividades de sustento da população. Se por um lado se o MDM condena as reuniões dos membros do partido no poder, por outro mostra-se amante de reuniões. De reunião em reunião o país perde. O moçambicano não precisa que se lhe informe que é pobre; precisa que se lhe informe como deixar de ser pobre, o que até aqui não se fez com honestidade. É útil que o movimento trabalhe para o desenvolvimento do país em vez de ocupar as pessoas dos seus afazeres em nome da organização partidária que, ao fim e ao cabo, apenas contribui só para o culto da personalidade.  

A natureza das suas reuniões tem em vista a autovitimização. Na prática, tudo quanto liberalmente põe à sua disposição carece de sustentação para ser aproveitado para o comum do povo. Até aqui fizeram-se mais reuniões que trabalho e ocuparam-se pessoas, impediram-nas de trabalharem o pó do qual sobreviverão todos os dias da sua vida, porque o trabalho poderá parecer um intruso, por isso colocado no segundo plano como factor de produção e de combate da pobreza. Várias opiniões se têm ocupado desta matéria, mas entre esse labirinto doutrinário o pensamento de perseguição política parece encaminhar-se no sentido de manchar a Frelimo do que trabalhar em prol do desenvolvimento. Já se não nega frontalmente, como diziam alguns, que o poder é o seu objectivo primordial. Poucas questões terão hoje uma tão grande importância como a de definir o valor das reuniões partidárias num contexto em que o presidente do partido é ao mesmo tempo o presidente de um município.

Pensamos nós que o Senhor Daviz Simango tem pouco tempo para atender as questões da Beira, onde foi eleito, depois de amaldiçoado no Éden, e acaba perdendo-se por este vasto Moçambique promovendo reuniões partidárias. Enquanto viaja, os buracos nas ruas da Beira aumentam de tamanho. Enquanto viaja, o lixo toma conta das lixeiras, com os motoristas de camiões a venderem combustível municipal, fruto da ausência de fiscalizador. Enquanto viaja, os charcos transformam-se em pântanos. É urgente que o Engenheiro Daviz Simango tome nota: na primeira ocasião foi eleito não para ser presidente do MDM mas do município da Beira onde deve marcar presença. As suas viagens em missão de serviço partidário naturalmente deixam uma lacuna no município. Quem lhe marca as faltas e a quem ele justifica as suas saídas? Não devia ele trabalhar para o município conforme o contrato social? Estamos perante alguém que, movido pelos interesses pessoais e restritos, consolida aquilo que defende combater.
 
Pedro MAHRIC