sábado, 17 de outubro de 2015

A Renamo: No combate em que morreu André Matsangaissa

Hoje é um dia grande para a Renamo. Morre em combate, há 36 anos, o seu primeiro comandante, André Mathadi Matsangaíssa Djuwayo. Seus seguidores armados ficarão conhecidos pelo seu nome, tal como ficaram os seguidores de Cristo: os cristãos. Os matsanga são os seguidores de André Matsangaissa, bandido para uns, herói nacional para outros! São 10 dias do mês de Outubro de 1979. O local chama-se Gorongosa, para onde as forças governamentais se dirigem para partir «a espinha dorsal do inimigo». É noite e sete homens armados chegam a uma aldeia comunal situada a alguns quilómetros da Vila. A sua missão não é clara mas a sua presença aterroriza e intimida os camponeses ali residentes. Uns começam a abandonar a aldeia o que chama atenção às Forças Populares de Libertação de Moçambique. Parece-me que estes homens aperceberam-se da grande operação arquitectada contra eles e vieram a este local apenas para certificar a suspeita antes de bater em retirada, abandonando no terreno material militar. Um Jornal dirá 30 dias depois que «…, antes de partirem, queimaram dezenas de habitações, saquearam uma Loja do Povo e, num acto de selvajaria característica, cortaram ambas as orelhas a dois camponeses, um deles uma mulher». Tempo, nº 474 – 11.11.79, pág. 13

O poderio militar da força inimiga vai obrigar as FPLM ao prolongamento das operações que levarão uns 15 dias porque o objectivo é neutralizar uma suposta «importante força inimiga, infiltrada na área da Gorongosa». O efectivo que acompanha o líder do até aqui denominado MNR (Mozambique National Resistence) é estimado em cerca de 350 homens, e integra oficiais rodesianos e moçambicanos que penetraram em Moçambique com o objectivo de estabelecer um acampamento militar no interior, a partir do qual poderão lançar acções de sabotagem contra alvos económicos e sociais. Outros grupos pouco importantes estão dispersos em Mucuti, Mabate, Chidoco, Sitatonga, Chinete, Muxungue. Os sete homens vistos são rebenta-minas e servem de isca para convidar o adversário ao terreno lamacento. Refugiam-se num pequeno planalto no alto da serra da Gorongosa, a mais de 1800 metros de altitude. A sua posição é praticamente inexpugnável contra ataques por terra e por dia, facilmente, é abastecida em armas, munições e mantimentos pelos aviões e helicópteros rodesianose pelas populações cúmplices. 

Para proteger o acesso ao acampamento principal, foi estabelecido um posto avançado em Morombodze, uma estação pecuária que antigamente pertencia a um inglês, guarnecendo-o com um efectivo calculado em cerca de 100 homens. Esta área tem a importância estratégica para a defesa das posições principais do grupo. É aqui que termina a picada quase intransitável que vai da Vila, a única via de acesso para viaturas a partir da pequena plataforma ali existente. No comunicado do Estado-Maior General de 2 de Novembro reconhece-se que «as condições de acesso terrestre a este local são de tal modo difíceis que, para se percorrer a pé os poucos quilómetros que o separam de Morombodze, são necessários cerca de três dias». No dia 11, as FPLM lançam uma ofensiva. Os combates são aqui particularmente violentos, com o efectivo inimigo cercado, encontrando-se instalado nas próprias instalações da estação pecuária. Os 100 homens resistem ao poder de fogo das forças atacantes, e lançam uma contra-ofensiva a partir das cinco horas da manhã do dia 12. 

O tiroteio, quase à queima-roupa, prolonga-se até às 11:00 horas, quando as FPLM reagrupam as suas forças para novos desenvolvimentos. A resistência sugere haver pessoas importantes no local. Aproveitando-se do reagrupamento das FPLM, o grupo dispersa-se pela mata adentro o que permite que no dia seguinte, 13, o posto seja ocupado, com resistência esporádica e localizada. Ocupada a posição estratégica de Morombodze, as FPLM preparam-se para a ofensiva final contra o acampamento inimigo na Serra. No dia seguinte, 14, os rebeldes desencadeiam uma série de acções, numa tentativa de fazer dispersar as forças agora ocupantes. A floresta nas cercanias de Gorongosa está em ebulição e o turbilhão de tudo isso é um grupo de 350 homens armados com armas ligeiras contra um exército armado até aos dentes. Nos dias 14, 15 e 16 os combates estão circunscritos nas cercanias do posto avançado ora ocupado. Para lá são mobilizados materiais de guerra e homens na tentativa de romper o cerco. A resistência tenaz dos rebeldes volta a sugerir haver entre eles os principais comandantes, mas ainda ninguém tem certeza. 

Pela manhã do dia 17, ataques coordenados saem de diferentes posições contra Morombodze o que força as FPLM a dividirem-se em pequenos grupos e a penetrar para o interior em perseguição aos adversários. Há muitas baixas do lado das FPLM, o Hospital da Vila já não é capaz de atender quantos feridos para lá chegam. Também há muitas mortes do lado dos rebeldes e só mais tarde saber-se-á que entre eles estava o próprio comandante, o André. No dia 17, entre os que combatem notam a ausência do comandante, pois estão divididos em pequenos grupos. A ira e a necessidade de certeza força-os a ter que aumentar a intensidade dos ataques. No dia seguinte, 18, aproxima-se da Vila, fustigando-a com um poder de fogo. Neste dia, 20 homens já tombaram e os 80 sobreviventes dividem-se em três grupos conforme fora traçado no dia anterior: o primeiro ataca directamente o quartel das FPLM, criando um pânico entre os habitantes da vila; o segundo ataca uma área residencial, criando uma debandada geral e o terceiro ataca a zona do hospital, deixando doentes desprotegidos. As FPLM estão sob fogo intenso em todas as frentes. Pela mata ainda há resistência, mas não tanta. Há que redobrar esforços para proteger a vila. Os combates iniciam-se cerca de dez horas da manhã, e prosseguem até às cinco da tarde. Por um pouco a vila não cai. Os rebeldes querem ver se no Hospital haverá alguns elementos feridos entre eles o seu comandante. 

A percepção de um dos comandantes das FPLM é de que «o grupo inimigo julgou provavelmente que, como um importante efectivo moçambicano se encontrava na serra a proceder a operação de «limpeza», a vila estaria pelo menos parcialmente desguarnecida. Por outro lado, tentou aproveitar-se ao máximo das características da vila, particularmente da grande dispersão das casas e instalações ali existentes». Tempo, idem. Ao fim do dia os dois primeiros grupos são rechaçados com numerosas baixas, deixando feridos que são capturados pelas FPLM, e o terceiro consegue atingir as paredes do hospital com balas, e um roquete destrói por completo a casa mortuária, situada a cerca de 20 metros do hospital. A vila está momentaneamente dividida com os rebeldes a controlar uma parte nos dias 19, 20 e 21. Apesar de todas as tentativas de romper o cerco, e dos reforços importantes recebidos as FPLM instalam a artilharia na plataforma de Morobodze. No dia 22, procedem ao bombardeamento sistemático do campo no topo da montanha, que será completamente arrasado. 

No dia 23, as forças de infantaria iniciam a escalada da montanha, cujo cimo atingem a 26, limpando completamente a encosta. Os sobreviventes dispersam-se em pequenos grupos, fugindo em direcção à fronteira ou, abandonando armas e uniformes, fazendo-se passar por elementos da população. Na montanha numerosas ligaduras cheias de sangue são ali encontradas. Cadáveres também são encontrados mais tarde em áreas vizinhas, nomeadamente num rio que corre nas proximidades. O saldo global da operação é de mais de 100 baixas do lado dos rebeldes, um número elevado de feridos e 22 prisioneiros, sendo ainda abatido um helicóptero quando tenta evacuar oficiais rodesianos, na zona de Manica. Do lado das FPLM o número de baixas é estimado em cerca de 136 mortes, 45 feridos e, 37 desaparecidos em combate, entre mortos, capturados e desertores. A tentativa de estabelecer um campo militar no interior de Gorongosa, para servir de base para o desencadeamento de acções de terrorismo e sabotagem, fracassou mas abriu espaço para que Maringue, já sob liderança de Afonso Dhlakama, emergisse como símbolo de resistência da Renamo até ao Acordo Geral de Paz, de 1992.


Nota: Na foto, André Matsangaissa e Pedro Marangoni, Arquivo de  Pedro Marangoni
Eusébio A. P. Gwembe, Historiador

terça-feira, 16 de junho de 2015

A Renamo e sua nova ameaça à Paz

Nestes dias de intensa luta contra os inimigos da paz que há duas décadas tentam escravizar as nossas populações para permanecerem na insegurança no  próprio solo, aprouve a Deus nosso Senhor enviar à Moatize uma nova e difícil atribulação. O pérfido ataque militar ao exército, no passado domingo se confirma. A Renamo continua a avançar com a ideia de criar um  exército próprio, lançando novas forças ao ataque. Os distúrbios provocados na região ameaçam ter um efeito  desastroso sobre a situação futura deste persistente braço de ferro, se o exército responder. O destino de Moatize e de Tsangano, o bem estar do povo e todo o futuro da nossa querida província de Tete exigem que o sossego seja reestabelecido. Mas o sossego só pode aparecer se as armas à solta forem recolhidas e extirpado o fantasma do reinício de uma nova e, talvez, prolongada guerra. Ninguém duvida que a Renamo, não hesita em recorrer a ela e a qualquer provocação, tal como nos demonstram os seus actos, na realidade uma passagem para o lado da negação ao povo do direito à paz, no momento em que o recurso à violência para se chegar ao poder está em colapso por todo o mundo que se preze civilizado. Esta situação pode ser atraente para certos espíritos que acalentam a esperança de vingar as suas mágoas e o seu ódio à Frelimo, através de uma nova catástrofe. Nunca, como nesta hora histórica, revelou o governo moçambicano tanta força de carácter -  e é este governo ao qual todos devemos nossa maior conquista, que a Renamo se atreve a ameaçar com ataques.

A Renamo sempre chamou de democracia  à liberdade dos seus homens armados continuarem pobres e de morrerem à fome no mato, enquanto os chefes levam uma vida boa nas cidade, quando podiam enquadrar-se na vida civil com todos os seus benefícios. São anos perdidos! Os seus defensores oficiais e oficiosos enganam o povo com frases agradáveis, sonantes e bonitas mas totalmente falsas, tentando dissuadir as massas da tarefa histórica concreta da  Renamo para libertar o povo da má governação imaginária. Os progressos da última década mostram que, apesar dos esforços desestabilizadores da Renamo contra a governação da Frelimo, a roda do destino e o impulso da calma e determinação do povo avançam em direcção a um objectivo: desenvolvimento. Nestes últimos meses, o ritmo aumentou e já nada a pode parar. Há muitos anos o exército e o governo têm sido pacientes com a Renamo, mas esta, em vez de reconhecer os direitos das forças armadas circularem em todo o território nacional, atreve-se a falar de «nossas bases» e lança-se ao ataque, num acto de provocado suicídio. Até provas em contrário, recuso-me a acreditar que os verdadeiros democratas vivam com exércitos paralelos em seus países. Mais de um milhão de mortos em 16 anos cujo erro foi terem nascido e vivido no nosso solo pátrio; dariam voltas nas suas sepulturas. E até provas em contrário, recuso-me a acreditar que a Renamo defende a paz destruindo-a.

Um povo digno do seu passado e do seu nome entre as nações civilizadas não pode viver perpétuamente o fantasma do retorno da guerra. Quando a Renamo recebe apoio expresso vindo de certos segmentos, não é voto de confiança garantido. Pode estar para ser usada por  verdadeiros anarquistas e ela pagará a factura mais pesada da História: o desaparecimento. Estes segmentos são mais movidos pelo ódio contra a harmonia do que o amor à Renamo. Deixai-me repetir categoricamente que apesar das provocações da renamo, o juramento sagrado do nosso Presidente que fez perante todos nós é que fará tudo o que estiver ao seu alcance para impedir que moçambicanos matem outros moçambicanos. Entregou-se à tarefa com entusiasmo e esperança porque tem um coração de paz. Assim seja! 

domingo, 31 de maio de 2015

Sobre a idade do Partido Frelimo (I)

O crescimento da imprensa e das oportunidades de/para divulgação de informações entre as massas provocou esforços convulsivos, por parte de algumas pessoas, no sentido de desacreditarem a idade da Frelimo buscando encontrar argumentos políticos fictícios e não científicos em defesa de uma estranha. Desses argumentos, destaca-se particularmente a ênfase de que a Frelimo de 1962 era uma Frente, no sentido de congregação de vários movimentos numa só organização com vista ao alcance da independência. Para cúmulo, os seus autores chegam a afirmar que, uma vez alcançada a independência, haveria dissolução da Frente e cada um seguiria a sua rota. A falsidade e hipocrisia de tal argumento, repetido em milhares de formas na imprensa dita livre, são evidentes para todos os que não querem atraiçoar o princípio fundamental da Ciência. Em primeiro lugar, este argumento é usado com certas interpretações baseadas não em factos históricos mas na traição da própria Língua Portuguesa quando se fala de «Frente», sem indicar concretamente a que «Frente» se referem. Em segundo lugar, não foi a Frelimo uma Frente que havia de ser dissolvida, uma vez alcançada a independência. É mais uma pressa dos autores da  propaganda contra a cinquentenária Frelimo, ao confundi-la com as intenções por detrás da COREMO. Vamos aos factos:
  • «Em 24/3/65 iniciou-se em Lusaka (Zambia), a conferência da Unidade Moçambicana que se prolongou até 31/3/65. Nos trabalhos participaram representantes dos seguintes PARTIDOS:
  • · União Nacional Democrática de Moçambique (UDENAMO), representada por:
  • · Paulo Gumane e Sakupwanya;
  • · União Nacional Democrática de Monomutapa (UDENAMO) representada por: Hlomulo J. C. Gwambe, Calvino U. Z. Mahlayeye e John Gent Bande;
  • · Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), representada por: Dr. Eduardo Mondlane e Shithole;
  • Mozambique African National Congress (MANC), representada por Peter K. Simbi e Mathews Kambezo.
A conferência tinha como finalidade reunir num único, todos os movimentos de Libertação de Moçambique, que se deveriam dissolver, e, aglutinarem-se num «Comité Revolucionário de Moçambique – COREMO», que, como único Partido dirigiria a lenta e implacável luta contra o Imperialismo, Colonialismo e Neo-colonialismo». A delegação da Frelimo não concordou, argumentando que, se realmente se pretendia realizar a unificação de todos os PARTIDOS empenhados na independência de Moçambique, a Frelimo, estava pronta a recebê-los no seu PARTIDO, mas de modo algum a dissolver-se e agrupar-se num outro ainda totalmente desconhecido, pois encontrava-se na vanguarda da luta e não podia abdicar da sua posição perante a massa dos seus elementos. Por não chegarem a acordo foi pedido à delegação da Frelimo para abandonar a conferência, prosseguindo os seus trabalhos os restantes PARTIDOS»

Estivemos a citar in extensis o documento da PIDE datado de 18/08/1965 que vai anexo. Em terceiro lugar, como se pode depreender, tudo acontece em 1965 visando unir os partidos separados. E o resultado é a expulsão da Frente, pelos Partidos que a deveriam constituir, o que é absurdo. Naquele encontro daquele ano decisivo da História do Partido Frelimo, no momento em que a verdade lutava para ser reconhecida no caos internacional onde prevaleciam os poderes do domínio maligno e do imperialismo, Mondlane, acompanhado por Shithole. Mostraram-se firmemente dispostos a preservar a soberania da Frelimo. Porque o seu vasto programa dispunha unida e resolutamente a preservar a dignidade de todos os moçambicanos face aos esquemas imperialistas de algumas nações que desmascaravam os seus desejos de domínio e supremacia. Naquele dia, Mondlane decidiu mostrar ao mundo que quando um pequeno grupo de indivíduos decide preservar e salvar a dignidade de um povo, fazem-no, e que quando estes indivíduos estão resolutamente determinados a defender os seus princípios e a manter a sua dignidade, não deixam de alcançar os seus objectivos. E assim fez, nos encontros de Lusaka. Enquanto Gwambe e outros incidiam os seus discursos a falarem da URSS e dos EUA, Nato e outras nações, Eduardo Mondlane falou em nome de cada moçambicano, mas também em nome de todas as nações Livres.

Nunca foi a ideia de Mondlane dissolver o Partido Frelimo, uma propaganda barata, esta. Ele falou em nome de todos os que acreditavam na liberdade e que estavam dispostos e prontos a defendê-la, sob égide do partido que representava. Falou em nome dos princípios proclamados em Junho do ano de 1962, com alguns dos integrantes da equipa que, porém, agora eram eles que estavam a violar esses princípios de União. Como haveria garantia de que daquela vez haviam de manter a União? Coube a Mondlane aceitar a responsabilidade de os reafirmar e restabelecer, recusando-se a abrir mão para a dissolução do Partido. Antes, porém, tentou, por todos os meios possíveis, cooperar com os outros membros da delegação de Lusaka, mas eles exigiram ser pagos à cabeça. Declarou que estava disposto a negociar acordos, mas mal começaram as negociações começaram as ameaças e as intimidações, querendo fazer vincar a ideia da dissolução da Frelimo. Como Mondlane recusou, começaram a lutar contra ele, tendo-o mandado embora, reunindo-se, os restantes, de seguida, em COREMO, com apoio da Zâmbia. Uma tal postulação, deixando de fora a questão dos integrantes, isto é, actores, como se de uma questão insignificante se trata-se, é uma chacota directa à História, nomeadamente ao papel do indivíduo e o acaso. Engels escreveu que são históricas todas as ciências que não são ciências da natureza e que as ciências sociais ou humanas sem a componente "tempo" não são ciências, nem são históricas.

Para compreender a idade do Partido Frelimo é preciso fazer uma breve história do conhecimento histórico que possuímos sobre a sua fundação. A síntese do material até aqui disponível permite-nos concluir que o processo de união é anterior a Mondlane e iniciou na Tanganyika. Mas que sempre fracassava, em parte, devido ao analfabetismo, à ambição desmedida de alguns e pela interferência estrangeira. Para Zengazenga [1] «as reuniões realizadas em Dar-es-Salaam na presença de protectores estrangeiros não conduziram a nenhum resultado». Já em Julho de 1960, Marcelino dos Santos, na altura apoiante do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), isso mesmo, tal como o era Hélder Martins, encontrou-se com os líderes da MANU e da UDENAMO (União Democrática dos Naturais de Moçambique) em Dar es Salaam, tendo-os aconselhado a unirem-se. (A UDENAMO de Hlomulo Gwambe foi fundada em 2 de Outubro de 1960). Em finais de 1961, Baltazar Costa escreveu a Mondlane cuja resposta foi boa «estou prestes a entrar de férias, irei a Tanganyica tentar a Unificação dos dois partidos, nessa altura conhecer-nos-emos». Em Janeiro de 1962, o Governo da Tanganyika comunica aos dirigentes da MANU e UNAMI sobre o encontro de Adis-Abeba, em Fevereiro daquele ano. Mas não avisam Gwambe, porque era tido como sendo espião do Governo português e da PIDE a quem enviava fotografias dos  companheiros e de outros nacionalistas, em troca de valores monetários. (Voltarei a falar deste caso em próximas ocasiões).

A chegada de Mondlane, foi uma surpresa aos líderes que já tinham feito acordos em Tanganyika, primeiro em Novembro de 1961, depois em Janeiro de 1962 e finalmente e apressadamente, na tarde de 24 de Maio de 1962 para que fossem aceites na Conferência de Accra, documento este que foi falsamente divulgado como tendo sido assinado em Ghana. Por isso, Gwambe não chegou a ser membro da Frelimo e, de forma frontal, foi promovendo intrigas que causaram imensuráveis danos ao Partido, danos que o levaria a desintegração. Foi graças a força de vontade de Mondlane que a nova união, a de Junho de 1962 ganhou o seu espaço, Marcelino dos Santos definiu a sua filosofia, no Primeiro Congresso, de Setembro daquele ano. O segundo Congresso, realizou-se em 1968, em Niassa e o Terceiro, em 1977, estranhamente o ano que é convocado como ano da Fundação do Partido Frelimo, pelos propagandistas da falsificação da História. Quer dizer, a Frelimo é um Partido que se funda no seu Terceiro Congresso? Em 1977, a Frelimo tratou de mudar de orientação ideológica. Junto anexo o desmentido do argumento de que os propagandistas da menoridade da Frelimo se servem. Portanto, pelo exposto, o Partido Frelimo vai completar 53 anos no próximo dia 25 de Junho. É a Frelimo de Mondlane, da qual Gwambe não fez parte.

Eusébio A. P. Gwembe, Historiador


[1] Dr. António Disse Zengazenga nasceu na aldeia de Salamadze, no distrito de Angónia, província de Tete, em 6 de Outubro de 1933. Frequentou os Seminários de Zóbuè e da Namaacha, onde fez três anos de Filosofia e dois de Teologia. Foram António Disse Zengazenga, Uria Timóteo Simango e Refael Silvério Nungu, que estrangularam a revolta contra Eduardo Chivambo Mondlane organizada por José David Mabunda, José Paulo Gumane e Fanuel Guidion Mahluza a 3 de Outubro de 1962 em Dar-es-Salaam. Pertenceu ao primeiro grupo de soldados que a Frelimo mandou treinar no Egipto, em Dezembro de 1962. É autor do «Memórias de um Rebelde».




quarta-feira, 8 de abril de 2015

Os primeiros tendões da paz moçambican

Nampula, 17-09-2013

A Segunda Guerra Mundial foi o resultado de uma paz mal feita no final da Primeira. A Itália, mesmo tendo juntado o seu destino aos dos Aliados, depois de uma vitória comum que lhe custou seiscentos mil mortos, quatrocentos mil desaparecidos e um milhão de feridos, quando se discutia a paz à volta da mesa, só recebeu as migalhas de um rico espólio colonial. E a Alemanha, derrotada, viu suas possessões africanas a serem entregues a outras potências e a cair num colapso, quando era um país de grandeza material. Quando os preparativos para a Segunda Guerra davam mostras as mentes magoadas já estavam dispostas a receber o inevitável. Entre o fim da Primeira Guerra Mundial (1918) e o início da Segunda Guerra Mundial (1939) passaram 21 anos, o mesmo período que nos separa do Acordo Geral de Paz (1992) a estas escaramuças de 2013. Um certo dia, Prof. Dr. Elísio Macamo escreveu que a Renamo não perdeu a guerra, mas pode ter perdido a Paz. Estas pequenas comparações de contraste servem para ilustrar o ambiente sombrio por que estamos a passar e confirmar a tese de que a História se repete.
Aquando do tratado de Roma, em 1992, havia grandes esperanças e uma certeza absoluta de que a guerra tinha acabado e de que o país se tornara estável numa verdadeira e genuína reconciliação. Não vejo, nem sinto essa mesma confiança, nem sequer as mesmas esperanças, no turbulento país de hoje. É por ter a certeza de que ainda temos o nosso destino nas mãos, nas nossas próprias mãos, e que temos o poder de salvaguardar o futuro, que senti o dever de falar agora, quando a ocasião e a oportunidade se apresentaram. Vou dizer o que tenho dito, repetidamente! Não acredito que a Renamo deseje a guerra. O que ela deseja são os frutos da paz e a expansão ilimitada da sua influência. Mas o que aqui devemos considerar, enquanto ainda há tempo, é a prevenção permanente da guerra e o estabelecimento, o mais rapidamente possível, de condições de liberdade e democracia. As dificuldades e os perigos de hoje não serão eliminados se ficarmos à espera para ver o que acontece, nem praticando uma política de apaziguamento. É tempo de o Governo agir na busca de um interlocutor válido, na capaz de encetar condições de diálogo com a ala militar. Mas o mais importante é localizar o próprio Dhlakama, enquanto há tempo. Não se pode esperar que ele reapareça através dos meios de comunicação estrangeiros, o que poderá lançar desespero a todos nós e reanimar o espírito de vingança dos seus homens. O que é necessário é um acordo com a Renamo militarizada, e quanto mais for adiado, mais difícil será de o obter e maiores se tornarão os perigos que nos ameaçam. Pelas mortes de civis e militares, de Abril a esta parte, já não é válida a velha doutrina de que os atacantes irão gastar suas munições e render-se-ão ou seja, o exército tudo fará para devolver a paz aos moçambicanos. Vivemos um problema político e como tal deve ser resolvido por vias políticas e nunca por vias militares.
Não nos podemos dar ao luxo, se o pudermos evitar, de ter pouco espaço de manobra, dando azo à tentação de teste de força. Não podemos deixar fugirem os 21 anos tão importantes nos quais criamos sonhos de prosperidade. Poderemos ser todos, o povo, o Governo e a Renamo, vítimas de uma catástrofe. No passado, vi pessoas a aproximarem-se de nós e a avisar, mas ninguém lhes prestou atenção. Em 1988, o Papa João Paulo II, aquando da sua visita a este país, dizia que «a História não é um mero resultado de fatalidade; ela é algo feito também pelas providências humanas. A História deste momento ficará marcada por aquilo que nós, Igreja, Autoridades Políticas, Forças Religiosas, Forças Sociais e Comunidade Internacional, fizemos ou deixamos de fazer pela paz e pelo desenvolvimento de Moçambique. Parece impor-se enveredar pelo caminho do diálogo para a reconciliação, que faça cessar o espargimento do sangue do irmão e purifique o ambiente do ódio e do desamor». Mas, ao invés de escutar-lhe a mensagem, em 17 de Julho de 1989, o então Presidente, Joaquim Chissano, questionava «Quem é, realmente, a Renamo e quais as suas intenções? Os bispos não constituem uma equipa de mediação mas sim de uma exploração para nos ajudar, em primeiro lugar, a decifrar as intenções de gente que tinha começado a disparar mesmo antes de falar. Porque a luta da Renamo não nasce nem de uma cisão do partido ou reivindicações não obtidas. São violências, massacres e basta». Hoje, em 2013, sabemos das reivindicações da Renamo, algumas das quais, tão justas e benéficas mesmo para aqueles que as repudiam recorrendo à retórica. Foi precisamente por ter compreendido que a retórica em nada contribuiu que em 1990 Chissano afirmou (veja Tempo, 25.03.1990), nos EUA: «Informei o Presidente Bush da decisão do meu Governo de entrar em negociações directas com a Renamo para pôr termo ao sofrimento do nosso povo. O meu governo está pronto para iniciar o diálogo a qualquer altura. Se não estivéssemos ocupados com a independência da Namíbia poderia dizer que estamos prontos agora mesmo». Até ao ano de 1988, ou mesmo antes, Moçambique poderia ter sido salvo do horrível destino que lhe coube, e todos nós poderíamos ter sido poupados às misérias que a guerra lançou sobre a nação e sobre cada uma de nossas famílias.
Nunca houve, na história, uma guerra mais fácil de evitar actuando atempadamente do que a que acabou de desolar o país por 16 anos, sem se disparar um único tiro, e Moçambique poderia ser hoje poderoso, próspero e honrado; mas ninguém quis ouvir e fomos todos sugados, um a um, pelo terrível turbilhão. A decisão será nossa, mas de modo nenhum podemos deixar que aquilo volte a acontecer. Só o conseguiremos se agora, em 2013, o mais tardar até 2014, chegarmos a um bom entendimento com a Renamo militarizada, e mantendo esse bom entendimento por muitos anos de paz através da nossa força e determinação nacionais. É preciso, senão mesmo necessário, que o Governo de Moçambique declare amnistia geral aos guerrilheiros da Renamo e, em nome da paz, organize o seu recenseamento geral para se inteirar acerca de suas condições de vida, no sentido de dar-lhes a vida condigna na sociedade. Eles não são outros; são moçambicanos quanto o somos todos e não possuem outro Moçambique onde possam fixar residência. Ora, enquanto pretendermos que a sua residência seja o túmulo, pela lei da sobrevivência, tudo farão para protegerem a própria vida e o país pagará alto preço. Não nos podemos considerar livres se um só moçambicano estiver aprisionado nas matas da Gorongosa, de Moxungue, de Rapale e de Canda, sem esperança quanto ao seu futuro. Que cessem as perseguições aos renamistas armados, em nome da paz e chamemos aos até aqui renegados, à mesa de negociações. A paz é possível, porque os que tomaram a decisão para estas escaramuças na paz também têm o poder de as fazer cessar na guerra. O diálogo com quem não dispara, como até aqui aconteceu, poderá surtir poucos efeitos e exacerbar as tenções e a ansiedade. Gostaria de dizer aos meus colegas que estas escaramuças são as últimam. Esta é a primeira solução que respeitosamente proponho nesta alocução, que intitulei «os primeiros tendões da paz».
Eusébio A. P. Gwembe 
Historiador

domingo, 5 de abril de 2015

O que não somos capazes na paz será possível na guerra?

Uma Páscoa diferente. Não paro de imaginar cenários tristes, a milhares de distância de casa! Dhlakama confirmou que houve confrontos militares em Gaza. Para onde caminha o país? O que o espera, para além da guerra? Talvez Gorongosa e Maputo prevejam melhor o que pode acontecer, do que nós outros. As democracias iludem-se pensando que a paz, obtida através do arrasamento de todos e da destruição de tudo, lhes trará força para subsistirem. Este é o tempo da tempestade. Não é o tempo da euforia. A tocha da Unidade corre risco de ser emboscada ou então, terá que fazer o seu trajecto de avião. Advém daí a relevância que o ante-projecto da Renamo adquire e o lento, mas previsível, desfile até ao final dos trabalhos parlamentares. Caberá ao Partido Frelimo, o peso da escolha de uma solução governativa para Nyusi. Isto porque segundo o Péricles Nativo, em Mafambisse «é assim como as coisas são feitas. Mesmo lá nos Obamas, lá na América, quando é exactamente para criar nova administração dentro de um país é preciso que juridicamente a Assembleia da República receba aquele documento que seria chamado de anti-projecto para ser ratificado». No caso do provável caldo de tendências difícil de consumir o império da força vingará. Mas já lá vamos.

O líder da Renamo, que olha para si próprio com a autoridade de um "salvador" num país onde todos anseiam a vinda do Messias, ou Nyusi, que vai criando uma expectativa incomum entre os críticos e os apoiantes pela até aqui liderança calma e didáctica como vem conduzindo os destinos da nação, são apenas os protagonistas do desfile. Faltam todos os outros, que vão entrar em cheio no barulho que se seguirá. E essa é a segunda parte do enredo. Afonso Dhlkama, já aqui o dissemos, é o que mais razões tem para estar sereno. Depois de ter visto passar as administrações de Samora, de Chissano e de Guebuza não só elogiou o seu novo interlocutor, como foi capaz de apoiar que ele merecia presidir a Frelimo, o que acabou acontecendo no Domingo de Ramos. E não pára de chamá-lo de «o Presidente», o que é muito bom. Pior será o andar de Nyusi, de quem se espera mais serenidade na forma de lidar com os homens armados da Renamo. Um dossier com barbas brancas. As chefias policiais e do exército, ligadas à antiga administração, poderão ser o seu calcanhar de Aquiles, se é que o obedecem ou optarão por dar falsos relatórios de um perigo eminente representado pelos homens armados da Renamo e, assim, legitimar uma ofensiva. E os tacos! É que, o andar das mexidas que o PR vem fazendo assusta também a elas, imaginando, desde logo, que uma instabilidade momentânea condicionará momentaneamente as inevitáveis mudanças. 

Já para não falar do inegável peso de Guebuza cuja elite ainda não foi totalmente desmontada a vários níveis. Uma instabilidade imaginária permitiria a esta elite mais um tempo no poder e preparação de uma saída honrada. E ai, o PR ou agradará aos generais para deles obter fidelidade, ou agradará ao povo para não desiludir as expectativas até aqui criadas. Se o líder do Partido Frelimo gerir tão bem o dossier «homens armados» como tem gerido os negócios do Estado, terá em cima da sua administração uma mão-cheia de homens e mulheres a carregar os seus slogans com todos os defeitos e virtudes. A marcha dos confrontos em Gaza, por enquanto sem fisionomia, e os acontecimentos que se lhe ligam, tendem fortemente a envolver no conflito o exército que devia, pela Lei-Mãe, conservar-se neutro. Estará o exército a agir a mando do PR ou trata-se da infância da desobediência? Desse modo, a rectaguarda da guerra encontra-se ameaçada de cada vez mais, e, se a contenda chegar a atingir as últimas violências, pode ser que ninguém escape aos seus horrores. Se assim for, que surgirá dos escombros? Novos Moçambiques! Esta probabilidade ainda remota contêm todas as dúvidas sobre o futuro do próprio país, e torna singularmente pungente a hora que se vive.   

A Renamo movimenta-se para o Sul, naquilo que apelidou de «fuga para frente» e o exército quer tudo fazer de modo a devolver o perigo ao seu habitat natural: o centro. Isto tem implicações. Esta táctica da Renamo constitui duro golpe ao exército que pode ver-se cansado muito antes dos verdadeiros recontros. As perseguições em curso favorecem à Renamo na criação de novos redutos móveis com todos os perigos que representam para um exército que tem a sua fraqueza na logística em comparação com as bases que eram conhecidas. Neste sentido, o exército não poderia defender o país eficazmente, dum ataque brusco e de larga escala. Voltemos ao  império da força. Num encontro popular em Mfambisse, Dhlakama afirmou aquilo que se suspeitava. «Não é pedir favor a Frelimo. Se a Frelimo não quiser, se a bancada maioritária da Frelimo brincar comigo, Dhlakama, é o que eu queria que chumbasse, para levar, governar à força, tomar conta disso, não há problema, não há problema». Na realidade, Dhlakama não deseja a guerra, mas reconhece que terá de fazê-la se as perseguições continuarem, e, demonstrando-a quanto pode, promete chegar a Maputo, para atacar lá  ao mesmo tempo que procura evitar que o exército se desembarque definitivamente dos últimos estorvos postos à sua desenvolta neutralidade. 

Ter-se-á, porém, a guerra aproximado do seu início? Decerto, haverá caminho para a evitar mas este, por agora, não se divisa, nem pode prever-se qual será. É aqui que entra a segunda parte do enredo! E então veremos a segunda vaga de heróis anónimos, dispostos a intermediar nisto mais naquilo. O dinheiro que fingimos não ter no momento da paz existirá no momento da guerra. O reduzido exército que defenemos na paz será preterido e na guerra defenderemos um recrutamento forçado bem acima do que sobra dos guerrilheiros da Renamo dispostos ou a incorporarem-se no exército ou a irem para a vida civil. Dinheiro para negociações não faltará como agora tanto falta para integrar os esfarrapados «homens armados da Renamo». E ficaremos conhecidos porque o nosso nome estará nas primeiras páginas dos Jornais Mundiais a fazer notar que há mais um espaço para vender armas e ensaiar a tão almejada caridade. Não andará, pois, muito longe da verdade, que o dilema posto neste momento pelo Dhlakama ao Presidente Nyusi seja o seguinte: ou concertamos a paz, e feita ela, encarrego-me de meter o urso na jaula, ou, se a guerra  for por diante, preparemo-nos para o último combate e o vencedor do futuro ocupará, gloriosamente, a Ponta Vermelha. Neste caso, a vitória de uma das partes sobre a outra, fará dos vencedores e dos próprios neutros outros tantos vencidos. Mas enquanto isso não acontece vou aproveitando pedir ao Altíssimo uma bênção pascal, para amolecer os corações dos que têm o poder de inspirar-me o medo e a confiança. Alleluya

domingo, 29 de março de 2015

Guebuza e o Discurso da Transição

Naquele momento, diversíssimos eram os parasitas que se prendiam, definitiva ou periodicamente, à Frelimo e em tanto maior número quanto mais a nossa vitória se tornara clara. Uma grande parte deles, aquando da campanha para eleições de 2014, mantinha-se muda, esperando pela queda da Frelimo para, de seguida, com as pedras mantidas nos bolsos, atirarem todas sobre Guebuza. Depois de uma vitória que nos custou a falsa e injusta acusação de fraude por parte daqueles que tinham contas a prestar aos patrões estrangeiros, era preciso devolver a vitória aos seus legítimos fazedores. Estar do lado do vencedor é sempre motivo de alegria e de orgulho, mas o mal é quando começaram a querer apoderar-se da vitória, menosprezando até aqueles que tinham dado tudo para que a vitória se materializasse. Lembro-me de pessoas que, no desespero, tentaram seguir a via de fraude e mercê da pronta intervenção policial foram para as esquadras. Lembro-me de camaradas que correram tantos riscos pessoais e colectivos em defesa de cada centimetro da soberania da Frelimo. Lembro-me de camaradas que arriscaram os próprios empregos para garantir a vitória da Frelimo e do seu candidato. Depois da vitória, gerou-se uma campanha para linchar a todos eles. Na hora da despedida, Guebuza, o pai da vitória de 2014, apercebendo de que há os que pretendiam colher onde não semearam, disse: 

«Esta é uma vitória que foi construída por todos nós, membros da FRELIMO, de cartão e de coração: É a vitória daquele que colava panfletos ou promovia a imagem da FRELIMO e do seu Candidato; É a vitória daquele que compôs canções, participou nos nossos eventos ou garantiu a logística da nossa campanha; É a vitória daquele que produziu documentação ou participou em debates ou integrou uma brigada. É a vitória desses milhões de anónimos, nas zonas rurais, nos subúrbios e nos centros urbanos, no País e no estrangeiro». 

Guebuza não precisou dizer «eu sou isto, eu sou aquilo, Mandela, Obama, Messias, sei lá quê...». Apenas mostrou que a Frelimo, sensata e tranquila, era senhora da democracia moçambicana, o umbigo da nação, o único império político nacional onde reinava ainda soberanamente a paz e democracia genuínas. Por esta razão, também tinha que ser o reino da Justiça. Ele mostrou que aquela posição privilegiada da Frelimo não derivava de qualquer factor metafísico, não era produto de milagre – se bem que devíamos agradecer à Providência o muito que Lhe devíamos. Era o resultado lógico de uma sólida linha de conduta política vinda desde 1962, conduta essa que teve expressivo proémio na disciplina partidária. «Preocupa-nos, todavia», disse ele aos presentes, «a postura e comportamento de alguns camaradas, que, publicamente engendram acções que concorrem para perturbar o normal funcionamento dos órgãos e das instituições e para gerar divisões e confusão no nosso seio». De facto, semanas antes, camaradas que gozando das liberdade de expressão iam a uma certa imprensa, no lugar de invocarem os estatutos do Partido para tratar dos processos de sucessão, evocavam a tradição, uma expressão simples de que «sempre foi assim». E alguns deles, só se recordavam das leis quando era para falar de assuntos ligados à oposição, o que era preocupante. Guebuza não era agarrado ao poder, como apregoavam os seus críticos, internos e externos. Nenhum analista acertou sobre a grandeza escondida em Guebuza.

Guebuza, a quem coube a árdua tarefa de eliminar as graves incertezas que pairavam sobre a Frelimo, no demorado período de tergiversações e até frustres abdicações, provenientes da inércia dos políticos que então o criticava para dar a entender que o seu tempo era o melhor, compreendera a gravidade do momento. Para a Frelimo era uma questão de vida ou de morte porque, como disse: «os nossos adversários batalham, dia e noite, para que o seu sonho seja materializado. Cabe a nós, hoje como ontem, batalharmos, sempre unidos, coesos e firmes, para que esse seu sonho se transforme em pesadelo». E o pesadelo não demorou. Soou como em todos os cantos da imprensa sob vários títulos, num país cujos políticos não estavam preparados para ouvirem as verdades nuas e cruas. Ele dirigia um partido que tinha a sua inspiração no povo moçambicano, a causa e consequência da sua existência, num momento em que a cura dos vícios da oposição vinha da simples virtude de princípios e acontecimentos importados de outras latitudes independentemente das condições locais e dos defeitos dos membros daqueles partidos em materializá-los. Para os camaradas não era assim. O justo anátema lançado por Guebuza à intriga política, fora, já muitos anos antes, uma convicção dos fundadores da pátria. Era convicção que se soubéssemos civilizar como soubemos conquistar não tardaria que ocupássemos lugar eminente entre os partidos dominantes de toda a África. O que tínhamos a fazer para ter esse resultado? Não fazer política, a política da oposição! Porque «hoje, como ontem, quando os nossos adversários nos elogiam é porque descobriram ou porque pressentem que estamos no caminho errado, pois eles não nos querem e nunca vão-nos querer por bem: Não querem uma FRELIMO forte, omnipresente e popular; Não querem ver o seu Governo forte e a implementar, com celeridade e impacto, o nosso manifesto eleitoral; Não querem ver o nosso Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, forte, firme, dando o seu melhor na direcção do Estado porque sabem que isso beneficia não só a ele como à nossa gloriosa FRELIMO».

Não ceder as suas chantagens. Não atirar ao escuro, menosprezando os canais e as regras estatuárias do Partido, evocando hábitos e tradições. Só assim mereceríamos o respeito que ainda detínhamos entre os grupos que também se denominavam de partidos políticos embora sua actuação fosse duvidosa. Para adquirir influência a que tínhamos direito pelas nossas tradições, pela nossa lealdade, pela bravura do nosso carácter, pelos nossos sentimentos eminentemente democráticos, não devíamos desviarmos deles, nem cessar os nossos esforços de alcançar o próprio resultado a que deveríamos aspirar, a prosperidade das nossas aldeias, das vilas, das cidades, pelo progresso da razão moral e da liberdade humanas. No confronto com o que se estava passando no nosso partido, o único império político nacional onde reinava ainda soberanamente a paz e democracia genuínas e com o que se vinha realizando, há 40 anos, não havia nada de taumaturgia, mas sim uma sensata, ponderada e calculista disciplina partidária. Estes elementos imprescindíveis para a prosperidade partidária, assentes na tradição democrática, mantêm-se porque se mantêm os nossos sentimentos eminentemente democráticos, adversos, portanto, a toda a espécie de tirania e abertos para largamente receberem todos aqueles que queiram compartilhar da nossa vida e da nossa actividade civilizadora, a impor-se, constantemente, à consideração e ao respeito ao que se passa nos partidos alheios. 

Pôde dizer-se que a Frelimo estava agora, como ontem, na ordem do dia em todos os jornais, e de forma mais realista do que no meio dos últimos meses quando certas imposições subreptícias do jogo diplomático faziam desviar para a oposição as atenções de alguns distraídos, a fim de um hábil político poder melhor atingir o seu escopo de predomínio no nosso país. Desde aquele discurso da matola, já não se arquitectavam lendas fabulosas, acerca de fantasiosa queda livre da Frelimo. Afinal de contas, até os jornais da direita viviam o pesadelo. A nossa preocupação pela democracia não datava, como se sabia, do eclodir da crise que afligia tragicamente os partidos da oposição. E a Frelimo não era lugar de degredo, aposentaria de políticos preguiçosos, interesseiros e calculistas ou derradeira etapa dos falhados. Era uma família de políticos hábeis em prol do bem-estar dos moçambicanos e era disso que aquele discurso enfatizara. Guebuza, contra todas as previsões, mais uma vez, ganhava a batalha colocando o lugar à disposição. E deixará uma mensagem bússola que deveria nortear a direcção do partido: coesão, firmeza e disciplina e a importância de usar os canais próprios para resolução dos problemas partidários. 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Carta ao Ministro da Educação

Local: Izmir, Turquia

Assunto: Cobranças ilícitas para vagas na Educação

Excelência! Deve ser a primeira vez que escrevo uma carta a um Ministro. Sou docente na maior Instituição Universitária de Moçambique, ou, se quiserem, Universidade Pedagógica de Moçambique,  actualmente na Turquia, a fazer Doutoramento. Além da UP, fui professor no ensino primário, no secundário, na Saúde e na Academia Militar, pelo que escrevo esta carta consciente de que o problema que apresento mereça um olhar a vosso nível. Excelência, tinha dois educandos no Instituto de Formação de Professores de Tete, uma prima e um primo, de cujas dispersas pagava, com gosto, esperançoso de que, uma vez terminada a sua formação, juntos pudéssemos lutar para combater a pobreza. Concluíram com sucesso e com boas notas. O que me espantou, primeiro, foi a prima que pediu algum valor para poder «garantir o lugar», a nova linguagem que se usa para colocação. Não dei, confiante de que a meritocracia tinha inaugurado o seu reinado e que a continuidade escondia dentro de si a mudança. 

Nas últimas semanas, enquanto esperava pela colocação dela, foi a vez do primo que pediu para eu «interceder». Excelência, pode imaginar o que é viver no antigo Império Bizantino e resolver problemas nos antigos apêndices do Império do Muenemutapa!  Indiquei a pessoa a quem o primo devia falar, algures em Moatize, desde que falasse do meu nome, tal uso de influência em voga na nossa sociedade, um mal que deve ser combatido. Dias depois, o meu primo já era uma pessoa feliz com guia para ir a um distrito. Apesar de o referido distrito possuir défice de professores, os responsáveis pelos recursos humanos estão a exigir entre 6.000 a 15.000 Meticais por pessoa, só para ter colocação. E os que tinham sido fracos durante a formação, mas com dinheiro, já estão a trabalhar enquanto os melhores sem dinheiro, mas que poderiam ajudar na melhoria da qualidade do ensino, continuam a viver as incertezas. No caso do  meu primo, eu devo interceder também ao nível distrital, mas…. Perante os factos, não imagino quantos moçambicanos podem estar a ser vítimas desta actuação, muitos deles contando com as próprias forças, sem alguém que possa interceder por eles.

Atenciosamente