segunda-feira, 21 de abril de 2014

Guebuza, o homem que venceu todas as batalhas (1)

Por vezes a História faz o homem, em vez de o homem fazer a História. Para começar, todos os videntes da época falharam perscrutar os seus planos. Numa dessas vezes, tinham dito que ele não havia de deixar a presidência. Outras vezes diziam que ele queria acabar com os partidos da oposição, e até de dividir o próprio partido, enfim, muito sonambulismo, netinhos.
Guebuza foi o eminente e humanitário homem de Estado, que consagrara toda a sua vida e toda a sua alma à causa da emancipação dos moçambicanos para confiarem nas própria forças. Foi o terceiro presidente deste belo país. Vi-o inúmeras vezes e diferentes locais, mas o momento marcante foi aquele em que ele dava por terminada tão formosa como altruísta missão de dirigir os destinos deste país. Fazia inaugurações e despedia-se do povo que governara por uma década. A abolição da política de mão estendida em que foi mais uma vez o primeiro percursor, representou sem dúvida para nós o cumprimento dum dever de humanidade e a consequência lógica da política guezuiana e de que nos orgulhamos e voz orgulhareis por longos anos como dum brasão de família. Foi Guebuza que transformou milhões de homens moçambicanos em milhões de cidadãos moçambicanos. Alguns dos pais dos vossos amigos abriram olhos de criticar o Governo nessa época, coisa que era impensável, 23 anos antes.
E fi-lo sem hesitação, decidido a levar essa obra até às suas últimas consequências, a completá-la definitivamente, atraindo os seus críticos a uma civilização mais adiantada, aproximando-se deles com solicitude , respondendo-lhes as provocações e ferindo-lhes a imaginação e os sentidos com os exemplos mais impressionantes do que o homem pode conseguir com o seu trabalho e energia, ensinando-lhes, como se ensina a uma criança, o uso que devia fazer das forças e faculdades de que dispõem para sair da pobreza. De tempos a tempos alertava aos seus críticos, mas estes nem sempre se davam conta. Usava linguagem poética para criticar os seus críticos que muitas vezes não suportavam o peso dos adjectivos. Ah, netinhos, como é bom recordar os murmúrios dos apóstolos da desgraça daquele tempo; os tagarelas; os saudosistas; os intriguistas. Os tínhamos aos montes; uma espécie de homens, hoje da minha idade, que viam tudo o que provinha do Governo como errado.
Guebuza, cuja obra se impõe como um exemplo e merece ser devidamente estudada e apreciada, dera provas admiráveis do vigor do seu cérebro e da rara elevação da sua inteligência. Ele honrou brilhantemente o posto que lhe fora confiado, empenhou-se, sem cansaço, em divulgar a instrução aos moçambicanos por meio de escolas desde as de primeiras letras até universidades. Em apenas 10 aumentou o número de Universidades de 16 para 46, de meros 20 mil estudantes universitários para 120 mil, promoveu os estudos indispensáveis para a perfuração do solo, para a abertura das estradas, para a reconstrução dos caminhos-de-ferro, para a realização de todos os capítulos enfim duma grande obra de fomento e de progresso, em organizar e pôr em marcha, com esse destino, missões dos mais ilustres técnicos então no vigor da vida – como eu –, levados simultaneamente pelo amor à ciência e pelo espírito de aventura e sacrifício, em animar e tornar realizáveis os sonhos de muitos moçambicanos, em montar os pólos de desenvolvimento, para deixarmos de vez de nos concentrar exclusivamente nas cidades e irmos para os planaltos e planícies espalhar os benefícios do desenvolvimento, em proteger eficazmente a acção dos nossos beneméritos filhos e vocês netinhos. Entre as mais elevadas realizações, posso mencionar a reversão da Hidroeléctrica de Cahora Bassa de Portugal para o nosso país, depois de 30 anos independentes; a construção da ponte que leva o seu nome e outra, a da Unidade… Uff. Estou a ficar velho... não é que esqueci outras coisas! Ele esteve no Governo desde a independência nacional – vocês já sabem do ano, não é? E a História já vos ensinou que houve guerra dos três nomes: de desestabilização, dos 16 anos ou civil. Foi Guebuza quem negociou, em dois anos, os termos da paz, representando o Governo, como chefe da delegação.
· Avó, fale-nos qual foi o envolvimento dele na segunda guerra da Renamo?
Ah… os perigos vinham de todos os lados. Os disparos de metralhadoras haviam voltado pela mesma mão de há duas décadas. Já fluíam as conversações tendentes a minimizar o clima de tensões. E todo o diálogo obedecia ao objectivo de apressar a obra de progresso, que tínhamos a nosso cargo, e de melhorar, sucessivamente, as condições dos moçambicanos, na paz. Por toda a parte se desenvolvera então a ambição dos inimigos da Frelimo. A Renamo resolvera apossar-se do poder, embora para o conseguir tivesse de afrontar os princípios de justiça e de esquecer os deveres duma aliança de décadas, à sombra da qual obtivera sempre assinaladas vantagens. Apresentou o princípio de Paridade para equilibrar as coisas na Comissão Nacional de Eleições, nas Forças Armadas e mesmo na Segurança. Um articulista da CIP escrevia que «a intolerância política, a exclusão, o aumento da pobreza e das desigualdades foram amplamente apontados como sendo parte das possíveis causas do conflito».
Os que cobiçavam a felicidade dos frelimistas adquiriram deste modo uma arma poderosíssima para combaterem ali a sua influência e poderem guiar os moçambicanos ao sabor dos seus interesses. Souberam aproveita-la, sem sombra de escrúpulos. Por todo o sertão de Gorongosa, e principalmente em Moxungue, instalaram-se alguns lunáticos, possuidores de largos recursos materiais, contra os quais as reduzidas forças ali estacionadas em constantes movimentos mal podiam lutar. Dos órgãos de comunicação social surgiram homens empenhados quase exclusivamente em desenraizar do coração dos moçambicanos o amor a Pátria e em os levantar, em som de guerra, contra o seu próprio Governo. Um ano antes, penso, Guebuza, compreendendo a ociosidade que movia o espírito de muitos deles apelara que não usassem mal o instrumento de que se serviam para ridicularizar o Governo: o Facebook, para que não se tornasse em «fábrica de sonhos irrealizáveis». O espírito de rebelião lavrou intensamente, como uma queimada que se propaga através dos campos duma floresta virgem, em grande parte, do nosso país. Mas mais uma vez, Guebuza provou que era dos que acobardam facilmente e soube, em todas as conjunturas, arcar com as suas responsabilidades. Foi um ciclo heróico, em que o homem de que desejais conhecer, auxiliado eficazmente pelos homens de sua confiança, escreveu de novo, com o seu suor e o seu labor, páginas das mais belas de coragem e de patriotismo.
- O avó foi para a zona de conflito! O que ia lá fazer e o que viu?
Naqueles dias os renamistas continuavam a emboscar as viaturas como se fossem animais incapazes de regular as suas acções e destituídos da razão e campeavam desassombradamente nas florestas, matando homens e mulheres, crianças e velhos suspeitos de apoiarem o regime, sem leis que lhes impedissem as infames práticas, e considerando-se até como beneméritos, vangloriando-se da benéfica influência que diziam exercer na Grande Gorongosa. Até 11 de Abril de 2013 – eu encontrava-me na Europa – haviam morrido oito pessoas. O seu chefe, continuava ali, num local chamado Sadjunjira, a dar conferências de dia e a armar ciladas de tomada do poder pela força nas noites. Em 3 de Abril de 2013, em Moxungue, seis polícias revestidos da autoridade moral para proteger a área haviam sido mortos, a mando do chefe que nas próprias palavras «para salvaguardar a sua vida, a única solução que teve foi de dar ordens aos seus homens para responderem pela mesma medida, atacando o posto policial», tendo considerado os ataques a viaturas, assassinatos de civis e saque de bens de viajantes registados na EN-1, de «acidentes de percurso». Havia informações muito confusas sobre o curso dos acontecimentos e eu, como um Tucídides testemunhando uma guerra grega, lancei-me na aventura. No futuro irei contar-vos.
Pouco tempo depois, em 17 de Junho daquele ano eram invadidos um Paiol das FADM na estrada de Inhaminga, e outro Paiol, entre Derunde e Muanza. O saldo de mortos nos dois incidentes às mãos da Renamo era de 13 militares. Desloquei-me a Savane onde colhi depoimentos dos que sobreviveram o terror daquele dia. Num deles conta-se que:
«É possível que os que vinham fazer obras de reabilitação do Paiol tenham sido quem deu detalhes da nossa segurança aos atacantes. Não compreendíamos como era possível entregar aos civis uma reabilitação de um centro encontrado numa zona tida como hostil. Mas também podem ter sido os desertores ou ainda aqueles reformados compulsivos, ainda descontentes. O que nos prejudicou foi que as nossas armas não disparavam por falta de manutenção, além de que nós apenas tínhamos treino com objecto fixo. Agora, as coisas mudaram. No dia do assalto dois colegas haviam ido a estrada – Dondo - onde notaram um movimento estranho. Quando voltaram ao Paiol reportaram o que haviam visto e como resposta, foram metidos na cela pois haviam chegado tarde e o que tinham reportado parecia, aos olhos da hierarquia, uma forma de justificarem a ausência injustificada. Eles só foram libertos durante o ataque quando mais de 100 homens invadiram o paiol, usando alicates para cortar o arame farpado. Mas não roubaram muito material bélico, salvo as armas e as fardas das vítimas e algumas munições. Todas as vítimas mortas eram despidas do seu fardamento. Mataram sete colegas a facada. Um era oficial-dia que veio em socorro, foi ferido e escondeu-se numa mata onde perdeu muito sangue. Foi descoberto no dia seguinte, levado ao Hospital Central da Beira onde veio a falecer duas semanas depois. Após aquilo recebemos o reforço de Maputo de todos os comandos, de todas as especialidades. Seguimos os passos dos atacantes mas não encontramos ninguém. Depois, houve ordem para queimar a mata. Num muchém encontramos um corpo de algum velho que fora atingido pelos nossos disparos, enrolado num dos nossos cobertores e numa capa de chuva. Era mesmo velho! O corpo já estava em estado de decomposição. Quando foram disparadas algumas armas pesadas foram obrigados a abandonar grandes quantidades de munições. Quanto aos nossos que atacaram as viaturas fingindo-se de agentes da Renamo é importante dizer que não foram os nossos colegas. Uma coisa importante a reter é que há muitas deserções dentro das FADM. Dos 83 que fomos no começo do ano, após os acontecimentos de Muxungue e de Savane ficamos vinte e pouco. Dizem-nos que foram transferidos para outras unidades, mas temos a certeza de que trataram-se de deserções, pois já recebemos cartas de familiares, namoradas, amigos e deles próprios (dos colegas de farda). O medo de morrer é maior que o gosto para servir a pátria. Não entendemos, não compreendemos, não queremos guerra. Por vezes esse desejo de deserção aparece por influência vinda de fora. O nosso salário de cerca de 2400 meticais é suficiente, uma vez que temos todo o necessário para viver em termos de alimentação e de roupa/higiene. Não é verdade que estejamos a ambicionar o salário dos homens da Força de Intervenção Rápida. Aliás, é preciso saber que a FIR não está autorizada a entrar para alguns terrenos. Por isso a nossa presença lado a lado com ela tornou-se essencial num assunto aparentemente policial. O ambiente é tenso, já não dormimos tranquilos. Um dos meus colegas morreu muito mal, com a facada na boca, golpes no corpo, etc. Os atacantes só usavam arma para quem tentasse resistir mas a facada era o seu modus operandi. Eles gritavam «ndamuona-ndamuona, phata na manja» que quer dizer, «já o vi, apanhe-o pelo braço» o que nos deixou apavorados».
Era preciso dar-lhes batalha formal, fossem quais fossem os inconvenientes políticos que resultassem da extinção dessa iniquidade, afrontosa para todos os princípios democráticos. A essa missão, tão digna das almas bem formadas, dedicou-se o espírito cavalheiresco de Guebuza, homem intemerato da causa liberal, lutador insigne, de tanta coragem e heroicidade, de crenças muito sólidas e uma tenacidade de aço. Nenhuma dificuldade conseguia amedrontar-lhe o ânimo, nenhum perigo era capaz de o fazer vacilar, não obstante ser diabolizado pelos Jornais da Direita. Nada, porém, conseguia quebrantar a tenacidade do apóstolo, entre nós, da libertação. Foi o que sucedeu na realidade. A partir dessa época os acontecimentos precipitaram-se porque a corrente já era muito impetuosa e a onda tornara-se tão alta que galgava sem custo todos os obstáculos. No momento em que entrava para Sofala a fim de proceder com a presidência aberta, ordenava a invasão de Sadjungira, a 21 de Outubro daquele ano. As Forças Armadas fizeram tudo o que esteve a seu alcance para evitar danos humanos, tendo usado, para o efeito, um amplificador de som que, à distância, comunicava «saiam, retirem-se, apenas queremos a base». O chefe, com os seus acólitos, retiraram-se sem oferecer resistência. Durante a fuga – isto me contaram no terreno - havia ordem para que ninguém usasse celular, mas um dos fugitivos acabou sendo apanhado a telefonar e, de imediato, foi considerado espião. Para salvaguardar os interesses do grupo pagou com a própria vida, mas o anúncio da sua morte viria dos próprios colegas em 25/10/2013. Ele era um deputado que na altura dos acontecimentos devia estar na Assembleia da República, como dissera o Ministro José Pacheco. Falei demais, continuamos amanhã, netinhos! Ide dormir.

sábado, 19 de abril de 2014

Guebuza, homem certo na hora certa



Por vezes a História faz o homem, em vez de o homem fazer a História. O nosso tempo está replecto de perigos, mas, felizmente, temos o homem certo para nos proteger. O texto abaixo foi escrito para ser lido em 2030, sobre o actual momento.




Os perigos vinham de todos os lados. Os disparos de metralhadoras haviam voltado pela mesma mão de há duas décadas. Já fluíam as conversações tendentes a minimizar o clima de tensões. E todo o diálogo obedecia ao objectivo de apressar a obra de progresso, que tínhamos a nosso cargo, e de melhorar, sucessivamente, as condições dos moçambicanos, na paz. Por toda a parte se desenvolvera então a ambição dos inimigos da Frelimo. A Renamo resolvera apossar-se do poder, embora para o conseguir tivesse de afrontar os princípios de justiça e de esquecer os deveres duma aliança de décadas, à sombra da qual obtivera sempre assinaladas vantagens. Apresentou o princípio de Paridade para equilibrar as coisas na Comissão Nacional de Eleições, porque «a intolerância política, a exclusão, o aumento da pobreza e das desigualdades foram amplamente apontados como sendo parte das possíveis causas do conflito[1]».




Os que cobiçavam a felicidade dos frelimistas adquiriram deste modo uma arma poderosíssima para combaterem ali a influência da Frelimo e poderem guiar os moçambicanos ao sabor dos seus interesses. Souberam aproveita-la, sem sombra de escrúpulos. Por todo o sertão de Gorongosa, e principalmente em Moxungue, instalaram-se alguns lunáticos, possuidores de largos recursos materiais, contra os quais as nossas reduzidas forças ali estacionadas em constantes movimentos mal podiam lutar. Dos órgãos de comunicação social surgiram homens empenhados quase exclusivamente em desenraizar do coração dos moçambicanos o amor a Pátria e em os levantar, em som de guerra, contra a sua liderança. O espirito de rebelião lavrou intensamente, como uma queimada que se propaga através dos campos duma floresta virgem, em grande parte, do nosso país. Mas mais uma vez, Guebuza provou que é dos que acobardam facilmente e soube, em todas as conjunturas, arcar com as suas responsabilidades. Foi um ciclo heroico, em que o homem de que me ocupo, auxiliado eficazmente pelos homens que ele escolheu, escreveu de novo, com o seu suor e o seu sangue, páginas das mais belas de coragem e de patriotismo.




Naqueles dias os renamistas continuavam a emboscar as viaturas como se fossem animais incapazes de regular as suas acções e destituídos da razão e campeavam desassombradamente nas florestas, matando homens e mulheres, crianças e velhos suspeitos de apoiarem o regime, sem leis que lhes impedissem as infames práticas, e considerando-se até como beneméritos, vangloriando-se da benéfica influência que diziam exercer na Grande Gorongosa. Até 11 de Abril de 2013 haviam morrido oito pessoas[2]. O seu chefe, continuava ali, num local chamado Sadjunjira, a dar conferências de dia e a armar ciladas de tomada do poder pela força nas noites. Em 3 de Abril de 2013, em Moxungue, seis polícias revestidos da autoridade moral para proteger a área foram mortos, a mando do chefe que nas próprias palavras «para salvaguardar a sua vida, a única solução que teve foi de dar ordens aos seus homens para responderem pela mesma medida, atacando o posto policial», tendo considerado os ataques a viaturas, assassinatos de civis e saque de bens de viajantes registados na EN-1, de «acidentes de percurso». Vai ser um dilema difícil para os demónios quando tentarem encontrar um lugar adequado para a alma de quem mandou matar de forma deliberada.




Pouco tempo depois, em 17 de Junho daquele ano eram invadidos um Paiol das FADM na estrada de Inhaminga, e outro Paiol, entre Derunde e Muanza. O saldo de mortos nos dois incidentes às mãos da Renamo era de 13 militares. Era preciso dar-lhes batalha formal, fossem quais fossem os inconvenientes políticos que resultassem da extinção dessa iniquidade, afrontosa para todos os princípios democráticos. A essa missão, tão digna das almas bem formadas, dedicou-se o espírito cavalheiresco de Guebuza, homem intemerato da causa liberal, lutador insigne, de tanta coragem e heroicidade, de crenças muito sólidas e uma tenacidade de aço. Nenhuma dificuldade conseguia amedrontar-lhe o ânimo, nenhum perigo era capaz de o fazer vacilar, não obstante ser diabolizado pelos Jornais da Direita. Nada, porém, conseguia quebrantar a tenacidade do apóstolo, entre nós, da libertação. Foi o que sucedeu na realidade. A partir dessa época os acontecimentos precipitaram-se porque a corrente já era muito impetuosa e a onda tornara-se tão alta que galgava sem custo todos os obstáculos. No momento em que entrava para Sofala a fim de proceder com a presidência aberta, ordenava a invasão de Satungira, a 21 de Outubro daquele ano. As Forças Armadas fizeram tudo o que esteve a seu alcance para evitar danos humanos, tendo usado, para o efeito, um amplificador de som que, à distância, comunicava «saiam, retirem-se, apenas queremos a base». O chefe, com os seus acólitos, retiraram-se sem oferecer resistência. Durante a fuga havia ordem para que ninguém usasse celular, mas um dos fugitivos acabou sendo apanhado a telefonar e, de imediato, foi considerado espião. Para salvaguardar os interesses do grupo pagou com a própria vida, mas o anúncio da sua morte viria dos próprios colegas em 25/10/2013.




O combate tinha de ser muito rude, porque, do outro lado da barricada, estavam prontos para se defenderem até a última extremidade todos os que tinham interesses ligados à odiosa Frelimo e perfilhavam a crença geral e enraizada de que só uma guerra marcaria o fim do regime. Para se avaliarem as resistências erguidas contra o esforço de Guebuza de estabelecer um verdadeiro Estado de Direito basta lembrar que dezenas de organizações que se diziam ser da Sociedade Civil levantaram as suas vozes criticand-o e atenuando afrontar directamente a Renamo, o cancro da paz, o que fez com que o porta-voz da presidência, Edson Macuacua, se pronunciasse amargamente nestes termos: «É de facto estranho que quando as Forças de Defesa e Segurança, que têm legitimidade e legalidade para actuarem em defesa da segurança do Estado, actuam, dirigentes das organizações da sociedade civil aparecem frenéticos com discursos inflamatórios de condenação. É caso mesmo para perguntar, a quem servem estes dirigentes das organizações da sociedade civil? Qual é a agenda destas organizações? Parece que perseguem objectivos e agendas inconfessáveis, contrários aos interesses nacionais”. CanalMoz, 28/10/2013




E o exército continuou a dar o golpe de morte das bases da Renamo espalhadas pela savana atirando para o exílio os homens que nelas faziam a sua vida obscura, organizando os mais cruéis métodos de morte. A Renamo avançara para o Sul, na província de Inhambane, na esperança de fazer estremecer os alicerces do regime; mas nenhum obstáculo seria capaz de atemorizar o espírito de Guebuza ainda no momento em que os tratadistas mais eminentes e partidários do regime consideravam Dhlakma insusceptível de trabalhar para a paz a não ser pela coacção e pela força. Quando era geral a convicção de que o Presidente da República é que era arrogante, Guebuza, na sua prontidão admirável, proclamava já o mais nobre princípio, aquele a cuja aplicação se deveram os mais belos resultados da convivência política moderna, o diálogo, sintetizando-o nestas palavras: Estou disposto a conversar com o presidente da Renamo. Fê-lo sem perder de vista que aos homens da Renamo era preciso dar-lhes completa segurança de pessoa e propriedade para se desenvolver entre eles a instrução, criando-lhes escolas numerosas e hospitais, abrindo-lhes vias de comunicação que facilitem as transacções comerciais e pelas quais a força armada pudesse marchar sem embaraço para manter a ordem pública ou para repelir agressões estranhas. Havia convicção inabalável de que por estes e por outros meios que se empregariam, se faria aumentar as necessidades dos renamistas, as quais estimulariam os mesmos a buscar pelo seu trabalho meios de as satisfazer. Quem pensava deste modo não poderia deixar de honrar as suas opiniões, trabalhando quanto em suas forças coube para conseguir a completa emancipação do adversário. Mas a Renamo continuava defendendo a sua ideia de Paridade nos órgãos eleitorais.




E passando das palavras aos factos, em 24 de Abril do mesmo ano, apresentava argumentos cuja aplicação resultaria na criação de um grupo de negociações que se convencionou de diálogo. A atmosfera nacional não estava ainda bem preparada. Os interessados, no estado de coisas estabelecidas, possuíam poderosos meios de influência e não queriam declarar-se vencidos, por isso, tudo fizeram para criar impasses. Guebuza não era homem para desanimar e ainda menos para desistir e logo, na semana seguinte renovava o apelo de negociar com o Senhor Dhlakama. Apesar disso, as suas ideias de uma revolução sem sangue continuavam a encontrar uma viva oposição. Viu-se forçado a criar ambiente propício para o diálogo, não num hotel de luxo mas no Centro de Conferências, para que ele pudesse triunfar.




Os renamistas, pelo seu lado, não se resignavam a perder os seus interesses, nem queriam sujeitar-se à derrota, apesar de a sentirem próxima. Acoitaram-se em Inhaminga, onde o domínio das forças armadas não estava ainda solidamente firmado e abriram ali, com o máximo impudor, sucursais escandalosos de treinos militares onde a miúdo eram vendidas, em ignóbil leilão, as almas dos jovens recrutados à força na cidade da Beira, recrutas prontamente atribuídos às forças armadas convencionais. A esse degradante espectáculo só meses depois é que se pôs um termo, precisando o Governo para isso de organizar uma expedição e conseguindo então que as forças armadas desactivassem algumas bases.




As campanhas de Gorongosa, de Inhaminga e de Moxungue, contra os inimigos numerosos e escondidos, incitados, instruídos e municiados pelos que queriam, acima de tudo, derruir o nosso domínio, ficaram famosas entre as mais notáveis campanhas de todos os tempos pela rapidez de execução, castigo exemplar dos rebeldes e forma completa como atingiram o seu objectivo. As FADM foram duras no castigo, mas combateram sempre com nobreza e lealdade que, submetidos os renamistas, jamais os perseguiram com represárias cruéis. Terminados os combates, esqueciam-se do mal que eles, obedientes joguetes de ambições alheias, os quiseram causar. O compromisso das FADM aos renamistas, combatendo no fundo as suas tendências para a ociosidade e o seu amor à inércia e à matança, que levava muitos deles a viverem exclusivamente da mulher, não receava confrontos directos, caso fosse preciso.




E o que é oportuno frisar é que a guerra de autodefesa que as forças armadas moviam contra o extermínio do povo era mal vista pelos adeptos da Renamo que já se orgulhavam de ter um defensor mais fortes, capaz de submeter a temida Força de Intervenção Rápida. Nessa ocasião, os apologistas silenciosos da violência viram com manifesta má vontade o enérgico correctivo que as forças infligiram aos criminosos de Moxungue trocando a esse respeito uma demorada e azeda correspondência facebookiana entre si; desaprovando o que as FADM haviam feito e criando-lhes depois dificuldades à ocupação dos espaços, que indiscutivelmente lhes pertenciam. E mais tarde, a as FADM não hesitavam em enxovalhar a Renamo da maneira mais civilizada obrigando-lhe a restituir-lhes as bases. Isso não impediu que ela, abusando da sua força, sujeitasse as populações à humilhação a que me referi e que fez brotar dos lábios de Gabriel Muthisse as frases mais belas e de mais rubra indignação de quantas constituíram a glória da sua missão: «a Renamo tinha que enterrar o machado da guerra». O diálogo com esta organização classificada como «terrorista» por Gustavo Mavie, foi um trabalho portentoso de inteligência, de continuidade e de confiança nos nossos destinos. Um trabalho de ingente preparação e, ao mesmo tempo, de realizações imediatas, tanto que fomos nós os primeiros que abrimos às portas ao diálogo nacional e sem interferências externas nesta parte de África.







[1] Egidio Chaimite, indignai-vos, IESE, 26 de Fevereiro de 2014.


[2] (JN, 11 de Abril de 2013).

Esta Renamo será derrotada

Há pessoas que continuam a louvar, por força do hábito ou da prática, aquilo que está errado, quando a Renamo priva, mata, destroi e pretende entrar para o Governo por vias ilegais. Um país que, para realizar eleições, precisa de ajudinha de fora pode estar à beira de uma incerteza eleitoral, se a situação político-militar continuar. É verdade que se fala de que com a Renamo ou sem ela haverá eleições a 15 de Outubro. Contudo, a sensatez apela incerteza, porque o comportamento dos doadores poderá ser determinante, se condicionarem a ajudinha aos avanços nas negociações e no terreno. Os acontecimentos das últimas horas no Centro do país não deixam margem para dúvidas. A Renamo move-nos, a nós moçambicanos, uma guerra injusta. Os preparativos da guerra que já cobrem o nosso solo obscurecem o nosso futuro. Ela mostra-se tão relutante à reconciliação que é necessária a força para recuperar a nossa dignidade. Não nos iludamos, senhores! A sua nova exigência de querer nomear o comandante das Forças Armadas e de Segurança mostrou a sua natureza belicista.
Ela – é histórico – luta para destruir o regime, desde 1976, e os 20 anos de paz de que se serve para mostrar o seu lado pacífico foram à custa de chantagens e muita paciência da parte do Governo. Igualmente ficou claro que o princípio da PARIDADE era o implemento de guerra e subjugação, o derradeiro argumento a que a Renamo recorreu para impressionar a opinião pública nacional e internacional. A sua exibição marcial tem um propósito de forçar-nos à submissão e as suas rajadas destinam-se a nós, como um povo. As suas forças nascidas do negro regime do Apartheid foram enviadas para prender e manter sobre nós, os moçambicanos, as grilhetas que as forças estranhas vêm forjando há tanto tempo. E o que o Governo tem para lhe opor? Tentar argumentar e fazer concessões absurdas? Senhor, há mais de três décadas que o vem tentando. Tem algo de novo a avançar sobre o assunto? Nada. O Governo já o analisou sob todas as vertentes, mas tudo foi em vão. Recorreu à medidas de excepção revendo uma lei eleitoral que não tinha dois anos de existência. Que termos encontrará que não tenham já sido esgotados? Deixemos de nos iludir.
O Governo fez tudo o que estava ao seu alcance para evitar a tempestade que agora se aproxima. Enviou petições para que Dhlakama viesse à mesa de negociações, implorou a sua intervenção para deter as mãos tirânicas dos seus guerrilheiros. As suas petições foram desdenhadas, a sua paciência produziu violência e insultos acrescidos, as suas súplicas foram ignoradas e os seus apelos ao diálogo construtivo foram repelidos, com desprezo. Depois de tudo isto, é inútil entregarmo-nos a alegre esperança de paz sem violência. Já não há lugar para esperança. Só nos resta o apelo ao Deus das Hostes. Somos mais de vinte milhões de almas empenhadas na sagrada causa da nossa liberdade. Somos invencíveis por qualquer força que o inimigo possa enviar contra nós. Desde 1976, repito, desde 1976 que a Renamo tem lutado contra o Estado Moçambicano e é o momento de dizer «basta». É tempo de civilizar a Renamo e, caso ela se recuse, há que procurar antídotos propícios para que deixe de matar inocentes. Nesta missão, acreditem, não travaremos as nossas batalhas sozinhos. Existe um Deus justo que preside aos destinos das nações. Ele providenciará amigos para travarem as nossas batalhas por nós.
E a Renamo será derrotada e porque não extinta!!!, a não ser que reveja a sua postura. A luta não pertence apenas ao esperto. Pertence ao vigilante, ao activo, ao corajoso. Não temos escolha. Agora é tarde demais, para que continuemos a assistir ao somatório de mortes, de refugiados, de destruições. É inútil, senhor, atenuar o assunto. Os nossos irmãos já se encontram no campo de batalha, porque permanecemos nós aqui inactivos? Será a vida tão valiosa, ou a paz tão doce, que possa ser comprada com grilhetas e escravatura? A massa de vícios que a torrente dos ataques misturou indiscriminadamente com as virtudes cívicas, faz-me tremer com medo de parecer manchado aos olhos da posterioridade pela impura vizinhança daqueles homens perversos que se insinuaram nas fileiras dos sinceros defensores da democracia, quando na verdade a única coisa que lhes interessa é dividirem o país como um saque em vez de o tornarem próspero. A fúria que os anima contra tudo o que se opõe aos seus projectos traça a linha delimitadora entre eles e todas as pessoas de bem. Se eles estão suficientemente avançados na carreira do crime, que saibam: existe, no país, um testamento formidável para os opressores do povo!

Pedro, MHRIC

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A dupla GP e a sua Obra


Há uma tentativa de denegrir as imagens de Armando Guebuza, Presidente da Frelimo e de Filipe Paunde, seu Secretário Geral. Nesta onda saudosista, os críticos em conluio com alguns frelimistas fazem-se de esquecidos ou ignoram os factos. Quando a dupla GP assumiu a liderança da Frelimo, esta formação política saía do pântano político para onde a Renamo-UE a havia lançado. Com Guebuza e Paunde a robustez partidária voltou; não só reorganizaram o que estava errado, como também deram um novo impulso ao funcionamento do partido dos camaradas numa cruzada que envolveu o teste de vontades e ideias; teste de firmeza espiritual aos valores defendidos pela Frelimo, às convicções dos seus membros e aos ideais que perseguem. Foi um tempo incerto em que o partido estava cheio de pessoas ambiciosas a estragá-lo, nem que para isso fosse necessário colaborar com o adversário. Já muitas vezes me questionei sobre a timidez de alguns de nós em defender a honra de quem a tem por mérito próprio. Foi graças a uma liderança forte, tempo e um bocado de esperança, que as forças do bem acabaram por recuperar e triunfar sobre o mal. Vou usar a expressão de um amigo de infância, Damião Paulo, exprimida aquando da divulgação dos resultados eleitorais de 2004: «com Guebuza a Frelimo recuperou os sentidos». Pois bem. Deixemo-nos de tibiezas e assumamos a verdade como ela é. Digamos ao país que a dupla GP mostrou a todos que na Frelimo uma nova era é não só possível, como também provável.

Durante os dias negros da cruzada do Apartheid na Matola, e quando este país estava ao rubro de coragem, Samora Machel exclamou, referindo-se aos inimigos de Moçambique: «que venham; que espécie de pessoas pensam eles que somos?». Os defensores do Apartheid, hoje camuflados de democratas e que tudo fazem para aldrabar o povo, acabaram por descobrir que homens extraordinários estavam na Frelimo. Mas o nosso exército pagou o preço terrível por esses democratas de hoje terem permitido aos ditadores do Apartheid que subestimassem os nossos líderes. Não nos atrevemos a cometer o mesmo erro outra vez. O erro de desvalorizar as lideranças. Por isso, que o frelimistas se perguntem a eles próprios: «que espécie de pessoas pensamos que somos?» E respondam, sem receio: «Pessoas dignas de respeito, determinadas não só a permanecer respeitadas, mas também a ajudar outros a conquistar o seu respeito, a sua honra e a sua dignidade». Samora conduziu o seu povo a uma grande vitória contra o Apartheid, mas perdeu a vida quando os frutos da sua luta iam começar a ser saboreados. No entanto, morreu com dignidade e, como se viria a verificar, deixou um legado, sabendo que a liberdade do seu povo era mais importante do que o destino de um líder. A história recorda a sua grandeza em termos aos quais nunca nenhum dos democratas camuflados de hoje terá direito. E ele deixou uma mensagem de esperança no futuro, tão oportuna agora como na altura em que ele a formulou, há quase trinta anos, ao dizer: «quando olhamos para o passado e vemos todos os perigos por que passamos, os poderosos adversários internos que derrubamos e os negros e mortíferos desígnios que frustrámos, por que razão haveríamos de ter medo do futuro? Sobrevivemos ao pior?
Assim será com esta dupla GP. A Frelimo deve-lhe uma dívida que não será saldada, porque a tarefa que propuseram perdurará muito depois da nossa geração. Fizeram juntos um grande esforço para proteger o melhor – uma cruzada pela liberdade que necessitará da fé e da força moral da próxima geração. Eles, como pessoas, cometeram os seus erros, mas moldaram a história que pertence à Frelimo, mas os princípios que incarnam pertencem a todos os moçambicanos. As grandes recordações do povo permite-lhe grandes esperanças no futuro. Pela primeira vez, dizia há pouco tempo um amigo, Guebuza e Paunde sentem que podem legar qualquer coisa ao país. Creio que o país sente que pode receber alguma coisa de Guebuza e Paunde».

PS. Passei grande parte do dia de ontem com Lazaro, e juntos fomos visitar a família cujo drama reportei. Ele e amigo ajudaram aquela família a sorrir. Grato Amigo!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Na véspera de uma oportunidade

Ultimamente, no Centro de Conferências «Joaquim Chissano», as rondas de diálogo têm tido resultados satisfatórios entre o Governo e a Renamo. No começo da semana, enquanto se negociava a paz, Muchanga, em nome da Renamo, proferia ameaças contra o Estado, prometendo uma insurreição generalizada. Quando a Renamo assim fala é porque está apertada e o faz como grito de socorro. As declarações feitas falam por si. Negociar a paz não é fácil, nem para o Governo, nem para a Renamo, nem para as vítimas directas da guerra que observam este momento com uma grande esperança mesclada de apreensão. Não é certamente fácil para as famílias das vítimas da violência e do terror da guerra, cuja dor nunca será mitigada, nem para os muitos militares que defenderam o povo sozinhos e até sacrificaram as suas vidas pelas do povo. A experiência de um mês nas zona de conflito provou-me ser a Renamo, e sempre ela, quem inicia com as hostilidades. Um militar, lá nas montanhas, disse-me a mim e ao meu companheiro de viagem, que é normal para a Renamo atacar as forças armadas com único objectivo de conseguir munições para a caça o que implica haver baixas do lado do exército. E as forças convencionais nada fazem senão reagir contra o agressor pois, como disse Américo Matavele, nenhuma arma cuspe rebuçados. Nalgumas regiões por onde andei foi a Renamo quem demarcou limites como se de uma autoridade suprema se tratasse. Na Casa Banana as forças armadas não podem aproximar-se do limite mas, sempre que a Renamo o deseje, ultrapassa o marco que ela própria colocou atacando as forças alí estacionadas. Lembrei-me de um soldado que conversou comigo nas cercanias da Casa Banana, dizendo-me que o único desejo que tinha era que a guerra acabasse antes que eles – os soldados – acabassem. Quando passei pela segunda vez no mesmo local, para saudá-lo e dizê-lo que já havia sinais de paz, os amigos de armas disseram-me que tinha sido morto no último ataque da Renamo. Para ele, estes dias e estes sinais chegaram demasiado tarde! Hoje, na véspera de uma oportunidade recordo-me dele com um amor eterno.


Aqui vos digo, senhoras e senhores, que não serve de nada recusar reconhecer ao exército o seu direito à auto-defesa, tal como o seu direito a defender a soberania. Admiro, como pessoas vivendo em países civilizados acham normal que tenhamos um partido armado; um partido que chantagea o próprio Governo para forçá-lo a comprar a estabilidade. Vou cometer a indiscrição de vos contar que um dos meus ajudantes de campo me contactou a altas horas da noite, depois de eu ter regressado de Maringue, e me perguntou , num tom algo preocupado: «senhor historiador, qual seria a sua atitude se os guerrilheiros da Renamo lhe endereçassem um convite?». Respondi-lhe calmamente: «aceitá-lo-ia imediatamente. Fiz um compromisso pessoal de que irei até ao fim de Gorongosa. Irei a Satungira, porque quero apresentar todos os factos com conhecimento de causa». E aí, o meu ajudante disse-me: «aí fora estão eles». Naquele momento, todos baixaram os rostos, menos eu. Ninguém conceberia nunca que um simples Historiador e não Jornalista, que carrega o fardo menos pesado e menos responsabilidade no que diz respeito à questão da guerra e da paz e até das notícias, fosse declarar estar pronto a encontrar-se com aqueles homens enquanto ainda nos encontrávamos em guerra. Sai e saudei-os despreocupadamente: «Sou Historiador, trabalho para a Universidade Pedagógica de Moçambique. Vim a Gorongosa, a antiga capital da guerrilha. Sei que vocês não desejam a guerra, mas os frutos da paz. Vim de Macodza, uma terra angustiada e sofredora cujo povo, desde há mais de 9 meses, não conheceu um único mês, uma única semana, um único dia, uma única hora, em que mães não tenham chorado pelos seus filhos e pelos filhos de seus vizinhos. Neste ponto, gostaria de ir à questão principal que me levou a vir a esta terra rica em tudo: como poderemos conseguir uma paz duradoura baseada na honestidades das intenções? E fiz outras perguntas interessantes! E tenho muito orgulho em visitar as zonas afectadas e conversar com todos, sem receio. Há 22 anos, dizia-se com orgulho: a guerra acabou. Hoje, no mundo da liberdade, diz-se com apreensão: queremos a paz.


Aqueles homens mostram-se agastados com a sua condição de vida e esperam, tal como o meu amigo morto, que a guerra termine: «nós também morremos» disse-me um deles para o outro concluir que «os números das nossas baixas não são revelados a mando dos nossos comandantes». Aqueles homens confiam no Governo que reconhecem e esperam dele uma resposta capaz de devolver-lhes a dignidade. Enquanto conversavamos, apareceu-me uma miúda que disse ter sido violada por um homem de armas e viu o seu noivado terminado, porque o outro não quis compreender a violência a que a companheira fora vítima. No meio deles perdi lágrimas, não de tristeza pelas histórias contadas mas, por ver-me incapaz de pôr fim às hostilidades para que os filhos deles e os filhos dos seus filhos não voltem a sentir o doloroso custo da guerra: a violência e o terror. Chorei por ver-me incapaz de proteger quem quer que fosse e aliviar a alma e as dolorosas memórias que os atormentam. Apenas rezei na esperança de uma paz futura próxima, convicto de que nós, moçambicanos de todas as cores políticas, estamos destinados a viver juntos no mesmo solo, na mesma terra. Em Canda, vi soldados que regressaram das batalhas, manchados de sangue. E conversei com alguns deles, com aqueles que viram os seus melhores amigos serem mortos à sua frente, pelas mãos da Renamo. Até trocamos contactos. Também vi os guerrilheiros da Renamo que assistiram aos funerais de seus familiares e não conseguiam olhar os presentes nos seus olhos. Fui de Maringue, uma terra onde os pais enterram os filhos, onde a comida apodrece no celeiro enquanto o dono passa fome no mato. E de lá tive que carregar na memória um aviso feito por um guerrilheiro: «não queremos cercar a Frelimo nem queremos ser cercados por mísseis destrutivos prontos a serem lançados, nem pelos projécteis do rancor e do ódio quando a guerra acabar».


O que me impressionou em ambos os beligerantes e sobreviventes da catastrofe é que não possuem desejo de vingança. Apenas obedecem ordens. Não guardam ódio uns contra outros porque acreditam que todos são pessoas – pessoas que querem construir um lar, plantar uma árvore, amar e viver ao lado daqueles que lhes tiraram a vida de amigos, como seres humanos. Os soldados dão uma oportunidade à paz e dizem repetidamente: esperamos para que chegue o dia em que todos nós digamos adeus às armas. É verdade! Eles desejam abrir um novo capítulo no triste livro de suas vidas em comum com aqueles que retiraram a vida de seus melhores amigos. Os guerrilheiros da Renamo desejam um capítulo de reconhecimento mútuo, de boa vizinhança, de respeito mútuo, de compreensão. Por aquilo que vi nos integrantes do exército, a sua força interior e os seus elevados valores morais têm sido os correctos durante todo o tempo em que ficam ali. Não é por acaso que as pessoas, sempre que têm oportunidade, fogem da Renamo ao encontro deles. São valores retirados do livro dos livros. Num deles, lê-se: «há um tempo para tudo o que acontece sob o firmamento: uma hora para nascer e uma hora para morrer... uma hora para matar e uma hora para sarar as feridas, uma hora para odiar e uma hora para amar, uma hora para a guerra e uma hora para a paz. Com os estrondos das armas na minha memória, penso que chegou a hora da paz. Para aqueles lares já destruídos, acredito, espero e rezo para que os desenvolvimentos do que acontece na Joaquim Chissano tragam uma mensagem de redenção para todos nós e que a paz chegue aos seus lares. Temos que enfrentar a realidade com coragem porque a questão que nos arrastou de escaramuças em escaramuças, de vítimas para mais vítimas, até ambos chegarmos hoje à beira de um horrível precipício e um desastre aterrador é esta Renamo Armada. E, se o Estado Moçambicano quiser que esta situação continue por mais tempo assim será, a menos que, juntos, agarremos esta oportunidade e desarmar a Renamo já, para uma paz duradoura baseada na honestidade das intenções. Na tradição chewa, é costume pedir licença com a palavra Zikomo. Com a vossa permissão, homens de paz, concluirei com as palavras retiradas da tradição dos meus antepassados e recitada diariamente quando se está prestes a fazer um pedido e o meu pedido é a paz: Zikomo.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A Paz Futura

Escrevo a partir de Maringue. Vim, unicamente, testemunhar os horrores da guerra: casas abandonadas, lares destruídos, mulheres enviuvadas, filhos órfãos, rostos desesperados e sem perspectivas quanto ao futuro. Toda uma vida edificada em 21 anos foi destruída em menos de uma semana e, por aquilo que vejo, os próximos meses, vão continuar a ver o desenrolar do drama que, desde Abril de 2013, é seguimento da guerra a que se cuidou que a Paz firmada em Roma tinha posto termo. A persuasão falaz de que não mais se travaria conflito de magnitude comparável à que havia tido o de 1976/92, fez que se chamasse a este conflito «guerra pela democracia», e ainda hoje é corrente vê-lo designar assim. Contudo, pode já verificar-se, à luz das realidades, que a guerra que pareceu, em 1992, findado, não era a maior de que o país podia ser teatro, e é possível verificar-se também que, em 1976, o que principiou e não teve ainda interregno, foi antes a transformação rápida com que se pretendia sair do colonialismo ao país independente. A convulsão que tem sorvido dezenas de vidas e devorado já a riqueza como jamais o país vira acumuladas, dura há nove meses.
Se não houver travões contra a animosidade que move os falcões de guerra, muito mais vasta e profunda terá, sem dúvida, de ser aquela a que assistimos, e os nove meses já volvidos após ela haver encetado a sua marcha arrasadora de princípios, normas e instituições consideradas antes como assentes para todo o sempre, porventura marcam somente os primeiros passos da mudança para que o país caminha, através de acontecimentos cuja natureza e alcance hão de ser de cada vez mais extraordinários e subversivos. A nova guerra deflagrada em 2013, e cuja razão aparente foi a invasão da sede da Renamo em Moxungue, é já, nesta hora, a luta de duas forças pela sua hegemonia no país. As FADM e FIR de um lado e os guerrilheiros da Renamo, por outro, disputam, com efeito, a missão de a comandar. Mas para lá dos horizontes que limitam os campos de batalha e dos objectivos das forças que dirigem a guerra, já despontam, claramente, outros objectivos, sustentados por circunstâncias porventura mais fortes ainda, porque, sobrepondo-se aos interesses das forças em luta, representam aspirações espirituais e económicas, irreprimíveis e indomináveis, dos homens que essas forças aglomeram e aglutinam. Até aqui é cedo para dar razão a uma das partes, encontrando-se todas elas na fase da mobilização da opinião pública para que ela esteja do seu lado. E também é cedo para prever se o desfecho da guerra será pela derrota de uma das partes. Às aspirações que adquirem consistência crescente na consciência colectiva, e cuja justiça é inegável, é que pertencerá a última palavra, se não na guerra, com certeza na Paz, para ela poder ser verdadeira e profícua.
Se a inteligência e a previsão esclarecida dos homens que não souberam evitar a guerra e a dirigem agora, e, sobretudo, a inteligência e previsão daqueles que um dia hão de construir os alicerces da Paz não tiverem em suprema conta que, para além das forças que lutam, existem milhões de moçambicanos que iniquidades e desequilíbrios económicos e sociais afligem progressivamente, à guerra de sobrevivência que ora devasta Gorongosa, Maringue, Moxungue e ameaça Inhambane, sucederá, como flagelo maior ainda a escala nacional. Quando voltarão os homens capazes de firmar a paz nos tratados e nos espíritos e não somente a paz para a preparação de novas guerras, paz que dure, ao menos, também 21 anos? É o que a ninguém, por enquanto, é dado prever ao certo.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Despartidarização e Inclusão na Unidade Nacional

 
A agitação que se verifica actualmente nalgumas mentes dá razão à Kennedy, o presidente americano dos anos 60, quando disse que «quando uma sociedade livre não é capaz de ajudar os muitos que são pobres, não pode salvar os poucos que são ricos». Existe uma ideia generalizada mas compreensível de que a Frelimo, partido no poder desde 1975 e que representa apenas uma parte de forças políticas nacionais com apenas meia ideia sobre cada assunto, assumiu o controlo absoluto de tudo o que se passa sobre o país. Nas negociações levadas pela Renamo para junto do Governo, consta a despartidarização como um dos quatro pontos de maior relevo, ao lado da Paridade, da Economia e da Segurança. Fala-se de um Estado Partidarizado e da urgência da sua despartidarização. Tenho defendido a inclusão como meio-termo para reduzir as animosidades nesta questão. De facto, o Presidente Guebuza, na maioria dos comícios populares que orientou, enfatizou a inclusão e até chamou de inclusivas as suas viagens aos vários cantos desta pérola do Índico. Será a inclusão uma realidade na administração de Armando Guebuza?
 
Dependendo do ângulo a partir do qual se observe a realidade uns dirão «sim» e outros dirão «não». Esta é exactamente a dificuldade com que nos debatemos hoje em dia. Os críticos de Guebuza dizem que temos poucos exemplos de inclusão na verdadeira acepção da palavra: o que existe são apenas muitos reflexos, variações e diluições de elementos da oposição na administração pública e, quando estes se revelam abertamente, são forçosamente afastados das direcções, dos locais de trabalho e mesmo despedidos do emprego. Acrescentam que para conseguir conquistar uma posição na sociedade, o funcionário público deve parecer-se o mais possível com os ideais de quem governa, reflectir as suas ideias, opiniões, virtudes, motivações, preconceitos e vícios. E concluem que as características técnicas e a competência profissional são ignoradas e reprimidas devido à dependência, pois enquanto for o Governo a alimenta-lo, diga-se, ele tentará agradar ao dador e adaptar-se às suas condições. Todavia, a experiência e os exemplos recentes mostram que um funcionário assim mantido utiliza meios indirectos – como o voto – para se controlar, desenvolvendo exactamente, na maioria dos casos, as características que em ambos necessitariam de ser eliminadas. Não é de admirar que mais tarde, alguém fique horrorizado com os resultados dos seus próprios excessos e lamente amargamente que a falsidade, o egoísmo, a traição e os insultos à sua entidade sejam a lei da vida. E nestas condições não é possível combater a pobreza absoluta a qual exige de nós uma luta absoluta contra a pobreza implicando o envolvimento de todos e a primazia da técnica e do profissionalismo.
 
É chegado o tempo de ver tudo sob o prisma da prática, senão todo o esforço verbal é uma simples cabeça no ar. E aceitar as coisas como são, tirando-lhes o melhor partido possível. Esta hora exige um novo Evangelho da Unidade Nacional que exalte a pureza da inclusão independentemente da cor partidária para elevar o país a planos superiores de acção. Há muitas pessoas no país que realmente não compreendem, ou dizem não compreender, qual é a grande questão entre a partidarização e a inclusão. E há quem diga que a inclusão é a onda do futuro enquanto a partidarização pertence ao passado. Eu defendo inclusão! A inclusão também dos quadros da oposição em todas as esferas públicas – desde que aceitem – como primeiro passo. À Renamo, cujas preocupações parte do povo partilha, é necessária uma promessa da lealdade de amigos fiéis porque unidos, é muito pouco o que não podemos fazer no quadro de inúmeros desafios de hoje. Divididos, pouco podemos fazer. Aos outros partidos basta recordá-los que, no passado, todos aqueles que insensatamente procuraram o poder montados num tigre acabaram dentro dele. Ao povo que, nas matas e aldeias do país, luta para quebrar os grilhões do engano, é preciso envidar os maiores esforços para o ajudar a ajudar-se a si próprio, durante o tempo que for necessário – não porque a oposição o possa estar a fazer, não por interesse nos seus votos, mas sim porque é atitude correcta.
 
Tudo o que for feito para elevar a confiança de cada moçambicano nas suas próprias forças e competências promoverá uma nova época de paz e perfeição para a nação. Quando falo da inclusão, não quero que pensem que apenas limitar-me-ei na teoria. Mas também não quero que pensem que defendo o Governo de Unidade Nacional ou, na pior hipóteses, dividir para reinar. Pretendo, num espírito puro, mostrar que é possível evitar a existência de tribos renegadas que vejam no Governo e nos governantes a face da opressão ante a nova epopeia do realinhamento das identidades. Tomemos o exemplo de Sofala, terra que viu a nascer Afonso Dhlakama, a face visível da oposição nacional. O que pode acontecer se Armando Guebuza nomear Dhlakama como Governador desta província? Iria Dhlakama recusar ou aceitar e como ficariam os seguidores da Renamo e provavelmente das outras forças políticas incluindo da própria Frelimo? Na verdade, um gesto desta magnitude iria trazer benefícios mútuos e testemunharia o pico do que significa, na voz do pai da nação, a inclusão. Nesta primeira abordagem, refiro-me também à inclusão daquelas pessoas que são a face visível da Renamo, cujos argumentos e ideias mostraram serem competentes, entre as quais Ivone Soares, Fernando Mazanga, A. Muchanga, só para citar poucos. Imagino a cara de todos aqueles que conhecendo a minha postura ficaram estupefactos com a minha proposta e têm dúvidas quanto à sinceridade das intenções por detrás deste exemplo. Ninguém conceberia nunca que aos frelimistas preocupassem as vias de inclusão.
 
No Moçambique de hoje, com toda a sua agitação, assistimos a um esforço constante para desacreditar a Frelimo e destruir todo o equilíbrio de forças da sua grandeza: antigos combatentes, quadros seniores e cofundadores do partido, jornalistas, médicos, madjermane, cientistas nacionais, secretários de povoações e de bairros. Mas a História, qual mãe carinhosa, está constantemente a tentar mante-la no seu respectivo lugar, a apaziguar os furiosos ventos e vagas, para que a paz, a harmonia e a unidade da nação possam reinar supremas. Por isso, o nosso tempo exige já o alargamento da participação política da oposição e, no lugar de combater os críticos «internos e externos» acomodar-lhes as suas justas reclamações. A inclusão das figuras da Renamo na governação, longe de ser uma fraqueza e ameaça à hegemonia frelimista, representaria melhor o todo e protegeria melhor os argumentos de quem verdadeiramente é o garante da Unidade Nacional. E se um princípio de cooperação com a Renamo conseguir fazer recuar o ódio escondido na selva suspeita, que nos juntemos numa nova empresa de inclusão dos restantes partidos políticos, dos restantes críticos num país onde os fortes sejam justos enquanto os fracos estão em segurança e se preserva a paz. Não será possível realizar tudo isto em um ano, em um mandato, nem provavelmente durante as nossas vidas. Mas comecemos e unamo-nos para que em todos os lares deste país seja ouvido o recado de Jesus Cristo «na casa do meu Pai há muitas moradas».
 
Nas mãos da Frelimo, mais do que nas da oposição, está o sucesso ou o fracasso do nosso projecto como nação. Desde a sua fundação em 1962, cada frelimista tem sido chamado a provar a sua lealdade nacional. As campas dos que responderam à chamada estão espalhadas por todo o país. Agora, o clarim toca de novo – não em chamada às armas, embora precisemos delas, não para combatermos, embora estejamos em combate, mas sim para carregarmos o fardo de uma longa e sombria luta, ano após ano, alegres na esperança, pacientes no sofrimento, um combate contra o inimigo do nosso fracasso: a exclusão social e a elitização das oportunidades. Contra estes inimigos, forjemos uma aliança nacional que possa assegurar uma vida mais frutuosa para todos. Requer uma decisão histórica pois na longa história do Mundo, poucas foram as organizações políticas às quais foi concedido o papel de defender a sua sobrevivência na sua hora de maior perigo. Que a Frelimo não recue perante essa responsabilidade e não a deixe para os outros, pois mais cedo ou mais tarde ela será uma realidade e feliz será quem a puser em prática. Não acredito que algum de nós veja vantagens na exclusão político-social. A energia, a fé, a devoção que pusermos nesta empresa iluminará o nosso país e todos os que o querem servir e o brilho deste fogo poderá, na verdade, iluminar as vitórias futuras. Já não podemos arriscar improvisos de emergência na garantia da Unidade Nacional. Como nação, lutemos para sermos poderosos e estarmos prontos para entrar em acção, para que nenhum potencial agressor possa sentir-se tentado a arriscar a sua própria destruição. Que assim seja!!

Eusébio A. P. Gwembe