segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A vitória limpa de Nyusi

Ao acordar, todos os dias, sinto o sentido desta vitória limpa que Filipe Nyusi alcançou no dia quinze de Outubro. Uma vitória que abre caminho novo para a pátria cujo protagonista é e será sempre o povo moçambicano. Disse-o e devo repeti-lo: se a vitória não foi fácil, difícil será consolidar a materialização de tudo quanto foi prometido. Apenas quero assinalar perante a História o facto de que quando um indivíduo é capaz disto, será também capaz de fazer com que o país progrida e que o homem e a mulher da nossa terra, o casal humano, também tenha um direito autêntico ao trabalho, ao emprego, à habitação, à saúde, à educação, ao descanso, à cultura e à recreação. Ao escolher o projecto de continuidade, o povo compreendeu que a revolução não implica destruir mas sim construir, não implica arrasar mas sim edificar, comprometendo-se, ao mesmo tempo estar preparado para essa grande tarefa.
Há agitadores clandestinos com rabo à espreita que pretendem ver revoltado o povo moçambicano e, certamente, rezam ao mesmo Deus da paz para que haja distúrbios. Mas este povo, com a luz divina, sabe que os seus problemas não se resolvem partindo vidros ou amolgando um automóvel, nem odiando aos ricos como se fossem a causa da sua pobreza. E aqueles que estão constantemente a dizer que a vossa governação será caracterizada por violência e distúrbios, encontrarão a consciência e a responsabilidade do povo que canta o futuro, o povo cuja civilidade nos deixou felizes. O facto de estarmos felizes e esperançados não significa que vamos descurar a vigilância. Mesmo nas horas em que o povo agarrar a cintura da nação para dançar o «nenhum tirano nos irá escravizar» a vigilância deverá ser mantida, em atitude responsável, dispostos a responder à chamada, se necessário.
A vitória limpa da continuidade foi conseguida e deixou incrédulos os adversários e mercenários da mudança. Mas nem tudo deverá ser continuidade! Foi uma vitória para acabar definitivamente com a pobreza e a privação de condições básicas. Foi uma vitória para fazer uma profunda reforma agrária e tornar menos pesado o trabalho agrícola. Foi uma vitória para acabar com os «My Love» nas nossas cidades, os transportes que nos sujam as roupas antes de chegarmos aos locais de labor. Foi uma vitória para acabar com a corrupção. Foi uma vitória para que os competentes sejam valorizados. Foi uma vitória para que os jovens tenham emprego sem precisarem de «padrinhos». Foi uma vitória para que funcionários da saúde, da educação, os polícias, enfim, todos os servidores públicos, tenham cada vez mais e melhores salários e promoções. Foi uma vitória para que as escolas tenham carteiras, para que os hospitais tenham medicamentos.
Felizmente, os nossos parceiros internacionais reconheceram em várias mensagens esta a vitória. Não vamos pedir a oposição que o faça. Não temos necessidade disso. Não temos qualquer ressentimento contra ela, apesar de ela estar a lutar para subestimar esta vitória, a vitória do povo. Porém, ela nunca será capaz da grandeza que tem o povo nas suas lutas, nascidas da dor e da esperança, um povo herdeiro dos pais da pátria determinado a conquistar a independência económica do seu país. É em conformidade com os ditames do tempo e do destino que Nyusi veio pegar o leme para que toda a nação continue como uma família, sempre firme na sua fé na imperecivilidade do seu solo e do longo caminho que lhe resta percorrer.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Carta ao meu candidato (3)

Carta ao meu candidato (3)

Senhor candidato! Ao ver os vícios que a torrente da campanha misturou indiscriminadamente com as virtudes cívicas, tremo com medo de parecer manchado aos olhos da posterioridade, se não disser o que penso. Quero evitar o impulso de viver apenas para o presente, pilhando, para a minha comodidade e conveniência, os preciosos recursos do amanhã. Escrevo esta missiva na esperança de que vos encontre de boa saúde, nestes últimos dias de campanha eleitoral em que homens perversos se insinuaram nas fileiras dos sinceros defensores da democracia. Atribuem-se a si próprios atributos sagrados, unicamente reservados para os profetas das escrituras quando a única coisa que lhes interessa é dividirem o país como um saque em vez de o tornarem livre e próspero. Sei que vindes a inscrever o vosso nome nas páginas da nossa História como militante insigne da Frelimo, que cumprirá abnegada e corajosamente as missões que lhe forem confiadas, juntando-se ao grupo de homens e de mulheres cuja história de vida será ensinada nas nossas escolas.

Peço-vos, porém, que façais o possível para que os moçambicanos de todas as fés e ideologias possam ver satisfeitas as suas grandes necessidades humanas: comida, educacão e saúde; para que todos aqueles a quem a oportunidade é hoje negada possam vir a desfrutá-la integralmente; para que todos os que têm vida fácil compreendam também as suas pesadas responsabilidades para com os que vivem as privações da vida. A união, com honra e confiança mútuas, é um imperativo contínuo e juntos, temos de aprender a harmonizar as nossas diferenças. Sendo a vitória a necessidade tão premente e óbvia, confesso que não posso deixar de apontar alguns assuntos também prementes e óbvios. Não obstante a roda do destino e o impulso da vossa determinação avançarem em direcção ao objectivo final – a vitória –, deveis aumentar o ritmo das mensagens para que já nada a possa parar. A manifestação do povo não deixa margens para dúvidas que sereis o seu próximo líder. Só as mentes amolecidas por ilusões televisivas e televisionadas e pela pura ignorância do que move o povo a tomar uma decisão para sua própria vida podem pensar de outra maneira.

Senhor candidato, tendes que aumentar as frentes de combate nas mensagens e mostrar a vossa determinação em combater a corrupção, o compadrio, o nepotismo sob todas as suas formas e manifestações. Tendes de incidir no «como» haveis de fazer para solucionar, com brevidade, os problemas de pensões daqueles que estão à beira da morte, de construir casas dignas para os funcionários públicos e não só, de criar mais escolas de formação profissional, de melhorar os serviços sanitários e educacionais. Tocai o coração do professor que lecciona numa sala de aulas precária, à senhora que não trabalha e não têm dinheiro para corromper a parteira do hospital, ao rapaz rural que deseja ir a Universidade mas não tem dinheiro para ir à privada nem consegue passar pelo exame de admissão para a pública por este ser elaborado pela gente da cidade. Falai de como as universidades nacionais podem participar na educação dos moçambicanos e serem elas próprias o factor da Unidade Nacional. Não vos esqueçais de que tendes expressivo apoio feminino. Por isso, falai das preocupações femininas, que são tantas. Tocai o coração da mulher enviuvada que se viu despojada de tudo o que construiu com o esposo em vida; falai das injustiças a que os pobres são votados nas nossas cadeias onde o ladrão de galinha apodrece enquanto o assassino recebe clemência pelo bom comportamento.
 Se vos lembrais, senhor candidato, na minha primeira carta falei de dois desafios de vulto: o desemprego e os sete milhões. Vede como os vossos opositores se aproveitam deste último legado de Guebuza, porque se aperceberam que o povo gostou. Tenho constantemente utilizado a expressão que aprendi há uma década e meia: em Moçambique há que chegue para todos. Há que se criar emprego para todos os que podem trabalhar segundo as suas qualificações o que requer que se crie, no mais breve trecho de tempo, centros de desemprego – e porque não fundo de desemprego. Com eles, poderíamos estar em condições de saber mais sobre os desempregados do nosso país e direccioná-los, conforme os dados, às empresas públicas e privadas ou, num caso inverso, as empresas e indivíduos interessados em contratar alguém dirigir-se-iam a estes centros para a contratação do seu pessoal. Mas ainda são ideias embrionárias, senhor candidato, para que os flagelos da pobreza, da doença e da ignorância sejam varridos da face do nosso país. Vós sois o herdeiro da primeira Revolução da Frelimo para quem foi passada a tocha nascida no século passado, temperada por duas guerras, disciplinada por uma paz dura e amarga e orgulhosa da sua antiga herança. Mostrais que não permitireis a lenta destruição da dignidade humana com a qual este partido sempre se comprometeu e com os quais vós também vos comprometeis hoje em todo o país.

Façais saber a cada moçambicano, quer vos deseje bem ou mal, que pagareis qualquer preço, carregareis qualquer fardo, enfrentareis qualquer provação, apoiareis qualquer amigo e opor-vos-eis a qualquer inimigo do progresso para garantir que os moçambicanos vivam com dignidade, com um emprego garantido, de modo a que tenham casa digna desse nome, alimentação digna desse nome, vestuário, educação, saúde e transporte de qualidade e vivam em segurança. Para a materialização disso deveis contar, sem dúvida, com os órgãos autárquicos para quem deveis, desde já, dirigir a vossa mensagem de colaboração. Aos partidos da oposição, cujas preocupações compartilhais, prometei a lealdade e colaboração na competência porque unidos é muito pouco o que não poderemos fazer no quadro de inúmeros projectos de desenvolvimento; mas divididos, desavindos e afastados, pouco podemos fazer. Embora não espereis que apoiem sempre os vossos pontos de vista, deveis  esperar vê-los defender resolutamente a sua própria liberdade e tirar dela as lições necessárias a serem incorporadas no vosso compromisso.


No quadro dos sete milhões, será urgente rever os métodos da sua distribuição e traduzir o belo compromisso em actos, numa nova aliança pelo progresso do distrito, qual pólo de desenvolvimento, auxiliar os homens e governos distritais a libertarem-se das grilhetas da corrupção. Mas esta pacífica revolução de esperança não deve excluir vários actores políticos e sociais locais e nacionais nem pode tornar-se presa de partidos dominantes. Voltarei a falar da minha proposta na próxima carta, uma proposta concreta, senhor candidato, para que todos os nossos vizinhos políticos saibam que nos juntaremos a eles para nos opormos aos factores do atraso, sem contudo que a Frelimo deixe de ser dona do seu próprio hemisfério. A nossa última e melhor esperança numa era em os pobres são uma ameaça a estabilidade dos ricos é o povo. Deveis criar condições que impeçam a que ele se torne um mero campo de ensaio dos ambiciosos. Comecemos, pois, de novo, recordando-nos de que ter adversários políticos a nosso lado não sinal de fraqueza. Exploremos os problemas que nos unem, em vez de repisarmos constantemente os que nos dividem, formulando, pela primeira vez, propostas sérias e detalhadas de como expulsar a pobreza do nosso solo. 

domingo, 5 de outubro de 2014

Votar em Filipe Nyusi

Vou votar para eleger Filipe Nyusi e a Frelimo

A eleição de Filipe Nyusi nestas eleições justifica-se plenamente quando se completam 50 anos sobre a aparição do tiro da Frelimo, que tornou independente o povo moçambicano. A eleição de Nyusi justifica-se pela coerência do seu programa que foi decifrado até que os seus críticos compreenderam estarem diante de um homem com princípios próprios. Nyusi é, em si, o novo protagonista da nossa proxima década. Certamente, há outros, mas nenhum deles tem tanta importância diante do povo, nenhum deles interagiu com o povo, nenhum deles fez do povo a sua inspiração, pela simples razão de que a partir da sua acção nada mais foi para edificar o Estado senão a luta pela sua destruição, reduzindo-o, por vezes, ao nada. Eles, em vez de dizerem ao povo o que vao fazer para o tirar da pobreza repetem o que o povo ja vive: voces sao pobres. Afinal, quem vive a pobreza nao precisa que se lhe informe da pobreza, mas da vias para fazer riqueza. E o povo sabe, quem de facto falou com sinceridade das intenções. A sua filosofia de vida é uma escola suficiente para não se deixar enganar, nem pelas fotografias nem pelos gritos de «o povo está cansado». Seria pernicioso e lamentável que as gerações nascidas antes de 1992 fossem governadas por outros, que não a Frelimo. Seria mau para todos nós que o poder fosse entregue a quem fez do ódio a sua agenda política.

Nyusi, pelo conhecimento que tive dele, não só como funcionário dos Caminhos de Ferro de Moçambique e como Ministro da Defesa e, ainda, porque tive o privilégio de privar com seus colaboradores, é um homem que valoriza mais o lado humano nas suas relações, sem se impor. Faz bem uso dos ouvidos e da boca, sabe escutar antes de falar. Não foi por acaso que foi andando pelo país a fim de receber conselhos daqueles a quem pretende governar. A sua visão e o seu compromisso são o resultado das contribuições do povo. Por isso, os moçambicanos têm a oportunidade de o colocar na galeria dos poucos políticos moçambicanos sinceramente interessados em promover o seu bem-estar. Não a esses outros que desperdiçam o tempo tirando piadas em momento como este, só para anestesiar os incautos e distraídos sobre a ausência da agenda alternativa. E quando o povo grita, fingindo-se alegre, saem felicíssimos e convencidos de que a causa não dita foi compreendida. É tempo de pensar o país e não em tribos. Não me furto a citar o que um partidário da oposição afirmou dizendo que «agora é a vez dos Ndau, os verdadeiros donos do poder», aliás, Augusto, o meu ilustre amigo MDmista, é também pela mesma opinião. A resposta de Nyusi aos bárbaros ataques verbais que se lhe dirigem é compreendida e apoiada pela quási totalidade dos moçambicanos. Ele não precisa insultar os outros muito menos rebaixá-los para se elevar. Apresenta o seu programa, a sua agenda e o seu compromisso que também é do povo que o deu corpo.

Durante a minha estada na Academia Militar, soube que Nyusi é lembrado com respeito, carinho e consideração por ter devolvido ao exército a dignidade que perdera e por ter cumprido fielmente com as orientações do Presidente Guebuza, o maior intérprete da nossa era que retirou Afonso Dhlakama do abismo para o qual o MDM o tinha colocado. Não resisto a contar sem pormenores, a minha deslocação a um dos distritos do Norte, há alguns meses, na qualidade de responsável por uma equipa de pesquisadores da Universidade Pedagógica de Moçambique. Essa deslocação e estadia prolongada naquelas regiões, permitiu-me ver «in loco» como a vida dos moçambicanos tem dado passos largos deixando atrás de si rasto de más recordações, em grande medida, causadas por aqueles que dizem querer tirar a Frelimo do poder, e ouvir as perguntas que me faziam sobre «como o novo dirigente vai garantir que os sete milhões cheguem a todos». Comoção, memória, carinho e respeito a Guebuza e ao seu sucessor; sentimentos e reacções nascidas da fúria das armas, da guerra e dos seus efeitos directos e colaterais, foram o mais elevado manifesto daquela gente. Gente que sabe e confia na capacidade da Frelimo a quem chama de «pai». Gente que confia em Nyusi a quem chama “nosso filho”. Gente que aprendeu da sua própria vida que outro Moçambique é possível com trabalho. Gente que não se deixa enganar pelos diplomados universitários que ao invés de contribuírem para a solução de seus problemas começam a ser o problema de suas vidas. Um representante de uma tribo disse-me e com razão que «a comida que vocês doutores consomem, lá nas cidades, é produzida por pessoas como eu». E é a esta gente que a nossa oposição chama de ignorante e que precisa de “abrir olhos”.  

Seria uma loucura criminosa largar o poder à deriva num país tão agitado e desunido. Ninguém, em nenhum momento, deixou de dormir descansado por o poder estar nas mãos da Frelimo. Não acredito que tivessemos podido dormir tão profundamente se as posições se invertessem e um político ambicioso e desonesto tivesse temporariamente monopolizado o poder. O medo que inspiram poderia, só por si, ter sido facilmente usado para impor a tirania, com consequências terríveis de imaginar. A realidade nacional actual impera que cada moçambicano olhe para o que era a sua vida de há dez anos e perspectivar no que poderá ser daqui a outros 10. Na verdade, só a mudança na continuidade pode fazer-nos prosperar porque, caso contrário, se por hipótese caíssemos na aventura de escolher os outros que não a Frelimo, a primeira acção que eles fariam era, sem mais nem menos, cometer o saque dos fundos públicos. Depois, viriam a dizer que a Frelimo saiu e deixou os cofres vazios. A culpa ia morrendo solteira enquanto o povo ia compreendendo as razões da ineficiência governativa. É prática corrente em toda a África, onde a mudança tinha batido a porta. Lá, há ranger de dentes e saudades do Egipto. Espero sinceramente como moçambicano, que seja possível a eleição de Nyusi para que, passados mais 10 anos, estejamos bem melhor do que agora.

Antes de ir ao voto, temos de garantir que a nossa escolha é também a escolha dos nossos filhos, netos, sobrinhos, deficientes, presos, emigrantes. Somente o programa da Frelimo e o compromisso de Filipe Nyusi são materializáveis e não um simulacro; são uma força para acção e não de simples conversa fiada; são um verdadeiro templo do desenvolvimento, cujas paredes serão um dia decoradas com o voto de cada moçambicano. Aos que não gramam da Frelimo, não tenho um compromisso, mas um aviso. Antes de irdes votar e antes de vos desfazerdes do ódio que sentis para com a Frelimo; em suma, antes do vosso voto de vingança, tendes de vos certificar de que o vosso templo vai ser construído sobre rocha firme e não sobre areias movediças ou num pântano. Qualquer pessoa, se tiver olhos bem abertos, verá que o caminho da Frelimo, apesar de difícil e longo, é único materializável. Compreendo que a pobreza e as privações, que são, em muitos caso, a principal fonte de ansiedade, podem levar  o povo a optar pelo voto de vingança. Mas se votarmos na Frelimo e no seu candidato, não há dúvida de que, talvez já no próximo quinquénio e certamente na próxima década, Nyusi e a Frelimo podem proporcionar a este país, que acaba de aprender as lições da guerra, um aumento do bem-estar material nunca antes registado na nossa experiência nacional.

domingo, 31 de agosto de 2014

Unidade, Trabalho e Vigilância!

Rajadas ciclónicas sopram de vários quadrantes na tentativa de destruir pela raiz a Frelimo cujas linhas mestras de sua edificações algumas vezes foram cobertas pela argamassa de erros grosseiros, preço que a Humanidade paga na sua peregrinação pela Terra. Todas estas rajadas se filiam numa filosofia de agressão e de violência que sempre a Frelimo repudiou e que não podem conduzir a nada de perdurável. Todos sabem que ela odeia o tribalismo e defende a unidade nacional. A sua determinação a este respeito representa bem mais do que a garantia da independência, estágio político social entre nós já ultrapassado. Estamos no período eleitoral e precisamos de nos precaver dos vende-pátrias camuflados de patriotas. Estão aos montes com objectivo de criar caos e quebrar a nossa unidade. Nesta altura, em que o país entrou no período eleitoral, desejaria recordar as figuras mais representativas dessa nação. Figuras que edificaram o país no sentido que a alma popular ansiava: os libertadores da pátria. Completa-se neste Setembro meio século desde que eles foram obrigados a optar pela revolução de sangue, pelas circunstâncias do momento. Desejaria lembrar os mortos e os vivos, os mais notáveis e os mais humildes dos seus servidores, o povo inteiro, que foi suporte natural do sucesso, sem cuja adesão tudo seria difícil de realizar. Desculpai a referência neste momento e nestas circunstâncias a uma grata recordação que me assalta o espírito e que de algum modo me servirá de credencial quando a Frelimo, um dos melhores e mais organizados partidos de África, for reconduzido ao poder.

Desejaria recordar as forças armadas que garantiram a arrancada dessa fase e ainda recentemente se bateram nas serras da Gorongosa e em arvoredos de Moxungue, pelos seus supremos objectivos: a integridade da Pátria e o seu progresso. Desejaria recordar o mais alto magistrado da nação, Armando Emilio Guebuza, que na série das grandes figuras que ocuparam essa magistratura vem desenvolvendo uma actividade que o torna credor da nossa gratidão. Ele é o maior intérprete desta época da nossa História, a quem todos, como moçambicanos, devemos uma dívida que não se salda, até porque, sem ele, alguns críticos iluminados talvez já o não pudessem fazer nessa qualidade. Quero apresentar a ele a minha homenagem, na certeza de interpretar o sentimento de toda a população com quem cruzei e cujas histórias sobre ele ouvi com atenção. Acredito, para terminar, que os moçambicanos não vão passar por cima do preceito sagrado, segundo o qual a comida para os filhos não pode ser entregue aos porcos. Dirigir um país, como sabiamente foi sendo dirigido, não é tarefa para aventureiros, umbiguistas, intriguistas e, sobretudo, tribalistas. Recordemos que com a Frelimo, povoações que mal despontavam são agora grandes urbes. Estradas, aeroportos, caminhos de ferro, fábricas, centrais eléctricas, estabelecimentos comerciais, grandes fazendas agrícolas, universidades, escolas, hospitais, pontes, numa palavra, o progresso surge, irrompe por todos os lados e, apesar de tudo, cada vez com maior pujança.
 
 
De resto, honestamente, não se percebe como, quando e por quem deve ser exercido o poder, sem a Frelimo. Na verdade, se é certo que a oposição assentou no princípio de mudança, doutrina que não nos trouxe qualquer novidade teórica ou prática, absteve-se de estabelecer uma definição prática sobre como ela própria a materializa nos seus feudos, aliás uma administração danosa e inútil. Mas pretendeu de facto trazer um conceito fantasioso e nessa ordem de ideias faz de conceitos um programa político. Para nós, uma boa mudança dos nacionalistas aos tribalistas, seria, portanto, inaplicável, como tantas vezes tem sido dito e redito. Mas admitindo por mera hipótese, que assim não fosse, bastará uns tantos habitantes de determinado território segredarem na intimidade das suas casas ou mesmo na praça pública que desejam mudanças para se dever ganhar eleições?! Será razoável que missivas de uma ou de algumas dezenas de cidadãos dirigidas a uma praça, ou meia dúzia de tiros na Gorongosa ou uma insurreição fabricada possam pesar de tal modo que ponham em jogo o destino da Frelimo e, com ela, do pais? Será correcto, será justo, será sequer admissível que em nome das mudanças assim concebidas se destrua a unicidade da nação por meio de voto?
 
Vai para 20 anos que as populações do país realizam diariamente o mais autêntico, o mais eloquente e o mais exigente de quantos plebiscitos lhes poderiam ser pedidos para manifestação da sua vontade. Neste momento, qualquer mudança é má, perigosa e nociva. Podemos espreitar para os países que tentaram provar o veneno da mudança. Se não recuaram, estão estagnados, se não venderam o a soberania tiveram que recomeçar. Isso nos auxilia a interpretar o verdadeiro sentido e objectivos das supostas mudanças: substituição aparente do poder político e manutenção e extensão de zonas de influência sem responsabilidades da soberania, ou seja, um neocolonialismo de índole puramente materialista e neocolonial. Algumas pessoas que vivem em flats que graças a nacionalização a Frelimo lhes deu não sabem que caso haja mudança os proprietários de tais flats virão conforme o compromisso secreto orquestrado pelos partidos da oposição. Por outras palavras, diz-se que as coisas nacionalizadas deverão ser entregues aos donos, isto é, aos colonialistas ou aos seus descendentes, a troco de ajudas monetárias. Imaginemos quanto foi nacionalizado e quanto beneficio adveio disso. O progresso, como atrás me referi, processa-se a um ritmo verdadeiramente impressionante, nesta nossa terra. E porquê? Porque ao povo foi informado que a única forma de sair do retrocesso é pelo trabalho, pela auto-estima e pelo abandono da vida de mão estendida. Segundo narra o Génesis, Deus disse a Adão, depois do pecado original: “tirarás da terra o teu sustento com muitas fadigas todos os dias da tua vida. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que te tornes na terra de que foste tomado: porque tu és pó e em pó te hás-de tornar”. O homem expulso do paraíso, isto é, o homem entregue a si próprio, determinando-se por seu livre arbítrio, havia de edificar o mundo em que tinha de viver. Este penoso encargo constitui a história do nosso tempo. Unidade, Trabalho e Vigilância! E são estes princípios, são estes valores supremos que desde o berço frutificaram na nossa pátria e se vêm transmitindo de geração em geração, as grandes armas de que nos temos servido em todas as épocas da nossa história recente e que ainda hoje empregamos com a mesma generosidade e a mesma fé nos duros combates em que estamos empenhados. Disse!

Pedro, MHRIC

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Juntos pelo templo da paz

Antes de escrever este texto, orei a Deus Todo-Poderoso com cada batida do meu coração e com todo o sentimento. Durante as minhas orações, pedi ao Todo-Poderosos que me desse forças - para suportar a mensagem que acabava de receber segundo a qual uma família de quatro membros que me acolhera no passado mês de Janeiro acabava de sucumbir, algures em Vanduzi, debaixo do fogo cruzado quando tentava ir a Gorongosa – e confirmasse a minha convicção de que este texto pode atingir o objectivo por que anseio, o de um presente feliz e um futuro ainda mais risonho. Precisamos de construir um templo da paz. Tenho uma grande admiração e consideração pelo Governo de Moçambique. Existe uma profunda simpatia e boa vontade para com a Renamo e a firme determinação de continuar, apesar das muitas divergências e obstáculos, a tentar estabelecer as pontes do diálogo. Congratulamo-nos ou deveríamos congratular-nos com contactos constantes, frequentes e crescentes nesse sentido. Na imprensa de hoje, há uma tendência de diabolizar uns inocentando outros, conforme a paixão política do interveniente o que leva ao extremar de posições. Todavia, é meu dever – e tenho a certeza de que vos desagradaria que eu não apresentasse os factos tal como os vejo -, dizia; é meu dever confrontar-vos com determinados factos acerca da presente situação.

A situação no Save em em Moxungue continua tensa, com os motoristas a condicionarem a circulação dificultando o trabalho das forças armadas. A Renamo está agora a tentar, agindo unilateralmente, construir aquilo a que eu chamaria a esfera renamista e todas as aldeias na Grande Gorongosa, em Chibabava e em Maringue estão sujeitas, de uma ou outra forma, não só à influência renamista, mas também a um controlo extremamente apertado, e em certos casos, crescente, por parte da Renamo. A partir de Gorongosa está a alastrar o comportamento policial. Somente a vila da Gorongosa, com as suas glórias imortais, está livre de ataques. Os homens da Renamo foram encorajados pelo seu líder a apoderarem-se ilegalmente de partes importantes do território florestal, e estão a ter lugar expulsões em massa de centenas de camponeses gorongosenses, maringuenses, chibabavenses, numa escala atroz e inimaginável. A sua produção agrícola é apoderada pelos homens armados da Renamo. Uma sombra desceu sobre o cenário tão recentemente iluminado pelo cessar-fogo que durava há vinte dias. Ninguém sabe o que a Renamo pretende fazer num futuro imediato, nem quais serão os limites, se é que existem, das suas tendências expansionistas. A situação presente deve forçar-nos a agir em prol das paredes da paz, uma acção que deve ser levada por todos os segmentos sociais iluminados: académicos, igrejas, sociedade civil e partidos políticos. Em nada nos ajuda diabolizar a Renamo ou o Governo perante a situação presente porque, como disse no passado, juntos podemos vencer o mais perigoso dos assaltos da história moderna, a batalha por uma paz permanente baseada na justiça.


Falei atrás, caros compatriotas, no templo da paz. Este templo tem de ser construído pelos moçambicanos de todas as cores. Todos devemos acreditar no propósito do outro e termos esperança no futuro do outro e compreensão para com as limitações do outro, para citar algumas belas palavras que aqui li há uns dias, «porque não poderemos trabalhar juntos numa obra comum, como amigos e associados?» Temos de partilhar as ferramentas da paz, aumentando a capacidade da diminuição das ferramentas da guerra. Talvez os exemplos do que já experimentamos ou retirámos da História antiga ou moderna nos ensinem que os blindados, os tanques de guerra e as armas por si só não podem garantir a segurança e a paz. Em vez disso, destroem o que a segurança e a paz construíram. As instituições universitárias devem organizar debates para apontar os caminhos para a paz. As igrejas devem organizar as vigílias para amolecer os espíritos duros que teimam em levar o país ao colapso moral. As organizações da sociedade civil devem organizar manifestações diversas em prol da paz. Os partidos políticos devem procurar mais aquilo que os une. Todos cabemos neste Moçambique, porque «na casa do meu Pai há muitas moradas». Na verdade, é isto mesmo que temos de fazer, senão o templo da paz pode não chegar a ser construído, ou, tendo-o sido, desmoronar-se-á, e nós revelar-nos-emos novamente impossíveis de ensinar e teremos de voltar, pela terceira vez, a tentar aprender na escola da guerra, agora incomparavelmente mais rigorosa do que aquela cujas consequências estamos a sentir.

A Idade das Trevas e a Idade da Pedra podem regressar nas asas cintilantes da nação, e os recursos naturais ora descobertos que poderiam agora fazer literalmente chover incomensuráveis vantagens materiais sobre todos nós podem provocar a nossa total destruição. Cuidado, digo-vos eu, o tempo é muito curto. Não optemos por deixar correr os acontecimentos até ser tarde de mais. Evitemos ridicularizar uma das partes em conflito para diminuir a animosidade. Uma contenção na linguagem. Este é o caminho da sabedoria! Mais vale prevenir do que remediar. Temos de, em todo o lado, defender o homem da subjugação pela força das armas para que possamos dotar todos os moçambicanos do poder dos valores e princípios que promovem a sublime condição da moçambicanidade. Não podemos alimentar fanatismos, pelo contrário, canalizemos todos os nossos esforços para a construção de uma grande fortaleza de paz, em vez de fabricarmos inimigos imaginários. Esta batalha não é só do Governo, nem é apenas a batalha da Renamo. É a batalha de cada um dos cidadãos cujo direito é viver em paz. É um compromisso de consciência e responsabilidade nos corações de milhões de moçambicanos. É isto que vinha dizer. A mensagem está entregue, Deus é minha testemunha.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Duas incógnitas

Diz-se que se o MDM ganhar a ponta vermelha irá desnacionalizar tudo o que a Frelimo nacionalizou. As casas irão para os antigos colonos. A minha primeira incógnita é que não sei o que sucederá com os hospitais e os edifícios escolares que, mercê da nacionalização, permitem ao muçulmano, quanto ao ateu e ao próprio cristão fazerem uso deles sem formalidades nenhuns. Não foi por acaso que Lisboa, mais do que   outra capital europeia, tornou-se no verdadeiro salão de jantares do Daviz Simango, o líder do galo. Chamar emoções para ganhar dividendos políticos é o que se deve aconselhar que homens de bem não se metam.  Um alto espírito da nossa terra, referindo-se à origem do MDM, num artigo inserto há tempos num grande semanário de Maputo, o Domingo, designou por «criação dos tugas» e que os Simango são apenas a face moçambicana do movimento. Não me furto de citar um outro espírito local que referindo-se aos passeios dos líderes do Galo em Portugal disse: «… os encontros não tinham como participantes os moçambicanos por lá radicados, mas sim os ex-colonos e o manifesto foi a promessa de devolução dos imóveis por estes deixados aquando da independência de Moçambique, o que valeu inúmeros apoios ideológicos e monetários, algo que similarmente aconteceu nos outros países, porém, ai com promessa de partilha dos recursos naturais de Moçambique».

Nesse artigo, o seu ilustre autor, mostra-se em desacordo com a propaganda do MDM para angariar fundos com promessas absurdas, e também nós, dentro do modesto valor da nossa opinião, a consideramos, por virtude até de moralidade que promove, se não inconveniente, pelo menos, pouco aconselhável traze-la a público na hora actual em que as feridas da colonização ainda sangram. «Aguas passada», como esclarecidamente observa o artigo a que nos referimos, «não movem moinhos». Com efeito, é evidente que hoje não se pode falar de devolver as casas nacionalizadas aos ex-colonos. Muitas delas já não estão em condições e já foram alienadas. A nossa política não pode ser condicionada pelas atitudes gravosas que outras nações tiveram para connosco em épocas já agora remotas. Para nos nortearmos na escolha do rumo a seguir não precisamos negociar a venda do país porque, só as realidades da hora presente e as perspectivas mais lógicas do futuro são de ponderar e ter em conta. Ninguém deseja, no seu justo estado de razão, regressar ao colonialismo. Há outras compensações que poderiam ser equacionadas para com os ex-proprietários das vivendas cuja propriedade é inquestionável. E isto, a própria Frelimo poderia ter em conta nas suas discussões. É preciso frisar que o povo moçambicano não foi vítima dos portugueses, proprietários de muitas propriedades no solo pátrio, mas do regime colonial enquanto sistema de dominação. Por isso, não nos podemos colocar no lugar de vítima, para justificar o fracasso na tomada de posição em relação ao que foi nacionalizado, fruto do suor de muitos humanos cujo erro foi suar numa terra longínqua.

A segunda incógnita é o que o MDM pensa sobre a Educação. Não concordando com o actual modelo promovido pela Frelimo que permitiu tornar muitos moçambicanos em cidadãos através da educação para todos, este partido diz que irá entregar parte das responsabilidades aos bancos privados, de modo a financiarem os estudos dos particulares. Ora, sabido que a banca moçambicana tem das mais elevadas taxas de juro no mundo, como tal será possível? As nossas universidades estão cheias de pessoas acima dos 35 anos, pelo que os bancos dificilmente poderão conceder créditos para essa finalidade. Mais uma vez, o MDM navega em pântanos, importando modelos desajustados com a realidade. Acima da afeição ou desafeição que acaso nos inspirem outros povos, e, por isso mesmo, muito acima das questões sentimentais suscitadas pelo desejo de «bem governar», aliás, de apaixonarem e dividirem os homens pacíficos, deveremos colocar sempre o interesse nacional baseado na realidade local. A própria desorientação absoluta em que vive o MDM, a respeito do dia de amanhã, recomenda que Moçambique e os moçambicanos imponham a si mesmos uma descrição de que, por certo, não poderá advir-lhes mal, nem terão que arrepender-se pelo que até aqui já foi feito em matéria da educação. Tem-se visto que pessoas preparadas dentro deste sistema de ensino questionam com argumentos sólidos a qualidade de ensino em que se formaram. Caso para perguntar, de onde vêm as suas sábias interpretações da má qualidade do ensino se elas reconhecem-se bem formadas? Este não é problema do regime, mas da sociedade como um todo.
A propósito, e como ponto final nestas considerações, diremos ainda que continua a parecer-nos difícil sustentar-se à luz dos factos, vistos com exactidão, uma educação com qualidade quando a quantidade dos que a necessitam ultrapassa grandemente os meros desejos dos políticos «que pensam nas eleições». Há combinações secretas que mais duma vez tendem a cair sobre Moçambique e representam ameaça de desrespeito pela nossa soberania e é conveniente não se esquecer que foram, sobretudo, o servilismo cego e má cabeça que o tornou possível e lhe deu alento, a causa do nosso atraso. Não regressemos nunca ao servilismo desastroso que, por muito tempo, motivou que o nosso país fosse objecto de negociações secretas nem reincidamos nas manifestações de má cabeça que em alguns passos da História nos trouxeram amarguras e vicissitudes, e poderemos, assim, confiar em que, terminado o período eleitoral, a nossa escolha não venha a criar-nos dissabores nem arrependimentos. Disse!
Pedro, MHRIC

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Os deputados de Luxo

Assinalaram os últimos dias de Abril e os primeiros dias deste mês de Maio factos pertinentes à nossa política interna e de grande relevo na vida da nação. Um deles possui até transcendência que pode considerar-se sem precedente. Referimo-nos a aprovação, pela Assembleia da República, das regalias aos EX-isto e aos EX-aquilo, à aparição de Afonso Dhlakama  e à Reunião dos quadros da Frelimo na Matola na qual, Filipe Nyusi, disse algo, e é a esta citação, sobretudo, que atribuímos projecção excepcional nesta nossa alocução. «A vitória será nossa porque a nossa causa é justa», disse Nyusi tendo reconhecido que «a marcha é longa mas temos fé e esperança que se levarmos a mensagem da verdade, justiça e continuidade da mudança lograremos sucessos». Uma parte da sociedade civil está indignada com o comportamento dos deputados que aprovaram leis em benefício próprio, sabido que estes mesmos, quando foi a vez dos médicos e do respectivo estatuto, hesitaram. E, dessa vez, a causa da Sociedade Civil vai ao encontro das palavras de Nyusi, na medida em que «é justa» mas é difícil saber se esta logrará vitória conseguindo travar uma lei que considera injusta. A marcha da manhã de 16 de Maio de 2014 na capital, por mais que se queira desvalorizá-la, é um exemplo eloquente de uma indignação justa.
Quando aumentam as pressões externas e internas no sentido de manter-nos submissos a interesses anti-nacionais e anti-populares, se faz mais do que nunca necessário o debate das grandes questões indispensáveis à conquista pelo povo moçambicano de mais oportunidades de trabalho e educação, de saúde e de emprego, de justiça social e do poder democrático. É visível e revoltante o contraste terrível da sempre crescente carestia de vida e a melhoria de vida de pessoas que ocupam determinados espaços de visibilidade pública. Enquanto estes últimos viajam de four by four, com quatro lugares vazios e debaixo do AC, os primeiros viajam no «my love», com risco de chegarem sujos no serviço. Avisos neste sentido podiam ler-se na marcha.  Não é concebível que numa altura em que vários sectores profissionais clamam por melhorias salariais para que consigam comprar vários géneros de primeira necessidade um grupo de deputados crie lei em benefício próprio, com consequências gravosas a curto prazo para todo o povo.
Entretanto, parte considerável da população moçambicana leva uma vida seca e desumana, condenada ao sofrimento que, em última instância, a leva à doença e à morte precoce, enquanto os porta-vozes do seu sofrimento gozam tranquilamente o conforto da estrutura de cumplicidade parlamentar. Não me furto de citar uma frase da marcha: «Inimigos na Gorongosa, parceiros estratégicos do roubo ao povo no Parlamento». Nas periferias das nossas cidades, a vergonhosa realidade de cabanas, onde a miséria fabrica a cada instante sofrimento e delinquência, onde o mosquito fabrica as mortes, contrastando com o esplendor babilónico dos bairros elegantes para onde os endinheirados arquitectam truques de sufocação popular, onde o vazio intelectual, a amoralidade irresponsável e o excesso de riqueza criam a figura anti-social do político opressor, convida-nos a travar uma luta incessante contra as leis injustas que lesarão o Estado por longos anos. A marcha é longa mas se também tivermos fé e esperança, se levarmos a mensagem da verdade, justiça e continuidade da mudança lograremos sucessos, e a lei voltará ao Parlamento para ser revista.
Tornou-se insuportável a irresponsabilidade, o (im)patriotismo e a (in)autenticidade dos defensores do povo que chega a causar asco e contribui para desorientar extensas camadas populares, afastando-as dos ideais que nortearam a fundação de seus partidos políticos. Na realidade, esta lei não representa verdadeiramente os interesses do povo, cuja metade vê-se ainda impedida de comer duas refeições ao dia, não porque a terra que cultiva é infértil mas por uma injustiça planeada estar a pesar-lhe os bolsos, embora assista a comícios, ouça rádio, tenha opinião, produza bens e suporte as benesses dos erros cometidos também em seu nome, como parte do povo que é.
O rápido desenvolvimento industrial verificado na última década, como se processou, por si só não pode resolver vários problemas básicos do povo, muitos dos quais, ao contrário, viram-se agravados. Muitas famílias defrontam-se, assim, com uma grave situação de crise permanente, da qual só poderão sair através da reformulação de vários aspectos da estrutura legislativa, com destaque para leis que beneficiem mais o empresariado nacional. Não há no seio do povo quem honestamente não deseje e necessite de uma urgente modificação nesse quadro doloroso dentro do qual se desenrola a angustiante vida nacional de nossos dias. Mas, infelizmente, dentro do país nem tudo é povo. O povo é, sem dúvida, a maioria, o elemento dinâmico e sempre novo que luta porque precisa libertar-se dos enganos. E justa é a sua causa.
Que os moçambicanos saibam; em todos os países africanos há uma minoria constituída pelos grupos nacionais ligados aos sectores com características semi-feudais e semi-coloniais que ainda persistem, pelos grupos estrangeiros interessados em nosso estágio de atraso e seus testas de ferro e advogados nativos, que mobilizam todos os recursos publicitários no sentido de arregimentar forças e dividir o povo, procurando anestesiar suas camadas menos esclarecidas com falsos argumentos políticos e até religiosos e morais, de modo a afasta-las da luta pelos seus interesses, lutas essas que, eles sabem, terminarão por modificar o actual estado de coisas. Sentem estes deputados que já não controlam inteiramente a garantia de sua continuidade e que, consequentemente, o próprio poder político começa a fugir-lhes das mãos, conquistado aos poucos por novas pessoas mais afinadas com os interesses nacionais, por isso desesperam e chegam a colocar regalias por antecipação, na esperança de impedir o despertar da consciência popular e a marcha do povo unido para redistribuição dos sacrifícios e da riqueza. Existem, pelo país adentro, muitos ex-administradores, ex-chefes de postos administrativos e até ex-régulos, alguns dos quais fizeram trabalho excelente e digno de registo, mas hoje são esquecidos. Este país não veio do nada e a todos pertence.
Por tudo isso, vive o país um dos momentos mais importantes de sua história. Somos um próspero país, com um imenso e rico território e uma numerosa e laboriosa população, cujo crescimento vertiginoso nos coloca diante de uma imperiosa necessidade de um esboço de leis que impeçam o prejuízo ao Estado e promovam desenvolvimento harmónico e planificado que integre no processo de industrialização as áreas mais atrasadas e possibilite ao povo uma participação mais directa na vida democrática, assegurando internamente as bases políticas e económicas para a nossa projecção nacional e internacional. Isto requer dinheiro que deve ser poupado. Lembremos que temos 250 deputados que gastam um salário que caberia para 5750 trabalhadores baixos do Ministério da Agricultura. Disse!