quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A legitimidade para reclamar

O último relatório do índice de desenvolvimento humano coloca-nos na cauda do mundo. Estamos entre os dez piores países, em termos do rendimento percapita, da esperança de vida e do nível de educação. À primeira vista tive a sensação de que fomos injustiçados e se assim foi deve haver um culpado. De lá para cá, fiquei a procura do culpado. Porém, antes de o encontrar, comecei por avaliar o meu próprio desempenho durante o ano. É que, se os indicadores de que se serviram são distribuídos ao colectivo, este por sua vez é a soma dos vários «individuais» de que faço parte. Tratou-se de uma improdutividade colectiva mas com responsabilidade individual. 

Compreendi que as desculpas históricas de colonização, das calamidades naturais, da guerra e outras para justificar o meu fracasso são a almofada para a minha inércia. É verdade que teria N desculpas para me safar. Contudo, parece-me que já não é plausível culpar o colonialismo de todos os meus males. Embora a colonização tenha deixado cicatrizes profundas no imaginário colectivo, é claro que o colono também deixou para trás coisas úteis e boas como estradas, escolas, hospitais, fronteiras, a língua, as leis. Neste sentido, o colonialismo foi a base da Unidade Nacional. 

Mas hoje, em que mais de 70% dos africanos de hoje nasceram já depois da independência, começo a ter vergonha de evocar o colonialismo pela minha incompetência. O colonialismo não condena necessariamente um país à penúria eterna. A Correia, anexada pelo Japão em 1910 sofreu a destruição da sua cultura com o seu povo submetido à servidão. A língua coreana foi banida, os coreanos impedidos de aceder à universidades. Os jovens eram enviados para os trabalhos forçados nas minas e nas fábricas de munições no Japão, ou obrigados a servir no exército. Mais de cem mil mulheres foram submetidas a servidão sexual nos bordéis militares como «mulheres de conforto». 

Expulsos os japoneses, em 1945, eclodiu uma guerra civil que deixou divididos os coreanos em Norte e Sul. A parte Sul que era tão pobre como o Ghana em 1953, é hoje vinte vezes mais rica. Este país e os seus habitantes poderiam ter razões suficientes para culpar o passado. Como notou Robert Guest, o contraste é o Zimbabwe em que o Presidente, como Primeiro-ministro recebeu o país com uma das melhores economias da África. É claro que conseguiu disfarçar durante algum tempo. Porém, ao apreender a propriedade privada, deu um aviso surdo aos investidores internos como externos para que «não ponham o seu dinheiro no Zimbabwe[1]». 

Fixou o preço do petróleo abaixo do que custa a importar, pelo que as bombas secaram. Tentou criar dinheiro imprimindo mais notas causando hiperinflação. Usando políticas que falharam noutros lugares tornou os zimbabweanos muito mais pobres do que eram à data da independência. Medidas de contenção das despesas atingiam hospitais e escolas enquanto ministros ainda andavam de Mercedes Benz e o orçamento militar nunca sofria reduções. Leis sensatas eram aprovadas mas postas de lado logo que o cheque da ajuda entrasse nos cofres.  Os  zambianos também estão mais pobres do que quando o colono saiu de lá, porque a crença na acção afirmativa para aumentar o número de  negócios dirigidos por negros consistiu em distribuição massiva de lugares na função pública e empréstimos bancários para os amigos da nomenclatura. 

E a África do Sul, pode correr o mesmo risco em poucas décadas, se o ANC continuar com o que nos é dado a saber. Há bons exemplos na África. O Botswana tem sido consistentemente democrático e melhor gerido. A sua economia tem reforçado a sua democatização e é hoje  um dos poucos modelos de desenvolvimento democrático e económico numa África carente de exemplos. Mas para o conseguir, os Tswana tiveram que trabalhar duro. A sua liberdade não significou apenas o poder de votar. A sua liberdade significou reorganizar uma companhia na falência e colocá-la, juntamente com uma injecção maciça de capital, nas mãos de novos gestores, diferentes dos incompetentes que a tinham arruinado antes.  

Não serão os outros a fazer com que Moçambique figure entre os melhores. Tenho que ser eu, pelo esforço próprio. Os estrangeiros ou o Governo podem ajudar, mas o sucesso dependerá de mim. Quero ser diferente, apostar mais no que o país e os outros verdadeiramente necessitam. Os britânicos tornaram-se ricos produzindo têxteis melhores e mais baratos e outros produtos que tanto os nacionais como os estrangeiros estavam desejosos de comprar. O Japão melhorou técnicas de fabrico inventadas noutros países de forma a produzir carros melhores e mais baratos, semicodutores e aparelhos de fax; a América soube criar desejo de muita gente para passar a gostar de filmes americanos, remédios americanos, aviões americanos, serviços dos bancos americanos. Quero contribuir com ideias para criar condições de transformar as matérias-primas em produtos manufacturados. 

Quero a liberdade de cavar a minha fortuna sem embaraços oficiais. E vou trabalhar para isso. Não quero mais culpabilizar a guerra da Renamo pela minha improdutividade de hoje. Os angolanos ficaram muito mais tempo em guerra e, por conseguinte, têm menos anos de paz do que eu. Porém, longe de serem muito miseráveis, os problemas que hoje enfrentam dizem respeito as dinâmicas do seu desenvolvimento. Eu quero fazer alguma coisa para deixar de viver num país em que empresários e albinos são raptados, assassinados e onde as campas são vandalizadas, como meio de obter riqueza. 

Fui tentado a apontar as baterias para todos os lados: ao poder politico vigente que nada fez para alterar este estado de coisas; à oposição que desmobiliza, difama e vive vendendo a nossa desgraça, lá fora. Os corruptos foram outros moçambicanos, menos eu. A corrupção que tanto odeio foi obra dos outros. O que eu dei e recebi a mais e à margem de qualquer serviço foi tido como uma simples gratidão; os outros é que não trabalharam. Tenho muitos culpados em que não me revejo. Em 2015, não tive capacidade suficiente de definir as prioridades, por isso estou entre os piores. 

A Constituição define como base do desenvolvimento do meu país, a agricultura. Mas, eu não sou agricultor, portanto não me revejo nesta constituição pelo que, mais uma vez, a culpa é dos outros, os tais que deviam fazer tudo para dignificar a base do desenvolvimento. Eu e a minha actividade fomos excluídos e, por via disso, não posso ser culpabilizado porquanto a minha actividade era secundária. Mas no novo ano, quero ser diferente. Quero criar ou promover a criação de associações para acederem aos vários fundos que o Governo e Organizações diversas colocam ao dispor do povo comum, no lugar de culpar a pertença partidária como condição. No fundo, no fundo, o que quero é a legitimidade de reclamar.





[1] GUEST. Robert. África, Continente Acorrentado: O Passado, o Presente e o Futuro da África. Civilização Editora, Barcelona, 2005

sábado, 12 de dezembro de 2015

Que interesses defende a União Europeia em Moçambique?

Segundo a LUSA, «o chefe da delegação da União Europeia (UE) em Moçambique, Sven Burdsdorff, defendeu uma governação inclusiva no país». Sinceramente! Foi longe de mais e podemos apostar, aqui e agora, para que nos diga em que se baseia o seu conceito de «inclusão». Se a Renamo e o seu filho renegado, o MDM, desejam governar que trabalhem para que as regras democráticas os legitimem. Nesse momento, a Frelimo não irá reclamar a partilha do poder, tal como não reclama onde o MDM danosamente governa hoje. A campanha contra o Governo que está agora em curso não será a última. Outras virão tão suspeitas e parciais como esta. É preciso não as dar por inteiro ao desprezo. Como é que ele sabe que há, no país, o antónimo da inclusão? Temos a certeza de que viajantes pouco escrupulosos e apressados recolhendo fábulas do descontentamento popular, jornalistas das crises inventando notícias, analistas agitando o signo das guerras, democratas da fome e da podridão, à procura de antagonismos e contradições, continuarão a atirar às nuvens e a errar o alvo, a atacar uma mão suposta e fantasmagórica da exclusão em tudo o que é canto, com que pretendem vestir as realidades moçambicanas. O que se impugna, critica e rebate é precisamente o alvo movente do que não somos, do que não pensamos, nem fizemos ou representámos. Quantas vezes o PR se encontrou com diferentes seguimentos sociais na busca de caminhos para a inclusão? De que segmentos sociais se refere o Senhor Sven Burdsdorff?

A inclusão não pode nem deve confundir-se com coligações. Nós temos o nosso entendimento do que é inclusão. Por isso, temos empenho em ser visitados, analisados e estudados. Há quem não se sente feliz pelo facto de o povo estar insistentemente apostar na Frelimo. Por isso não faltam elementos de trabalho, de estatística e documentação – pelo contrário, os frelimistas, se queixam da grandeza dos elementos postos à sua disposição que não sobra o tempo para estudar melhor. Temos o direito a que nos apreciem em termos correctos, equilibrados e justos e que as campanhas intelectuais, difundidas com ajuda de uma certa imprensa, não sirvam para malsinar nossos propósitos, adulterar a verdade e contestar o nosso direito, à procura de uma porta especiosa ou falsa para entrar em nossa casa e nela ditar a lei dos grandes senhores – patrões estrangeiros – que brasonam de igualdade jurídica e política, mas à sua volta só semeiam ódios, procurando bater os ferros da mais negra servidão. Não obedecem a altos objectivos as mentiras que vem sendo forjadas com relação ao comportamento político da Frelimo: pelo contrário, há que tomá-las como verdadeiros crimes – e que crimes! -, porque ameaçam comprometer o futuro da pátria, visto que lhe apontam o caminho da perdição como se fora o da felicidade, o da salvação. As coligações não devem ser forçadas. Quem quer ser membro da Frelimo, que peça o cartão porque «na casa do Pai há muitas moradas». Bem sei que nem todas as verdades se dizem; mas, especialmente a homens públicos, há muitas que é criminoso calar. Chega de recados descabidos que podem dar a entender que estão para defender os interesses de uma parte dos moçambicanos quando é dever defender os interesses da UE.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A Renamo: entre a Luz e a Escuridão

O prodigioso ressurgimento da ala militar da Renamo mostra que os objectivos dela, desde o levantamento de 1976, nas matas de Manica, nunca viraram. Uma vez, Armando Guebuza disse: «A Renamo ainda não desistiu da sua intenção de chegar a uma solução por via militar, através da violência. A nossa experiência indica que a Renamo raramente cumpre os compromissos assumidos. Queremos garantias de que a Renamo vai respeitar um eventual acordo de paz. É do interesse de todas as formações políticas que a Renamo se transforme num partido político e cesse a violência no país. Notícias, 9 de Março de 1992. Estas palavras, ditas há mais de duas décadas, continuam actuais. A Renamo não cumpriu com os acordos de cessar as hostilidades, não entregou a lista dos seus homens para integração, não quer entregar, num espírito de boa fé as armas que detêm para se transformar em partido político e fazer política não a guerra. Uma escolha para a Renamo: ou faz a política ou faz a guerra porque um servo ao serviço de dois Senhores agradará a um em detrimento do outro. Com efeito, todos os homens que deram cara a este movimento, desde Orlando Cristina passando por Evo Fernandes e Raul Domingos até ao advento de Bissopo, se empenharam com tenacidade e o mesmo propósito, embora, através de processos diferentes, em anular a Frelimo, tendo como base a arma. Este facto não pode surpreender. Um oficial deste movimento disse-me que «o futuro da Renamo está nas armas». Já o próprio Dhlakama reagira a posição de Guebuza dizendo: «O meu movimento é contrário à discussão do cessar-fogo nesta altura, porque um acordo de cessação imediata da guerra iria levar o Governo a bloquear o processo das reformas políticas». Voz de América, 10 de Março de 1992. Segundo se veicula, recentemente, Dhlakama terá telefonado à um grupo restrito de deputados, para dar orientações do que deve ser defendido no Parlamento. Quer dizer, enquanto se discute no parlamento, os guerrilheiros vão fazendo pressão armada, amedrontando e ele, na tentativa de fugir da responsabilização, vai atiçando o fogo a partir da caverna do silêncio. 

O que, pelo contrário, não pode deixar de surpreender singularmente, é observar-se que o MDM tem sido, desde há algum tempo a esta parte, a grande propiciadora da cumplicidade. Voltemos à carga. De armas em punho, a Renamo, mais uma vez, está a destruir o país que, com muito sacrifício, se reergue dos escombros. Na sua propaganda, os dirigentes dessa organização apresentam-se como santos. Para eles, todos os males, incluindo as calamidades naturais, têm origem na Frelimo. Falam do povo desgraçando-o. Falam do povo emboscando-o. Falam do povo comendo-lhe o seu gado a preço simbólico de 100 Meticais, o que constitui roubo. Falam do povo sacrificando-o. O cumprimento da obrigação involuntariamente assumida, vence as razões que aconselham o silêncio e por isso é preciso falar, sem naturalmente esconder que o fazemos com a alma amargurada e revoltada pela agressão armada a que os nossos conterrâneos foram submetidos. Desculpai a referência neste momento e nestas circunstâncias a uma grata recordação que me assalta o espírito e que de algum modo me serve de credencial. Entre Junho e Agosto encontrava-me de férias em Tsangano com alguns amigos que se encontravam lá em defesa da pátria. O meu distrito estava sendo palco de confrontos armados. E recordo mais do que os meus sacrifícios, os sacrifícios e sofrimentos dos que por lá deixaram os ossos ou vieram morrer prematuramente na zona segura. Quando andei por essas terras a que criei eterno amor – talvez porque nasci lá o porque lá dei bastante sangue aos mosquitos - registei em cartas as observações que consolavam a minha curiosidade e, relendo essas observações, verifico que elas me fizeram conhecer praticamente a exactidão do pensamento do notável «visionário e filho mais querido»: «A Renamo ainda não desistiu da sua intenção de chegar a uma solução por via militar, através da violência». Lá, uma dezena de escolas foi fechada, afectando mais de 3 milhares de alunos e os hospitais funcionam a meio-gás; em Morrumbala, seis escolas foram fechadas, afectando quase duas milhares de alunos; e há outras tantas partes em que alunos estão fora das escolas e os professores continuam a auferir os seus salários sem trabalho, numa altura em que a produtividade se tornou imperativo nacional. 

Quando a Frelimo apela a Renamo para que entregue as armas, esta se recusa e acusa aquela de ser também um partido armado, numa clara demonstração de fuga para frente a fim de justificar a tragédia. O apelo da Frelimo deve ser tomado como um apelo ao repensar os caminhos que nos levem a viver na mais santa paz, respeitando-nos e estimando-nos. A Renamo agride o povo por causa das suas diferenças para com a Frelimo. Nós, o povo, pagamos preço alto às chantagens deste ainda partido político armado, tal qual o Hezbollah. Mas o Governo Libanês aceita o braço armado do Hezbollah por ser o único capaz de enfrentar Israel. E a Renamo, a quem quer enfrentar? Ao povo! É seguro dizer que fomos apenas vítimas e somos, portanto, acusadores e não réus. A Renamo quer dirigir, a todo o custo. Dirigir um país, como sabiamente foi sendo dirigido, não é tarefa para aventureiros, umbiguistas, intriguistas, divisionistas e, sobretudo, tribalistas. Recordemos que com a Frelimo, povoações que mal despontavam são agora grandes urbes. Estradas, aeroportos, caminhos-de-ferro, fábricas, centrais eléctricas, estabelecimentos comerciais, grandes fazendas agrícolas, universidades, escolas, hospitais, pontes, numa palavra, o progresso surge, irrompem por todos os lados e, apesar de tudo, cada vez com maior pujança. De resto, honestamente, não se percebe como, quando e por quem deve ser exercido o poder, senão a Frelimo. Na verdade, se é certo que a Renamo assentou no princípio de Autonomias Provinciais, doutrina que não nos trouxe qualquer novidade teórica ou prática, absteve-se de estabelecer uma definição prática sobre como ela própria a materializaria sem abolir os municípios. Trouxe um conceito fantasioso e nessa ordem de ideias faz de conceitos um programa político para dividir o povo. Aconselhada pelos seus patrões estrangeiros que vivem em estados federados, sugere uma mudança, dos nacionalistas aos tribalistas, portanto, inaplicável no nosso modelo de estado unitário, como tantas vezes tem sido dito e redito. Não foi o povo que disse à Renamo que quer autarquias provinciais, pelo contrário, foi a  Renamo quem disse ao povo, pelo que usar o povo para legitimar posições alheias a este é falta de escrúpulos. Mas admitindo por mera hipótese, que assim fosse, bastará uns tantos habitantes de determinado território segredarem na intimidade das suas casas ou mesmo na praça pública que desejam autarquias provinciais para se dever mudar?! 

Será razoável que missivas de uma ou de algumas dezenas de cidadãos dirigidas a uma praça, ou meia dúzia de tiros na Gorongosa, em Morrumbala, em Tsangano ou uma insurreição fabricada em Inhambane possam pesar de tal modo que ponham em jogo o destino da Unidade Nacional? Será correcto, será justo, será sequer admissível que em nome das mudanças assim concebidas se destrua a unicidade da nação por meio de autonomias locais? Vai para 20 anos que as populações do país realizam diariamente o mais autêntico, o mais eloquente e o mais exigente de quantos plebiscitos lhes poderiam ser pedidos para manifestação da sua vontade. Cada dia, o povo recorda com gratidão que foi a Frelimo quem libertou a terra e o homem. Podemos espreitar para os países vizinhos que tentaram provar o veneno da mudança. Se não recuaram, estão estagnados, se não venderam a soberania tiveram que recomeçar. Isso nos auxilia a interpretar o verdadeiro sentido e objectivos das supostas autonomias: substituição aparente do poder político e manutenção e extensão de zonas de influência sem responsabilidades da soberania, ou seja, um neocolonialismo de índole puramente materialista com recurso aos patrões estrangeiros. O progresso, como atrás me referi, processa-se a um ritmo verdadeiramente impressionante, na nossa terra. E porquê? Porque ao povo foi informado que a única forma de sair do retrocesso é pelo trabalho, pela auto-estima e pelo abandono da vida de mão estendida. Segundo narra o Génesis, Deus disse a Adão, depois do pecado original: “tirarás da terra o teu sustento com muitas fadigas todos os dias da tua vida. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que te tornes na terra de que foste tomado: porque tu és pó e em pó te hás-de tornar”. Movida pela escuridão, a Renamo é contra este preceito bíblico. Mesmo na luz, não quer ver o povo trabalhando a terra e quer desacreditar a Frelimo desgraçando o povo. Tal como um parasita que suga o hospedeiro até a morte conjunta, assim ela procede. Mas o homem expulso do paraíso, isto é, o homem entregue a si próprio, determinando-se por seu livre arbítrio, havia de edificar o mundo em que tinha de viver. Este penoso encargo constitui a história do nosso tempo. Paz e Trabalho! E são estes princípios, são estes os atalhos, são estes os valores supremos, as grandes armas de que nos temos servido em todas as épocas da nossa história recente e que ainda hoje empregamos com a mesma generosidade e a mesma fé nos duros combates em que estamos empenhados. Esperamos, sinceramente, que a Renamo faça escolha entre a luz e a escuridão antes que seja feito um pedido formal para a sua inclusão no grupo de organizações terroristas.  Disse!


Eusébio A. P. Gwembe

domingo, 1 de novembro de 2015

Na Contingência da Guerra e da Paz a liberdade vencerá

Na tradição Ngoni, quando somos testemunhas de uma agressão na rua, não podemos deixar impunemente o mais fraco sozinho face ao mais forte, virar costas e seguir o nosso caminho. Acreditamos que a não assistência aos indivíduos em perigo, embora não constitua um delito, é uma falha moral que já custou demasiadas mortes e demasiado sofrimento a demasiados indivíduos para que aceitemos cometê-la. No dia 10 de Julho, saindo de Tsangano em direcção a Mitengo-Mbalame, ao longo da picada um jovem aparentemente debilitado estava a ser espancado pelos populares que o acusavam de ter sido um dos autores dos incêndios às habitações de Monjo. Parei o carro e falei para o homem que aparentava ser chefe daquele espectáculo. Quando o homem se aproximou da porta do meu carro, mostrei-lhe uma nota de 500 Mts (Quinhentos Meticais). Se meter este jovem no carro dou-lhe essa nota. O homem não resistiu e carregou o jovem para lá atrás da viatura. A fúria popular era tal que não a consigo descrever. O jovem era membro das Forças Armadas de Defesa de Moçambique que tinha sido atingido por uma bala dos guerrilheiros da Renamo, no dia 7 daquele mês, tendo permanecido três dias no mato onde acabou sendo achado por aquele grupo de homens ávidos de vingança. Estava a ficar tarde. Antes de ir-me embora, o homem que me vendeu a liberdade do jovem fez-me uma advertência mais ou menos como se segue: tenha cuidado senhor, há muito fósforo por ai; ainda é possível andar mas... mas... mas... a guerra vai estalar dentro de breves meses ou até dentro de poucos dias. Limitei-me a sorrir, um gesto que ele correspondeu enquanto se dobrava em gestos de gratidão pelo dinheiro que acabava de conseguir. 

Hoje, três meses depois daquele encontro ocasional, é de cada vez mais difícil ter-se a convicção de que, mais hora menos hora, se não ouvirá a detonação apavorante da pólvora sobre que se anda a riscar fósforos. Se não for doutra maneira, pode acontecer até que as armas, a tanto tempo apertadas, desfechem por si mesmas, já enfadadas de esperar que as disparem. E, todavia, não deixamos de admitir, no momento em que escrevemos, que o género de paz em que se vive e que tanto amargura o país, não chegue a sofrer alteração para pior. Com o agravante de que as flutuações económicas o irão inflamar. Em suma, a despeito de tudo, ainda confiamos em que não haja guerra. Ninguém desconhece - até os que pensam em bater-se e preparam o esforço máximo para sustentar os combates mais temerosos - que a guerra seria para todos, vencedores e vencidos, a mesma catástrofe a prazo, a destruição apocalíptica do país e da obra reconstrutora que, através de duas décadas, nele ergueu o espírito de paz e de tolerância. E a aconselhar a prudência e o espírito de conciliação - não obstante os preparativos bélicos e as atitudes ameaçadoras - acresce também este factor psicológico, capaz de influir decisivamente no ânimo do povo como influi no dos indivíduos: o medo. Com efeito, o receio do que a guerra poderá ser para cada uma das partes em contenda é o que mais tem valido à manutenção da paz nestas horas incertas e sobremodo inquietantes. A forma como terminou o último conflito é força motriz para ainda pisar-se o travão da guerra pois a certeza numa vitória militar já teria feito desencadear o que nos parece um evitável conflito. 

Confiemos, pois, em que esse factor psicológico continue a exercer a sua acção pacificadora e salutar. Neste canto de África, os moçambicanos correm o perigo certo e iminente de os envolver a catástrofe, se a loucura se tornar mais forte do que o medo. Nada temos a ver com os antagonismos que dividem os políticos, nem com as reivindicações territoriais que põem agudamente o problema da paz ou guerra. Para o povo comum que somos não existem objectivos ocultos e perigosos, interesses políticos cuja preponderância exija imposição, e muito menos ódios que nos levem a admitir a necessidade duma guerra, quanto mais desejá-la. Em poucas palavras, quer isto dizer que, inalteravelmente fiéis aos interesses da nossa crença numa paz duradoura e justa, e nos termos em que ela significa para nós, não deixaremos de expressar o nosso repúdio às acções e discursos de propaganda da desordem. Não somos, por isso, dos povos que, tornado inevitável o pior e desencadeado, para mal de todos, o conflito, mais devam temer as suas consequências. Não somos de exigir reuniões sem resultado porque não temos mais razões para nos acautelarmos contra a paz, sobretudo se, para afastar o flagelo da guerra, os homens desavindos as convocarem. Um encontro convocado com fins de satisfazer e equilibrar as ambições e os interesses dos fortes, pode tornar-se mais traiçoeiro do que as contingências duma guerra. Moçambique tem razões de sobra para não esquecer o que representou para ele o vocábulo «guerra». A História diz-nos, através do que depois se soube, que as reuniões entre os grandes têm sido algumas vezes apenas a fachada jurídica de combinações inconfessáveis antes concertadas no segredo dos protagonistas. E as suas decisões apaziguadoras podem, afinal, mostrar-se ainda mais injustas do que a voz dos canhões. 

A entrega daquele jovem por aquele grupo de furiosos fez-me ter a certeza de que no lugar de acções que nos aniquilem, deveríamos conferir glória e esperança à liberdade conquistada. Da nossa experiência de um extraordinário e inexplicável desastre humano que durou tempo demais, deveria nascer uma sociedade da qual todos os moçambicanos se orgulhariam. Deveríamos compreender que cada um de nós está tão intimamente enraizado no solo deste país e que ninguém é mais moçambicano do que os demais. A sensação estranha que partilhamos explica a dor que trazíamos no coração quando víamos o nosso país a despedaçar-se num terrível conflito. Esperamos pelo dia em que estenderemos saudação fraterna: Aos humilhados das áreas em conflito, aos refugiados ao Malawi, aos exilados na própria terra, que querem viver e viver livres. Àqueles e àquelas que são amordaçados, perseguidos ou torturados por simples suspeita de pertencerem a este ou aquele grupo, que querem viver e viver livres. Aos sequestrados das cidades, aos desaparecidos do meio rural  e aos assassinados, que queriam viver e viver livres. Aos pastores/sacerdotes brutalizados, aos jornalistas silenciados, às viúvas e às órfãs que vendem o seu corpo para sobreviverem, aos trabalhadores sem direitos de irem trabalhar, aos camponeses sem terra, aos resistentes sem armas, que querem viver e viver livres. Esperamos ardentemente por esse dia. Enquanto esperamos dizemos a todos eles: coragem, a liberdade vencerá.


Eusébio A. P. Gwembe, Izmir, Turquia

sábado, 17 de outubro de 2015

A Renamo: No combate em que morreu André Matsangaissa

Hoje é um dia grande para a Renamo. Morre em combate, há 36 anos, o seu primeiro comandante, André Mathadi Matsangaíssa Djuwayo. Seus seguidores armados ficarão conhecidos pelo seu nome, tal como ficaram os seguidores de Cristo: os cristãos. Os matsanga são os seguidores de André Matsangaissa, bandido para uns, herói nacional para outros! São 10 dias do mês de Outubro de 1979. O local chama-se Gorongosa, para onde as forças governamentais se dirigem para partir «a espinha dorsal do inimigo». É noite e sete homens armados chegam a uma aldeia comunal situada a alguns quilómetros da Vila. A sua missão não é clara mas a sua presença aterroriza e intimida os camponeses ali residentes. Uns começam a abandonar a aldeia o que chama atenção às Forças Populares de Libertação de Moçambique. Parece-me que estes homens aperceberam-se da grande operação arquitectada contra eles e vieram a este local apenas para certificar a suspeita antes de bater em retirada, abandonando no terreno material militar. Um Jornal dirá 30 dias depois que «…, antes de partirem, queimaram dezenas de habitações, saquearam uma Loja do Povo e, num acto de selvajaria característica, cortaram ambas as orelhas a dois camponeses, um deles uma mulher». Tempo, nº 474 – 11.11.79, pág. 13

O poderio militar da força inimiga vai obrigar as FPLM ao prolongamento das operações que levarão uns 15 dias porque o objectivo é neutralizar uma suposta «importante força inimiga, infiltrada na área da Gorongosa». O efectivo que acompanha o líder do até aqui denominado MNR (Mozambique National Resistence) é estimado em cerca de 350 homens, e integra oficiais rodesianos e moçambicanos que penetraram em Moçambique com o objectivo de estabelecer um acampamento militar no interior, a partir do qual poderão lançar acções de sabotagem contra alvos económicos e sociais. Outros grupos pouco importantes estão dispersos em Mucuti, Mabate, Chidoco, Sitatonga, Chinete, Muxungue. Os sete homens vistos são rebenta-minas e servem de isca para convidar o adversário ao terreno lamacento. Refugiam-se num pequeno planalto no alto da serra da Gorongosa, a mais de 1800 metros de altitude. A sua posição é praticamente inexpugnável contra ataques por terra e por dia, facilmente, é abastecida em armas, munições e mantimentos pelos aviões e helicópteros rodesianose pelas populações cúmplices. 

Para proteger o acesso ao acampamento principal, foi estabelecido um posto avançado em Morombodze, uma estação pecuária que antigamente pertencia a um inglês, guarnecendo-o com um efectivo calculado em cerca de 100 homens. Esta área tem a importância estratégica para a defesa das posições principais do grupo. É aqui que termina a picada quase intransitável que vai da Vila, a única via de acesso para viaturas a partir da pequena plataforma ali existente. No comunicado do Estado-Maior General de 2 de Novembro reconhece-se que «as condições de acesso terrestre a este local são de tal modo difíceis que, para se percorrer a pé os poucos quilómetros que o separam de Morombodze, são necessários cerca de três dias». No dia 11, as FPLM lançam uma ofensiva. Os combates são aqui particularmente violentos, com o efectivo inimigo cercado, encontrando-se instalado nas próprias instalações da estação pecuária. Os 100 homens resistem ao poder de fogo das forças atacantes, e lançam uma contra-ofensiva a partir das cinco horas da manhã do dia 12. 

O tiroteio, quase à queima-roupa, prolonga-se até às 11:00 horas, quando as FPLM reagrupam as suas forças para novos desenvolvimentos. A resistência sugere haver pessoas importantes no local. Aproveitando-se do reagrupamento das FPLM, o grupo dispersa-se pela mata adentro o que permite que no dia seguinte, 13, o posto seja ocupado, com resistência esporádica e localizada. Ocupada a posição estratégica de Morombodze, as FPLM preparam-se para a ofensiva final contra o acampamento inimigo na Serra. No dia seguinte, 14, os rebeldes desencadeiam uma série de acções, numa tentativa de fazer dispersar as forças agora ocupantes. A floresta nas cercanias de Gorongosa está em ebulição e o turbilhão de tudo isso é um grupo de 350 homens armados com armas ligeiras contra um exército armado até aos dentes. Nos dias 14, 15 e 16 os combates estão circunscritos nas cercanias do posto avançado ora ocupado. Para lá são mobilizados materiais de guerra e homens na tentativa de romper o cerco. A resistência tenaz dos rebeldes volta a sugerir haver entre eles os principais comandantes, mas ainda ninguém tem certeza. 

Pela manhã do dia 17, ataques coordenados saem de diferentes posições contra Morombodze o que força as FPLM a dividirem-se em pequenos grupos e a penetrar para o interior em perseguição aos adversários. Há muitas baixas do lado das FPLM, o Hospital da Vila já não é capaz de atender quantos feridos para lá chegam. Também há muitas mortes do lado dos rebeldes e só mais tarde saber-se-á que entre eles estava o próprio comandante, o André. No dia 17, entre os que combatem notam a ausência do comandante, pois estão divididos em pequenos grupos. A ira e a necessidade de certeza força-os a ter que aumentar a intensidade dos ataques. No dia seguinte, 18, aproxima-se da Vila, fustigando-a com um poder de fogo. Neste dia, 20 homens já tombaram e os 80 sobreviventes dividem-se em três grupos conforme fora traçado no dia anterior: o primeiro ataca directamente o quartel das FPLM, criando um pânico entre os habitantes da vila; o segundo ataca uma área residencial, criando uma debandada geral e o terceiro ataca a zona do hospital, deixando doentes desprotegidos. As FPLM estão sob fogo intenso em todas as frentes. Pela mata ainda há resistência, mas não tanta. Há que redobrar esforços para proteger a vila. Os combates iniciam-se cerca de dez horas da manhã, e prosseguem até às cinco da tarde. Por um pouco a vila não cai. Os rebeldes querem ver se no Hospital haverá alguns elementos feridos entre eles o seu comandante. 

A percepção de um dos comandantes das FPLM é de que «o grupo inimigo julgou provavelmente que, como um importante efectivo moçambicano se encontrava na serra a proceder a operação de «limpeza», a vila estaria pelo menos parcialmente desguarnecida. Por outro lado, tentou aproveitar-se ao máximo das características da vila, particularmente da grande dispersão das casas e instalações ali existentes». Tempo, idem. Ao fim do dia os dois primeiros grupos são rechaçados com numerosas baixas, deixando feridos que são capturados pelas FPLM, e o terceiro consegue atingir as paredes do hospital com balas, e um roquete destrói por completo a casa mortuária, situada a cerca de 20 metros do hospital. A vila está momentaneamente dividida com os rebeldes a controlar uma parte nos dias 19, 20 e 21. Apesar de todas as tentativas de romper o cerco, e dos reforços importantes recebidos as FPLM instalam a artilharia na plataforma de Morobodze. No dia 22, procedem ao bombardeamento sistemático do campo no topo da montanha, que será completamente arrasado. 

No dia 23, as forças de infantaria iniciam a escalada da montanha, cujo cimo atingem a 26, limpando completamente a encosta. Os sobreviventes dispersam-se em pequenos grupos, fugindo em direcção à fronteira ou, abandonando armas e uniformes, fazendo-se passar por elementos da população. Na montanha numerosas ligaduras cheias de sangue são ali encontradas. Cadáveres também são encontrados mais tarde em áreas vizinhas, nomeadamente num rio que corre nas proximidades. O saldo global da operação é de mais de 100 baixas do lado dos rebeldes, um número elevado de feridos e 22 prisioneiros, sendo ainda abatido um helicóptero quando tenta evacuar oficiais rodesianos, na zona de Manica. Do lado das FPLM o número de baixas é estimado em cerca de 136 mortes, 45 feridos e, 37 desaparecidos em combate, entre mortos, capturados e desertores. A tentativa de estabelecer um campo militar no interior de Gorongosa, para servir de base para o desencadeamento de acções de terrorismo e sabotagem, fracassou mas abriu espaço para que Maringue, já sob liderança de Afonso Dhlakama, emergisse como símbolo de resistência da Renamo até ao Acordo Geral de Paz, de 1992.


Nota: Na foto, André Matsangaissa e Pedro Marangoni, Arquivo de  Pedro Marangoni
Eusébio A. P. Gwembe, Historiador

terça-feira, 16 de junho de 2015

A Renamo e sua nova ameaça à Paz

Nestes dias de intensa luta contra os inimigos da paz que há duas décadas tentam escravizar as nossas populações para permanecerem na insegurança no  próprio solo, aprouve a Deus nosso Senhor enviar à Moatize uma nova e difícil atribulação. O pérfido ataque militar ao exército, no passado domingo se confirma. A Renamo continua a avançar com a ideia de criar um  exército próprio, lançando novas forças ao ataque. Os distúrbios provocados na região ameaçam ter um efeito  desastroso sobre a situação futura deste persistente braço de ferro, se o exército responder. O destino de Moatize e de Tsangano, o bem estar do povo e todo o futuro da nossa querida província de Tete exigem que o sossego seja reestabelecido. Mas o sossego só pode aparecer se as armas à solta forem recolhidas e extirpado o fantasma do reinício de uma nova e, talvez, prolongada guerra. Ninguém duvida que a Renamo, não hesita em recorrer a ela e a qualquer provocação, tal como nos demonstram os seus actos, na realidade uma passagem para o lado da negação ao povo do direito à paz, no momento em que o recurso à violência para se chegar ao poder está em colapso por todo o mundo que se preze civilizado. Esta situação pode ser atraente para certos espíritos que acalentam a esperança de vingar as suas mágoas e o seu ódio à Frelimo, através de uma nova catástrofe. Nunca, como nesta hora histórica, revelou o governo moçambicano tanta força de carácter -  e é este governo ao qual todos devemos nossa maior conquista, que a Renamo se atreve a ameaçar com ataques.

A Renamo sempre chamou de democracia  à liberdade dos seus homens armados continuarem pobres e de morrerem à fome no mato, enquanto os chefes levam uma vida boa nas cidade, quando podiam enquadrar-se na vida civil com todos os seus benefícios. São anos perdidos! Os seus defensores oficiais e oficiosos enganam o povo com frases agradáveis, sonantes e bonitas mas totalmente falsas, tentando dissuadir as massas da tarefa histórica concreta da  Renamo para libertar o povo da má governação imaginária. Os progressos da última década mostram que, apesar dos esforços desestabilizadores da Renamo contra a governação da Frelimo, a roda do destino e o impulso da calma e determinação do povo avançam em direcção a um objectivo: desenvolvimento. Nestes últimos meses, o ritmo aumentou e já nada a pode parar. Há muitos anos o exército e o governo têm sido pacientes com a Renamo, mas esta, em vez de reconhecer os direitos das forças armadas circularem em todo o território nacional, atreve-se a falar de «nossas bases» e lança-se ao ataque, num acto de provocado suicídio. Até provas em contrário, recuso-me a acreditar que os verdadeiros democratas vivam com exércitos paralelos em seus países. Mais de um milhão de mortos em 16 anos cujo erro foi terem nascido e vivido no nosso solo pátrio; dariam voltas nas suas sepulturas. E até provas em contrário, recuso-me a acreditar que a Renamo defende a paz destruindo-a.

Um povo digno do seu passado e do seu nome entre as nações civilizadas não pode viver perpétuamente o fantasma do retorno da guerra. Quando a Renamo recebe apoio expresso vindo de certos segmentos, não é voto de confiança garantido. Pode estar para ser usada por  verdadeiros anarquistas e ela pagará a factura mais pesada da História: o desaparecimento. Estes segmentos são mais movidos pelo ódio contra a harmonia do que o amor à Renamo. Deixai-me repetir categoricamente que apesar das provocações da renamo, o juramento sagrado do nosso Presidente que fez perante todos nós é que fará tudo o que estiver ao seu alcance para impedir que moçambicanos matem outros moçambicanos. Entregou-se à tarefa com entusiasmo e esperança porque tem um coração de paz. Assim seja! 

domingo, 31 de maio de 2015

Sobre a idade do Partido Frelimo (I)

O crescimento da imprensa e das oportunidades de/para divulgação de informações entre as massas provocou esforços convulsivos, por parte de algumas pessoas, no sentido de desacreditarem a idade da Frelimo buscando encontrar argumentos políticos fictícios e não científicos em defesa de uma estranha. Desses argumentos, destaca-se particularmente a ênfase de que a Frelimo de 1962 era uma Frente, no sentido de congregação de vários movimentos numa só organização com vista ao alcance da independência. Para cúmulo, os seus autores chegam a afirmar que, uma vez alcançada a independência, haveria dissolução da Frente e cada um seguiria a sua rota. A falsidade e hipocrisia de tal argumento, repetido em milhares de formas na imprensa dita livre, são evidentes para todos os que não querem atraiçoar o princípio fundamental da Ciência. Em primeiro lugar, este argumento é usado com certas interpretações baseadas não em factos históricos mas na traição da própria Língua Portuguesa quando se fala de «Frente», sem indicar concretamente a que «Frente» se referem. Em segundo lugar, não foi a Frelimo uma Frente que havia de ser dissolvida, uma vez alcançada a independência. É mais uma pressa dos autores da  propaganda contra a cinquentenária Frelimo, ao confundi-la com as intenções por detrás da COREMO. Vamos aos factos:
  • «Em 24/3/65 iniciou-se em Lusaka (Zambia), a conferência da Unidade Moçambicana que se prolongou até 31/3/65. Nos trabalhos participaram representantes dos seguintes PARTIDOS:
  • · União Nacional Democrática de Moçambique (UDENAMO), representada por:
  • · Paulo Gumane e Sakupwanya;
  • · União Nacional Democrática de Monomutapa (UDENAMO) representada por: Hlomulo J. C. Gwambe, Calvino U. Z. Mahlayeye e John Gent Bande;
  • · Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), representada por: Dr. Eduardo Mondlane e Shithole;
  • Mozambique African National Congress (MANC), representada por Peter K. Simbi e Mathews Kambezo.
A conferência tinha como finalidade reunir num único, todos os movimentos de Libertação de Moçambique, que se deveriam dissolver, e, aglutinarem-se num «Comité Revolucionário de Moçambique – COREMO», que, como único Partido dirigiria a lenta e implacável luta contra o Imperialismo, Colonialismo e Neo-colonialismo». A delegação da Frelimo não concordou, argumentando que, se realmente se pretendia realizar a unificação de todos os PARTIDOS empenhados na independência de Moçambique, a Frelimo, estava pronta a recebê-los no seu PARTIDO, mas de modo algum a dissolver-se e agrupar-se num outro ainda totalmente desconhecido, pois encontrava-se na vanguarda da luta e não podia abdicar da sua posição perante a massa dos seus elementos. Por não chegarem a acordo foi pedido à delegação da Frelimo para abandonar a conferência, prosseguindo os seus trabalhos os restantes PARTIDOS»

Estivemos a citar in extensis o documento da PIDE datado de 18/08/1965 que vai anexo. Em terceiro lugar, como se pode depreender, tudo acontece em 1965 visando unir os partidos separados. E o resultado é a expulsão da Frente, pelos Partidos que a deveriam constituir, o que é absurdo. Naquele encontro daquele ano decisivo da História do Partido Frelimo, no momento em que a verdade lutava para ser reconhecida no caos internacional onde prevaleciam os poderes do domínio maligno e do imperialismo, Mondlane, acompanhado por Shithole. Mostraram-se firmemente dispostos a preservar a soberania da Frelimo. Porque o seu vasto programa dispunha unida e resolutamente a preservar a dignidade de todos os moçambicanos face aos esquemas imperialistas de algumas nações que desmascaravam os seus desejos de domínio e supremacia. Naquele dia, Mondlane decidiu mostrar ao mundo que quando um pequeno grupo de indivíduos decide preservar e salvar a dignidade de um povo, fazem-no, e que quando estes indivíduos estão resolutamente determinados a defender os seus princípios e a manter a sua dignidade, não deixam de alcançar os seus objectivos. E assim fez, nos encontros de Lusaka. Enquanto Gwambe e outros incidiam os seus discursos a falarem da URSS e dos EUA, Nato e outras nações, Eduardo Mondlane falou em nome de cada moçambicano, mas também em nome de todas as nações Livres.

Nunca foi a ideia de Mondlane dissolver o Partido Frelimo, uma propaganda barata, esta. Ele falou em nome de todos os que acreditavam na liberdade e que estavam dispostos e prontos a defendê-la, sob égide do partido que representava. Falou em nome dos princípios proclamados em Junho do ano de 1962, com alguns dos integrantes da equipa que, porém, agora eram eles que estavam a violar esses princípios de União. Como haveria garantia de que daquela vez haviam de manter a União? Coube a Mondlane aceitar a responsabilidade de os reafirmar e restabelecer, recusando-se a abrir mão para a dissolução do Partido. Antes, porém, tentou, por todos os meios possíveis, cooperar com os outros membros da delegação de Lusaka, mas eles exigiram ser pagos à cabeça. Declarou que estava disposto a negociar acordos, mas mal começaram as negociações começaram as ameaças e as intimidações, querendo fazer vincar a ideia da dissolução da Frelimo. Como Mondlane recusou, começaram a lutar contra ele, tendo-o mandado embora, reunindo-se, os restantes, de seguida, em COREMO, com apoio da Zâmbia. Uma tal postulação, deixando de fora a questão dos integrantes, isto é, actores, como se de uma questão insignificante se trata-se, é uma chacota directa à História, nomeadamente ao papel do indivíduo e o acaso. Engels escreveu que são históricas todas as ciências que não são ciências da natureza e que as ciências sociais ou humanas sem a componente "tempo" não são ciências, nem são históricas.

Para compreender a idade do Partido Frelimo é preciso fazer uma breve história do conhecimento histórico que possuímos sobre a sua fundação. A síntese do material até aqui disponível permite-nos concluir que o processo de união é anterior a Mondlane e iniciou na Tanganyika. Mas que sempre fracassava, em parte, devido ao analfabetismo, à ambição desmedida de alguns e pela interferência estrangeira. Para Zengazenga [1] «as reuniões realizadas em Dar-es-Salaam na presença de protectores estrangeiros não conduziram a nenhum resultado». Já em Julho de 1960, Marcelino dos Santos, na altura apoiante do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), isso mesmo, tal como o era Hélder Martins, encontrou-se com os líderes da MANU e da UDENAMO (União Democrática dos Naturais de Moçambique) em Dar es Salaam, tendo-os aconselhado a unirem-se. (A UDENAMO de Hlomulo Gwambe foi fundada em 2 de Outubro de 1960). Em finais de 1961, Baltazar Costa escreveu a Mondlane cuja resposta foi boa «estou prestes a entrar de férias, irei a Tanganyica tentar a Unificação dos dois partidos, nessa altura conhecer-nos-emos». Em Janeiro de 1962, o Governo da Tanganyika comunica aos dirigentes da MANU e UNAMI sobre o encontro de Adis-Abeba, em Fevereiro daquele ano. Mas não avisam Gwambe, porque era tido como sendo espião do Governo português e da PIDE a quem enviava fotografias dos  companheiros e de outros nacionalistas, em troca de valores monetários. (Voltarei a falar deste caso em próximas ocasiões).

A chegada de Mondlane, foi uma surpresa aos líderes que já tinham feito acordos em Tanganyika, primeiro em Novembro de 1961, depois em Janeiro de 1962 e finalmente e apressadamente, na tarde de 24 de Maio de 1962 para que fossem aceites na Conferência de Accra, documento este que foi falsamente divulgado como tendo sido assinado em Ghana. Por isso, Gwambe não chegou a ser membro da Frelimo e, de forma frontal, foi promovendo intrigas que causaram imensuráveis danos ao Partido, danos que o levaria a desintegração. Foi graças a força de vontade de Mondlane que a nova união, a de Junho de 1962 ganhou o seu espaço, Marcelino dos Santos definiu a sua filosofia, no Primeiro Congresso, de Setembro daquele ano. O segundo Congresso, realizou-se em 1968, em Niassa e o Terceiro, em 1977, estranhamente o ano que é convocado como ano da Fundação do Partido Frelimo, pelos propagandistas da falsificação da História. Quer dizer, a Frelimo é um Partido que se funda no seu Terceiro Congresso? Em 1977, a Frelimo tratou de mudar de orientação ideológica. Junto anexo o desmentido do argumento de que os propagandistas da menoridade da Frelimo se servem. Portanto, pelo exposto, o Partido Frelimo vai completar 53 anos no próximo dia 25 de Junho. É a Frelimo de Mondlane, da qual Gwambe não fez parte.

Eusébio A. P. Gwembe, Historiador


[1] Dr. António Disse Zengazenga nasceu na aldeia de Salamadze, no distrito de Angónia, província de Tete, em 6 de Outubro de 1933. Frequentou os Seminários de Zóbuè e da Namaacha, onde fez três anos de Filosofia e dois de Teologia. Foram António Disse Zengazenga, Uria Timóteo Simango e Refael Silvério Nungu, que estrangularam a revolta contra Eduardo Chivambo Mondlane organizada por José David Mabunda, José Paulo Gumane e Fanuel Guidion Mahluza a 3 de Outubro de 1962 em Dar-es-Salaam. Pertenceu ao primeiro grupo de soldados que a Frelimo mandou treinar no Egipto, em Dezembro de 1962. É autor do «Memórias de um Rebelde».