domingo, 31 de agosto de 2014

Unidade, Trabalho e Vigilância!

Rajadas ciclónicas sopram de vários quadrantes na tentativa de destruir pela raiz a Frelimo cujas linhas mestras de sua edificações algumas vezes foram cobertas pela argamassa de erros grosseiros, preço que a Humanidade paga na sua peregrinação pela Terra. Todas estas rajadas se filiam numa filosofia de agressão e de violência que sempre a Frelimo repudiou e que não podem conduzir a nada de perdurável. Todos sabem que ela odeia o tribalismo e defende a unidade nacional. A sua determinação a este respeito representa bem mais do que a garantia da independência, estágio político social entre nós já ultrapassado. Estamos no período eleitoral e precisamos de nos precaver dos vende-pátrias camuflados de patriotas. Estão aos montes com objectivo de criar caos e quebrar a nossa unidade. Nesta altura, em que o país entrou no período eleitoral, desejaria recordar as figuras mais representativas dessa nação. Figuras que edificaram o país no sentido que a alma popular ansiava: os libertadores da pátria. Completa-se neste Setembro meio século desde que eles foram obrigados a optar pela revolução de sangue, pelas circunstâncias do momento. Desejaria lembrar os mortos e os vivos, os mais notáveis e os mais humildes dos seus servidores, o povo inteiro, que foi suporte natural do sucesso, sem cuja adesão tudo seria difícil de realizar. Desculpai a referência neste momento e nestas circunstâncias a uma grata recordação que me assalta o espírito e que de algum modo me servirá de credencial quando a Frelimo, um dos melhores e mais organizados partidos de África, for reconduzido ao poder.

Desejaria recordar as forças armadas que garantiram a arrancada dessa fase e ainda recentemente se bateram nas serras da Gorongosa e em arvoredos de Moxungue, pelos seus supremos objectivos: a integridade da Pátria e o seu progresso. Desejaria recordar o mais alto magistrado da nação, Armando Emilio Guebuza, que na série das grandes figuras que ocuparam essa magistratura vem desenvolvendo uma actividade que o torna credor da nossa gratidão. Ele é o maior intérprete desta época da nossa História, a quem todos, como moçambicanos, devemos uma dívida que não se salda, até porque, sem ele, alguns críticos iluminados talvez já o não pudessem fazer nessa qualidade. Quero apresentar a ele a minha homenagem, na certeza de interpretar o sentimento de toda a população com quem cruzei e cujas histórias sobre ele ouvi com atenção. Acredito, para terminar, que os moçambicanos não vão passar por cima do preceito sagrado, segundo o qual a comida para os filhos não pode ser entregue aos porcos. Dirigir um país, como sabiamente foi sendo dirigido, não é tarefa para aventureiros, umbiguistas, intriguistas e, sobretudo, tribalistas. Recordemos que com a Frelimo, povoações que mal despontavam são agora grandes urbes. Estradas, aeroportos, caminhos de ferro, fábricas, centrais eléctricas, estabelecimentos comerciais, grandes fazendas agrícolas, universidades, escolas, hospitais, pontes, numa palavra, o progresso surge, irrompe por todos os lados e, apesar de tudo, cada vez com maior pujança.
 
 
De resto, honestamente, não se percebe como, quando e por quem deve ser exercido o poder, sem a Frelimo. Na verdade, se é certo que a oposição assentou no princípio de mudança, doutrina que não nos trouxe qualquer novidade teórica ou prática, absteve-se de estabelecer uma definição prática sobre como ela própria a materializa nos seus feudos, aliás uma administração danosa e inútil. Mas pretendeu de facto trazer um conceito fantasioso e nessa ordem de ideias faz de conceitos um programa político. Para nós, uma boa mudança dos nacionalistas aos tribalistas, seria, portanto, inaplicável, como tantas vezes tem sido dito e redito. Mas admitindo por mera hipótese, que assim não fosse, bastará uns tantos habitantes de determinado território segredarem na intimidade das suas casas ou mesmo na praça pública que desejam mudanças para se dever ganhar eleições?! Será razoável que missivas de uma ou de algumas dezenas de cidadãos dirigidas a uma praça, ou meia dúzia de tiros na Gorongosa ou uma insurreição fabricada possam pesar de tal modo que ponham em jogo o destino da Frelimo e, com ela, do pais? Será correcto, será justo, será sequer admissível que em nome das mudanças assim concebidas se destrua a unicidade da nação por meio de voto?
 
Vai para 20 anos que as populações do país realizam diariamente o mais autêntico, o mais eloquente e o mais exigente de quantos plebiscitos lhes poderiam ser pedidos para manifestação da sua vontade. Neste momento, qualquer mudança é má, perigosa e nociva. Podemos espreitar para os países que tentaram provar o veneno da mudança. Se não recuaram, estão estagnados, se não venderam o a soberania tiveram que recomeçar. Isso nos auxilia a interpretar o verdadeiro sentido e objectivos das supostas mudanças: substituição aparente do poder político e manutenção e extensão de zonas de influência sem responsabilidades da soberania, ou seja, um neocolonialismo de índole puramente materialista e neocolonial. Algumas pessoas que vivem em flats que graças a nacionalização a Frelimo lhes deu não sabem que caso haja mudança os proprietários de tais flats virão conforme o compromisso secreto orquestrado pelos partidos da oposição. Por outras palavras, diz-se que as coisas nacionalizadas deverão ser entregues aos donos, isto é, aos colonialistas ou aos seus descendentes, a troco de ajudas monetárias. Imaginemos quanto foi nacionalizado e quanto beneficio adveio disso. O progresso, como atrás me referi, processa-se a um ritmo verdadeiramente impressionante, nesta nossa terra. E porquê? Porque ao povo foi informado que a única forma de sair do retrocesso é pelo trabalho, pela auto-estima e pelo abandono da vida de mão estendida. Segundo narra o Génesis, Deus disse a Adão, depois do pecado original: “tirarás da terra o teu sustento com muitas fadigas todos os dias da tua vida. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que te tornes na terra de que foste tomado: porque tu és pó e em pó te hás-de tornar”. O homem expulso do paraíso, isto é, o homem entregue a si próprio, determinando-se por seu livre arbítrio, havia de edificar o mundo em que tinha de viver. Este penoso encargo constitui a história do nosso tempo. Unidade, Trabalho e Vigilância! E são estes princípios, são estes valores supremos que desde o berço frutificaram na nossa pátria e se vêm transmitindo de geração em geração, as grandes armas de que nos temos servido em todas as épocas da nossa história recente e que ainda hoje empregamos com a mesma generosidade e a mesma fé nos duros combates em que estamos empenhados. Disse!

Pedro, MHRIC

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Juntos pelo templo da paz

Antes de escrever este texto, orei a Deus Todo-Poderoso com cada batida do meu coração e com todo o sentimento. Durante as minhas orações, pedi ao Todo-Poderosos que me desse forças - para suportar a mensagem que acabava de receber segundo a qual uma família de quatro membros que me acolhera no passado mês de Janeiro acabava de sucumbir, algures em Vanduzi, debaixo do fogo cruzado quando tentava ir a Gorongosa – e confirmasse a minha convicção de que este texto pode atingir o objectivo por que anseio, o de um presente feliz e um futuro ainda mais risonho. Precisamos de construir um templo da paz. Tenho uma grande admiração e consideração pelo Governo de Moçambique. Existe uma profunda simpatia e boa vontade para com a Renamo e a firme determinação de continuar, apesar das muitas divergências e obstáculos, a tentar estabelecer as pontes do diálogo. Congratulamo-nos ou deveríamos congratular-nos com contactos constantes, frequentes e crescentes nesse sentido. Na imprensa de hoje, há uma tendência de diabolizar uns inocentando outros, conforme a paixão política do interveniente o que leva ao extremar de posições. Todavia, é meu dever – e tenho a certeza de que vos desagradaria que eu não apresentasse os factos tal como os vejo -, dizia; é meu dever confrontar-vos com determinados factos acerca da presente situação.

A situação no Save em em Moxungue continua tensa, com os motoristas a condicionarem a circulação dificultando o trabalho das forças armadas. A Renamo está agora a tentar, agindo unilateralmente, construir aquilo a que eu chamaria a esfera renamista e todas as aldeias na Grande Gorongosa, em Chibabava e em Maringue estão sujeitas, de uma ou outra forma, não só à influência renamista, mas também a um controlo extremamente apertado, e em certos casos, crescente, por parte da Renamo. A partir de Gorongosa está a alastrar o comportamento policial. Somente a vila da Gorongosa, com as suas glórias imortais, está livre de ataques. Os homens da Renamo foram encorajados pelo seu líder a apoderarem-se ilegalmente de partes importantes do território florestal, e estão a ter lugar expulsões em massa de centenas de camponeses gorongosenses, maringuenses, chibabavenses, numa escala atroz e inimaginável. A sua produção agrícola é apoderada pelos homens armados da Renamo. Uma sombra desceu sobre o cenário tão recentemente iluminado pelo cessar-fogo que durava há vinte dias. Ninguém sabe o que a Renamo pretende fazer num futuro imediato, nem quais serão os limites, se é que existem, das suas tendências expansionistas. A situação presente deve forçar-nos a agir em prol das paredes da paz, uma acção que deve ser levada por todos os segmentos sociais iluminados: académicos, igrejas, sociedade civil e partidos políticos. Em nada nos ajuda diabolizar a Renamo ou o Governo perante a situação presente porque, como disse no passado, juntos podemos vencer o mais perigoso dos assaltos da história moderna, a batalha por uma paz permanente baseada na justiça.


Falei atrás, caros compatriotas, no templo da paz. Este templo tem de ser construído pelos moçambicanos de todas as cores. Todos devemos acreditar no propósito do outro e termos esperança no futuro do outro e compreensão para com as limitações do outro, para citar algumas belas palavras que aqui li há uns dias, «porque não poderemos trabalhar juntos numa obra comum, como amigos e associados?» Temos de partilhar as ferramentas da paz, aumentando a capacidade da diminuição das ferramentas da guerra. Talvez os exemplos do que já experimentamos ou retirámos da História antiga ou moderna nos ensinem que os blindados, os tanques de guerra e as armas por si só não podem garantir a segurança e a paz. Em vez disso, destroem o que a segurança e a paz construíram. As instituições universitárias devem organizar debates para apontar os caminhos para a paz. As igrejas devem organizar as vigílias para amolecer os espíritos duros que teimam em levar o país ao colapso moral. As organizações da sociedade civil devem organizar manifestações diversas em prol da paz. Os partidos políticos devem procurar mais aquilo que os une. Todos cabemos neste Moçambique, porque «na casa do meu Pai há muitas moradas». Na verdade, é isto mesmo que temos de fazer, senão o templo da paz pode não chegar a ser construído, ou, tendo-o sido, desmoronar-se-á, e nós revelar-nos-emos novamente impossíveis de ensinar e teremos de voltar, pela terceira vez, a tentar aprender na escola da guerra, agora incomparavelmente mais rigorosa do que aquela cujas consequências estamos a sentir.

A Idade das Trevas e a Idade da Pedra podem regressar nas asas cintilantes da nação, e os recursos naturais ora descobertos que poderiam agora fazer literalmente chover incomensuráveis vantagens materiais sobre todos nós podem provocar a nossa total destruição. Cuidado, digo-vos eu, o tempo é muito curto. Não optemos por deixar correr os acontecimentos até ser tarde de mais. Evitemos ridicularizar uma das partes em conflito para diminuir a animosidade. Uma contenção na linguagem. Este é o caminho da sabedoria! Mais vale prevenir do que remediar. Temos de, em todo o lado, defender o homem da subjugação pela força das armas para que possamos dotar todos os moçambicanos do poder dos valores e princípios que promovem a sublime condição da moçambicanidade. Não podemos alimentar fanatismos, pelo contrário, canalizemos todos os nossos esforços para a construção de uma grande fortaleza de paz, em vez de fabricarmos inimigos imaginários. Esta batalha não é só do Governo, nem é apenas a batalha da Renamo. É a batalha de cada um dos cidadãos cujo direito é viver em paz. É um compromisso de consciência e responsabilidade nos corações de milhões de moçambicanos. É isto que vinha dizer. A mensagem está entregue, Deus é minha testemunha.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Duas incógnitas

Diz-se que se o MDM ganhar a ponta vermelha irá desnacionalizar tudo o que a Frelimo nacionalizou. As casas irão para os antigos colonos. A minha primeira incógnita é que não sei o que sucederá com os hospitais e os edifícios escolares que, mercê da nacionalização, permitem ao muçulmano, quanto ao ateu e ao próprio cristão fazerem uso deles sem formalidades nenhuns. Não foi por acaso que Lisboa, mais do que   outra capital europeia, tornou-se no verdadeiro salão de jantares do Daviz Simango, o líder do galo. Chamar emoções para ganhar dividendos políticos é o que se deve aconselhar que homens de bem não se metam.  Um alto espírito da nossa terra, referindo-se à origem do MDM, num artigo inserto há tempos num grande semanário de Maputo, o Domingo, designou por «criação dos tugas» e que os Simango são apenas a face moçambicana do movimento. Não me furto de citar um outro espírito local que referindo-se aos passeios dos líderes do Galo em Portugal disse: «… os encontros não tinham como participantes os moçambicanos por lá radicados, mas sim os ex-colonos e o manifesto foi a promessa de devolução dos imóveis por estes deixados aquando da independência de Moçambique, o que valeu inúmeros apoios ideológicos e monetários, algo que similarmente aconteceu nos outros países, porém, ai com promessa de partilha dos recursos naturais de Moçambique».

Nesse artigo, o seu ilustre autor, mostra-se em desacordo com a propaganda do MDM para angariar fundos com promessas absurdas, e também nós, dentro do modesto valor da nossa opinião, a consideramos, por virtude até de moralidade que promove, se não inconveniente, pelo menos, pouco aconselhável traze-la a público na hora actual em que as feridas da colonização ainda sangram. «Aguas passada», como esclarecidamente observa o artigo a que nos referimos, «não movem moinhos». Com efeito, é evidente que hoje não se pode falar de devolver as casas nacionalizadas aos ex-colonos. Muitas delas já não estão em condições e já foram alienadas. A nossa política não pode ser condicionada pelas atitudes gravosas que outras nações tiveram para connosco em épocas já agora remotas. Para nos nortearmos na escolha do rumo a seguir não precisamos negociar a venda do país porque, só as realidades da hora presente e as perspectivas mais lógicas do futuro são de ponderar e ter em conta. Ninguém deseja, no seu justo estado de razão, regressar ao colonialismo. Há outras compensações que poderiam ser equacionadas para com os ex-proprietários das vivendas cuja propriedade é inquestionável. E isto, a própria Frelimo poderia ter em conta nas suas discussões. É preciso frisar que o povo moçambicano não foi vítima dos portugueses, proprietários de muitas propriedades no solo pátrio, mas do regime colonial enquanto sistema de dominação. Por isso, não nos podemos colocar no lugar de vítima, para justificar o fracasso na tomada de posição em relação ao que foi nacionalizado, fruto do suor de muitos humanos cujo erro foi suar numa terra longínqua.

A segunda incógnita é o que o MDM pensa sobre a Educação. Não concordando com o actual modelo promovido pela Frelimo que permitiu tornar muitos moçambicanos em cidadãos através da educação para todos, este partido diz que irá entregar parte das responsabilidades aos bancos privados, de modo a financiarem os estudos dos particulares. Ora, sabido que a banca moçambicana tem das mais elevadas taxas de juro no mundo, como tal será possível? As nossas universidades estão cheias de pessoas acima dos 35 anos, pelo que os bancos dificilmente poderão conceder créditos para essa finalidade. Mais uma vez, o MDM navega em pântanos, importando modelos desajustados com a realidade. Acima da afeição ou desafeição que acaso nos inspirem outros povos, e, por isso mesmo, muito acima das questões sentimentais suscitadas pelo desejo de «bem governar», aliás, de apaixonarem e dividirem os homens pacíficos, deveremos colocar sempre o interesse nacional baseado na realidade local. A própria desorientação absoluta em que vive o MDM, a respeito do dia de amanhã, recomenda que Moçambique e os moçambicanos imponham a si mesmos uma descrição de que, por certo, não poderá advir-lhes mal, nem terão que arrepender-se pelo que até aqui já foi feito em matéria da educação. Tem-se visto que pessoas preparadas dentro deste sistema de ensino questionam com argumentos sólidos a qualidade de ensino em que se formaram. Caso para perguntar, de onde vêm as suas sábias interpretações da má qualidade do ensino se elas reconhecem-se bem formadas? Este não é problema do regime, mas da sociedade como um todo.
A propósito, e como ponto final nestas considerações, diremos ainda que continua a parecer-nos difícil sustentar-se à luz dos factos, vistos com exactidão, uma educação com qualidade quando a quantidade dos que a necessitam ultrapassa grandemente os meros desejos dos políticos «que pensam nas eleições». Há combinações secretas que mais duma vez tendem a cair sobre Moçambique e representam ameaça de desrespeito pela nossa soberania e é conveniente não se esquecer que foram, sobretudo, o servilismo cego e má cabeça que o tornou possível e lhe deu alento, a causa do nosso atraso. Não regressemos nunca ao servilismo desastroso que, por muito tempo, motivou que o nosso país fosse objecto de negociações secretas nem reincidamos nas manifestações de má cabeça que em alguns passos da História nos trouxeram amarguras e vicissitudes, e poderemos, assim, confiar em que, terminado o período eleitoral, a nossa escolha não venha a criar-nos dissabores nem arrependimentos. Disse!
Pedro, MHRIC

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Os deputados de Luxo

Assinalaram os últimos dias de Abril e os primeiros dias deste mês de Maio factos pertinentes à nossa política interna e de grande relevo na vida da nação. Um deles possui até transcendência que pode considerar-se sem precedente. Referimo-nos a aprovação, pela Assembleia da República, das regalias aos EX-isto e aos EX-aquilo, à aparição de Afonso Dhlakama  e à Reunião dos quadros da Frelimo na Matola na qual, Filipe Nyusi, disse algo, e é a esta citação, sobretudo, que atribuímos projecção excepcional nesta nossa alocução. «A vitória será nossa porque a nossa causa é justa», disse Nyusi tendo reconhecido que «a marcha é longa mas temos fé e esperança que se levarmos a mensagem da verdade, justiça e continuidade da mudança lograremos sucessos». Uma parte da sociedade civil está indignada com o comportamento dos deputados que aprovaram leis em benefício próprio, sabido que estes mesmos, quando foi a vez dos médicos e do respectivo estatuto, hesitaram. E, dessa vez, a causa da Sociedade Civil vai ao encontro das palavras de Nyusi, na medida em que «é justa» mas é difícil saber se esta logrará vitória conseguindo travar uma lei que considera injusta. A marcha da manhã de 16 de Maio de 2014 na capital, por mais que se queira desvalorizá-la, é um exemplo eloquente de uma indignação justa.
Quando aumentam as pressões externas e internas no sentido de manter-nos submissos a interesses anti-nacionais e anti-populares, se faz mais do que nunca necessário o debate das grandes questões indispensáveis à conquista pelo povo moçambicano de mais oportunidades de trabalho e educação, de saúde e de emprego, de justiça social e do poder democrático. É visível e revoltante o contraste terrível da sempre crescente carestia de vida e a melhoria de vida de pessoas que ocupam determinados espaços de visibilidade pública. Enquanto estes últimos viajam de four by four, com quatro lugares vazios e debaixo do AC, os primeiros viajam no «my love», com risco de chegarem sujos no serviço. Avisos neste sentido podiam ler-se na marcha.  Não é concebível que numa altura em que vários sectores profissionais clamam por melhorias salariais para que consigam comprar vários géneros de primeira necessidade um grupo de deputados crie lei em benefício próprio, com consequências gravosas a curto prazo para todo o povo.
Entretanto, parte considerável da população moçambicana leva uma vida seca e desumana, condenada ao sofrimento que, em última instância, a leva à doença e à morte precoce, enquanto os porta-vozes do seu sofrimento gozam tranquilamente o conforto da estrutura de cumplicidade parlamentar. Não me furto de citar uma frase da marcha: «Inimigos na Gorongosa, parceiros estratégicos do roubo ao povo no Parlamento». Nas periferias das nossas cidades, a vergonhosa realidade de cabanas, onde a miséria fabrica a cada instante sofrimento e delinquência, onde o mosquito fabrica as mortes, contrastando com o esplendor babilónico dos bairros elegantes para onde os endinheirados arquitectam truques de sufocação popular, onde o vazio intelectual, a amoralidade irresponsável e o excesso de riqueza criam a figura anti-social do político opressor, convida-nos a travar uma luta incessante contra as leis injustas que lesarão o Estado por longos anos. A marcha é longa mas se também tivermos fé e esperança, se levarmos a mensagem da verdade, justiça e continuidade da mudança lograremos sucessos, e a lei voltará ao Parlamento para ser revista.
Tornou-se insuportável a irresponsabilidade, o (im)patriotismo e a (in)autenticidade dos defensores do povo que chega a causar asco e contribui para desorientar extensas camadas populares, afastando-as dos ideais que nortearam a fundação de seus partidos políticos. Na realidade, esta lei não representa verdadeiramente os interesses do povo, cuja metade vê-se ainda impedida de comer duas refeições ao dia, não porque a terra que cultiva é infértil mas por uma injustiça planeada estar a pesar-lhe os bolsos, embora assista a comícios, ouça rádio, tenha opinião, produza bens e suporte as benesses dos erros cometidos também em seu nome, como parte do povo que é.
O rápido desenvolvimento industrial verificado na última década, como se processou, por si só não pode resolver vários problemas básicos do povo, muitos dos quais, ao contrário, viram-se agravados. Muitas famílias defrontam-se, assim, com uma grave situação de crise permanente, da qual só poderão sair através da reformulação de vários aspectos da estrutura legislativa, com destaque para leis que beneficiem mais o empresariado nacional. Não há no seio do povo quem honestamente não deseje e necessite de uma urgente modificação nesse quadro doloroso dentro do qual se desenrola a angustiante vida nacional de nossos dias. Mas, infelizmente, dentro do país nem tudo é povo. O povo é, sem dúvida, a maioria, o elemento dinâmico e sempre novo que luta porque precisa libertar-se dos enganos. E justa é a sua causa.
Que os moçambicanos saibam; em todos os países africanos há uma minoria constituída pelos grupos nacionais ligados aos sectores com características semi-feudais e semi-coloniais que ainda persistem, pelos grupos estrangeiros interessados em nosso estágio de atraso e seus testas de ferro e advogados nativos, que mobilizam todos os recursos publicitários no sentido de arregimentar forças e dividir o povo, procurando anestesiar suas camadas menos esclarecidas com falsos argumentos políticos e até religiosos e morais, de modo a afasta-las da luta pelos seus interesses, lutas essas que, eles sabem, terminarão por modificar o actual estado de coisas. Sentem estes deputados que já não controlam inteiramente a garantia de sua continuidade e que, consequentemente, o próprio poder político começa a fugir-lhes das mãos, conquistado aos poucos por novas pessoas mais afinadas com os interesses nacionais, por isso desesperam e chegam a colocar regalias por antecipação, na esperança de impedir o despertar da consciência popular e a marcha do povo unido para redistribuição dos sacrifícios e da riqueza. Existem, pelo país adentro, muitos ex-administradores, ex-chefes de postos administrativos e até ex-régulos, alguns dos quais fizeram trabalho excelente e digno de registo, mas hoje são esquecidos. Este país não veio do nada e a todos pertence.
Por tudo isso, vive o país um dos momentos mais importantes de sua história. Somos um próspero país, com um imenso e rico território e uma numerosa e laboriosa população, cujo crescimento vertiginoso nos coloca diante de uma imperiosa necessidade de um esboço de leis que impeçam o prejuízo ao Estado e promovam desenvolvimento harmónico e planificado que integre no processo de industrialização as áreas mais atrasadas e possibilite ao povo uma participação mais directa na vida democrática, assegurando internamente as bases políticas e económicas para a nossa projecção nacional e internacional. Isto requer dinheiro que deve ser poupado. Lembremos que temos 250 deputados que gastam um salário que caberia para 5750 trabalhadores baixos do Ministério da Agricultura. Disse!

terça-feira, 22 de abril de 2014

Guebuza, o homem que venceu todas as batalhas (2)


Já estou em 2030 continuando a conversar com os meus netos. A figura central das nossas falas estão em volta de uma figura: Guebuza.

O combate tinha de ser muito rude, porque, do outro lado da barricada, estavam prontos para se defenderem até a última extremidade todos os que tinham interesses ligados à odiosa Frelimo e perfilhavam a crença geral e enraizada de que só uma guerra marcaria o fim do regime. Para se avaliarem as resistências erguidas contra o esforço de Guebuza de estabelecer um verdadeiro Estado de Direito basta lembrar que dezenas de organizações que se diziam ser da Sociedade Civil levantaram as suas vozes criticando-o e atenuando afrontar directamente a Renamo, o que fez com que o porta-voz da presidência, Edson Macuacua, se pronunciasse amargamente nestes termos: «É de facto estranho que quando as Forças de Defesa e Segurança, que têm legitimidade e legalidade para actuarem em defesa da segurança do Estado, actuam, dirigentes das organizações da sociedade civil aparecem frenéticos com discursos inflamatórios de condenação. É caso mesmo para perguntar, a quem servem estes dirigentes das organizações da sociedade civil? Qual é a agenda destas organizações? Parece que perseguem objectivos e agendas inconfessáveis, contrários aos interesses nacionais”. Sim, isso netinhos foi escrito no CanalMoz, de 28/10/2013
 
E o exército continuou a dar o golpe de morte das bases da Renamo espalhadas pela savana atirando para o exílio os homens que nelas faziam a sua vida obscura, organizando os mais cruéis métodos de morte. A Renamo avançara para o Sul, na província de Inhambane, na esperança de fazer estremecer os alicerces do regime; mas nenhum obstáculo seria capaz de atemorizar o espírito de Guebuza ainda no momento em que os tratadistas mais eminentes e partidários do regime consideravam Dhlakama insusceptível de trabalhar para a paz a não ser pela coacção e pela força. E passando das palavras aos factos, em 24 de Abril do mesmo ano, apresentava argumentos cuja aplicação resultaria na criação de um grupo de negociações. Quando era geral a convicção de que o Presidente da República é que era arrogante, Guebuza, na sua prontidão admirável, proclamava já o mais nobre princípio, aquele a cuja aplicação se deveram os mais belos resultados da convivência política moderna, o diálogo, sintetizando-o nestas palavras: "Apesar da situação de Sadjundjira, estou pronto para receber o senhor Afonso Dhlakama para dialogar. As nossas delegações política e militar continuam prontas para acertos do nosso encontro".
 
Não é que disse isto na Soalpo, ali em Chimoio, numa presidência aberta! Fê-lo sem perder de vista que aos homens da Renamo era preciso dar-lhes completa segurança de pessoa e propriedade para se desenvolver entre eles a instrução, criando-lhes escolas numerosas e hospitais, abrindo-lhes vias de comunicação que facilitassem as transacções comerciais e pelas quais a força armada pudesse marchar sem embaraço para manter a ordem pública ou para repelir agressões estranhas. Havia convicção inabalável de que por estes e por outros meios que se empregariam, se faria aumentar as necessidades dos renamistas, as quais estimulariam os mesmos a buscar pelo seu trabalho meios de as satisfazer. Quem pensava deste modo não poderia deixar de honrar as suas opiniões, trabalhando quanto em suas forças coube para conseguir a completa emancipação do adversário. Mas a Renamo continuava defendendo a sua ideia de Paridade nos órgãos eleitorais, e não só. É aqui que surgiu aquilo que no provérbio local dizemos dar a mão e pegar o braço. 

A atmosfera nacional não estava ainda bem preparada. Os interessados, no estado de coisas estabelecidas, possuíam poderosos meios de influência e não queriam declarar-se vencidos, por isso, tudo fizeram para criar impasses. Guebuza não era homem para desanimar e ainda menos para desistir e logo, na semana seguinte renovava o apelo de negociar com o Senhor Dhlakama. Apesar disso, as suas ideias de uma revolução sem sangue continuavam a encontrar uma viva oposição. Viu-se forçado a criar ambiente propício para o diálogo, não num hotel de luxo mas no Centro de Conferências, para que ele pudesse triunfar. E a Renamo, atacou um camião em Nampula, aquela via que vai a Cuamba. Mas não foi a única vez. Os oportunistas também fizeram ataque a um empresário local, problema de dívidas com funcionários, segundo se comentava. Mas ai, os atacantes eram parte de guarda pessoal do Sr. Dhlakama que foram sendo capturados um a um e não se sabe se cumpriram cadeia ou não. Não sei o que lhes aconteceu lá no comando provincial, porque na Cadeia, perto de onde o vosso avô trabalhava, não havia mostras de terem entrado.
 
Os renamistas de outras latitudes, pelo seu lado, não se resignavam a perder os seus interesses, nem queriam sujeitar-se à derrota, apesar de a sentirem próxima. Acoitaram-se em Inhaminga, em Kaphiridzange – lá na zona do vosso bisavo –, em Nkondedzi, entre outros locais, onde o domínio das forças armadas não estava ainda solidamente firmado e abriram ali, com o máximo impudor, sucursais escandalosos de treinos militares onde a miúdo eram vendidas, em ignóbil leilão, as almas dos jovens recrutados à força na cidade da Beira, recrutas prontamente atribuídos às forças armadas convencionais. E havia entre eles alguns mercenários interessados nas pedras preciosas. Um deles, lembro-me, chegou a pedir-me o contacto do Administrador da Gorongosa, a julgar que eu caia facilmente. A esse degradante espectáculo de recrutamento só meses depois é que se pôs um termo, precisando o Governo para isso de organizar uma expedição e conseguindo então que as forças armadas desactivassem algumas bases. Foi no ano seguinte, nos dias 2 e 3 e o vosso avô estava no local. Não imagineis quanto me doi o coração, de imaginar o sucedido naqueles dias. Chovia intensamente e eu desci em Caia tendo seguido, primeiro, a direcção do régulo Tinga Tinga. Deixemos isso para amanhã.
 
A verdade é que as campanhas de Gorongosa, de Inhaminga e de Moxungue, contra os inimigos numerosos e escondidos, incitados, instruídos e municiados pelos que queriam, acima de tudo, derruir o nosso domínio – eu nessa altura soube estar do lado certo –, ficaram famosas entre as mais notáveis campanhas de todos os tempos pela rapidez de execução, castigo exemplar dos rebeldes e forma completa como atingiram o seu objectivo. Os ataques de surpresa diminuíram drasticamente na EN1. As FADM foram duras no castigo, mas combateram sempre com nobreza e lealdade que, submetidos os renamistas, jamais os perseguiram com represálias cruéis. Terminados os combates, esqueciam-se do mal que eles, obedientes joguetes de ambições alheias, os quiseram causar. O compromisso das FADM aos renamistas, combatendo no fundo as suas tendências para a ociosidade e o seu amor à inércia e à matança, que levava muitos deles a viverem exclusivamente da mulher, não receava confrontos directos, caso fosse preciso. E o que é oportuno frisar é que a guerra de autodefesa que as forças armadas moviam contra o extermínio do povo era mal vista pelos adeptos da Renamo que já se orgulhavam de ter um defensor mais forte, capaz de submeter a temida Força de Intervenção Rápida.
 
Nessa ocasião, os apologistas silenciosos da violência viram com manifesta má vontade o enérgico correctivo que as forças infligiram aos criminosos de Moxungue, de Gorongosa, de Inhaminga, de Maringue, trocando a esse respeito uma demorada e azeda correspondência facebookiana entre si; desaprovando o que as FADM haviam feito e criando-lhes depois dificuldades à ocupação dos espaços, que indiscutivelmente lhes pertenciam. E mais tarde, as FADM não hesitavam em enxovalhar a Renamo da maneira mais civilizada obrigando-lhe a restituir-lhes as bases. Isso não impediu que ela, abusando da sua força, sujeitasse as populações à humilhação a que me referi e que fez brotar dos lábios de Gabriel Muthisse, sub-chefe da delegação governamental ao diálogo, as frases mais belas e de mais rubra indignação de quantas constituíram a glória da sua missão: «a Renamo deve enterrar o machado da guerra», disse ele.
 
O diálogo com esta organização classificada como «terrorista» por Gustavo Mavie, num programa «Café da manha da Rádio Moçambique, em meados de Abril de 2014, foi um trabalho portentoso de inteligência, de continuidade e de confiança nos nossos destinos. Um trabalho de ingente preparação e, ao mesmo tempo, de realizações imediatas, tanto que fomos nós os primeiros que abrimos às portas ao diálogo nacional e sem interferências externas nesta parte de África, não obstante a Renamo insistir na internacionalização do conflito. Até que numa destas vezes atacou o comboio de carvão, precisamente quando estava em ascensao, o que lhe causou danos irreparáveis presságios do seu fim. Tenho que tomar umas notas, amanhã retomamos.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Guebuza, o homem que venceu todas as batalhas (1)

Por vezes a História faz o homem, em vez de o homem fazer a História. Para começar, todos os videntes da época falharam perscrutar os seus planos. Numa dessas vezes, tinham dito que ele não havia de deixar a presidência. Outras vezes diziam que ele queria acabar com os partidos da oposição, e até de dividir o próprio partido, enfim, muito sonambulismo, netinhos.
Guebuza foi o eminente e humanitário homem de Estado, que consagrara toda a sua vida e toda a sua alma à causa da emancipação dos moçambicanos para confiarem nas própria forças. Foi o terceiro presidente deste belo país. Vi-o inúmeras vezes e diferentes locais, mas o momento marcante foi aquele em que ele dava por terminada tão formosa como altruísta missão de dirigir os destinos deste país. Fazia inaugurações e despedia-se do povo que governara por uma década. A abolição da política de mão estendida em que foi mais uma vez o primeiro percursor, representou sem dúvida para nós o cumprimento dum dever de humanidade e a consequência lógica da política guezuiana e de que nos orgulhamos e voz orgulhareis por longos anos como dum brasão de família. Foi Guebuza que transformou milhões de homens moçambicanos em milhões de cidadãos moçambicanos. Alguns dos pais dos vossos amigos abriram olhos de criticar o Governo nessa época, coisa que era impensável, 23 anos antes.
E fi-lo sem hesitação, decidido a levar essa obra até às suas últimas consequências, a completá-la definitivamente, atraindo os seus críticos a uma civilização mais adiantada, aproximando-se deles com solicitude , respondendo-lhes as provocações e ferindo-lhes a imaginação e os sentidos com os exemplos mais impressionantes do que o homem pode conseguir com o seu trabalho e energia, ensinando-lhes, como se ensina a uma criança, o uso que devia fazer das forças e faculdades de que dispõem para sair da pobreza. De tempos a tempos alertava aos seus críticos, mas estes nem sempre se davam conta. Usava linguagem poética para criticar os seus críticos que muitas vezes não suportavam o peso dos adjectivos. Ah, netinhos, como é bom recordar os murmúrios dos apóstolos da desgraça daquele tempo; os tagarelas; os saudosistas; os intriguistas. Os tínhamos aos montes; uma espécie de homens, hoje da minha idade, que viam tudo o que provinha do Governo como errado.
Guebuza, cuja obra se impõe como um exemplo e merece ser devidamente estudada e apreciada, dera provas admiráveis do vigor do seu cérebro e da rara elevação da sua inteligência. Ele honrou brilhantemente o posto que lhe fora confiado, empenhou-se, sem cansaço, em divulgar a instrução aos moçambicanos por meio de escolas desde as de primeiras letras até universidades. Em apenas 10 aumentou o número de Universidades de 16 para 46, de meros 20 mil estudantes universitários para 120 mil, promoveu os estudos indispensáveis para a perfuração do solo, para a abertura das estradas, para a reconstrução dos caminhos-de-ferro, para a realização de todos os capítulos enfim duma grande obra de fomento e de progresso, em organizar e pôr em marcha, com esse destino, missões dos mais ilustres técnicos então no vigor da vida – como eu –, levados simultaneamente pelo amor à ciência e pelo espírito de aventura e sacrifício, em animar e tornar realizáveis os sonhos de muitos moçambicanos, em montar os pólos de desenvolvimento, para deixarmos de vez de nos concentrar exclusivamente nas cidades e irmos para os planaltos e planícies espalhar os benefícios do desenvolvimento, em proteger eficazmente a acção dos nossos beneméritos filhos e vocês netinhos. Entre as mais elevadas realizações, posso mencionar a reversão da Hidroeléctrica de Cahora Bassa de Portugal para o nosso país, depois de 30 anos independentes; a construção da ponte que leva o seu nome e outra, a da Unidade… Uff. Estou a ficar velho... não é que esqueci outras coisas! Ele esteve no Governo desde a independência nacional – vocês já sabem do ano, não é? E a História já vos ensinou que houve guerra dos três nomes: de desestabilização, dos 16 anos ou civil. Foi Guebuza quem negociou, em dois anos, os termos da paz, representando o Governo, como chefe da delegação.
· Avó, fale-nos qual foi o envolvimento dele na segunda guerra da Renamo?
Ah… os perigos vinham de todos os lados. Os disparos de metralhadoras haviam voltado pela mesma mão de há duas décadas. Já fluíam as conversações tendentes a minimizar o clima de tensões. E todo o diálogo obedecia ao objectivo de apressar a obra de progresso, que tínhamos a nosso cargo, e de melhorar, sucessivamente, as condições dos moçambicanos, na paz. Por toda a parte se desenvolvera então a ambição dos inimigos da Frelimo. A Renamo resolvera apossar-se do poder, embora para o conseguir tivesse de afrontar os princípios de justiça e de esquecer os deveres duma aliança de décadas, à sombra da qual obtivera sempre assinaladas vantagens. Apresentou o princípio de Paridade para equilibrar as coisas na Comissão Nacional de Eleições, nas Forças Armadas e mesmo na Segurança. Um articulista da CIP escrevia que «a intolerância política, a exclusão, o aumento da pobreza e das desigualdades foram amplamente apontados como sendo parte das possíveis causas do conflito».
Os que cobiçavam a felicidade dos frelimistas adquiriram deste modo uma arma poderosíssima para combaterem ali a sua influência e poderem guiar os moçambicanos ao sabor dos seus interesses. Souberam aproveita-la, sem sombra de escrúpulos. Por todo o sertão de Gorongosa, e principalmente em Moxungue, instalaram-se alguns lunáticos, possuidores de largos recursos materiais, contra os quais as reduzidas forças ali estacionadas em constantes movimentos mal podiam lutar. Dos órgãos de comunicação social surgiram homens empenhados quase exclusivamente em desenraizar do coração dos moçambicanos o amor a Pátria e em os levantar, em som de guerra, contra o seu próprio Governo. Um ano antes, penso, Guebuza, compreendendo a ociosidade que movia o espírito de muitos deles apelara que não usassem mal o instrumento de que se serviam para ridicularizar o Governo: o Facebook, para que não se tornasse em «fábrica de sonhos irrealizáveis». O espírito de rebelião lavrou intensamente, como uma queimada que se propaga através dos campos duma floresta virgem, em grande parte, do nosso país. Mas mais uma vez, Guebuza provou que era dos que acobardam facilmente e soube, em todas as conjunturas, arcar com as suas responsabilidades. Foi um ciclo heróico, em que o homem de que desejais conhecer, auxiliado eficazmente pelos homens de sua confiança, escreveu de novo, com o seu suor e o seu labor, páginas das mais belas de coragem e de patriotismo.
- O avó foi para a zona de conflito! O que ia lá fazer e o que viu?
Naqueles dias os renamistas continuavam a emboscar as viaturas como se fossem animais incapazes de regular as suas acções e destituídos da razão e campeavam desassombradamente nas florestas, matando homens e mulheres, crianças e velhos suspeitos de apoiarem o regime, sem leis que lhes impedissem as infames práticas, e considerando-se até como beneméritos, vangloriando-se da benéfica influência que diziam exercer na Grande Gorongosa. Até 11 de Abril de 2013 – eu encontrava-me na Europa – haviam morrido oito pessoas. O seu chefe, continuava ali, num local chamado Sadjunjira, a dar conferências de dia e a armar ciladas de tomada do poder pela força nas noites. Em 3 de Abril de 2013, em Moxungue, seis polícias revestidos da autoridade moral para proteger a área haviam sido mortos, a mando do chefe que nas próprias palavras «para salvaguardar a sua vida, a única solução que teve foi de dar ordens aos seus homens para responderem pela mesma medida, atacando o posto policial», tendo considerado os ataques a viaturas, assassinatos de civis e saque de bens de viajantes registados na EN-1, de «acidentes de percurso». Havia informações muito confusas sobre o curso dos acontecimentos e eu, como um Tucídides testemunhando uma guerra grega, lancei-me na aventura. No futuro irei contar-vos.
Pouco tempo depois, em 17 de Junho daquele ano eram invadidos um Paiol das FADM na estrada de Inhaminga, e outro Paiol, entre Derunde e Muanza. O saldo de mortos nos dois incidentes às mãos da Renamo era de 13 militares. Desloquei-me a Savane onde colhi depoimentos dos que sobreviveram o terror daquele dia. Num deles conta-se que:
«É possível que os que vinham fazer obras de reabilitação do Paiol tenham sido quem deu detalhes da nossa segurança aos atacantes. Não compreendíamos como era possível entregar aos civis uma reabilitação de um centro encontrado numa zona tida como hostil. Mas também podem ter sido os desertores ou ainda aqueles reformados compulsivos, ainda descontentes. O que nos prejudicou foi que as nossas armas não disparavam por falta de manutenção, além de que nós apenas tínhamos treino com objecto fixo. Agora, as coisas mudaram. No dia do assalto dois colegas haviam ido a estrada – Dondo - onde notaram um movimento estranho. Quando voltaram ao Paiol reportaram o que haviam visto e como resposta, foram metidos na cela pois haviam chegado tarde e o que tinham reportado parecia, aos olhos da hierarquia, uma forma de justificarem a ausência injustificada. Eles só foram libertos durante o ataque quando mais de 100 homens invadiram o paiol, usando alicates para cortar o arame farpado. Mas não roubaram muito material bélico, salvo as armas e as fardas das vítimas e algumas munições. Todas as vítimas mortas eram despidas do seu fardamento. Mataram sete colegas a facada. Um era oficial-dia que veio em socorro, foi ferido e escondeu-se numa mata onde perdeu muito sangue. Foi descoberto no dia seguinte, levado ao Hospital Central da Beira onde veio a falecer duas semanas depois. Após aquilo recebemos o reforço de Maputo de todos os comandos, de todas as especialidades. Seguimos os passos dos atacantes mas não encontramos ninguém. Depois, houve ordem para queimar a mata. Num muchém encontramos um corpo de algum velho que fora atingido pelos nossos disparos, enrolado num dos nossos cobertores e numa capa de chuva. Era mesmo velho! O corpo já estava em estado de decomposição. Quando foram disparadas algumas armas pesadas foram obrigados a abandonar grandes quantidades de munições. Quanto aos nossos que atacaram as viaturas fingindo-se de agentes da Renamo é importante dizer que não foram os nossos colegas. Uma coisa importante a reter é que há muitas deserções dentro das FADM. Dos 83 que fomos no começo do ano, após os acontecimentos de Muxungue e de Savane ficamos vinte e pouco. Dizem-nos que foram transferidos para outras unidades, mas temos a certeza de que trataram-se de deserções, pois já recebemos cartas de familiares, namoradas, amigos e deles próprios (dos colegas de farda). O medo de morrer é maior que o gosto para servir a pátria. Não entendemos, não compreendemos, não queremos guerra. Por vezes esse desejo de deserção aparece por influência vinda de fora. O nosso salário de cerca de 2400 meticais é suficiente, uma vez que temos todo o necessário para viver em termos de alimentação e de roupa/higiene. Não é verdade que estejamos a ambicionar o salário dos homens da Força de Intervenção Rápida. Aliás, é preciso saber que a FIR não está autorizada a entrar para alguns terrenos. Por isso a nossa presença lado a lado com ela tornou-se essencial num assunto aparentemente policial. O ambiente é tenso, já não dormimos tranquilos. Um dos meus colegas morreu muito mal, com a facada na boca, golpes no corpo, etc. Os atacantes só usavam arma para quem tentasse resistir mas a facada era o seu modus operandi. Eles gritavam «ndamuona-ndamuona, phata na manja» que quer dizer, «já o vi, apanhe-o pelo braço» o que nos deixou apavorados».
Era preciso dar-lhes batalha formal, fossem quais fossem os inconvenientes políticos que resultassem da extinção dessa iniquidade, afrontosa para todos os princípios democráticos. A essa missão, tão digna das almas bem formadas, dedicou-se o espírito cavalheiresco de Guebuza, homem intemerato da causa liberal, lutador insigne, de tanta coragem e heroicidade, de crenças muito sólidas e uma tenacidade de aço. Nenhuma dificuldade conseguia amedrontar-lhe o ânimo, nenhum perigo era capaz de o fazer vacilar, não obstante ser diabolizado pelos Jornais da Direita. Nada, porém, conseguia quebrantar a tenacidade do apóstolo, entre nós, da libertação. Foi o que sucedeu na realidade. A partir dessa época os acontecimentos precipitaram-se porque a corrente já era muito impetuosa e a onda tornara-se tão alta que galgava sem custo todos os obstáculos. No momento em que entrava para Sofala a fim de proceder com a presidência aberta, ordenava a invasão de Sadjungira, a 21 de Outubro daquele ano. As Forças Armadas fizeram tudo o que esteve a seu alcance para evitar danos humanos, tendo usado, para o efeito, um amplificador de som que, à distância, comunicava «saiam, retirem-se, apenas queremos a base». O chefe, com os seus acólitos, retiraram-se sem oferecer resistência. Durante a fuga – isto me contaram no terreno - havia ordem para que ninguém usasse celular, mas um dos fugitivos acabou sendo apanhado a telefonar e, de imediato, foi considerado espião. Para salvaguardar os interesses do grupo pagou com a própria vida, mas o anúncio da sua morte viria dos próprios colegas em 25/10/2013. Ele era um deputado que na altura dos acontecimentos devia estar na Assembleia da República, como dissera o Ministro José Pacheco. Falei demais, continuamos amanhã, netinhos! Ide dormir.

sábado, 19 de abril de 2014

Guebuza, homem certo na hora certa



Por vezes a História faz o homem, em vez de o homem fazer a História. O nosso tempo está replecto de perigos, mas, felizmente, temos o homem certo para nos proteger. O texto abaixo foi escrito para ser lido em 2030, sobre o actual momento.




Os perigos vinham de todos os lados. Os disparos de metralhadoras haviam voltado pela mesma mão de há duas décadas. Já fluíam as conversações tendentes a minimizar o clima de tensões. E todo o diálogo obedecia ao objectivo de apressar a obra de progresso, que tínhamos a nosso cargo, e de melhorar, sucessivamente, as condições dos moçambicanos, na paz. Por toda a parte se desenvolvera então a ambição dos inimigos da Frelimo. A Renamo resolvera apossar-se do poder, embora para o conseguir tivesse de afrontar os princípios de justiça e de esquecer os deveres duma aliança de décadas, à sombra da qual obtivera sempre assinaladas vantagens. Apresentou o princípio de Paridade para equilibrar as coisas na Comissão Nacional de Eleições, porque «a intolerância política, a exclusão, o aumento da pobreza e das desigualdades foram amplamente apontados como sendo parte das possíveis causas do conflito[1]».




Os que cobiçavam a felicidade dos frelimistas adquiriram deste modo uma arma poderosíssima para combaterem ali a influência da Frelimo e poderem guiar os moçambicanos ao sabor dos seus interesses. Souberam aproveita-la, sem sombra de escrúpulos. Por todo o sertão de Gorongosa, e principalmente em Moxungue, instalaram-se alguns lunáticos, possuidores de largos recursos materiais, contra os quais as nossas reduzidas forças ali estacionadas em constantes movimentos mal podiam lutar. Dos órgãos de comunicação social surgiram homens empenhados quase exclusivamente em desenraizar do coração dos moçambicanos o amor a Pátria e em os levantar, em som de guerra, contra a sua liderança. O espirito de rebelião lavrou intensamente, como uma queimada que se propaga através dos campos duma floresta virgem, em grande parte, do nosso país. Mas mais uma vez, Guebuza provou que é dos que acobardam facilmente e soube, em todas as conjunturas, arcar com as suas responsabilidades. Foi um ciclo heroico, em que o homem de que me ocupo, auxiliado eficazmente pelos homens que ele escolheu, escreveu de novo, com o seu suor e o seu sangue, páginas das mais belas de coragem e de patriotismo.




Naqueles dias os renamistas continuavam a emboscar as viaturas como se fossem animais incapazes de regular as suas acções e destituídos da razão e campeavam desassombradamente nas florestas, matando homens e mulheres, crianças e velhos suspeitos de apoiarem o regime, sem leis que lhes impedissem as infames práticas, e considerando-se até como beneméritos, vangloriando-se da benéfica influência que diziam exercer na Grande Gorongosa. Até 11 de Abril de 2013 haviam morrido oito pessoas[2]. O seu chefe, continuava ali, num local chamado Sadjunjira, a dar conferências de dia e a armar ciladas de tomada do poder pela força nas noites. Em 3 de Abril de 2013, em Moxungue, seis polícias revestidos da autoridade moral para proteger a área foram mortos, a mando do chefe que nas próprias palavras «para salvaguardar a sua vida, a única solução que teve foi de dar ordens aos seus homens para responderem pela mesma medida, atacando o posto policial», tendo considerado os ataques a viaturas, assassinatos de civis e saque de bens de viajantes registados na EN-1, de «acidentes de percurso». Vai ser um dilema difícil para os demónios quando tentarem encontrar um lugar adequado para a alma de quem mandou matar de forma deliberada.




Pouco tempo depois, em 17 de Junho daquele ano eram invadidos um Paiol das FADM na estrada de Inhaminga, e outro Paiol, entre Derunde e Muanza. O saldo de mortos nos dois incidentes às mãos da Renamo era de 13 militares. Era preciso dar-lhes batalha formal, fossem quais fossem os inconvenientes políticos que resultassem da extinção dessa iniquidade, afrontosa para todos os princípios democráticos. A essa missão, tão digna das almas bem formadas, dedicou-se o espírito cavalheiresco de Guebuza, homem intemerato da causa liberal, lutador insigne, de tanta coragem e heroicidade, de crenças muito sólidas e uma tenacidade de aço. Nenhuma dificuldade conseguia amedrontar-lhe o ânimo, nenhum perigo era capaz de o fazer vacilar, não obstante ser diabolizado pelos Jornais da Direita. Nada, porém, conseguia quebrantar a tenacidade do apóstolo, entre nós, da libertação. Foi o que sucedeu na realidade. A partir dessa época os acontecimentos precipitaram-se porque a corrente já era muito impetuosa e a onda tornara-se tão alta que galgava sem custo todos os obstáculos. No momento em que entrava para Sofala a fim de proceder com a presidência aberta, ordenava a invasão de Satungira, a 21 de Outubro daquele ano. As Forças Armadas fizeram tudo o que esteve a seu alcance para evitar danos humanos, tendo usado, para o efeito, um amplificador de som que, à distância, comunicava «saiam, retirem-se, apenas queremos a base». O chefe, com os seus acólitos, retiraram-se sem oferecer resistência. Durante a fuga havia ordem para que ninguém usasse celular, mas um dos fugitivos acabou sendo apanhado a telefonar e, de imediato, foi considerado espião. Para salvaguardar os interesses do grupo pagou com a própria vida, mas o anúncio da sua morte viria dos próprios colegas em 25/10/2013.




O combate tinha de ser muito rude, porque, do outro lado da barricada, estavam prontos para se defenderem até a última extremidade todos os que tinham interesses ligados à odiosa Frelimo e perfilhavam a crença geral e enraizada de que só uma guerra marcaria o fim do regime. Para se avaliarem as resistências erguidas contra o esforço de Guebuza de estabelecer um verdadeiro Estado de Direito basta lembrar que dezenas de organizações que se diziam ser da Sociedade Civil levantaram as suas vozes criticand-o e atenuando afrontar directamente a Renamo, o cancro da paz, o que fez com que o porta-voz da presidência, Edson Macuacua, se pronunciasse amargamente nestes termos: «É de facto estranho que quando as Forças de Defesa e Segurança, que têm legitimidade e legalidade para actuarem em defesa da segurança do Estado, actuam, dirigentes das organizações da sociedade civil aparecem frenéticos com discursos inflamatórios de condenação. É caso mesmo para perguntar, a quem servem estes dirigentes das organizações da sociedade civil? Qual é a agenda destas organizações? Parece que perseguem objectivos e agendas inconfessáveis, contrários aos interesses nacionais”. CanalMoz, 28/10/2013




E o exército continuou a dar o golpe de morte das bases da Renamo espalhadas pela savana atirando para o exílio os homens que nelas faziam a sua vida obscura, organizando os mais cruéis métodos de morte. A Renamo avançara para o Sul, na província de Inhambane, na esperança de fazer estremecer os alicerces do regime; mas nenhum obstáculo seria capaz de atemorizar o espírito de Guebuza ainda no momento em que os tratadistas mais eminentes e partidários do regime consideravam Dhlakma insusceptível de trabalhar para a paz a não ser pela coacção e pela força. Quando era geral a convicção de que o Presidente da República é que era arrogante, Guebuza, na sua prontidão admirável, proclamava já o mais nobre princípio, aquele a cuja aplicação se deveram os mais belos resultados da convivência política moderna, o diálogo, sintetizando-o nestas palavras: Estou disposto a conversar com o presidente da Renamo. Fê-lo sem perder de vista que aos homens da Renamo era preciso dar-lhes completa segurança de pessoa e propriedade para se desenvolver entre eles a instrução, criando-lhes escolas numerosas e hospitais, abrindo-lhes vias de comunicação que facilitem as transacções comerciais e pelas quais a força armada pudesse marchar sem embaraço para manter a ordem pública ou para repelir agressões estranhas. Havia convicção inabalável de que por estes e por outros meios que se empregariam, se faria aumentar as necessidades dos renamistas, as quais estimulariam os mesmos a buscar pelo seu trabalho meios de as satisfazer. Quem pensava deste modo não poderia deixar de honrar as suas opiniões, trabalhando quanto em suas forças coube para conseguir a completa emancipação do adversário. Mas a Renamo continuava defendendo a sua ideia de Paridade nos órgãos eleitorais.




E passando das palavras aos factos, em 24 de Abril do mesmo ano, apresentava argumentos cuja aplicação resultaria na criação de um grupo de negociações que se convencionou de diálogo. A atmosfera nacional não estava ainda bem preparada. Os interessados, no estado de coisas estabelecidas, possuíam poderosos meios de influência e não queriam declarar-se vencidos, por isso, tudo fizeram para criar impasses. Guebuza não era homem para desanimar e ainda menos para desistir e logo, na semana seguinte renovava o apelo de negociar com o Senhor Dhlakama. Apesar disso, as suas ideias de uma revolução sem sangue continuavam a encontrar uma viva oposição. Viu-se forçado a criar ambiente propício para o diálogo, não num hotel de luxo mas no Centro de Conferências, para que ele pudesse triunfar.




Os renamistas, pelo seu lado, não se resignavam a perder os seus interesses, nem queriam sujeitar-se à derrota, apesar de a sentirem próxima. Acoitaram-se em Inhaminga, onde o domínio das forças armadas não estava ainda solidamente firmado e abriram ali, com o máximo impudor, sucursais escandalosos de treinos militares onde a miúdo eram vendidas, em ignóbil leilão, as almas dos jovens recrutados à força na cidade da Beira, recrutas prontamente atribuídos às forças armadas convencionais. A esse degradante espectáculo só meses depois é que se pôs um termo, precisando o Governo para isso de organizar uma expedição e conseguindo então que as forças armadas desactivassem algumas bases.




As campanhas de Gorongosa, de Inhaminga e de Moxungue, contra os inimigos numerosos e escondidos, incitados, instruídos e municiados pelos que queriam, acima de tudo, derruir o nosso domínio, ficaram famosas entre as mais notáveis campanhas de todos os tempos pela rapidez de execução, castigo exemplar dos rebeldes e forma completa como atingiram o seu objectivo. As FADM foram duras no castigo, mas combateram sempre com nobreza e lealdade que, submetidos os renamistas, jamais os perseguiram com represárias cruéis. Terminados os combates, esqueciam-se do mal que eles, obedientes joguetes de ambições alheias, os quiseram causar. O compromisso das FADM aos renamistas, combatendo no fundo as suas tendências para a ociosidade e o seu amor à inércia e à matança, que levava muitos deles a viverem exclusivamente da mulher, não receava confrontos directos, caso fosse preciso.




E o que é oportuno frisar é que a guerra de autodefesa que as forças armadas moviam contra o extermínio do povo era mal vista pelos adeptos da Renamo que já se orgulhavam de ter um defensor mais fortes, capaz de submeter a temida Força de Intervenção Rápida. Nessa ocasião, os apologistas silenciosos da violência viram com manifesta má vontade o enérgico correctivo que as forças infligiram aos criminosos de Moxungue trocando a esse respeito uma demorada e azeda correspondência facebookiana entre si; desaprovando o que as FADM haviam feito e criando-lhes depois dificuldades à ocupação dos espaços, que indiscutivelmente lhes pertenciam. E mais tarde, a as FADM não hesitavam em enxovalhar a Renamo da maneira mais civilizada obrigando-lhe a restituir-lhes as bases. Isso não impediu que ela, abusando da sua força, sujeitasse as populações à humilhação a que me referi e que fez brotar dos lábios de Gabriel Muthisse as frases mais belas e de mais rubra indignação de quantas constituíram a glória da sua missão: «a Renamo tinha que enterrar o machado da guerra». O diálogo com esta organização classificada como «terrorista» por Gustavo Mavie, foi um trabalho portentoso de inteligência, de continuidade e de confiança nos nossos destinos. Um trabalho de ingente preparação e, ao mesmo tempo, de realizações imediatas, tanto que fomos nós os primeiros que abrimos às portas ao diálogo nacional e sem interferências externas nesta parte de África.







[1] Egidio Chaimite, indignai-vos, IESE, 26 de Fevereiro de 2014.


[2] (JN, 11 de Abril de 2013).