domingo, 5 de abril de 2015

O que não somos capazes na paz será possível na guerra?

Uma Páscoa diferente. Não paro de imaginar cenários tristes, a milhares de distância de casa! Dhlakama confirmou que houve confrontos militares em Gaza. Para onde caminha o país? O que o espera, para além da guerra? Talvez Gorongosa e Maputo prevejam melhor o que pode acontecer, do que nós outros. As democracias iludem-se pensando que a paz, obtida através do arrasamento de todos e da destruição de tudo, lhes trará força para subsistirem. Este é o tempo da tempestade. Não é o tempo da euforia. A tocha da Unidade corre risco de ser emboscada ou então, terá que fazer o seu trajecto de avião. Advém daí a relevância que o ante-projecto da Renamo adquire e o lento, mas previsível, desfile até ao final dos trabalhos parlamentares. Caberá ao Partido Frelimo, o peso da escolha de uma solução governativa para Nyusi. Isto porque segundo o Péricles Nativo, em Mafambisse «é assim como as coisas são feitas. Mesmo lá nos Obamas, lá na América, quando é exactamente para criar nova administração dentro de um país é preciso que juridicamente a Assembleia da República receba aquele documento que seria chamado de anti-projecto para ser ratificado». No caso do provável caldo de tendências difícil de consumir o império da força vingará. Mas já lá vamos.

O líder da Renamo, que olha para si próprio com a autoridade de um "salvador" num país onde todos anseiam a vinda do Messias, ou Nyusi, que vai criando uma expectativa incomum entre os críticos e os apoiantes pela até aqui liderança calma e didáctica como vem conduzindo os destinos da nação, são apenas os protagonistas do desfile. Faltam todos os outros, que vão entrar em cheio no barulho que se seguirá. E essa é a segunda parte do enredo. Afonso Dhlkama, já aqui o dissemos, é o que mais razões tem para estar sereno. Depois de ter visto passar as administrações de Samora, de Chissano e de Guebuza não só elogiou o seu novo interlocutor, como foi capaz de apoiar que ele merecia presidir a Frelimo, o que acabou acontecendo no Domingo de Ramos. E não pára de chamá-lo de «o Presidente», o que é muito bom. Pior será o andar de Nyusi, de quem se espera mais serenidade na forma de lidar com os homens armados da Renamo. Um dossier com barbas brancas. As chefias policiais e do exército, ligadas à antiga administração, poderão ser o seu calcanhar de Aquiles, se é que o obedecem ou optarão por dar falsos relatórios de um perigo eminente representado pelos homens armados da Renamo e, assim, legitimar uma ofensiva. E os tacos! É que, o andar das mexidas que o PR vem fazendo assusta também a elas, imaginando, desde logo, que uma instabilidade momentânea condicionará momentaneamente as inevitáveis mudanças. 

Já para não falar do inegável peso de Guebuza cuja elite ainda não foi totalmente desmontada a vários níveis. Uma instabilidade imaginária permitiria a esta elite mais um tempo no poder e preparação de uma saída honrada. E ai, o PR ou agradará aos generais para deles obter fidelidade, ou agradará ao povo para não desiludir as expectativas até aqui criadas. Se o líder do Partido Frelimo gerir tão bem o dossier «homens armados» como tem gerido os negócios do Estado, terá em cima da sua administração uma mão-cheia de homens e mulheres a carregar os seus slogans com todos os defeitos e virtudes. A marcha dos confrontos em Gaza, por enquanto sem fisionomia, e os acontecimentos que se lhe ligam, tendem fortemente a envolver no conflito o exército que devia, pela Lei-Mãe, conservar-se neutro. Estará o exército a agir a mando do PR ou trata-se da infância da desobediência? Desse modo, a rectaguarda da guerra encontra-se ameaçada de cada vez mais, e, se a contenda chegar a atingir as últimas violências, pode ser que ninguém escape aos seus horrores. Se assim for, que surgirá dos escombros? Novos Moçambiques! Esta probabilidade ainda remota contêm todas as dúvidas sobre o futuro do próprio país, e torna singularmente pungente a hora que se vive.   

A Renamo movimenta-se para o Sul, naquilo que apelidou de «fuga para frente» e o exército quer tudo fazer de modo a devolver o perigo ao seu habitat natural: o centro. Isto tem implicações. Esta táctica da Renamo constitui duro golpe ao exército que pode ver-se cansado muito antes dos verdadeiros recontros. As perseguições em curso favorecem à Renamo na criação de novos redutos móveis com todos os perigos que representam para um exército que tem a sua fraqueza na logística em comparação com as bases que eram conhecidas. Neste sentido, o exército não poderia defender o país eficazmente, dum ataque brusco e de larga escala. Voltemos ao  império da força. Num encontro popular em Mfambisse, Dhlakama afirmou aquilo que se suspeitava. «Não é pedir favor a Frelimo. Se a Frelimo não quiser, se a bancada maioritária da Frelimo brincar comigo, Dhlakama, é o que eu queria que chumbasse, para levar, governar à força, tomar conta disso, não há problema, não há problema». Na realidade, Dhlakama não deseja a guerra, mas reconhece que terá de fazê-la se as perseguições continuarem, e, demonstrando-a quanto pode, promete chegar a Maputo, para atacar lá  ao mesmo tempo que procura evitar que o exército se desembarque definitivamente dos últimos estorvos postos à sua desenvolta neutralidade. 

Ter-se-á, porém, a guerra aproximado do seu início? Decerto, haverá caminho para a evitar mas este, por agora, não se divisa, nem pode prever-se qual será. É aqui que entra a segunda parte do enredo! E então veremos a segunda vaga de heróis anónimos, dispostos a intermediar nisto mais naquilo. O dinheiro que fingimos não ter no momento da paz existirá no momento da guerra. O reduzido exército que defenemos na paz será preterido e na guerra defenderemos um recrutamento forçado bem acima do que sobra dos guerrilheiros da Renamo dispostos ou a incorporarem-se no exército ou a irem para a vida civil. Dinheiro para negociações não faltará como agora tanto falta para integrar os esfarrapados «homens armados da Renamo». E ficaremos conhecidos porque o nosso nome estará nas primeiras páginas dos Jornais Mundiais a fazer notar que há mais um espaço para vender armas e ensaiar a tão almejada caridade. Não andará, pois, muito longe da verdade, que o dilema posto neste momento pelo Dhlakama ao Presidente Nyusi seja o seguinte: ou concertamos a paz, e feita ela, encarrego-me de meter o urso na jaula, ou, se a guerra  for por diante, preparemo-nos para o último combate e o vencedor do futuro ocupará, gloriosamente, a Ponta Vermelha. Neste caso, a vitória de uma das partes sobre a outra, fará dos vencedores e dos próprios neutros outros tantos vencidos. Mas enquanto isso não acontece vou aproveitando pedir ao Altíssimo uma bênção pascal, para amolecer os corações dos que têm o poder de inspirar-me o medo e a confiança. Alleluya

domingo, 29 de março de 2015

Guebuza e o Discurso da Transição

Naquele momento, diversíssimos eram os parasitas que se prendiam, definitiva ou periodicamente, à Frelimo e em tanto maior número quanto mais a nossa vitória se tornara clara. Uma grande parte deles, aquando da campanha para eleições de 2014, mantinha-se muda, esperando pela queda da Frelimo para, de seguida, com as pedras mantidas nos bolsos, atirarem todas sobre Guebuza. Depois de uma vitória que nos custou a falsa e injusta acusação de fraude por parte daqueles que tinham contas a prestar aos patrões estrangeiros, era preciso devolver a vitória aos seus legítimos fazedores. Estar do lado do vencedor é sempre motivo de alegria e de orgulho, mas o mal é quando começaram a querer apoderar-se da vitória, menosprezando até aqueles que tinham dado tudo para que a vitória se materializasse. Lembro-me de pessoas que, no desespero, tentaram seguir a via de fraude e mercê da pronta intervenção policial foram para as esquadras. Lembro-me de camaradas que correram tantos riscos pessoais e colectivos em defesa de cada centimetro da soberania da Frelimo. Lembro-me de camaradas que arriscaram os próprios empregos para garantir a vitória da Frelimo e do seu candidato. Depois da vitória, gerou-se uma campanha para linchar a todos eles. Na hora da despedida, Guebuza, o pai da vitória de 2014, apercebendo de que há os que pretendiam colher onde não semearam, disse: 

«Esta é uma vitória que foi construída por todos nós, membros da FRELIMO, de cartão e de coração: É a vitória daquele que colava panfletos ou promovia a imagem da FRELIMO e do seu Candidato; É a vitória daquele que compôs canções, participou nos nossos eventos ou garantiu a logística da nossa campanha; É a vitória daquele que produziu documentação ou participou em debates ou integrou uma brigada. É a vitória desses milhões de anónimos, nas zonas rurais, nos subúrbios e nos centros urbanos, no País e no estrangeiro». 

Guebuza não precisou dizer «eu sou isto, eu sou aquilo, Mandela, Obama, Messias, sei lá quê...». Apenas mostrou que a Frelimo, sensata e tranquila, era senhora da democracia moçambicana, o umbigo da nação, o único império político nacional onde reinava ainda soberanamente a paz e democracia genuínas. Por esta razão, também tinha que ser o reino da Justiça. Ele mostrou que aquela posição privilegiada da Frelimo não derivava de qualquer factor metafísico, não era produto de milagre – se bem que devíamos agradecer à Providência o muito que Lhe devíamos. Era o resultado lógico de uma sólida linha de conduta política vinda desde 1962, conduta essa que teve expressivo proémio na disciplina partidária. «Preocupa-nos, todavia», disse ele aos presentes, «a postura e comportamento de alguns camaradas, que, publicamente engendram acções que concorrem para perturbar o normal funcionamento dos órgãos e das instituições e para gerar divisões e confusão no nosso seio». De facto, semanas antes, camaradas que gozando das liberdade de expressão iam a uma certa imprensa, no lugar de invocarem os estatutos do Partido para tratar dos processos de sucessão, evocavam a tradição, uma expressão simples de que «sempre foi assim». E alguns deles, só se recordavam das leis quando era para falar de assuntos ligados à oposição, o que era preocupante. Guebuza não era agarrado ao poder, como apregoavam os seus críticos, internos e externos. Nenhum analista acertou sobre a grandeza escondida em Guebuza.

Guebuza, a quem coube a árdua tarefa de eliminar as graves incertezas que pairavam sobre a Frelimo, no demorado período de tergiversações e até frustres abdicações, provenientes da inércia dos políticos que então o criticava para dar a entender que o seu tempo era o melhor, compreendera a gravidade do momento. Para a Frelimo era uma questão de vida ou de morte porque, como disse: «os nossos adversários batalham, dia e noite, para que o seu sonho seja materializado. Cabe a nós, hoje como ontem, batalharmos, sempre unidos, coesos e firmes, para que esse seu sonho se transforme em pesadelo». E o pesadelo não demorou. Soou como em todos os cantos da imprensa sob vários títulos, num país cujos políticos não estavam preparados para ouvirem as verdades nuas e cruas. Ele dirigia um partido que tinha a sua inspiração no povo moçambicano, a causa e consequência da sua existência, num momento em que a cura dos vícios da oposição vinha da simples virtude de princípios e acontecimentos importados de outras latitudes independentemente das condições locais e dos defeitos dos membros daqueles partidos em materializá-los. Para os camaradas não era assim. O justo anátema lançado por Guebuza à intriga política, fora, já muitos anos antes, uma convicção dos fundadores da pátria. Era convicção que se soubéssemos civilizar como soubemos conquistar não tardaria que ocupássemos lugar eminente entre os partidos dominantes de toda a África. O que tínhamos a fazer para ter esse resultado? Não fazer política, a política da oposição! Porque «hoje, como ontem, quando os nossos adversários nos elogiam é porque descobriram ou porque pressentem que estamos no caminho errado, pois eles não nos querem e nunca vão-nos querer por bem: Não querem uma FRELIMO forte, omnipresente e popular; Não querem ver o seu Governo forte e a implementar, com celeridade e impacto, o nosso manifesto eleitoral; Não querem ver o nosso Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, forte, firme, dando o seu melhor na direcção do Estado porque sabem que isso beneficia não só a ele como à nossa gloriosa FRELIMO».

Não ceder as suas chantagens. Não atirar ao escuro, menosprezando os canais e as regras estatuárias do Partido, evocando hábitos e tradições. Só assim mereceríamos o respeito que ainda detínhamos entre os grupos que também se denominavam de partidos políticos embora sua actuação fosse duvidosa. Para adquirir influência a que tínhamos direito pelas nossas tradições, pela nossa lealdade, pela bravura do nosso carácter, pelos nossos sentimentos eminentemente democráticos, não devíamos desviarmos deles, nem cessar os nossos esforços de alcançar o próprio resultado a que deveríamos aspirar, a prosperidade das nossas aldeias, das vilas, das cidades, pelo progresso da razão moral e da liberdade humanas. No confronto com o que se estava passando no nosso partido, o único império político nacional onde reinava ainda soberanamente a paz e democracia genuínas e com o que se vinha realizando, há 40 anos, não havia nada de taumaturgia, mas sim uma sensata, ponderada e calculista disciplina partidária. Estes elementos imprescindíveis para a prosperidade partidária, assentes na tradição democrática, mantêm-se porque se mantêm os nossos sentimentos eminentemente democráticos, adversos, portanto, a toda a espécie de tirania e abertos para largamente receberem todos aqueles que queiram compartilhar da nossa vida e da nossa actividade civilizadora, a impor-se, constantemente, à consideração e ao respeito ao que se passa nos partidos alheios. 

Pôde dizer-se que a Frelimo estava agora, como ontem, na ordem do dia em todos os jornais, e de forma mais realista do que no meio dos últimos meses quando certas imposições subreptícias do jogo diplomático faziam desviar para a oposição as atenções de alguns distraídos, a fim de um hábil político poder melhor atingir o seu escopo de predomínio no nosso país. Desde aquele discurso da matola, já não se arquitectavam lendas fabulosas, acerca de fantasiosa queda livre da Frelimo. Afinal de contas, até os jornais da direita viviam o pesadelo. A nossa preocupação pela democracia não datava, como se sabia, do eclodir da crise que afligia tragicamente os partidos da oposição. E a Frelimo não era lugar de degredo, aposentaria de políticos preguiçosos, interesseiros e calculistas ou derradeira etapa dos falhados. Era uma família de políticos hábeis em prol do bem-estar dos moçambicanos e era disso que aquele discurso enfatizara. Guebuza, contra todas as previsões, mais uma vez, ganhava a batalha colocando o lugar à disposição. E deixará uma mensagem bússola que deveria nortear a direcção do partido: coesão, firmeza e disciplina e a importância de usar os canais próprios para resolução dos problemas partidários. 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Carta ao Ministro da Educação

Local: Izmir, Turquia

Assunto: Cobranças ilícitas para vagas na Educação

Excelência! Deve ser a primeira vez que escrevo uma carta a um Ministro. Sou docente na maior Instituição Universitária de Moçambique, ou, se quiserem, Universidade Pedagógica de Moçambique,  actualmente na Turquia, a fazer Doutoramento. Além da UP, fui professor no ensino primário, no secundário, na Saúde e na Academia Militar, pelo que escrevo esta carta consciente de que o problema que apresento mereça um olhar a vosso nível. Excelência, tinha dois educandos no Instituto de Formação de Professores de Tete, uma prima e um primo, de cujas dispersas pagava, com gosto, esperançoso de que, uma vez terminada a sua formação, juntos pudéssemos lutar para combater a pobreza. Concluíram com sucesso e com boas notas. O que me espantou, primeiro, foi a prima que pediu algum valor para poder «garantir o lugar», a nova linguagem que se usa para colocação. Não dei, confiante de que a meritocracia tinha inaugurado o seu reinado e que a continuidade escondia dentro de si a mudança. 

Nas últimas semanas, enquanto esperava pela colocação dela, foi a vez do primo que pediu para eu «interceder». Excelência, pode imaginar o que é viver no antigo Império Bizantino e resolver problemas nos antigos apêndices do Império do Muenemutapa!  Indiquei a pessoa a quem o primo devia falar, algures em Moatize, desde que falasse do meu nome, tal uso de influência em voga na nossa sociedade, um mal que deve ser combatido. Dias depois, o meu primo já era uma pessoa feliz com guia para ir a um distrito. Apesar de o referido distrito possuir défice de professores, os responsáveis pelos recursos humanos estão a exigir entre 6.000 a 15.000 Meticais por pessoa, só para ter colocação. E os que tinham sido fracos durante a formação, mas com dinheiro, já estão a trabalhar enquanto os melhores sem dinheiro, mas que poderiam ajudar na melhoria da qualidade do ensino, continuam a viver as incertezas. No caso do  meu primo, eu devo interceder também ao nível distrital, mas…. Perante os factos, não imagino quantos moçambicanos podem estar a ser vítimas desta actuação, muitos deles contando com as próprias forças, sem alguém que possa interceder por eles.

Atenciosamente

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Carta a um amigo frelimista: o nosso céu em perigo

Meu caro plebeu

Quando, nos saudosos dias de vida religiosa, éramos assíduos frequentadores das missas dominicais, mal diríamos então que, passados 17 anos nos tornaríamos a encontrar nesta longa caminhada da vida, numa terra longínqua como Turquia. O amigo, coberto de glória, pelos seus triunfos sucessivos que o tornaram um empresário moderado, que encanta seguir, eu gasto e cansado pela longa permanência fora do país. Naquele tempo, sempre saudoso, para reforçar a modesta compreensão linguística, lancei mão, com parca habilidade, de crónicas que escrevia para uma revista religiosa da Companhia de Jesus. Assim me ficou o hábito de escrever, nunca perdido pela temporada na Europa, de onde te mandei cartas sobre as nossas relações de longa data e, em especial, sobre os nossos valores religiosos. É baseando-me nestes valores que analiso a actual realidade nacional. Quando os frelimistas tratam de situação particularmente muito grave, costumam escrever no cabeçalho das suas directivas as palavras «Unidade, Trabalho e Vigilância». Ter alguma palavra ou expressão de esperança é uma prática sensata que conduz à clareza do pensamento. Meu caro, estejamos vigilantes porque as constatações do passado mês de Novembro, acerca de regiões autónomas, passados já três meses, não perderam a sua actualidade, pelo contrário, parecem urgir-nos ainda mais. Uma nuvem negra cobre o céu da Frelimo! Naquele dia - ainda me lembro - dizias que as duas oposições tinham agendas e visões diferentes mas iguais na concepção. Se para a Renamo a justiça seria possível na divisão do país, para o MDM ela encontrava a sua materialização na tribalização da política. A Frelimo, pelo contrário, acredita que a justiça deve ser encontrada na Unidade Nacional. E concluías dizendo que a ideia da unidade é a mais valiosa pelo que deve ser defendida. Concordei contigo em tudo e ainda concordo. 

Entretanto, devo dizer-te, pois, algumas coisas preocupantes. O que está a acontecer é que as intenções da Renamo são demasiado incertas e falta-lhes a clareza necessária para que possamos nos pronunciar sobre elas. A última e tremenda guerra da qual acabámos de sair, além do seu elevado custo enquanto durou, dinheiro que poderia ser investido em outras áreas sociais, aumentou a miséria e a penúria, principalmente nas áreas afectadas, afastou investidores criando incertezas. Preparou um terreno fertilíssimo para os factores de divisão e veio dar mais força aos que a financiam e habitualmente a fomentam. A guerra sempre recuou os nossos ideais. Dos esforços e dos trabalhos dos guerrilheiros da Renamo só hoje restam ruínas, nada mais do que ruínas e miséria, medo e desespero. Por mais paradoxal, porém, que pareça, é disso que a Renamo se serve e se orgulha, lançando culpas a quem governa, mesmo quando ela é responsável que intimida investidores. Vemos, por uma parte, o homem comum voltar-se para essas doutrinas de autonomia como para um Evangelho, que traz a promessa de uma vida melhor depois da morte. Esta mesma Renamo, nos anos 90, recusou-se a nomear Governadores e administradores nas áreas em que tinha vencido. Esta ideia já era originalmente da Frelimo e eles a recusaram alegando que queriam governar todo o país. Com o passar da idade, há que tudo fazer para ser presidente de alguma coisa, o que é bom! Aconteceu durante a Luta Armada de Libertação Nacional. Porém, o boicote das eleições municipais pela Renamo em 1998 e em 2013 afastou-a da conquista dos espaços onde pudesse exercer o agora tão almejado poder autónomo e seu lugar foi ocupado pelo MDM, hoje em apuros. Por outro lado, intelectuais, intimados por uma espécie de fatalismo, ou fecham voluntariamente os olhos ao perigo imediato ou capitulam de antemão, preparando-se para um martírio inevitável. E nos aconselham a tratar Dhlakama como ovo, dando-lhe toda a razão do país porque, segundo dizem, pode ficar zangado e complicar as coisas. Acrescentam dizendo que assim o fazem para o bem da própria Frelimo. Entretanto, o perigo mais grave é que, ultimamente, de vários segmentos da sociedade, a juventude desempregada tem sido facilmente seduzida. 

Ao ver as flagrantes injustiças e abusos da ordem social nos quais poucos comem e muitos se sufocam com o cheiro dos restos de boa comida, ao ver o sonho de ter emprego estar cada vez mais reservado para quem já tem algum dinheiro devido à venda de vagas e ao uso de influência feita pelos sectores dos Recursos Humanos nas instituições públicas e que as forças da posição parecem não poderem ou não quererem enfrentar a situação de frente, dão ouvidos às novas doutrinas. E isto faz com que se diga de boca cheia que a proposta de lei a ser submetida para Assembleia da República seja tratada de forma especial sob risco de «este Governo cair». Meu caro plebeu, vemos o Parlamento a perder a sua vitalidade. Já é difícil afirmar que o poder pertence ao povo quando o Parlamento que o representa não é livre de debater e de decidir de forma consciente e quando a maioria parlamentar é ameaçada pela minoria. Ademais, a teoria da autonomia não é uma suposição abstracta porque os seus ideólogos a ensinam, agem e vivem. É de grande importância que os frelimistas a conheçam, tal qual é na verdade. Este é o nosso dever mais difícil e urgente nos dias que correm. Dever mais urgente, pois o objectivo imediato, visado pelos nossos irmãos, não é apenas divulgar a própria doutrina, mas pôr em confronto directo entre o Presidente Nyusi e a Frelimo; apossarem-se do poder, para, com seus métodos já conhecidos, poderem cortar à Frelimo qualquer acesso ao povo. Estamos perante uma violação dos destinos nacionais e tal está a acontecer debaixo de um véu de frases moralizadoras, talvez destinadas a apaziguar a sua consciência dos seus autores, de quem seria de esperar palavras de condenação. 

É preciso cortar os tentáculos empolgantes da Renamo, que se estendem sem cessar aos lares dos pobres para saciar as suas bocas sugadoras, com falsas promessas. Ela sonha em criar um cinturão de resistência silenciosa que nos poderá pesar no futuro. Como frelimistas, amigo, temos que ir-nos prevenindo das manobras suspeitas da Renamo. Abraçados por uma mão de confiança cega e calados poderemos acordar assustados, despejados do poder porque sem acesso ao povo. Assim como no passado o anti-socialismo, assim agora o anti-constitucionalismo pôde nascer e robustecer-se devido às condições de vida da grande massa populacional, tão duras, ou antes insuportáveis, que reinavam e ainda reinam. O que devemos aconselhar que se faça e em que devemos ajudar, é, sem mais nem menos, um plano de salvação nacional que dará melhores condições de vida ao povo. Em que, então, o rápido desenvolvimento e, provavelmente crescimento económico deverá ajudar a cada um dos moçambicanos? É, nem mais nem menos, a segurança alimentar, a assistência social, a liberdade e o progresso para todos os lares e famílias, para todos os homens e mulheres de todo o país. E aqui, refiro-me, em particular, à miríade de casas e pequenas cabanas nas quais os chefes de família lutam, no meio de todos os acidentes e dificuldades da vida, para proteger a mulher e os filhos das privações e educar a família segundo conceitos éticos que frequentemente desempenham um papel fundamental em suas vidas. Não há nada mais típico dos que têm medo do diálogo do que repetirem e voltarem a repetir um argumento que já foi perfeitamente rebatido e refutado, com o objectivo de construir uma opinião pública através da propaganda junto dos seus simpatizantes. Não tenho palavras para exprimir a força da minha convicção de que, para continuarmos a ter democracia, é nossa obrigação promover a protecção do Parlamento e a independência dos deputados! Adeus amigo, voltarei a escrever-te!

Do teu amigo, deste lado da Ásia Menor, Unidade, Trabalho e Vigilância.


Os tentáculos empolgantes da Renamo, um perigo no céu da Frelimo

Meu caro plebeu

Quando, nos saudosos dias de vida religiosa, éramos assíduos frequentadores das missas dominicais, mal diríamos então que, passados 17 anos nos tornaríamos a encontrar nesta longa caminhada da vida, numa terra longínqua como Turquia. O amigo, coberto de glória, pelos seus triunfos sucessivos que o tornaram um empresário moderado, que encanta seguir, eu gasto e cansado pela longa permanência fora do país. Naquele tempo, sempre saudoso, para reforçar a modesta compreensão linguística, lancei mão, com parca habilidade, de crónicas que escrevia para uma revista religiosa da Companhia de Jesus. Assim me ficou o hábito de escrever, nunca perdido pela temporada na Europa, de onde te mandei cartas sobre as nossas relações de longa data e, em especial, sobre os nossos valores religiosos. É baseando-me nestes valores que analiso a actual realidade nacional. Quando os frelimistas tratam de situação particularmente muito grave, costuma escrever no cabeçalho das suas directivas as palavras «Unidade, Trabalho e Vigilância». Ter alguma palavra ou expressão de esperança é uma prática sensata que conduz à clareza do pensamento. Meu caro, estejamos vigilantes porque as constatações do passado mês de Novembro, acerca de regiões autónomas, passados já três meses, não perderam a sua actualidade, pelo contrário, parecem urgir-nos ainda mais. Uma nuvem negra cobre o céu da Frelimo! Naquele dia - ainda me lembro - dizias que as duas oposições tinham agendas e visões diferentes mas iguais na concepção. Se para a Renamo a justiça seria possível na divisão do país, para o MDM ela encontrava a sua materialização na tribalização da política. A Frelimo, pelo contrário, acredita que a justiça deve ser encontrada na Unidade Nacional. E concluías dizendo que a ideia da unidade é a mais valiosa pelo que deve ser defendida. Concordei contigo em tudo e ainda concordo. 

Entretanto, devo dizer-te, pois, algumas coisas preocupantes. O que está a acontecer é que as intenções da Renamo são demasiado incertas e falta-lhes a clareza necessária para que possamos nos pronunciar sobre elas. A última e tremenda guerra da qual acabámos de sair, além do seu elevado custo enquanto durou, dinheiro que poderia ser investido em outras áreas sociais, aumentou a miséria e a penúria, principalmente nas áreas afectadas, afastou investidores criando incertezas. Preparou um terreno fertilíssimo para os factores de divisão e veio dar mais força aos que a financiam e habitualmente a fomentam. A guerra sempre recuou os nossos ideais. Dos esforços e dos trabalhos dos guerrilheiros da Renamo só hoje restam ruínas, nada mais do que ruínas e miséria, medo e desespero. Por mais paradoxal, porém, que pareça, é disso que a Renamo se serve e se orgulha, lançando culpas a quem governa, mesmo quando ela é responsável que intimida investidores. Vemos, por uma parte, o homem comum voltar-se para essas doutrinas de autonomia como para um Evangelho, que traz a promessa de uma vida melhor depois da morte. Esta mesma Renamo, nos anos 90, recusou nomear Governadores e administradores nas áreas que tinha vencido. Esta ideia já era originalmente da Frelimo e eles a recusaram alegando que queriam governar todo o país. Com o passar da idade, há que tudo fazer para ser presidente de alguma coisa, o que é bom! Porém, o boicote das eleições municipais pela Renamo em 1998 e em 2013 afastou-a da conquista dos espaços onde pudesse exercer o agora tão almejado poder autónomo com o seu lugar ocupado pelo MDM, hoje em apulos. Por outro lado, intelectuais, intimados por uma espécie de fatalismo, ou fecham voluntariamente os olhos ao perigo imediato ou capitulam de antemão, preparando-se para um martírio inevitável. E nos aconselham a tratar Dhlakama como ovo, dando-lhe toda a razão do país porque, segundo dizem, pode ficar zangado e complicar as coisas. Acrescentam dizendo que assim o fazem para o bem da própria Frelimo. Entretanto, o perigo mais grave é que, ultimamente, de vários segmentos da sociedade, a juventude desempregada tem sido facilmente seduzida. 

Ao ver as flagrantes injustiças e abusos da ordem social nos quais poucos comem e muitos se sufocam com o cheiro dos restos de boa comida, ao ver o sonho de ter emprego estar cada vez mais reservado para quem já tem algum dinheiro devido à venda de vagas e ao uso de influência feita pelos sectores dos Recursos Humanos nas instituições públicas e que as forças da posição parecem não poderem ou não quererem enfrentar a situação de frente, dão ouvidos às novas doutrinas. E isto faz com que se diga de boca cheia que a proposta de lei a ser submetida para Assembleia da República seja tratada de forma especial sob risco de «este Governo cair». Meu caro plebeu, vemos o Parlamento a perder a sua vitalidade. Já é difícil afirmar que o poder pertence ao povo quando o Parlamento que o representa não é livre de debater e de decidir de forma consciente e quando a maioria parlamentar é ameaçada pela minoria. Ademais, a teoria da divisão do país não é uma suposição abstracta porque os seus ideólogos a ensinam, agem e vivem. É de grande importância que os frelimistas a conheçam, tal qual é na verdade. Este é o nosso dever mais difícil e urgente nos dias que correm. Dever mais urgente, pois o objectivo imediato, visado pelos nossos irmãos, não é apenas divulgar a própria doutrina, mas pôr em confronto directo entre o Presidente Nyusi e a Frelimo; apossarem-se do poder, para, com seus métodos já conhecidos, poderem cortar à Frelimo qualquer acesso ao povo. Estamos perante uma violação dos destinos nacionais e tal está a acontecer debaixo de um véu de frases moralizadoras provenientes de pessoas em quem seria de esperar palavras de condenação, talvez destinadas a apaziguar a consciência.

É preciso cortar os tentáculos empolgantes da Renamo, que se estendem sem cessar aos lares dos pobres para saciar as suas bocas sugadoras, com falsas promessas. Ela sonha em criar um cinturão de resistência silenciosa que nos poderá pesar no futuro. Como frelimistas, amigo, temos que ir-nos prevenindo das manobras suspeitas da Renamo. Abraçados por uma mão de confiança cega e calados poderemos acordar assustados, despejados do poder porque sem acesso ao povo. Assim como no passado o anti-socialismo, assim agora o anti-constitucionalismo pôde nascer e robustecer-se devido às condições de vida da grande massa populacional, tão duras, ou antes insuportáveis, que reinavam e ainda reinam. O que devemos aconselhar que se faça e em que devemos ajudar, é, sem mais nem menos, um plano de salvação nacional que dará melhores condições de vida ao povo. Em que, então, o rápido desenvolvimento e, provavelmente crescimento económico deverá ajudar a cada um dos moçambicanos? É, nem mais nem menos, a segurança alimentar, a assistência social, a liberdade e o progresso para todos os lares e famílias, para todos os homens e mulheres de todo o país. E aqui, refiro-me, em particular, à miríade de casas e pequenas cabanas nas quais os chefes de família lutam, no meio de todos os acidentes e dificuldades da vida, para proteger a mulher e os filhos das privações e educar a família segundo conceitos éticos que frequentemente desempenham um papel fundamental em suas vidas.

Do teu amigo, deste lado da Ásia Menor, Unidade, Trabalho e Vigilância.


sábado, 7 de fevereiro de 2015

Salvar Dhlakama para Salvar o País

Afonso Dhlakama,  político que em Janeiro jurou não ajoelhar-se, em menos de 72 horas correu para Maputo a convite do Presidente Filipe Nyusi, o primeiro a antecipar-se ao local do encontro. Ambos, ao que tudo indica, carregam bases sólidas para dar forma a uma nova realidade política e garantir a paz. Enquanto isso, os adeptos fervorosos da divisão, angustiados, amargurados e inconsoláveis, recebiam a decisão do líder da Renamo com surpresa e até estupefacção. Ninguém conceberia nunca que Dhlakama, que jurou governar em honra da alma da mãe, fosse deslocar-se a Maputo interrompendo o seu périplo propagandístico. E porque terá feito isso, decepcionando os teóricos da divisão? A resposta é simples. A Renamo estava em via de dividir-se devido aos rumores de que os deputados proibidos de tomar posse iam fazê-lo a conta e risco próprios. Daqui resulta que o beneficiário deste encontro é o próprio Dhlakama ao parecer-se como alguém que negociou a tomada de posse daqueles cuja decisão para o efeito já estava tomada. Nyusi salvou Dhlakama, do precipício, no seu primeiro gesto público de dimensão nacional. Em todo o caso, mais do que isso, devemos aproveitar a oportunidade para, como disse no passado distante, conseguirmos uma paz duradoura baseada na justiça. Com toda a sinceridade, Filipe Nyusi acolheu Dhlakama com total protecção e segurança sendo o encontro de Fevereiro, só por si, um tremendo ponto de viragem, uma mudança decisiva. É um gesto humilde, honroso porque como alguém disse, é preciso acarinhar Dhlakama. Uma vez salvo, estaremos preparados para salvar o país, de uma previsível instabilidade.

Nós, do outro lado da barricada, congraturamo-nos com este encontro que desilude aos apóstolos do caos porque dele esperamos ver continuada a determinação unida e inflexível dos dois em prosseguir o caminho da inclusão até à sua conclusão vitoriosa. Há os que insinuam que a consciência de Dhlakama foi comprada, algo em que acreditamos, em virtude das vantagens palpáveis  que Dhlakama colheu. Visitou a família, matou saudades da família, evitou a rotura previsível do partido e enfraqueceu ainda mais o seu adversário interno, o MDM. Conseguir vantagens desta escala e complexidade num único acto é, por si só, um grande empreendimento. No entanto, encontramo-nos na fase preliminar de uma das maiores batalhas políticas do nosso tempo – a batalha por um Moçambique inclusivo, justo e desenvolvido. Filipe Nyusi está a combater em muitos outros pontos, para conciliar as forças progressistas e conservadoras da Frelimo e tem que estar preparado para contrariar aqueles que tudo farão para desacreditá-lo ou mesmo para fracassar nos seus nobres ideais. Peço licença para citar as palavras dele segundo as quais «boas ideias não têm partido». Tendo em conta a gravidade do momento, penso que os conservadores o perdoarão pela falta de cerimónia com que foi necessário agir.

Deixai-me dizer uma palavra ao líder da Renamo. Uns dizem que «no passado também foi assim e continuamos tendo pessoas perseguidas pela sua simpatia para com a Renamo». Outros dizem ainda que «para ser alguém, para conseguires emprego ou promoção/progressão tens que ser do Partido no Poder. Se não te descobrem no momento do recrutamento, ao longo do trabalho tens que te revelar frelimista através das reuniões nas células». Sim, tínhamos as nossas razões e os nossos receios. Mas o tempo chegou em que a competência será determinante para o sucesso dos funcionários públicos. Sim, recusamos encontrar-nos convosco, onde quer que fosse. Estivemos juntos em festas, em reuniões e em encontros nacionais e internacionais e os nossos membros não trocaram, como ainda outros não trocam, cumprimentos com os vossos. Sim, isto aconteceu e continua a acontecer. É também verdade que sempre impusemos, como pré-condição para quaisquer negociações convosco, a presença de um mediador que se avistasse separadamente com cada uma das partes. Sim. Foi através deste procedimento que tiveram lugar o primeiro e o segundo acordos de interrupção das hostilidades. Os representantes do Governo reuniram-se em Gaberone e em Nairobi sem terem trocado directamente uma palavra. Sim, isto aconteceu. 


Mas hoje, o Presidente Nyusi deu-vos sinal de que quer contar convosco na construção de um Estado fundado numa paz permanente baseada na honestidade das intenções. Ele enfrentou a realidade com coragem consciente de que nunca se encontrará a solução para um problema fugindo-lhe ou ignorando-o. Enfrentou-a consciente de que a paz que está no seu manifesto não pode durar se se tentarem impor conceitos fantasiosos aos quais grande parte dos moçambicanos viraram as costas, anunciando o seu apelo unânime ao respeito pela Unidade Nacional. Aqui tivemos um bom começo, como testemunharam os vossos sorrisos. Quanto a nós, acreditamos não ser necessário entrarmos num círculo vicioso em relação aos direitos dos renamistas se revoltarem contra todas as formas de exclusão baseada na filiação política, uma realidade presente no nosso país que, tal como foi com o colonialismo, ou como acontece com as várias epidemias e catástrofes, deve ser erradicada. Não queremos moçambicanos estratificados porque discriminados no acesso aos recursos que a todos pertencem, o que incentiva o ódio dos que não têm contra os que têm. É inútil criar obstáculos, de contrário, impedir-se-á o caminho para a paz ou a paz será destruída. Como vos disse, num passado imemorial, não se pode basear a felicidade na desgraça dos outros. Com o encontro de hoje, não se deve recear dialogar com Nyusi que necessita do vosso auxílio para desenvolver o país.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O problema da alimentação rural

Torna-se necessária uma política de alimentação ou política de ventre cheio, para garantir a estabilidade do país. Na verdade, antes de tudo e contra tudo temos de olhar a sério pelo problema da alimentação rural, porque uma população subalimentada ou defeituosamente alimentada é uma população definhante, improdutiva, insusceptível de progresso e triste. Uma população descontente é, por via de regra, mais inclinada à revolta silenciosa, à anarquia e à desobediência. Segundo o Correio da Manhã de 26.01.2015, citando o Banco Mundial, é «“improdutiva” a força laboral moçambicana». Importa frisar que o desfavorecido come alimentos que são insuficientes, muitas vezes na quantidade mas quase sempre pelo valor energético, muito fraco, e bebe outros que são nefastos não só pela sua toxidade, como pelos germes que transportam: tais são as bebidas caseiras e as águas dos poços e dos pântanos de que faz uso, correntemente. O problema alimentar é, para o desfavorecido, um mal, por excelência. É neste mal que reside em grande parte a origem da sua fraqueza física e muitas vezes moral, entregando-se ao consumo de bebidas para anestesiar o espírito.

Não apenas o acto de beber mas até mesmo a embriaguez tem no quadro dos usos e costumes dos nativos um lugar preponderante. Se se disser que o pobre bebe nos momentos felizes e alegres, bebe nas ocasiões mais solenes da sua vida, bebe quando a tristeza ou a adversidade o apoquentam – não se pretenderá que se enuncia um facto peculiar a ele. Todas as raças e todas as civilizações o fazem, com maior ou menor moderação. Mas o que já é próprio do moçambicano é a maneira de beber, ingerindo espantosas quantidades de líquido, e é, também, que quando bebe ele procura directamente a embriaguez, bebe para se embriagar, e que, ainda, em certas circunstâncias, é de lei que a embriaguez em que mergulha dure dias, semanas. Henri A. Junod explica-nos que há em Tonga duas palavras para dizer beber. Uma é cu-nuá, outra é cu-qhueba. Esta última traduz beber a pequenos golos, moderada, discretamente; é assim que o tonga, e provavelmente os outros, bebem chá. O primeiro termo significa beber sofregamente, a plena gorja. É deste modo que os nossos desfavorecidos bebem a água e as bebidas alcoólicas. Nos bons tempos, quando a bebida abunda, eles podem ingerir assim qualquer coisa como quinze a vinte litros por dia.

Muitos países se esforçam, presentemente, por ver resolvido o problema da alimentação, procurando saber o que elas comem e bebem, e o que deverão comer e beber para se tornarem seres saudáveis, fortes e produtivos. É claro que a resolução deste problema depende de outros não menos importantes, como o agrícola, o pecuário, o dos transportes, o dos aglomerados populacionais rurais, de que falamos, anteriormente. Tenho sobre a minha mesa de trabalho vários artigos escritos por pesquisadores que, no tempo colonial, se interessaram pelos problemas de alimentação em Moçambique, com a colaboração de químicos, higienistas, entre outros especialistas. Neles se apresenta, bem documentado, o esforço que outros países despendiam para resolver o complexo problema da alimentação dos desfavorecidos. Foi a sua leitura que me sugeriu a oportunidade de me debruçar sobre o problema. É claro que a sua complexidade  exige estudos profundos. A opinião de que aqui se publica uma súmula não pode tomar-se mais que à conta de subsídios. A apreciação científica do problema, com a latitude que este requer, exigiria um quadro de operações e análises que excedem o âmbito de opinião. Para começar, devemos apostar na formação média dos nossos alunos através de ensino orientado  para o ramo agrícola. Por outras palavras, a expansão do Instituto de Investigação Agrícola seria um primeiro e indispensável passo para uma completa investigação deste e doutros problemas.


Baseando-nos nas condições físicas e humanas do país podemos examinar a política agrícola actual e principalmente a que resulta da aplicação do cultivo de culturas rendeiras. A imposição de culturas com fins meramente económicos deve ser passada em revista. Não que defendamos a sua supressão mas o acompanhamento da educação agrícola tradicional, ainda embrionária. Infelizmente,  há uma massa que prefere a miséria ao trabalho e até há comunidades inteiras que preferem morrer periodicamente de fome a plantar alguns hectares de víveres de reserva. Incentivar o plantio de árvores de fruta diversa e que dê conforme as épocas do ano seria outro passo a ter em conta para que, na falta de boa produção, o povo recorresse às frutas para suprir a fome, e não só. Uma solução preconizada reside na fiscalização eficaz, e a modernização das práticas culturais no quadro do sector. Dever-se-ia dar o privilégio de organizar-se em cada aglomerado populacional, uma herdade experimental que serviria de guia técnica da zona, tanto para os técnicos da agricultura  em formação nos institutos a expandir como para os camponeses locais. A mecanização e importação de agricultores de outras latitudes corresponde a uma necessidade. Nisto, as parcerias religiosas poderiam desempenhar um papel de relevo, sobretudo, aquelas que se dedicam ao ensino. As escolas secundárias poderiam, por exemplo, possuir uma herdade agrícola onde os alunos poderiam  ter contactos com as plantas.