sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A dupla GP e a sua Obra


Há uma tentativa de denegrir as imagens de Armando Guebuza, Presidente da Frelimo e de Filipe Paunde, seu Secretário Geral. Nesta onda saudosista, os críticos em conluio com alguns frelimistas fazem-se de esquecidos ou ignoram os factos. Quando a dupla GP assumiu a liderança da Frelimo, esta formação política saía do pântano político para onde a Renamo-UE a havia lançado. Com Guebuza e Paunde a robustez partidária voltou; não só reorganizaram o que estava errado, como também deram um novo impulso ao funcionamento do partido dos camaradas numa cruzada que envolveu o teste de vontades e ideias; teste de firmeza espiritual aos valores defendidos pela Frelimo, às convicções dos seus membros e aos ideais que perseguem. Foi um tempo incerto em que o partido estava cheio de pessoas ambiciosas a estragá-lo, nem que para isso fosse necessário colaborar com o adversário. Já muitas vezes me questionei sobre a timidez de alguns de nós em defender a honra de quem a tem por mérito próprio. Foi graças a uma liderança forte, tempo e um bocado de esperança, que as forças do bem acabaram por recuperar e triunfar sobre o mal. Vou usar a expressão de um amigo de infância, Damião Paulo, exprimida aquando da divulgação dos resultados eleitorais de 2004: «com Guebuza a Frelimo recuperou os sentidos». Pois bem. Deixemo-nos de tibiezas e assumamos a verdade como ela é. Digamos ao país que a dupla GP mostrou a todos que na Frelimo uma nova era é não só possível, como também provável.

Durante os dias negros da cruzada do Apartheid na Matola, e quando este país estava ao rubro de coragem, Samora Machel exclamou, referindo-se aos inimigos de Moçambique: «que venham; que espécie de pessoas pensam eles que somos?». Os defensores do Apartheid, hoje camuflados de democratas e que tudo fazem para aldrabar o povo, acabaram por descobrir que homens extraordinários estavam na Frelimo. Mas o nosso exército pagou o preço terrível por esses democratas de hoje terem permitido aos ditadores do Apartheid que subestimassem os nossos líderes. Não nos atrevemos a cometer o mesmo erro outra vez. O erro de desvalorizar as lideranças. Por isso, que o frelimistas se perguntem a eles próprios: «que espécie de pessoas pensamos que somos?» E respondam, sem receio: «Pessoas dignas de respeito, determinadas não só a permanecer respeitadas, mas também a ajudar outros a conquistar o seu respeito, a sua honra e a sua dignidade». Samora conduziu o seu povo a uma grande vitória contra o Apartheid, mas perdeu a vida quando os frutos da sua luta iam começar a ser saboreados. No entanto, morreu com dignidade e, como se viria a verificar, deixou um legado, sabendo que a liberdade do seu povo era mais importante do que o destino de um líder. A história recorda a sua grandeza em termos aos quais nunca nenhum dos democratas camuflados de hoje terá direito. E ele deixou uma mensagem de esperança no futuro, tão oportuna agora como na altura em que ele a formulou, há quase trinta anos, ao dizer: «quando olhamos para o passado e vemos todos os perigos por que passamos, os poderosos adversários internos que derrubamos e os negros e mortíferos desígnios que frustrámos, por que razão haveríamos de ter medo do futuro? Sobrevivemos ao pior?
Assim será com esta dupla GP. A Frelimo deve-lhe uma dívida que não será saldada, porque a tarefa que propuseram perdurará muito depois da nossa geração. Fizeram juntos um grande esforço para proteger o melhor – uma cruzada pela liberdade que necessitará da fé e da força moral da próxima geração. Eles, como pessoas, cometeram os seus erros, mas moldaram a história que pertence à Frelimo, mas os princípios que incarnam pertencem a todos os moçambicanos. As grandes recordações do povo permite-lhe grandes esperanças no futuro. Pela primeira vez, dizia há pouco tempo um amigo, Guebuza e Paunde sentem que podem legar qualquer coisa ao país. Creio que o país sente que pode receber alguma coisa de Guebuza e Paunde».

PS. Passei grande parte do dia de ontem com Lazaro, e juntos fomos visitar a família cujo drama reportei. Ele e amigo ajudaram aquela família a sorrir. Grato Amigo!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Na véspera de uma oportunidade

Ultimamente, no Centro de Conferências «Joaquim Chissano», as rondas de diálogo têm tido resultados satisfatórios entre o Governo e a Renamo. No começo da semana, enquanto se negociava a paz, Muchanga, em nome da Renamo, proferia ameaças contra o Estado, prometendo uma insurreição generalizada. Quando a Renamo assim fala é porque está apertada e o faz como grito de socorro. As declarações feitas falam por si. Negociar a paz não é fácil, nem para o Governo, nem para a Renamo, nem para as vítimas directas da guerra que observam este momento com uma grande esperança mesclada de apreensão. Não é certamente fácil para as famílias das vítimas da violência e do terror da guerra, cuja dor nunca será mitigada, nem para os muitos militares que defenderam o povo sozinhos e até sacrificaram as suas vidas pelas do povo. A experiência de um mês nas zona de conflito provou-me ser a Renamo, e sempre ela, quem inicia com as hostilidades. Um militar, lá nas montanhas, disse-me a mim e ao meu companheiro de viagem, que é normal para a Renamo atacar as forças armadas com único objectivo de conseguir munições para a caça o que implica haver baixas do lado do exército. E as forças convencionais nada fazem senão reagir contra o agressor pois, como disse Américo Matavele, nenhuma arma cuspe rebuçados. Nalgumas regiões por onde andei foi a Renamo quem demarcou limites como se de uma autoridade suprema se tratasse. Na Casa Banana as forças armadas não podem aproximar-se do limite mas, sempre que a Renamo o deseje, ultrapassa o marco que ela própria colocou atacando as forças alí estacionadas. Lembrei-me de um soldado que conversou comigo nas cercanias da Casa Banana, dizendo-me que o único desejo que tinha era que a guerra acabasse antes que eles – os soldados – acabassem. Quando passei pela segunda vez no mesmo local, para saudá-lo e dizê-lo que já havia sinais de paz, os amigos de armas disseram-me que tinha sido morto no último ataque da Renamo. Para ele, estes dias e estes sinais chegaram demasiado tarde! Hoje, na véspera de uma oportunidade recordo-me dele com um amor eterno.


Aqui vos digo, senhoras e senhores, que não serve de nada recusar reconhecer ao exército o seu direito à auto-defesa, tal como o seu direito a defender a soberania. Admiro, como pessoas vivendo em países civilizados acham normal que tenhamos um partido armado; um partido que chantagea o próprio Governo para forçá-lo a comprar a estabilidade. Vou cometer a indiscrição de vos contar que um dos meus ajudantes de campo me contactou a altas horas da noite, depois de eu ter regressado de Maringue, e me perguntou , num tom algo preocupado: «senhor historiador, qual seria a sua atitude se os guerrilheiros da Renamo lhe endereçassem um convite?». Respondi-lhe calmamente: «aceitá-lo-ia imediatamente. Fiz um compromisso pessoal de que irei até ao fim de Gorongosa. Irei a Satungira, porque quero apresentar todos os factos com conhecimento de causa». E aí, o meu ajudante disse-me: «aí fora estão eles». Naquele momento, todos baixaram os rostos, menos eu. Ninguém conceberia nunca que um simples Historiador e não Jornalista, que carrega o fardo menos pesado e menos responsabilidade no que diz respeito à questão da guerra e da paz e até das notícias, fosse declarar estar pronto a encontrar-se com aqueles homens enquanto ainda nos encontrávamos em guerra. Sai e saudei-os despreocupadamente: «Sou Historiador, trabalho para a Universidade Pedagógica de Moçambique. Vim a Gorongosa, a antiga capital da guerrilha. Sei que vocês não desejam a guerra, mas os frutos da paz. Vim de Macodza, uma terra angustiada e sofredora cujo povo, desde há mais de 9 meses, não conheceu um único mês, uma única semana, um único dia, uma única hora, em que mães não tenham chorado pelos seus filhos e pelos filhos de seus vizinhos. Neste ponto, gostaria de ir à questão principal que me levou a vir a esta terra rica em tudo: como poderemos conseguir uma paz duradoura baseada na honestidades das intenções? E fiz outras perguntas interessantes! E tenho muito orgulho em visitar as zonas afectadas e conversar com todos, sem receio. Há 22 anos, dizia-se com orgulho: a guerra acabou. Hoje, no mundo da liberdade, diz-se com apreensão: queremos a paz.


Aqueles homens mostram-se agastados com a sua condição de vida e esperam, tal como o meu amigo morto, que a guerra termine: «nós também morremos» disse-me um deles para o outro concluir que «os números das nossas baixas não são revelados a mando dos nossos comandantes». Aqueles homens confiam no Governo que reconhecem e esperam dele uma resposta capaz de devolver-lhes a dignidade. Enquanto conversavamos, apareceu-me uma miúda que disse ter sido violada por um homem de armas e viu o seu noivado terminado, porque o outro não quis compreender a violência a que a companheira fora vítima. No meio deles perdi lágrimas, não de tristeza pelas histórias contadas mas, por ver-me incapaz de pôr fim às hostilidades para que os filhos deles e os filhos dos seus filhos não voltem a sentir o doloroso custo da guerra: a violência e o terror. Chorei por ver-me incapaz de proteger quem quer que fosse e aliviar a alma e as dolorosas memórias que os atormentam. Apenas rezei na esperança de uma paz futura próxima, convicto de que nós, moçambicanos de todas as cores políticas, estamos destinados a viver juntos no mesmo solo, na mesma terra. Em Canda, vi soldados que regressaram das batalhas, manchados de sangue. E conversei com alguns deles, com aqueles que viram os seus melhores amigos serem mortos à sua frente, pelas mãos da Renamo. Até trocamos contactos. Também vi os guerrilheiros da Renamo que assistiram aos funerais de seus familiares e não conseguiam olhar os presentes nos seus olhos. Fui de Maringue, uma terra onde os pais enterram os filhos, onde a comida apodrece no celeiro enquanto o dono passa fome no mato. E de lá tive que carregar na memória um aviso feito por um guerrilheiro: «não queremos cercar a Frelimo nem queremos ser cercados por mísseis destrutivos prontos a serem lançados, nem pelos projécteis do rancor e do ódio quando a guerra acabar».


O que me impressionou em ambos os beligerantes e sobreviventes da catastrofe é que não possuem desejo de vingança. Apenas obedecem ordens. Não guardam ódio uns contra outros porque acreditam que todos são pessoas – pessoas que querem construir um lar, plantar uma árvore, amar e viver ao lado daqueles que lhes tiraram a vida de amigos, como seres humanos. Os soldados dão uma oportunidade à paz e dizem repetidamente: esperamos para que chegue o dia em que todos nós digamos adeus às armas. É verdade! Eles desejam abrir um novo capítulo no triste livro de suas vidas em comum com aqueles que retiraram a vida de seus melhores amigos. Os guerrilheiros da Renamo desejam um capítulo de reconhecimento mútuo, de boa vizinhança, de respeito mútuo, de compreensão. Por aquilo que vi nos integrantes do exército, a sua força interior e os seus elevados valores morais têm sido os correctos durante todo o tempo em que ficam ali. Não é por acaso que as pessoas, sempre que têm oportunidade, fogem da Renamo ao encontro deles. São valores retirados do livro dos livros. Num deles, lê-se: «há um tempo para tudo o que acontece sob o firmamento: uma hora para nascer e uma hora para morrer... uma hora para matar e uma hora para sarar as feridas, uma hora para odiar e uma hora para amar, uma hora para a guerra e uma hora para a paz. Com os estrondos das armas na minha memória, penso que chegou a hora da paz. Para aqueles lares já destruídos, acredito, espero e rezo para que os desenvolvimentos do que acontece na Joaquim Chissano tragam uma mensagem de redenção para todos nós e que a paz chegue aos seus lares. Temos que enfrentar a realidade com coragem porque a questão que nos arrastou de escaramuças em escaramuças, de vítimas para mais vítimas, até ambos chegarmos hoje à beira de um horrível precipício e um desastre aterrador é esta Renamo Armada. E, se o Estado Moçambicano quiser que esta situação continue por mais tempo assim será, a menos que, juntos, agarremos esta oportunidade e desarmar a Renamo já, para uma paz duradoura baseada na honestidade das intenções. Na tradição chewa, é costume pedir licença com a palavra Zikomo. Com a vossa permissão, homens de paz, concluirei com as palavras retiradas da tradição dos meus antepassados e recitada diariamente quando se está prestes a fazer um pedido e o meu pedido é a paz: Zikomo.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A Paz Futura

Escrevo a partir de Maringue. Vim, unicamente, testemunhar os horrores da guerra: casas abandonadas, lares destruídos, mulheres enviuvadas, filhos órfãos, rostos desesperados e sem perspectivas quanto ao futuro. Toda uma vida edificada em 21 anos foi destruída em menos de uma semana e, por aquilo que vejo, os próximos meses, vão continuar a ver o desenrolar do drama que, desde Abril de 2013, é seguimento da guerra a que se cuidou que a Paz firmada em Roma tinha posto termo. A persuasão falaz de que não mais se travaria conflito de magnitude comparável à que havia tido o de 1976/92, fez que se chamasse a este conflito «guerra pela democracia», e ainda hoje é corrente vê-lo designar assim. Contudo, pode já verificar-se, à luz das realidades, que a guerra que pareceu, em 1992, findado, não era a maior de que o país podia ser teatro, e é possível verificar-se também que, em 1976, o que principiou e não teve ainda interregno, foi antes a transformação rápida com que se pretendia sair do colonialismo ao país independente. A convulsão que tem sorvido dezenas de vidas e devorado já a riqueza como jamais o país vira acumuladas, dura há nove meses.
Se não houver travões contra a animosidade que move os falcões de guerra, muito mais vasta e profunda terá, sem dúvida, de ser aquela a que assistimos, e os nove meses já volvidos após ela haver encetado a sua marcha arrasadora de princípios, normas e instituições consideradas antes como assentes para todo o sempre, porventura marcam somente os primeiros passos da mudança para que o país caminha, através de acontecimentos cuja natureza e alcance hão de ser de cada vez mais extraordinários e subversivos. A nova guerra deflagrada em 2013, e cuja razão aparente foi a invasão da sede da Renamo em Moxungue, é já, nesta hora, a luta de duas forças pela sua hegemonia no país. As FADM e FIR de um lado e os guerrilheiros da Renamo, por outro, disputam, com efeito, a missão de a comandar. Mas para lá dos horizontes que limitam os campos de batalha e dos objectivos das forças que dirigem a guerra, já despontam, claramente, outros objectivos, sustentados por circunstâncias porventura mais fortes ainda, porque, sobrepondo-se aos interesses das forças em luta, representam aspirações espirituais e económicas, irreprimíveis e indomináveis, dos homens que essas forças aglomeram e aglutinam. Até aqui é cedo para dar razão a uma das partes, encontrando-se todas elas na fase da mobilização da opinião pública para que ela esteja do seu lado. E também é cedo para prever se o desfecho da guerra será pela derrota de uma das partes. Às aspirações que adquirem consistência crescente na consciência colectiva, e cuja justiça é inegável, é que pertencerá a última palavra, se não na guerra, com certeza na Paz, para ela poder ser verdadeira e profícua.
Se a inteligência e a previsão esclarecida dos homens que não souberam evitar a guerra e a dirigem agora, e, sobretudo, a inteligência e previsão daqueles que um dia hão de construir os alicerces da Paz não tiverem em suprema conta que, para além das forças que lutam, existem milhões de moçambicanos que iniquidades e desequilíbrios económicos e sociais afligem progressivamente, à guerra de sobrevivência que ora devasta Gorongosa, Maringue, Moxungue e ameaça Inhambane, sucederá, como flagelo maior ainda a escala nacional. Quando voltarão os homens capazes de firmar a paz nos tratados e nos espíritos e não somente a paz para a preparação de novas guerras, paz que dure, ao menos, também 21 anos? É o que a ninguém, por enquanto, é dado prever ao certo.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Despartidarização e Inclusão na Unidade Nacional

 
A agitação que se verifica actualmente nalgumas mentes dá razão à Kennedy, o presidente americano dos anos 60, quando disse que «quando uma sociedade livre não é capaz de ajudar os muitos que são pobres, não pode salvar os poucos que são ricos». Existe uma ideia generalizada mas compreensível de que a Frelimo, partido no poder desde 1975 e que representa apenas uma parte de forças políticas nacionais com apenas meia ideia sobre cada assunto, assumiu o controlo absoluto de tudo o que se passa sobre o país. Nas negociações levadas pela Renamo para junto do Governo, consta a despartidarização como um dos quatro pontos de maior relevo, ao lado da Paridade, da Economia e da Segurança. Fala-se de um Estado Partidarizado e da urgência da sua despartidarização. Tenho defendido a inclusão como meio-termo para reduzir as animosidades nesta questão. De facto, o Presidente Guebuza, na maioria dos comícios populares que orientou, enfatizou a inclusão e até chamou de inclusivas as suas viagens aos vários cantos desta pérola do Índico. Será a inclusão uma realidade na administração de Armando Guebuza?
 
Dependendo do ângulo a partir do qual se observe a realidade uns dirão «sim» e outros dirão «não». Esta é exactamente a dificuldade com que nos debatemos hoje em dia. Os críticos de Guebuza dizem que temos poucos exemplos de inclusão na verdadeira acepção da palavra: o que existe são apenas muitos reflexos, variações e diluições de elementos da oposição na administração pública e, quando estes se revelam abertamente, são forçosamente afastados das direcções, dos locais de trabalho e mesmo despedidos do emprego. Acrescentam que para conseguir conquistar uma posição na sociedade, o funcionário público deve parecer-se o mais possível com os ideais de quem governa, reflectir as suas ideias, opiniões, virtudes, motivações, preconceitos e vícios. E concluem que as características técnicas e a competência profissional são ignoradas e reprimidas devido à dependência, pois enquanto for o Governo a alimenta-lo, diga-se, ele tentará agradar ao dador e adaptar-se às suas condições. Todavia, a experiência e os exemplos recentes mostram que um funcionário assim mantido utiliza meios indirectos – como o voto – para se controlar, desenvolvendo exactamente, na maioria dos casos, as características que em ambos necessitariam de ser eliminadas. Não é de admirar que mais tarde, alguém fique horrorizado com os resultados dos seus próprios excessos e lamente amargamente que a falsidade, o egoísmo, a traição e os insultos à sua entidade sejam a lei da vida. E nestas condições não é possível combater a pobreza absoluta a qual exige de nós uma luta absoluta contra a pobreza implicando o envolvimento de todos e a primazia da técnica e do profissionalismo.
 
É chegado o tempo de ver tudo sob o prisma da prática, senão todo o esforço verbal é uma simples cabeça no ar. E aceitar as coisas como são, tirando-lhes o melhor partido possível. Esta hora exige um novo Evangelho da Unidade Nacional que exalte a pureza da inclusão independentemente da cor partidária para elevar o país a planos superiores de acção. Há muitas pessoas no país que realmente não compreendem, ou dizem não compreender, qual é a grande questão entre a partidarização e a inclusão. E há quem diga que a inclusão é a onda do futuro enquanto a partidarização pertence ao passado. Eu defendo inclusão! A inclusão também dos quadros da oposição em todas as esferas públicas – desde que aceitem – como primeiro passo. À Renamo, cujas preocupações parte do povo partilha, é necessária uma promessa da lealdade de amigos fiéis porque unidos, é muito pouco o que não podemos fazer no quadro de inúmeros desafios de hoje. Divididos, pouco podemos fazer. Aos outros partidos basta recordá-los que, no passado, todos aqueles que insensatamente procuraram o poder montados num tigre acabaram dentro dele. Ao povo que, nas matas e aldeias do país, luta para quebrar os grilhões do engano, é preciso envidar os maiores esforços para o ajudar a ajudar-se a si próprio, durante o tempo que for necessário – não porque a oposição o possa estar a fazer, não por interesse nos seus votos, mas sim porque é atitude correcta.
 
Tudo o que for feito para elevar a confiança de cada moçambicano nas suas próprias forças e competências promoverá uma nova época de paz e perfeição para a nação. Quando falo da inclusão, não quero que pensem que apenas limitar-me-ei na teoria. Mas também não quero que pensem que defendo o Governo de Unidade Nacional ou, na pior hipóteses, dividir para reinar. Pretendo, num espírito puro, mostrar que é possível evitar a existência de tribos renegadas que vejam no Governo e nos governantes a face da opressão ante a nova epopeia do realinhamento das identidades. Tomemos o exemplo de Sofala, terra que viu a nascer Afonso Dhlakama, a face visível da oposição nacional. O que pode acontecer se Armando Guebuza nomear Dhlakama como Governador desta província? Iria Dhlakama recusar ou aceitar e como ficariam os seguidores da Renamo e provavelmente das outras forças políticas incluindo da própria Frelimo? Na verdade, um gesto desta magnitude iria trazer benefícios mútuos e testemunharia o pico do que significa, na voz do pai da nação, a inclusão. Nesta primeira abordagem, refiro-me também à inclusão daquelas pessoas que são a face visível da Renamo, cujos argumentos e ideias mostraram serem competentes, entre as quais Ivone Soares, Fernando Mazanga, A. Muchanga, só para citar poucos. Imagino a cara de todos aqueles que conhecendo a minha postura ficaram estupefactos com a minha proposta e têm dúvidas quanto à sinceridade das intenções por detrás deste exemplo. Ninguém conceberia nunca que aos frelimistas preocupassem as vias de inclusão.
 
No Moçambique de hoje, com toda a sua agitação, assistimos a um esforço constante para desacreditar a Frelimo e destruir todo o equilíbrio de forças da sua grandeza: antigos combatentes, quadros seniores e cofundadores do partido, jornalistas, médicos, madjermane, cientistas nacionais, secretários de povoações e de bairros. Mas a História, qual mãe carinhosa, está constantemente a tentar mante-la no seu respectivo lugar, a apaziguar os furiosos ventos e vagas, para que a paz, a harmonia e a unidade da nação possam reinar supremas. Por isso, o nosso tempo exige já o alargamento da participação política da oposição e, no lugar de combater os críticos «internos e externos» acomodar-lhes as suas justas reclamações. A inclusão das figuras da Renamo na governação, longe de ser uma fraqueza e ameaça à hegemonia frelimista, representaria melhor o todo e protegeria melhor os argumentos de quem verdadeiramente é o garante da Unidade Nacional. E se um princípio de cooperação com a Renamo conseguir fazer recuar o ódio escondido na selva suspeita, que nos juntemos numa nova empresa de inclusão dos restantes partidos políticos, dos restantes críticos num país onde os fortes sejam justos enquanto os fracos estão em segurança e se preserva a paz. Não será possível realizar tudo isto em um ano, em um mandato, nem provavelmente durante as nossas vidas. Mas comecemos e unamo-nos para que em todos os lares deste país seja ouvido o recado de Jesus Cristo «na casa do meu Pai há muitas moradas».
 
Nas mãos da Frelimo, mais do que nas da oposição, está o sucesso ou o fracasso do nosso projecto como nação. Desde a sua fundação em 1962, cada frelimista tem sido chamado a provar a sua lealdade nacional. As campas dos que responderam à chamada estão espalhadas por todo o país. Agora, o clarim toca de novo – não em chamada às armas, embora precisemos delas, não para combatermos, embora estejamos em combate, mas sim para carregarmos o fardo de uma longa e sombria luta, ano após ano, alegres na esperança, pacientes no sofrimento, um combate contra o inimigo do nosso fracasso: a exclusão social e a elitização das oportunidades. Contra estes inimigos, forjemos uma aliança nacional que possa assegurar uma vida mais frutuosa para todos. Requer uma decisão histórica pois na longa história do Mundo, poucas foram as organizações políticas às quais foi concedido o papel de defender a sua sobrevivência na sua hora de maior perigo. Que a Frelimo não recue perante essa responsabilidade e não a deixe para os outros, pois mais cedo ou mais tarde ela será uma realidade e feliz será quem a puser em prática. Não acredito que algum de nós veja vantagens na exclusão político-social. A energia, a fé, a devoção que pusermos nesta empresa iluminará o nosso país e todos os que o querem servir e o brilho deste fogo poderá, na verdade, iluminar as vitórias futuras. Já não podemos arriscar improvisos de emergência na garantia da Unidade Nacional. Como nação, lutemos para sermos poderosos e estarmos prontos para entrar em acção, para que nenhum potencial agressor possa sentir-se tentado a arriscar a sua própria destruição. Que assim seja!!

Eusébio A. P. Gwembe

Um paço no caminho da inclusão  

 

A agitação que se verifica actualmente nalgumas mentes dá razão à Kennedy, o presidente americano dos anos 60, quando disse que «quando uma sociedade livre não é capaz de ajudar os muitos que são pobres, não pode salvar os poucos que são ricos». Existe uma ideia generalizada mas compreensível de que a Frelimo, partido no poder desde 1975 e que representa apenas uma parte de forças políticas nacionais com apenas meia ideia sobre cada assunto, assumiu o controlo absoluto de tudo o que se passa sobre o país. Nas negociações levadas pela Renamo para junto do Governo, consta a despartidarização como um dos quatro pontos de maior relevo, ao lado da Paridade, da Economia e da Segurança. Fala-se de um Estado Partidarizado e da urgência da sua despartidarização. Tenho defendido a inclusão como meio-termo para reduzir as animosidades nesta questão. De facto, o Presidente Guebuza, na maioria dos comícios populares que orientou, enfatizou a inclusão e até chamou de inclusivas as suas viagens aos vários cantos desta pérola do Índico. Será a inclusão uma realidade na administração de Armando Guebuza?

 

Dependendo do ângulo a partir do qual se observe a realidade uns dirão «sim» e outros dirão «não». Esta é exactamente a dificuldade com que nos debatemos hoje em dia. Os críticos de Guebuza dizem que temos poucos exemplos de inclusão na verdadeira acepção da palavra: o que existe são apenas muitos reflexos, variações e diluições de elementos da oposição na administração pública e, quando estes se revelam abertamente, são forçosamente afastados das direcções, dos locais de trabalho e mesmo despedidos do emprego. Acrescentam que para conseguir conquistar uma posição na sociedade, o funcionário público deve parecer-se o mais possível com os ideais de quem governa, reflectir as suas ideias, opiniões, virtudes, motivações, preconceitos e vícios. E concluem que as características técnicas e a competência profissional são ignoradas e reprimidas devido à dependência, pois enquanto for o Governo a alimenta-lo, diga-se, ele tentará agradar ao dador e adaptar-se às suas condições. Todavia, a experiência e os exemplos recentes mostram que um funcionário assim mantido utiliza meios indirectos – como o voto – para se controlar, desenvolvendo exactamente, na maioria dos casos, as características que em ambos necessitariam de ser eliminadas. Não é de admirar que mais tarde, alguém fique horrorizado com os resultados dos seus próprios excessos e lamente amargamente que a falsidade, o egoísmo, a traição e os insultos à sua entidade sejam a lei da vida. E nestas condições não é possível combater a pobreza absoluta a qual exige de nós uma luta absoluta contra a pobreza implicando o envolvimento de todos e a primazia da técnica e do profissionalismo.

 

É chegado o tempo de ver tudo sob o prisma da prática, senão todo o esforço verbal é uma simples cabeça no ar. E aceitar as coisas como são, tirando-lhes o melhor partido possível. Esta hora exige um novo Evangelho da Unidade Nacional que exalte a pureza da inclusão independentemente da cor partidária para elevar o país a planos superiores de acção. Há muitas pessoas no país que realmente não compreendem, ou dizem não compreender, qual é a grande questão entre a partidarização e a inclusão. E há quem diga que a inclusão é a onda do futuro enquanto a partidarização pertence ao passado. Eu defendo inclusão! A inclusão também dos quadros da oposição em todas as esferas públicas – desde que aceitem – como primeiro passo. À Renamo, cujas preocupações parte do povo partilha, é necessária uma promessa da lealdade de amigos fiéis porque unidos, é muito pouco o que não podemos fazer no quadro de inúmeros desafios de hoje. Divididos, pouco podemos fazer. Aos outros partidos basta recordá-los que, no passado, todos aqueles que insensatamente procuraram o poder montados num tigre acabaram dentro dele. Ao povo que, nas matas e aldeias do país, luta para quebrar os grilhões do engano, é preciso envidar os maiores esforços para o ajudar a ajudar-se a si próprio, durante o tempo que for necessário – não porque a oposição o possa estar a fazer, não por interesse nos seus votos, mas sim porque é atitude correcta.

 

Tudo o que for feito para elevar a confiança de cada moçambicano nas suas próprias forças e competências promoverá uma nova época de paz e perfeição para a nação. Quando falo da inclusão, não quero que pensem que apenas limitar-me-ei na teoria. Mas também não quero que pensem que defendo o Governo de Unidade Nacional ou, na pior hipóteses, dividir para reinar. Pretendo, num espírito puro, mostrar que é possível evitar a existência de tribos renegadas que vejam no Governo e nos governantes a face da opressão ante a nova epopeia do realinhamento das identidades. Tomemos o exemplo de Sofala, terra que viu a nascer Afonso Dhlakama, a face visível da oposição nacional. O que pode acontecer se Armando Guebuza nomear Dhlakama como Governador desta província? Iria Dhlakama recusar ou aceitar e como ficariam os seguidores da Renamo e provavelmente das outras forças políticas incluindo da própria Frelimo? Na verdade, um gesto desta magnitude iria trazer benefícios mútuos e testemunharia o pico do que significa, na voz do pai da nação, a inclusão. Nesta primeira abordagem, refiro-me também à inclusão daquelas pessoas que são a face visível da Renamo, cujos argumentos e ideias mostraram serem competentes, entre as quais Ivone Soares, Fernando Mazanga, A. Muchanga, só para citar poucos. Imagino a cara de todos aqueles que conhecendo a minha postura ficaram estupefactos com a minha proposta e têm dúvidas quanto à sinceridade das intenções por detrás deste exemplo. Ninguém conceberia nunca que aos frelimistas preocupassem as vias de inclusão.

 

No Moçambique de hoje, com toda a sua agitação, assistimos a um esforço constante para desacreditar a Frelimo e destruir todo o equilíbrio de forças da sua grandeza: antigos combatentes, quadros seniores e cofundadores do partido, jornalistas, médicos, madjermane, cientistas nacionais, secretários de povoações e de bairros. Mas a História, qual mãe carinhosa, está constantemente a tentar mante-la no seu respectivo lugar, a apaziguar os furiosos ventos e vagas, para que a paz, a harmonia e a unidade da nação possam reinar supremas. Por isso, o nosso tempo exige já o alargamento da participação política da oposição e, no lugar de combater os críticos «internos e externos» acomodar-lhes as suas justas reclamações. A inclusão das figuras da Renamo na governação, longe de ser uma fraqueza e ameaça à hegemonia frelimista, representaria melhor o todo e protegeria melhor os argumentos de quem verdadeiramente é o garante da Unidade Nacional. E se um princípio de cooperação com a Renamo conseguir fazer recuar o ódio escondido na selva suspeita, que nos juntemos numa nova empresa de inclusão dos restantes partidos políticos, dos restantes críticos num país onde os fortes sejam justos enquanto os fracos estão em segurança e se preserva a paz. Não será possível realizar tudo isto em um ano, em um mandato, nem provavelmente durante as nossas vidas. Mas comecemos e unamo-nos para que em todos os lares deste país seja ouvido o recado de Jesus Cristo «na casa do meu Pai há muitas moradas».

 
Nas mãos da Frelimo, mais do que nas da oposição, está o sucesso ou o fracasso do nosso projecto como nação. Desde a sua fundação em 1962, cada frelimista tem sido chamado a provar a sua lealdade nacional. As campas dos que responderam à chamada estão espalhadas por todo o país. Agora, o clarim toca de novo – não em chamada às armas, embora precisemos delas, não para combatermos, embora estejamos em combate, mas sim para carregarmos o fardo de uma longa e sombria luta, ano após ano, alegres na esperança, pacientes no sofrimento, um combate contra o inimigo do nosso fracasso: a exclusão social e a elitização das oportunidades. Contra estes inimigos, forjemos uma aliança nacional que possa assegurar uma vida mais frutuosa para todos. Requer uma decisão histórica pois na longa história do Mundo, poucas foram as organizações políticas às quais foi concedido o papel de defender a sua sobrevivência na sua hora de maior perigo. Que a Frelimo não recue perante essa responsabilidade e não a deixe para os outros, pois mais cedo ou mais tarde ela será uma realidade e feliz será quem a puser em prática. Não acredito que algum de nós veja vantagens na exclusão político-social. A energia, a fé, a devoção que pusermos nesta empresa iluminará o nosso país e todos os que o querem servir e o brilho deste fogo poderá, na verdade, iluminar as vitórias futuras. Já não podemos arriscar improvisos de emergência na garantia da Unidade Nacional. Como nação, lutemos para sermos poderosos e estarmos prontos para entrar em acção, para que nenhum potencial agressor possa sentir-se tentado a arriscar a sua própria destruição. Que assim seja!!

domingo, 3 de novembro de 2013

Guebuza é um inocente sacrificado em nome de muitos

Acusar Guebuza de ser o promotor de um Estado de Guerra para perpetuar-se no poder é um erro. Ele já disse estar de saída, dito confirmado pela primeira-dama. Erro confesso quando os exemplos recentes mostraram a sua paciência quando o exército e a polícia eram amedrontados, humilhados e assassinados, sem que ele, na qualidade de comandante em chefe das Forças Armadas de Defesa de Moçambique, desse também a autorização que Dhlakama dera a seus homens: se se sentirem atacados ataquem também, vocês sabem onde encontrarem as armas». Para mim, em toda esta História, Guebuza é um inocente que carrega a culpa de muitos compatriotas e dirigentes da Frelimo, incluindo os da Administração de Chissano. Chissano, não pode ser visto como campeão da paz, quando deixou que o actual problema de dois exércitos tivesse barbas brancas. Suas palavras recentes, segundo as quais ele enganou Dhlakama, são reveladoras de muita coisa. E pior do que isto, é o silêncio dele, neste momento angustioso. Duas perguntas foram-me feitas ontem, por um amigo de longa data: a primeira, se era eu o autor deste artigo aqui cujos ecos, mais do que eu imaginara, já se fazem sentir um pouco por todo o país, a segunda, se eu desejava revogar ou defender o que afirmara naquele artigo. Respondi à primeira afirmativamente. Quanto à segunda, escrevi inúmeros  comentários sobre pontos de vista muito diferenciados mostrando o perigo que a existência de dois exércitos representa num Estado que se presuma de Direito. Em primeiro lugar, nalguns, discuti a humilhação sofrida pelo povo protagonizada ante FIR (Força de Intervenção Rápida) e pôde até afirmar que esta atitude policial daria mais legitimidade as acções da Renamo, caso esta ripostasse, porque ai o povo veria uma polícia que, ao invés de defender humilha, a ser também humilhada. O exemplo de Moxungue foi revelador daquela profecia, quando um grupo de polícias foi aniquilado pela Renamo sob pretexto de que «já estava cansada de tanta humilhação e que, doravante, assim seria: levou, deu».
 
Condenei a actuação da FIR no Maputo e igualmente condenei a actuação dos guerrilheiros da Renamo em Moxungue num espírito tão puro, claro e cristão que até os meus temidos adversários ideológicos, longe de encontrarem algo a censurar, admitiram que aquelas críticas eram úteis e mereciam ser lidas por pessoas devotas. Admiro que alguns hoje encontrem nos meus escritos uma apologia à Guerra. A desmilitarização da Renamo é um imperativo nacional. Todos estávamos de acordo nisso. De entre todos os homens, tinha que ser eu a abandonar as verdades aprovadas pela voz unânime de amigos e adversários, e a opor-me a ideias que todo o mundo se regozija de reconhecer? Em segundo lugar, escrevi determinados textos contra a hipocrisia do MDM, (demonstrada aqui)  nos quais ataquei aqueles que, com falsas palavras, vidas democráticas impróprias e exemplos escandalosos prejudicaram o povo moçambicano tendo aprovado a lei que abriu a precedente do que hoje arruína a nação. Naquele momento, em 2012, eu era contra a aprovação da lei eleitoral até que se criassem condições de consenso que nos poupassem do sangue que hoje corre pelas estradas e pelas matas deste sacrificado país. Sim, mesmo que isso significasse o adiamento das eleições. E a hipocrisia do MDM pouco tempo manifestou-se, quando em surdina, começou a apoiar a paridade (veja aqui), principio gerado pela Renamo, contra aquilo que em sede própria, isto é, no Parlamento, aprovara ao lado da Frelimo. Não é verdade que a decisão apressada para correr atrás de eleições confunde, atormenta e angustia as consciências dos moçambicanos, enquanto as gritantes e intermináveis emboscadas devoram os bens e a riqueza dos moçambicanos, e mais particularmente da ilustre província de Sofala?
 
Não é justo que os membros do MDM encontrem a culpa onde não está, isto é, em Guebuza, cuja missão é salvar o país do desastre iminente ao qual a Renamo pretende precipitá-lo. É tempo de darmos uma condenação unânime contra as atitudes da Renamo, que perigam a Democracia que tal como provam os exemplos históricos do nosso passado, tanto sangue e suor custou. Se eu revogasse o que escrevi sobre o tema de desarmamento da Renamo, estaria a fortalecer a sua tirania e a abrir ainda mais a porta a tantas críticas a alguém que está a desempenhar o seu mandato e a cumprir a sua promessa eleitoral, feita em 2005, segundo a qual, acabaria com os exércitos paralelos. A missão é de risco, mas deve ser cumprida e o seu não cumprimento poderá criar nos adeptos de partidos políticos militarizados uma resistência com uma ira renovada contra tudo o que represente o governo do dia. Então, veríamos estes homens inchar, espumar e enfurecer-se mais do que nunca. O progresso das nossas forças armadas, do qual dependerá principalmente tudo o resto, é tão bem conhecido pelo público moçambicano e apresenta-se, acredito, razoavelmente satisfatório e encorajador para todos. Antes de ocuparem qualquer espaço advertem, avisam,num esforço tendente a apenas ocupar os espaços fora do controlo delas e poupar as vidas humanas. O exemplo da não perseguição ao líder da Renamo ilustra muito bem esta intenção, ate porque segundo o «Governo, na voz do ministro da Agricultura, José Pacheco, que tem chefiado a delegação governamental ao diálogo com a Renamo, diz que Afonso Dhlakama não corre nenhum perigo de vida e que o assalto a Santhundjira não visava a sua eliminação física». Mas embora tenhamos grandes esperanças no futuro sem guerra, não arriscamos uma previsão sobre ele.
 
Por esta mesma terra, há 37 anos atrás, todas as atenções nacionais estavam concentradas numa guerra iminente. Todos a receavam e a tentavam evitar. Enquanto neste país estava a ser proferido o discurso da vitória sobre o colonialismo, agentes insurrectos tentavam, no mato, organizar-se para a destruição do recém-Estado. A situação era difícil. Ambas as partes repudiavam a guerra, acusando-se mutuamente, mas uma delas preferia fazer a guerra a deixar sobreviver a nação, enquanto a outra preferia aceitar a guerra a deixá-la perecer; e a guerra prosseguiu por 16 anos. Naquele tempo, mais de 80% da população moçambicana era formada de analfabetos que não se encontravam uniformemente distribuídos. Estes analfabetos constituíam um interesse peculiar e poderoso. Todos sabiam que, de certo modo, este interesse era a causa da guerra, porque os analfabetos são facilmente manipuláveis. Hoje, a realidade é diferente, mas os intelectuais, em vez de olharem criticamente a quem oferecer responsabilidades, são levados a ver no próprio Governo um inimigo a abater. Os reforços soviético, zimbabweano, tanzaniano, cubano, britânico a um lado; rodesiano, sul-africano e malawiano ao outro, não foram capazes de dar vantagens aditivas a nenhuma das partes em luta. A guerra prosseguiu e com ela as consequências inerentes: mortes, destruição de infraestruturas e de valores ético-morais, estes últimos que tinham sido edificados por gerações de moçambicanos, todos desaparecidos agora; deslocados e refugiados.
 
Estes reforços, perpetuação e expansão deste sofrimento eram os objectivos pelos quais os insurrectos pretendiam aniquilar o poder de Maputo, mesmo recorrendo à guerra, ao passo que o governo não exigiu mais do que o direito a restringir a sua expansão territorial recorrendo ao apoio de países amigos. Os insurrectos eram chamados de Bandidos Armados enquanto estes chamavam de comunistas os governantes e neste jogo de palavras nenhuma das partes esperava que a guerra durasse tanto tempo e chegasse à magnitude que atingira. Ambas procuravam um triunfo mais fácil e com um resultado menos radical e espantoso. Ambas liam a mesma Bíblia e rezavam ao mesmo Deus, e ambas invocavam a Sua ajuda contra a outra. E como não era possível responder às orações de ambas as partes, nenhuma teve uma resposta completa porque o Todo-poderoso tinha os seus próprios desígnios. E a guerra terminou como havia começado, sem vencedor nem vencido, em 1992. Os que estavam no poder continuaram e os que estavam à margem dele também ali se acomodaram. Ouviram-se palavras proferidas pelas partes dizendo e convencendo-nos que a paz viera para ficar.
 
A paz é uma dádiva e obra divina para a qual concorrem as acções humanas enquanto executoras da vontade da providência. A guerra é obra humana e certamente inevitável mas ai do homem que a pratica primeiro. Suponhamos que a guerra moçambicana é uma dessas ofensas que, de acordo com a providência divina, são inevitáveis, mas que, tendo ultrapassado o tempo que lhe foi atribuído, Deus pretende agora eliminar. Ele envia Guebuza para tomar esta difícil decisão de trazer a paz, como castigo devido àqueles que primeiro praticaram a ofensa: será que discernimos aqui um desvio dos atributos divinos que os crentes em Deus vivo sempre lhe atribuem? É que a guerra já começou e esperamos de todo o coração e oramos fervorosamente para que este colossal flagelo da guerra possa terminar rapidamente. No entanto, se Deus desejar que ela continue até que se esgotem todas as riquezas acumuladas em vinte anos de paz e de árdua labuta do povo moçambicano, e até que todas as gotas de sangue provocadas pelo trabalho sejam pagas por outras provocadas pela arma, como foi dito há dois mil anos, ainda assim se deverá dizer: «o julgamento do Senhor é verdadeiro e justo».

Eusébio A. P. Gwembe!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A Orquestra dos tiros

Referimo-nos jocosamente à uma orquestra de jazz que é a Renamo, orquestra essa que executa sob a regência do Senhor Dhlakama, o dissonante rock do anti-frelimismo. A coisa não teria importância de maior se apenas os frelimistas ouvissem a orquestra, porque estes tapariam os ouvidos até que os músicos acabassem a sua ária. O pior é que outros concidadãos, não distinguindo a boa da ruim música, vão ouvindo e impressionam-se, julgando que aquela é a verdadeira arte de emitir sons harmoniosamente. Mas a intenção da orquestra é exclusivamente a de atingir o povo cujos interesses diz defender.

A orquestra recebeu subitamente o influxo da entrada de outras entidades, notadamente a outra oposição, a oposição das contrapartidas. Por outro lado, e no fim de contas, os membros desta outra oposição, unidos e reunidos em torno de certos protagonistas, já servem de porta-vozes de uma Renamo em apulo. Os dois partidos chefes da oposição, a Renamo e esta outra oposição, que têm vindo a afirmar a sua fidelidade e o seu respeito ao anti-frelimismo, os primeiros sinceramente, os segundos com a sua hipocrisia habitual da sua política de autovitimização, estão muito confusos sem saber se, nas actuais circunstâncias devem rir ou chorar visto que a orquestra tem lugar no seu próprio bastião. Ai, a população anda de arbusto em arbusto em busca de segurança. A orquestra desta dupla pode continuar a exibir-se.

A ária estridente do ódio à Frelimo já ninguém engana. Essa outra oposição, que sempre tem utilizado um certo Jornal especialmente como plataforma da sua propaganda, até há bem pouco tempo considerou que existe uma grande oportunidade por explorar. Mas hoje o cenário sombrio se desenha no horizonte. O 20 de Novembro pode vir trazer surpresas inesperadas. Recentemente, alguns líderes atravessaram o rio Zambeze cercados dos seus sequazes mais em evidência no avião do que no terreno. E lá ao Norte, as populações ficaram-lhes indiferentes. Todos ali se concentraram, numa reunião que se procurou fazer excepcionalmente aparatosa, mas a orquestra não teve audiência. Porque ninguém deseja uma orquestra de tiros.

Pedro MAHRIC