sexta-feira, 7 de junho de 2013

O Urso e a panela

Em certas ocasiões é preciso tomar decisões que vão além da nossa visibilidade pública. Lembrei-me duma pequena fábula que ouvia ao lado da fogueira: a do Urso e a panela.
O urso apareceu no acampamento onde os pescadores tinham deixado panela de sopa a ferver. O urso cheirou, gostou e abraçou a panela. Só que a panela abraçada estava quente e o urso sentia dor. Mas na cabeça do urso aquela dor era alguém tentando tirar-lhe a panela. Quanto mais a panela doía, mais o urso a abraçava, enquanto reparava aos lados. Quando os pescadores chegaram, estava o urso morto abraçado com a panela de sopa.
Agora uma pergunta de leve: Qual é a panela de sopa que está-te queimando e que tu já a deverias ter soltado há muito tempo, mas insistes naquilo que te faz sofrer?
Tem gente que só segura panela de sopa quente, o problema não se resolve mas não solta o raio da panela. E a panela de sopa quente é tudo aquilo que nos faz mal em casa, na rua, na faculdade, no partido, no serviço, etc. Toma tua decisão enquanto é tempo, antes que os pescadores te encontrem morto abraçado com a panela.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O Rabo do Diabo e os travões da Solidariedade

Iniciemos com uma pequena história que, na minha terra, se conta aos meninos que tem alguma criatividade em benefício de si e dos seus próximos. Havia um vaga-lume ou pirilampo que gostava de rebolar e todo o mundo admirava a sua pisca-pisca e o seu brilho. Aquilo era muito divertido . Um dia saiu para passear e encontrou-se com uma cobra que começou a persegui-lo. Cansado de ser perseguido parou e disse: antes de me comeres tenho três perguntas, me respondes, depois me comes:

1.       Eu faço parte da tua cadeia alimentar? Não – respondeu a cobra.
2.       Eu te fiz algum mal? Não – disse ela.
3.       Alguém te mandou vir-me fazer mal? Também não, concluiu a cobra.
Admirado o pirilampo retorquiu: e agora porque tu queres acabar comigo? E a serpente respondeu:
_ Porque eu não suporto te ver brilhar.
A moral da história é simples: se você um dia começar a ter um brilho diferente, junto com o brilho vem a serpente, junto com o sucesso vem a inveja, onde Deus coloca as mãos o Diabo coloca o rabo. Quando as coisas estão dando certo sempre há quem torce para darem errado. O importante é sabermos que as pedradas levamos a vida inteira. Como disse o Padre Chrystian Shankar, «o problema não é levar ou não levar pedradas mas o que fazer com as pedradas que recebemos».
________________________________________________________________________________________________________________________

Entremos no cerne do tema. Nas últimas horas temos assistido uma autêntica inundação de esforços tendentes a desqualificar o esforço feito por um grupo de jovens em solidariedade para com os doentes, jovens estes que deixaram os seus afazeres habituais para irem trabalhar no Hospital Central de Maputo. Esta inundação de esforços retrógrados tem sido espalhada por alguma franja de freelancer facebookianos desprovidos de bases práticas sobre o sentido da solidariedade. São pessoas mais dispostas a pertencer ao grupo daqueles que tendo olhos não vêem e tendo ouvidos não ouvem as coisas que estão intimamente ligadas à sua vida e a dos seus amigos. Foi uma combinação de ódio e deplorável ignorância do que realmente acontece dentro de hospitais que os levou a julgar um grupo de homens e de mulheres que deveria ser apresentado como um modelo a esses apóstolos da democracia. A sua indiferença para com os doentes e a sua colagem ao escalar da greve não podiam ser o pior exemplo com que nos têm pontapeado. Vimo-los profetizando a catástrofe na Saúde, num tom alegre porque para eles esta greve deve causar mais danos em troca das exigências. Têm na catástrofe uma moeda de troca e quanto mais doentes sofrerem e morrerem mais felizes ficam, quando na verdade, a greve pune os irmãos, vizinhos e aconchegados do seu melhor amigo da sua longa lista de amizades  do facebook.

Estes nossos irmãos insensíveis, nome com que se pode chamar os que perderam valores nobres ou estão em via de os perder, a quem as circunstâncias largaram a sorte para não ficarem doentes, necessitam de um antídoto contra a sua mentira. Pretendem politizar a acção quando o momento clama a unidade. Pretendem pôr em causa as pessoas de boa vontade, quando o momento requer o envolvimento de todos os estractos sociais. Pretendem destruir a cidadania quando o tempo é  de construção. A melhor maneira de expor estas mentiras é o sucesso. Não é necessário entrarmos num círculo vicioso em relação aos direitos dos doentes. É inútil criar obstáculos falaciosos; de contrário, impedir-se-á o caminho para a vida ou a vida será destruída. Não se pode basear a felicidade na desgraça dos outros. Rectidão e franqueza são os atalhos e o melhor caminho pra se seguir o objectivo claro: ajudar a quem necessita no que podemos ser úteis. Confrontar directamente o problema dos doentes e atacá-lo numa linguagem única: solidariedade, com objectivo de conseguir um adiamento do sofrimento enquanto os envolvidos nas negociações buscam plataformas de entendimento. Ninguém foi substituir a ninguém, ninguém foi ao hospital como forma de negar aos médicos o seu direito à greve. Ninguém nega as deploráveis condições laborais que caracterizam os nossos hospitais.
 
Não se deve recear uma ajuda aos doentes que necessitam do auxílio de todos nós. Não se pode ridicularizar o apoio voluntário dos outros. Senhores, salvar vidas não e apenas uma mera confirmação de algumas linhas escritas em linguagem fantasiosa para merecer os LIKES ou SHARE. Não é apenas a prescrição dos remédios. Muito pelo contrário, é um reeditar do trabalho, da vontade e determinação. É a limpeza do recinto e do quarto hospitalar; é o consolo ao doente em estado terminal, é o controlo do cumprimento da medicação, é a esterilização do material cirúrgico, é o transporte dos doentes de e para a sala da operação, para os raios solares, e mesmo o transporte de algum corpo para a morgue, também faz parte de salvar vidas. É o conversar com os doentes, escutando-lhes as suas proezas enquanto eram saudáveis. É o escutar daqueles últimos segredos da vida quando a morte se torna inevitável. É o desfazer e o fazer a cama, é o lavar os doentes, é o levar comida à boca daqueles doentes renegados ou cujos familiares se encontrem ausentes. Todos estes trabalhos concorrem para o mesmo fim supremo da existência de hospitais e dependendo da vontade, homens sensatos e disponíveis podem fazer.

A solidariedade não é um jogo no qual se apela a solidariedade para defender certos caprichos ou esconder certas verdades. Na sua essência, a solidariedade é um combate terrível contra todos os caprichos e ambições destes enigmáticos defensores de causas perdidas, sempre com pedras nos bolsos e nas mãos prontas para serem lançadas. Talvez os exemplos do que já experimentamos ou retiramos da história recente nos ensinem que a ajuda não pode garantir a segurança permanente daquele que a recebe. Mas nem com isso ela deixa de ser necessária e nenhuma calúnia destrói o que a intenção construiu. Aquando das cheias, vimos nossos irmãos postarem sacos de arroz, garrafas de óleo, calcinhas e outras coisas e em uníssono canalizamos todos os nossos esforços para a construção de uma grande fortaleza da solidariedade, em vez de fabricarmos suposições destrutivas. E naquele tempo, ninguém dos indignados de hoje ousou a criticar senão elogiar o gesto. Admiramos pasmados que hoje, quando a crise é também aguda, o peso e a medida sejam outros! Aos que estão em apuros e no desespero por terem sido apanhados de surpresa pela iniciativa cidadã dos outros fazemos um apelo sincero:
 
Tocai os sinos a chamar os vossos seguidores. Dizei-lhes que estas acusações ridículas, este sacrilégio, estas falácias e este ódio, foram as últimas atitudes negativas da vossa vida e que a ridicularização de boas acções acabou. Dizei-lhes que estamos a encetar um novo começo, uma nova vida, uma nova forma de ver Moçambique não em função das cores políticas. Dizei-lhes que nas próximas ocasiões preferireis manter a boca fechada a expor a perda gradual do humanismo que até antes desta última infâmia vos caracterizara. Quando não estiverdes dispostos a ajudar deixai os que tem vontade a fazê-lo  porque a vontade dos povos é uma parte da vontade de Deus. Tu, mãe sofredora, tu, mulher enviuvada, tu, filho que perdeste um irmão ou um pai, todas as vítimas desta greve, enchei os ares e o espaço de cânticos de esperança no fim breve desta greve, enchei regaços e corações com as aspirações da solidariedade como forma de pressionar os envolvidos nas negociações a devolver a paz às famílias que dependem unicamente do serviço sanitário público. Aos mortos em resultado da mesma greve, paz às suas almas. Construi uma realidade que floresça e viva. Fazei da solidariedade, humanismo e honestidade um código de conduta e progresso. Não deixemos os invejosos de lado pois eles também precisam de uma salvação espiritual de modo a que em cada batida do seu coração e com todo o sentimento sintam-se arrependidos pela infâmia do século. Num futuro breve, quando os sinos da paz repicarem, não haverá mãos livres para tocar os tambores da ociosidade. Mesmo que existissem, seriam travadas.
 
 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A Frelimofobia

O ataque cego e raivoso à Frelimo tem sido, durante anos, o tema preferido de toda a propaganda dissolvente e oposicionista. Pode ousadamente afirmar-se que talvez nenhum partido libertário tenha sofrido as arremetidas, os vexames, o ódio, da parte do que de mais inferior existe nas sociedades: os vingadores políticos que condecoram e honram para todo o sempre o procedimento inalterável da Frelimo. Contra ela se estabeleceu uma frente-única dos despeitos, da ignorância, da má-fé, dos interesses feridos, da baixeza de carácter e de inteligência, desde os oposicionistas saídos da revolução e considerados bem-pensantes aos livres-pensadores, que na frase de Adolfo Coelho, estão livres de pensar. Políticos e intelectuais mansos ou bravos, tudo o que há de corrosivo na nossa sociedade se juntou para proclamar a Frelimo inimiga da Liberdade e do Progresso de Moçambique e com ela, seus membros são odiosamente chamados de lambe-botas, graxistas, yesman, com pomposas e arrogantes maiúsculas.
Assim se estabeleceu a Lenda negra, hoje em pleno crepúsculo. Reeditar contra a Frelimo os ataques que contra ela se lançaram no século passado e nos começos do actual – os tempos da propaganda! – é, na época que decorre, mostrar supina ignorância e desprezo completo do ridículo. O inventario de tudo quanto temos à Frelimo está praticamente feito, e os benefícios que o país lhe deve são de tal ordem que relegam para plano secundaríssimo alguns erros que, porventura, haja cometido nestes 50 anos de admirável existência. Por ter introduzido a independência em Moçambique a Frelimo carregou com as diatribes mais apaixonadas e as injúrias mais contundentes que a uma organização política histórica têm sido dirigidas. Mas a investigação imparcial presta homenagem aos seus feitos e não se pode dizer que não seja obra grande…Por isso se torna incompreensível que moçambicanos conscientes do passado glorioso da Pátria ousem atacar uma instituição que tanto contribuiu para a grandeza do país. A Frelimo, que no fundo são todos os seus membros e simpatizantes, não pode ficar ameaçada com quem fica saltando de arbusto em arbusto.
Estamos a chegar ao fim de uma semana triste, assolada por uma terrível invenção humana sobre o desentendimento entre patrões e funcionários, a greve. Hoje em dia, é difícil ser-se optimista, não só porque o governo está no limite das suas capacidades mas também porque os grevistas refinaram os seus instrumentos de progressão. Mas deve-se ser optimista porque o país revela, dia após dia, não ser, de modo nenhum, uma frágil flor. A diversidade de opiniões em torno do mesmo tema é sinal claro de uma maturidade inquestionável.
Se a História ensina alguma coisa, ensina que a ilusão face aos factos adversos é uma loucura. Hoje em dia, vemos à nossa volta marcas do nosso terrível dilema – previsões do juízo final, manifestações anti-éticas e incerteza de como isto irá acabar. Qual é, então, o nosso caminho? Terá Moçambique que perecer sob a selvática tempestade grevista? Terá a liberdade dos doentes de definhar, numa acomodação passiva e muda ao mal totalitário?
A força do movimento grevista demonstra a verdade contida numa anedota que se conta em segredo na minha terra. Diz-se que quando um cego diz «vou-te bater» é porque pisou uma pedra. Os historiadores que no futuro analisarem esta semana observarão a constante moderação e intenções pacíficas por parte do Governo e a violência inicialmente tomada por alguns dos grevistas. Observarão que foram os grevistas que não quiseram seguir o caminho de diálogo. Observarão certamente que não foi o governo que fechou as morgues e os armazéns de mantimentos.

Como sair dessa?

Estamos a chegar ao fim de uma semana triste, assolada por uma terrível invenção humana sobre o desentendimento entre patrões e funcionários, a greve. Hoje em dia, é difícil ser-se optimista, não só porque o governo está no limite das suas capacidades mas também porque os grevistas refinaram os seus instrumentos de progressão. Mas deve-se ser optimista porque o país revela, dia após dia, não ser, de modo nenhum, uma frágil flor. A diversidade de opiniões em torno do mesmo tema é sinal claro de uma maturidade inquestionável.
A força do movimento grevista demonstra a verdade contida numa anedota que se conta em segredo na minha terra. Diz-se que quando um cego diz «vou-te bater» é porque pisou uma pedra. Os historiadores que no futuro analisarem esta semana observarão a constante moderação e intenções pacíficas por parte do Governo e a violência inicialmente tomada por alguns dos grevistas. Observarão que foram os grevistas que não quiseram seguir o caminho de diálogo. Observarão certamente que não foi o governo que fechou as morgues e os armazéns de mantimentos.
Se a História ensina alguma coisa, ensina que a ilusão face aos factos adversos é uma loucura. Hoje em dia, vemos à nossa volta marcas do nosso terrível dilema – previsões do juízo final, manifestações anti-éticas e incerteza de como isto irá acabar. Ao mesmo tempo vemos forças totalitárias que compram Jornalistas que fomentam a sublevacao  e o conflito em todo o país para promoverem o seu bárbaro assalto ao espírito humano. Qual é, então, o nosso caminho? Terá Moçambique que perecer sob a selvática tempestade grevista? Terá a liberdade dos doentes de definhar, numa acomodação passiva e muda ao mal totalitário?
O governo recusou-se a aceitar a inevitabilidade da greve sob uma chantagem. Pois é exactamente esta a nossa missão hoje: promover a harmonização dos benefícios sociais. Ironicamente, os grevistas não tem razão. Estamos a assistir actualmente a uma grande crise, uma crise em que as exigências de ordem económica chocam directamente com as de ordem ética. Mas a crise não está a acontecer no Governo livre, e sim na pátria da revolta: na AMM. É a AMM que rema contra a maré da história ao negar a liberdade de irem trabalhar aos seus associados. É a AMM que tem vergonha de como sair dessa sem um compromisso.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Serão as armas e convulsões sociais uma via viável para resolução de problemas?

É comum ouvir-se que a Frelimo está no poder há muito tempo sem nenhuma mudança. É comum ouvir-se que o povo moçambicano tem medo de alternância do poder. É comum ouvir-se que a Frelimo é a causa da pobreza em Moçambique. Se você ama Moçambique, se você deseja um Moçambique desenvolvido, se voçê deseja que a corrupção acabe, fique de prontidão – na sombra da escuridão, lá bem ao fundo da caverna, está em forja um golpe institucional contra a soberania dos moçambicanos decidirem o seu rumo. Não se trata de um golpe militar, mas sim, económico, com apoio declarado de algumas bocas nacionais. Com base em pretensos anúncios da corrupção se quer desmoralizar o Governo na sua luta contra ela.
 
Eu não concordo que somos pobres porque temos medo ou que sejamos medrosos. A pobreza não tem relação com o medo. Lembrem-se que um país civilizado (Japão) ficou sob o tecto do mesmo partido (salvo poucos meses) por 54 anos mas ninguém reclamou que a idade em que um partido está no poder é proporcional a inércia do desenvolvimento do país em causa. Que se lembrem os que querem atiçar a desordem que a Frelimo se debate não apenas com o combate ao subdesenvolvimento, como também ao processo de construção da nação, defendendo a soberania. As visões da teoria de desorganização social ganham cada vez mais terreno com facilidade, mas não levem a Frelimo a mal, porque não é culpada de ser escolhida pelo voto popular. Ela não escava abrigos para abrandar a guerra; o seu objectivo é avançar sempre sem dar tempo ao adversário para escavar o abrigo dele. A Frelimo vai ganhar esta guerra a combater e mostrar a todos que é mais corajosa do que os seus adversários são ou virão alguma vez a ser. Pode rir, pode ouvir mas ceder ao adversário político derrotado, NÃO, NUNCA.

Alguns clamam o derrube do governo por vias desonestas, através de golpe militar, sublevação popular ou coisa parecida, como se não tivessem familiares nesta terra. Quando os projécteis choverem à volta deles e eles, ao limparem o rosto da sujidade, descobrirem que em vez da sujidade é o sangue e as tripas do seu melhor amigo ou parente, nesse momento, saberão o que fazer e o que dizer! O povo moçambicano não quer voltar a guerra. Não estou a revelar um segredo quando digo que o povo moçambicano não quer voltar a guerra. É difícil aos que não concordam com o rumo do país renunciarem às suas perigosas e infrutíferas tentativas para ditar as suas vantagens. A Frelimo vai avançar constantemente porque o seu plano operacional básico é avançar e continuar a avançar, não importa se por cima, por baixo ou através das linhas do adversário.

De vez em quando vão haver algumas queixas de que estará a exigir demasiados esforços aos seus membros e simpatizantes e ao povo em geral. Mas estaremos nas tintas para estas queixas, na velha e sábia regra que diz que «uma onça de suor poupa um galão de sangue». Quanto maior for o nosso esforço, mais unidade garantiremos e menor será o risco da oposição vender a pátria. É chegado o momento de reconhecer que a escolha de uma forma particular de vida é uma questão que diz respeito a cada povo. Só os homens que agem de má-fé podem pensar em resolver a questão da pobreza pela força das armas. A Frelimo considera razoável e justo criar condições necessárias à reforma do funcionamento da economia de modo a abranger a todo o país para mudanças e melhorias num futuro imediato; e isto é visível a todos, excepto aos que propositadamente se vestiram de óculos de madeira para não serem testemunhas oculares do progresso em marcha.
 
Pedro MAHRIC

terça-feira, 21 de maio de 2013

Aos destinatários não revelados

i) Será verdade que não há diálogo político genuíno no nosso caso? É verdade. Há razões históricas para tal. Duas forças que se conhecem as animosidades íntimas dificilmente estabelecem a confiança genuína. Nós sabemos que manter o diálogo representa para as duas forças tão grande sacrifício que por favor ou amabilidade o não fariam a ninguém. Fazem-no ao bem do país como dever de consciência serenamente cumprido. A Frelimo e a oposição não tomariam, apesar de tudo, sobre elas esta pesada farda de diálogo armado, se não tivesse a certeza de que ao menos poderia ser útil a sua acção política. Querem que a Frelimo vos confie quando não o fazem vós mesmos. O ser genuíno depende da confiança e esta da reciprocidades.
ii) Não é verdade que as instituições estão partidarizadas e precisamos de nos livrar dessa situação? É uma miragem, uma questão a equacionar no futuro, quando estiverem asseguradas as condições dum trabalho eficiente. Há, na partidarização das instituições públicas, uma vontade decidida de regularizar por uma vez a nossa vida política e com ela a vida económica nacional. Nas actuais circunstâncias é prematuro falar-se em outra coisa senão confiança política, garantindo, em simultâneo, as execuções das tarefas e o sossego geral povo. Se o povo não possui vida condigna não é porque é governado por um partido incapaz, mas porque um Estado Soberano foi explorado durante 16 anos por um mundo ávido de despojos.
iii) Não é verdade que os processos eleitorais não são transparentes? É verdade e juntos podemos encontrar saída que não a proposta pela Renamo em retirar a SC. Podemos avançar para uma Comissão Independente, por exemplo. Porém, isso só é possível por efeito de uma varinha mágica porque o nosso interlocutor não está interessado em ver os independentes na conjuntura actual. Claro que nós também temos culpa no cartório sobretudo quando retiramos toda a razão em tudo o que sai do lado oposto, quando pensamos que o outro deve ser abatido, por ser outro e quando pensamos que o voto da minoria deve abafar-se no da maioria.
- Não é verdade que a exploração dos recursos naturais não é transparente? É verdade e constitui a causa de todo o descontentamento e ódio que tende a propagar-se. Pouco mesmo se conseguirá se o país não estiver disposto a acompanhar a forma como muitos contratos são feitos e como, aos poucos, o país vai sendo vendido. Faz pouco sentido que quem não estará nesta terra nos próximos 20 anos, pela lei da natureza, esteja a hipotecar o país aos chineses por meio século, criando problemas para os nossos filhos e netos. O pior é quando tal não é transparente. Devemos confiar na nossa inteligência de cidadãos e denunciar as covas abertas.
Debalde porém se esperaria que milagrosamente, por efeito de ameaças, a Frelimo mudasse as circunstâncias da vida nacional. É preciso contar com a Frelimo e acompanha-la com confiança na sua honestidade de querer desenvolver o país – confiança absoluta mas serena, calma, sem entusiasmos exagerados nem desânimos depressivos. O povo confia na Frelimo para ser o juízo da situação e quem odeia a Frelimo também, por efeito dominó, odeia o povo. A Frelimo sabe muito bem o que quer e para onde deve ir o país, mas não se lhe exijam que chegue ao fim quando os recursos ainda estão no subsolo, no tempo de investimentos e não de exploração. Finalmente, o ódio para com o Sul não é bem-vindo para a Unidade Nacional.