sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A Renamo e o MDM: Duas forças políticas violentas em luta.

Como todas as organizações trabalhistas formais, isto é, partidos e sindicatos, a oposição moçambicana desenvolveu tendências oligárquicas em que os interesses privados dos líderes são opostos aos interesses dos filiados. Porém, o povo é chamado para encobrir as verdadeiras intenções dos líderes. Robert Michels tinha razão quando a dado passo notou que a centralização do poder acaba nas mãos de poucos. Esses poucos – a oligarquia – irão usar todos os meios necessários para preservar e aumentar ainda mais o seu poder. No caso da Renamo e do MDM, este poder está em Afonso Dhlakama e em Daviz Simango. Quando o país precisa de uma oposição que formule projecto de como podemos sair do fundo do poço, vemo-la muda e centrada na violência, enquanto instrumento para aquisição do poder. Como todos os líderes políticos, Dhlakama e Simango também têm controle do seu poder sob sanções e recompensas. Eles tendem a promover aqueles que compartilham de suas opiniões, o que inevitávelmente reforça o espírito oligárquico auto-perpetuante. Eles controlam a informação que flui até os círculos mais baixos de comunicação, censurando o que ele não querem que os militantes e o povo comum saibam. Mas, sobretudo, dedica recursos significativos para persuadir a militância da justeza de suas posições.

Quando Dhlakama fala de dirigir o Centro/Norte a partir de Março próximo, há pessoas a se extasiarem. Confesso que causa-me perturbação o tom agressivo com que o eterno líder apregoa o advento de uma verdadeira democracia nas imaginárias regiões e proclama as virtudes da Renamo como uma organização verdadeiramente democrática. Ele que nunca passou por voto! Até parece estarmos perante um régulo que aspira a um estado de verdadeira beatitude democrática. Se virmos bem as coisas, o discurso ameaçador de Afonso, secundado por Daviz, não é novo e a pretensa ideia separatista nada tem de original. Vem de longe! Uma parte de fracassados políticos sempre revelou grande disponibilidade para aderir à uma retórica tribal-regionalista eunuca e moralmente demagógica. São utopias desacreditadas e ambições revolucionárias falhadas, de quando em quando ressuscitadas sob novos herdeiros daqueles que dirigem, a que Robert Michels tão bem definia, pela “Lei de Ferro da Oligarquia». A posição de Dhlakama não pode conduzir senão ao desastre político da Renamo e a emergência gloriosa do ainda dormente Movimento Democrático de Moçambique. Interessa ao MDM uma Renamo violenta, incapaz de se organizar politicamente, a fim de emergir na arena nacional. Um sonho adormecido mas potencialmente não esquecido! 

E não é de descartar que os meios a usar incluam a possibilidade deste partido estar a atiçar senão mesmo a financiar todos os focos de violência. Tudo para dificultar os processos que antecederão as eleições de 2019, mormente, o recenseamento, a formação, a capacitação e o próprio processo eleitoral. Está provado pelos olhos que estas duas formações políticas, ainda ligadas pelo cordão umbilical tribal, discutem os mesmos espaços e os mesmos eleitores. Se assim acontece do lado atávico do MDM para quem o adversário de peso é a Renamo, esta última tem interesse numa bipolarização política como via para derrotar o também adversário de peso: a Frelimo e, por via disso, ter acesso ao poder. Para tal, um ambiente de tensão constitui um meio para que a Frelimo não materialize o que está no seu projecto de governação e assim, poder ser desmentida pela ausência de obra. Em última instância, uma violência política assim organizada mostraria que a sua desorganização interna é obra do adversário e que a violência que os seus membros fazem quer em forma verbal quer por actos são em resposta às provocações de que são vítimas. É uma táctica de auto-flagelação. Um ambiente de paz e estabilidade seria compensado pelo voto, nas eleições de 2019 de que a Renamo e o MDM, mais uma vez, sairiam derrotados.


Façamos uma breve excursão histórica sobre o lado violento desta oposição, para percebermos como ela tem na violência um instrumento para manutenção e obtenção do poder. Existe uma relação intrínseca entre a violência e o insucesso político desta nossa oposição. Quando ela se sente incompreendida ou incapaz de formular políticas que vão para além dos membros beneficiários, a violência é o provável recurso no compasso de espera entre o processo geral desorganizado e o tempo necessário para se organizar. Mas isto se deve à própria origem da Renamo que, por força do ADN, não foi capaz de impedir que genes violentos passassem para o segundo filho, também surgido num contexto de violência: o MDM, para quem toda a diminuição do seu poder é um convite à violência. Sempre que sente que este lhe foge das mãos, é sempre difícil resistir à sua tentação. A violência praticada e financiada por esta oposição, sob várias formas, tem um carácter instrumental. Mas o poder nunca é propriedade de um indivíduo, como sucede sobretudo na Renamo; pertence a um grupo e só continua enquanto o grupo mantém a sua união. Qualquer tentativa de isolamento obrigará aos deputados deleitados nas mordomias da capital a ter que se separar do cordão umbilical. 


Aqui é onde entraria o MDM que havia de pescar na rede, coagindo aos deputados renegados a renunciarem a Renamo e aderirem ao galo. Até porque a distância entre galinha e perdiz apenas reside na esperteza. Porque a violência é, por natureza, instrumental, como todos os meios, requer sempre orientação e justificação através do fim que visa. Para a oposição, a combinação entre a violência e o poder é como se estivéssemos a falar de unha e dedo. Assim, a violência é uma pré-condição do poder. O MDM nunca foi capaz de condenar a Renamo quer pela sua linguagem ameaçadora do Estado de Direito quer pelos seus actos que retraem os investimentos. Quando a Renamo tem necessidade de justificar a violência, a partir da parte incerta, Simango diz «força Dhlakama». Ambos não dizem que o que precisam é o poder ilimitado porque este é um fim em si próprio, por isso, não necessita de justificação, mas sim de legitimidade. A violência destes dois partidos não depende do número praticado ou das opiniões, mas dos instrumentos. Mas tenhamos atenção! Os fortes sentimentos fraternais engendrados pela violência colectiva seduziram muita gente bem-intencionada com a esperança de ver essa violência dar origem a uma nova comunidade e a um homem novo. Ao fim, a desgraça daí resultante foi pior do que era de esperar. A violência, é mais frequentemente a arma da reforma do que da revolução. O seu perigo está sempre nos meios se sobreporem aos fins. Por isso, digamos não à violência.


Com efeito, a necessidade de fortalecimento do partido diante da classe dominante provoca a cristalização de interesses cultivados pelos chefes e a identifica­ção deles como interesses da organização. Assim, os interesses dos filhos, sobrinhos, primos e amigos dos primos dos membros próximos à cúpula da Renamo e do MDM, são identificados como sendo os interesses do povo. Mesmo aqueles que parecem terem sido eleitos de forma democrática, já se tornam conservadores e aferrados ao poder, sem disposição para enfrentar as urnas. Alguém poderá pensar que os pequenos chefes da oposição estão a trabalhar. Desengane-se visto que é pobreza que lhes move. Quando os chefes não possuem nem fortuna pessoal nem outras fontes suficientes de renda, eles se agarram com tenacidade, por razões econômicas, ao seu emprego, o qual terminam por considerá-lo como sua posse, como seu bem inalienável. A perda do cargo seria para eles um verdadeiro desastre financeiro

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A legitimidade para reclamar

O último relatório do índice de desenvolvimento humano coloca-nos na cauda do mundo. Estamos entre os dez piores países, em termos do rendimento percapita, da esperança de vida e do nível de educação. À primeira vista tive a sensação de que fomos injustiçados e se assim foi deve haver um culpado. De lá para cá, fiquei a procura do culpado. Porém, antes de o encontrar, comecei por avaliar o meu próprio desempenho durante o ano. É que, se os indicadores de que se serviram são distribuídos ao colectivo, este por sua vez é a soma dos vários «individuais» de que faço parte. Tratou-se de uma improdutividade colectiva mas com responsabilidade individual. 

Compreendi que as desculpas históricas de colonização, das calamidades naturais, da guerra e outras para justificar o meu fracasso são a almofada para a minha inércia. É verdade que teria N desculpas para me safar. Contudo, parece-me que já não é plausível culpar o colonialismo de todos os meus males. Embora a colonização tenha deixado cicatrizes profundas no imaginário colectivo, é claro que o colono também deixou para trás coisas úteis e boas como estradas, escolas, hospitais, fronteiras, a língua, as leis. Neste sentido, o colonialismo foi a base da Unidade Nacional. 

Mas hoje, em que mais de 70% dos africanos de hoje nasceram já depois da independência, começo a ter vergonha de evocar o colonialismo pela minha incompetência. O colonialismo não condena necessariamente um país à penúria eterna. A Correia, anexada pelo Japão em 1910 sofreu a destruição da sua cultura com o seu povo submetido à servidão. A língua coreana foi banida, os coreanos impedidos de aceder à universidades. Os jovens eram enviados para os trabalhos forçados nas minas e nas fábricas de munições no Japão, ou obrigados a servir no exército. Mais de cem mil mulheres foram submetidas a servidão sexual nos bordéis militares como «mulheres de conforto». 

Expulsos os japoneses, em 1945, eclodiu uma guerra civil que deixou divididos os coreanos em Norte e Sul. A parte Sul que era tão pobre como o Ghana em 1953, é hoje vinte vezes mais rica. Este país e os seus habitantes poderiam ter razões suficientes para culpar o passado. Como notou Robert Guest, o contraste é o Zimbabwe em que o Presidente, como Primeiro-ministro recebeu o país com uma das melhores economias da África. É claro que conseguiu disfarçar durante algum tempo. Porém, ao apreender a propriedade privada, deu um aviso surdo aos investidores internos como externos para que «não ponham o seu dinheiro no Zimbabwe[1]». 

Fixou o preço do petróleo abaixo do que custa a importar, pelo que as bombas secaram. Tentou criar dinheiro imprimindo mais notas causando hiperinflação. Usando políticas que falharam noutros lugares tornou os zimbabweanos muito mais pobres do que eram à data da independência. Medidas de contenção das despesas atingiam hospitais e escolas enquanto ministros ainda andavam de Mercedes Benz e o orçamento militar nunca sofria reduções. Leis sensatas eram aprovadas mas postas de lado logo que o cheque da ajuda entrasse nos cofres.  Os  zambianos também estão mais pobres do que quando o colono saiu de lá, porque a crença na acção afirmativa para aumentar o número de  negócios dirigidos por negros consistiu em distribuição massiva de lugares na função pública e empréstimos bancários para os amigos da nomenclatura. 

E a África do Sul, pode correr o mesmo risco em poucas décadas, se o ANC continuar com o que nos é dado a saber. Há bons exemplos na África. O Botswana tem sido consistentemente democrático e melhor gerido. A sua economia tem reforçado a sua democatização e é hoje  um dos poucos modelos de desenvolvimento democrático e económico numa África carente de exemplos. Mas para o conseguir, os Tswana tiveram que trabalhar duro. A sua liberdade não significou apenas o poder de votar. A sua liberdade significou reorganizar uma companhia na falência e colocá-la, juntamente com uma injecção maciça de capital, nas mãos de novos gestores, diferentes dos incompetentes que a tinham arruinado antes.  

Não serão os outros a fazer com que Moçambique figure entre os melhores. Tenho que ser eu, pelo esforço próprio. Os estrangeiros ou o Governo podem ajudar, mas o sucesso dependerá de mim. Quero ser diferente, apostar mais no que o país e os outros verdadeiramente necessitam. Os britânicos tornaram-se ricos produzindo têxteis melhores e mais baratos e outros produtos que tanto os nacionais como os estrangeiros estavam desejosos de comprar. O Japão melhorou técnicas de fabrico inventadas noutros países de forma a produzir carros melhores e mais baratos, semicodutores e aparelhos de fax; a América soube criar desejo de muita gente para passar a gostar de filmes americanos, remédios americanos, aviões americanos, serviços dos bancos americanos. Quero contribuir com ideias para criar condições de transformar as matérias-primas em produtos manufacturados. 

Quero a liberdade de cavar a minha fortuna sem embaraços oficiais. E vou trabalhar para isso. Não quero mais culpabilizar a guerra da Renamo pela minha improdutividade de hoje. Os angolanos ficaram muito mais tempo em guerra e, por conseguinte, têm menos anos de paz do que eu. Porém, longe de serem muito miseráveis, os problemas que hoje enfrentam dizem respeito as dinâmicas do seu desenvolvimento. Eu quero fazer alguma coisa para deixar de viver num país em que empresários e albinos são raptados, assassinados e onde as campas são vandalizadas, como meio de obter riqueza. 

Fui tentado a apontar as baterias para todos os lados: ao poder politico vigente que nada fez para alterar este estado de coisas; à oposição que desmobiliza, difama e vive vendendo a nossa desgraça, lá fora. Os corruptos foram outros moçambicanos, menos eu. A corrupção que tanto odeio foi obra dos outros. O que eu dei e recebi a mais e à margem de qualquer serviço foi tido como uma simples gratidão; os outros é que não trabalharam. Tenho muitos culpados em que não me revejo. Em 2015, não tive capacidade suficiente de definir as prioridades, por isso estou entre os piores. 

A Constituição define como base do desenvolvimento do meu país, a agricultura. Mas, eu não sou agricultor, portanto não me revejo nesta constituição pelo que, mais uma vez, a culpa é dos outros, os tais que deviam fazer tudo para dignificar a base do desenvolvimento. Eu e a minha actividade fomos excluídos e, por via disso, não posso ser culpabilizado porquanto a minha actividade era secundária. Mas no novo ano, quero ser diferente. Quero criar ou promover a criação de associações para acederem aos vários fundos que o Governo e Organizações diversas colocam ao dispor do povo comum, no lugar de culpar a pertença partidária como condição. No fundo, no fundo, o que quero é a legitimidade de reclamar.





[1] GUEST. Robert. África, Continente Acorrentado: O Passado, o Presente e o Futuro da África. Civilização Editora, Barcelona, 2005

sábado, 12 de dezembro de 2015

Que interesses defende a União Europeia em Moçambique?

Segundo a LUSA, «o chefe da delegação da União Europeia (UE) em Moçambique, Sven Burdsdorff, defendeu uma governação inclusiva no país». Sinceramente! Foi longe de mais e podemos apostar, aqui e agora, para que nos diga em que se baseia o seu conceito de «inclusão». Se a Renamo e o seu filho renegado, o MDM, desejam governar que trabalhem para que as regras democráticas os legitimem. Nesse momento, a Frelimo não irá reclamar a partilha do poder, tal como não reclama onde o MDM danosamente governa hoje. A campanha contra o Governo que está agora em curso não será a última. Outras virão tão suspeitas e parciais como esta. É preciso não as dar por inteiro ao desprezo. Como é que ele sabe que há, no país, o antónimo da inclusão? Temos a certeza de que viajantes pouco escrupulosos e apressados recolhendo fábulas do descontentamento popular, jornalistas das crises inventando notícias, analistas agitando o signo das guerras, democratas da fome e da podridão, à procura de antagonismos e contradições, continuarão a atirar às nuvens e a errar o alvo, a atacar uma mão suposta e fantasmagórica da exclusão em tudo o que é canto, com que pretendem vestir as realidades moçambicanas. O que se impugna, critica e rebate é precisamente o alvo movente do que não somos, do que não pensamos, nem fizemos ou representámos. Quantas vezes o PR se encontrou com diferentes seguimentos sociais na busca de caminhos para a inclusão? De que segmentos sociais se refere o Senhor Sven Burdsdorff?

A inclusão não pode nem deve confundir-se com coligações. Nós temos o nosso entendimento do que é inclusão. Por isso, temos empenho em ser visitados, analisados e estudados. Há quem não se sente feliz pelo facto de o povo estar insistentemente apostar na Frelimo. Por isso não faltam elementos de trabalho, de estatística e documentação – pelo contrário, os frelimistas, se queixam da grandeza dos elementos postos à sua disposição que não sobra o tempo para estudar melhor. Temos o direito a que nos apreciem em termos correctos, equilibrados e justos e que as campanhas intelectuais, difundidas com ajuda de uma certa imprensa, não sirvam para malsinar nossos propósitos, adulterar a verdade e contestar o nosso direito, à procura de uma porta especiosa ou falsa para entrar em nossa casa e nela ditar a lei dos grandes senhores – patrões estrangeiros – que brasonam de igualdade jurídica e política, mas à sua volta só semeiam ódios, procurando bater os ferros da mais negra servidão. Não obedecem a altos objectivos as mentiras que vem sendo forjadas com relação ao comportamento político da Frelimo: pelo contrário, há que tomá-las como verdadeiros crimes – e que crimes! -, porque ameaçam comprometer o futuro da pátria, visto que lhe apontam o caminho da perdição como se fora o da felicidade, o da salvação. As coligações não devem ser forçadas. Quem quer ser membro da Frelimo, que peça o cartão porque «na casa do Pai há muitas moradas». Bem sei que nem todas as verdades se dizem; mas, especialmente a homens públicos, há muitas que é criminoso calar. Chega de recados descabidos que podem dar a entender que estão para defender os interesses de uma parte dos moçambicanos quando é dever defender os interesses da UE.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A Renamo: entre a Luz e a Escuridão

O prodigioso ressurgimento da ala militar da Renamo mostra que os objectivos dela, desde o levantamento de 1976, nas matas de Manica, nunca viraram. Uma vez, Armando Guebuza disse: «A Renamo ainda não desistiu da sua intenção de chegar a uma solução por via militar, através da violência. A nossa experiência indica que a Renamo raramente cumpre os compromissos assumidos. Queremos garantias de que a Renamo vai respeitar um eventual acordo de paz. É do interesse de todas as formações políticas que a Renamo se transforme num partido político e cesse a violência no país. Notícias, 9 de Março de 1992. Estas palavras, ditas há mais de duas décadas, continuam actuais. A Renamo não cumpriu com os acordos de cessar as hostilidades, não entregou a lista dos seus homens para integração, não quer entregar, num espírito de boa fé as armas que detêm para se transformar em partido político e fazer política não a guerra. Uma escolha para a Renamo: ou faz a política ou faz a guerra porque um servo ao serviço de dois Senhores agradará a um em detrimento do outro. Com efeito, todos os homens que deram cara a este movimento, desde Orlando Cristina passando por Evo Fernandes e Raul Domingos até ao advento de Bissopo, se empenharam com tenacidade e o mesmo propósito, embora, através de processos diferentes, em anular a Frelimo, tendo como base a arma. Este facto não pode surpreender. Um oficial deste movimento disse-me que «o futuro da Renamo está nas armas». Já o próprio Dhlakama reagira a posição de Guebuza dizendo: «O meu movimento é contrário à discussão do cessar-fogo nesta altura, porque um acordo de cessação imediata da guerra iria levar o Governo a bloquear o processo das reformas políticas». Voz de América, 10 de Março de 1992. Segundo se veicula, recentemente, Dhlakama terá telefonado à um grupo restrito de deputados, para dar orientações do que deve ser defendido no Parlamento. Quer dizer, enquanto se discute no parlamento, os guerrilheiros vão fazendo pressão armada, amedrontando e ele, na tentativa de fugir da responsabilização, vai atiçando o fogo a partir da caverna do silêncio. 

O que, pelo contrário, não pode deixar de surpreender singularmente, é observar-se que o MDM tem sido, desde há algum tempo a esta parte, a grande propiciadora da cumplicidade. Voltemos à carga. De armas em punho, a Renamo, mais uma vez, está a destruir o país que, com muito sacrifício, se reergue dos escombros. Na sua propaganda, os dirigentes dessa organização apresentam-se como santos. Para eles, todos os males, incluindo as calamidades naturais, têm origem na Frelimo. Falam do povo desgraçando-o. Falam do povo emboscando-o. Falam do povo comendo-lhe o seu gado a preço simbólico de 100 Meticais, o que constitui roubo. Falam do povo sacrificando-o. O cumprimento da obrigação involuntariamente assumida, vence as razões que aconselham o silêncio e por isso é preciso falar, sem naturalmente esconder que o fazemos com a alma amargurada e revoltada pela agressão armada a que os nossos conterrâneos foram submetidos. Desculpai a referência neste momento e nestas circunstâncias a uma grata recordação que me assalta o espírito e que de algum modo me serve de credencial. Entre Junho e Agosto encontrava-me de férias em Tsangano com alguns amigos que se encontravam lá em defesa da pátria. O meu distrito estava sendo palco de confrontos armados. E recordo mais do que os meus sacrifícios, os sacrifícios e sofrimentos dos que por lá deixaram os ossos ou vieram morrer prematuramente na zona segura. Quando andei por essas terras a que criei eterno amor – talvez porque nasci lá o porque lá dei bastante sangue aos mosquitos - registei em cartas as observações que consolavam a minha curiosidade e, relendo essas observações, verifico que elas me fizeram conhecer praticamente a exactidão do pensamento do notável «visionário e filho mais querido»: «A Renamo ainda não desistiu da sua intenção de chegar a uma solução por via militar, através da violência». Lá, uma dezena de escolas foi fechada, afectando mais de 3 milhares de alunos e os hospitais funcionam a meio-gás; em Morrumbala, seis escolas foram fechadas, afectando quase duas milhares de alunos; e há outras tantas partes em que alunos estão fora das escolas e os professores continuam a auferir os seus salários sem trabalho, numa altura em que a produtividade se tornou imperativo nacional. 

Quando a Frelimo apela a Renamo para que entregue as armas, esta se recusa e acusa aquela de ser também um partido armado, numa clara demonstração de fuga para frente a fim de justificar a tragédia. O apelo da Frelimo deve ser tomado como um apelo ao repensar os caminhos que nos levem a viver na mais santa paz, respeitando-nos e estimando-nos. A Renamo agride o povo por causa das suas diferenças para com a Frelimo. Nós, o povo, pagamos preço alto às chantagens deste ainda partido político armado, tal qual o Hezbollah. Mas o Governo Libanês aceita o braço armado do Hezbollah por ser o único capaz de enfrentar Israel. E a Renamo, a quem quer enfrentar? Ao povo! É seguro dizer que fomos apenas vítimas e somos, portanto, acusadores e não réus. A Renamo quer dirigir, a todo o custo. Dirigir um país, como sabiamente foi sendo dirigido, não é tarefa para aventureiros, umbiguistas, intriguistas, divisionistas e, sobretudo, tribalistas. Recordemos que com a Frelimo, povoações que mal despontavam são agora grandes urbes. Estradas, aeroportos, caminhos-de-ferro, fábricas, centrais eléctricas, estabelecimentos comerciais, grandes fazendas agrícolas, universidades, escolas, hospitais, pontes, numa palavra, o progresso surge, irrompem por todos os lados e, apesar de tudo, cada vez com maior pujança. De resto, honestamente, não se percebe como, quando e por quem deve ser exercido o poder, senão a Frelimo. Na verdade, se é certo que a Renamo assentou no princípio de Autonomias Provinciais, doutrina que não nos trouxe qualquer novidade teórica ou prática, absteve-se de estabelecer uma definição prática sobre como ela própria a materializaria sem abolir os municípios. Trouxe um conceito fantasioso e nessa ordem de ideias faz de conceitos um programa político para dividir o povo. Aconselhada pelos seus patrões estrangeiros que vivem em estados federados, sugere uma mudança, dos nacionalistas aos tribalistas, portanto, inaplicável no nosso modelo de estado unitário, como tantas vezes tem sido dito e redito. Não foi o povo que disse à Renamo que quer autarquias provinciais, pelo contrário, foi a  Renamo quem disse ao povo, pelo que usar o povo para legitimar posições alheias a este é falta de escrúpulos. Mas admitindo por mera hipótese, que assim fosse, bastará uns tantos habitantes de determinado território segredarem na intimidade das suas casas ou mesmo na praça pública que desejam autarquias provinciais para se dever mudar?! 

Será razoável que missivas de uma ou de algumas dezenas de cidadãos dirigidas a uma praça, ou meia dúzia de tiros na Gorongosa, em Morrumbala, em Tsangano ou uma insurreição fabricada em Inhambane possam pesar de tal modo que ponham em jogo o destino da Unidade Nacional? Será correcto, será justo, será sequer admissível que em nome das mudanças assim concebidas se destrua a unicidade da nação por meio de autonomias locais? Vai para 20 anos que as populações do país realizam diariamente o mais autêntico, o mais eloquente e o mais exigente de quantos plebiscitos lhes poderiam ser pedidos para manifestação da sua vontade. Cada dia, o povo recorda com gratidão que foi a Frelimo quem libertou a terra e o homem. Podemos espreitar para os países vizinhos que tentaram provar o veneno da mudança. Se não recuaram, estão estagnados, se não venderam a soberania tiveram que recomeçar. Isso nos auxilia a interpretar o verdadeiro sentido e objectivos das supostas autonomias: substituição aparente do poder político e manutenção e extensão de zonas de influência sem responsabilidades da soberania, ou seja, um neocolonialismo de índole puramente materialista com recurso aos patrões estrangeiros. O progresso, como atrás me referi, processa-se a um ritmo verdadeiramente impressionante, na nossa terra. E porquê? Porque ao povo foi informado que a única forma de sair do retrocesso é pelo trabalho, pela auto-estima e pelo abandono da vida de mão estendida. Segundo narra o Génesis, Deus disse a Adão, depois do pecado original: “tirarás da terra o teu sustento com muitas fadigas todos os dias da tua vida. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que te tornes na terra de que foste tomado: porque tu és pó e em pó te hás-de tornar”. Movida pela escuridão, a Renamo é contra este preceito bíblico. Mesmo na luz, não quer ver o povo trabalhando a terra e quer desacreditar a Frelimo desgraçando o povo. Tal como um parasita que suga o hospedeiro até a morte conjunta, assim ela procede. Mas o homem expulso do paraíso, isto é, o homem entregue a si próprio, determinando-se por seu livre arbítrio, havia de edificar o mundo em que tinha de viver. Este penoso encargo constitui a história do nosso tempo. Paz e Trabalho! E são estes princípios, são estes os atalhos, são estes os valores supremos, as grandes armas de que nos temos servido em todas as épocas da nossa história recente e que ainda hoje empregamos com a mesma generosidade e a mesma fé nos duros combates em que estamos empenhados. Esperamos, sinceramente, que a Renamo faça escolha entre a luz e a escuridão antes que seja feito um pedido formal para a sua inclusão no grupo de organizações terroristas.  Disse!


Eusébio A. P. Gwembe

domingo, 1 de novembro de 2015

Na Contingência da Guerra e da Paz a liberdade vencerá

Na tradição Ngoni, quando somos testemunhas de uma agressão na rua, não podemos deixar impunemente o mais fraco sozinho face ao mais forte, virar costas e seguir o nosso caminho. Acreditamos que a não assistência aos indivíduos em perigo, embora não constitua um delito, é uma falha moral que já custou demasiadas mortes e demasiado sofrimento a demasiados indivíduos para que aceitemos cometê-la. No dia 10 de Julho, saindo de Tsangano em direcção a Mitengo-Mbalame, ao longo da picada um jovem aparentemente debilitado estava a ser espancado pelos populares que o acusavam de ter sido um dos autores dos incêndios às habitações de Monjo. Parei o carro e falei para o homem que aparentava ser chefe daquele espectáculo. Quando o homem se aproximou da porta do meu carro, mostrei-lhe uma nota de 500 Mts (Quinhentos Meticais). Se meter este jovem no carro dou-lhe essa nota. O homem não resistiu e carregou o jovem para lá atrás da viatura. A fúria popular era tal que não a consigo descrever. O jovem era membro das Forças Armadas de Defesa de Moçambique que tinha sido atingido por uma bala dos guerrilheiros da Renamo, no dia 7 daquele mês, tendo permanecido três dias no mato onde acabou sendo achado por aquele grupo de homens ávidos de vingança. Estava a ficar tarde. Antes de ir-me embora, o homem que me vendeu a liberdade do jovem fez-me uma advertência mais ou menos como se segue: tenha cuidado senhor, há muito fósforo por ai; ainda é possível andar mas... mas... mas... a guerra vai estalar dentro de breves meses ou até dentro de poucos dias. Limitei-me a sorrir, um gesto que ele correspondeu enquanto se dobrava em gestos de gratidão pelo dinheiro que acabava de conseguir. 

Hoje, três meses depois daquele encontro ocasional, é de cada vez mais difícil ter-se a convicção de que, mais hora menos hora, se não ouvirá a detonação apavorante da pólvora sobre que se anda a riscar fósforos. Se não for doutra maneira, pode acontecer até que as armas, a tanto tempo apertadas, desfechem por si mesmas, já enfadadas de esperar que as disparem. E, todavia, não deixamos de admitir, no momento em que escrevemos, que o género de paz em que se vive e que tanto amargura o país, não chegue a sofrer alteração para pior. Com o agravante de que as flutuações económicas o irão inflamar. Em suma, a despeito de tudo, ainda confiamos em que não haja guerra. Ninguém desconhece - até os que pensam em bater-se e preparam o esforço máximo para sustentar os combates mais temerosos - que a guerra seria para todos, vencedores e vencidos, a mesma catástrofe a prazo, a destruição apocalíptica do país e da obra reconstrutora que, através de duas décadas, nele ergueu o espírito de paz e de tolerância. E a aconselhar a prudência e o espírito de conciliação - não obstante os preparativos bélicos e as atitudes ameaçadoras - acresce também este factor psicológico, capaz de influir decisivamente no ânimo do povo como influi no dos indivíduos: o medo. Com efeito, o receio do que a guerra poderá ser para cada uma das partes em contenda é o que mais tem valido à manutenção da paz nestas horas incertas e sobremodo inquietantes. A forma como terminou o último conflito é força motriz para ainda pisar-se o travão da guerra pois a certeza numa vitória militar já teria feito desencadear o que nos parece um evitável conflito. 

Confiemos, pois, em que esse factor psicológico continue a exercer a sua acção pacificadora e salutar. Neste canto de África, os moçambicanos correm o perigo certo e iminente de os envolver a catástrofe, se a loucura se tornar mais forte do que o medo. Nada temos a ver com os antagonismos que dividem os políticos, nem com as reivindicações territoriais que põem agudamente o problema da paz ou guerra. Para o povo comum que somos não existem objectivos ocultos e perigosos, interesses políticos cuja preponderância exija imposição, e muito menos ódios que nos levem a admitir a necessidade duma guerra, quanto mais desejá-la. Em poucas palavras, quer isto dizer que, inalteravelmente fiéis aos interesses da nossa crença numa paz duradoura e justa, e nos termos em que ela significa para nós, não deixaremos de expressar o nosso repúdio às acções e discursos de propaganda da desordem. Não somos, por isso, dos povos que, tornado inevitável o pior e desencadeado, para mal de todos, o conflito, mais devam temer as suas consequências. Não somos de exigir reuniões sem resultado porque não temos mais razões para nos acautelarmos contra a paz, sobretudo se, para afastar o flagelo da guerra, os homens desavindos as convocarem. Um encontro convocado com fins de satisfazer e equilibrar as ambições e os interesses dos fortes, pode tornar-se mais traiçoeiro do que as contingências duma guerra. Moçambique tem razões de sobra para não esquecer o que representou para ele o vocábulo «guerra». A História diz-nos, através do que depois se soube, que as reuniões entre os grandes têm sido algumas vezes apenas a fachada jurídica de combinações inconfessáveis antes concertadas no segredo dos protagonistas. E as suas decisões apaziguadoras podem, afinal, mostrar-se ainda mais injustas do que a voz dos canhões. 

A entrega daquele jovem por aquele grupo de furiosos fez-me ter a certeza de que no lugar de acções que nos aniquilem, deveríamos conferir glória e esperança à liberdade conquistada. Da nossa experiência de um extraordinário e inexplicável desastre humano que durou tempo demais, deveria nascer uma sociedade da qual todos os moçambicanos se orgulhariam. Deveríamos compreender que cada um de nós está tão intimamente enraizado no solo deste país e que ninguém é mais moçambicano do que os demais. A sensação estranha que partilhamos explica a dor que trazíamos no coração quando víamos o nosso país a despedaçar-se num terrível conflito. Esperamos pelo dia em que estenderemos saudação fraterna: Aos humilhados das áreas em conflito, aos refugiados ao Malawi, aos exilados na própria terra, que querem viver e viver livres. Àqueles e àquelas que são amordaçados, perseguidos ou torturados por simples suspeita de pertencerem a este ou aquele grupo, que querem viver e viver livres. Aos sequestrados das cidades, aos desaparecidos do meio rural  e aos assassinados, que queriam viver e viver livres. Aos pastores/sacerdotes brutalizados, aos jornalistas silenciados, às viúvas e às órfãs que vendem o seu corpo para sobreviverem, aos trabalhadores sem direitos de irem trabalhar, aos camponeses sem terra, aos resistentes sem armas, que querem viver e viver livres. Esperamos ardentemente por esse dia. Enquanto esperamos dizemos a todos eles: coragem, a liberdade vencerá.


Eusébio A. P. Gwembe, Izmir, Turquia

sábado, 17 de outubro de 2015

A Renamo: No combate em que morreu André Matsangaissa

Hoje é um dia grande para a Renamo. Morre em combate, há 36 anos, o seu primeiro comandante, André Mathadi Matsangaíssa Djuwayo. Seus seguidores armados ficarão conhecidos pelo seu nome, tal como ficaram os seguidores de Cristo: os cristãos. Os matsanga são os seguidores de André Matsangaissa, bandido para uns, herói nacional para outros! São 10 dias do mês de Outubro de 1979. O local chama-se Gorongosa, para onde as forças governamentais se dirigem para partir «a espinha dorsal do inimigo». É noite e sete homens armados chegam a uma aldeia comunal situada a alguns quilómetros da Vila. A sua missão não é clara mas a sua presença aterroriza e intimida os camponeses ali residentes. Uns começam a abandonar a aldeia o que chama atenção às Forças Populares de Libertação de Moçambique. Parece-me que estes homens aperceberam-se da grande operação arquitectada contra eles e vieram a este local apenas para certificar a suspeita antes de bater em retirada, abandonando no terreno material militar. Um Jornal dirá 30 dias depois que «…, antes de partirem, queimaram dezenas de habitações, saquearam uma Loja do Povo e, num acto de selvajaria característica, cortaram ambas as orelhas a dois camponeses, um deles uma mulher». Tempo, nº 474 – 11.11.79, pág. 13

O poderio militar da força inimiga vai obrigar as FPLM ao prolongamento das operações que levarão uns 15 dias porque o objectivo é neutralizar uma suposta «importante força inimiga, infiltrada na área da Gorongosa». O efectivo que acompanha o líder do até aqui denominado MNR (Mozambique National Resistence) é estimado em cerca de 350 homens, e integra oficiais rodesianos e moçambicanos que penetraram em Moçambique com o objectivo de estabelecer um acampamento militar no interior, a partir do qual poderão lançar acções de sabotagem contra alvos económicos e sociais. Outros grupos pouco importantes estão dispersos em Mucuti, Mabate, Chidoco, Sitatonga, Chinete, Muxungue. Os sete homens vistos são rebenta-minas e servem de isca para convidar o adversário ao terreno lamacento. Refugiam-se num pequeno planalto no alto da serra da Gorongosa, a mais de 1800 metros de altitude. A sua posição é praticamente inexpugnável contra ataques por terra e por dia, facilmente, é abastecida em armas, munições e mantimentos pelos aviões e helicópteros rodesianose pelas populações cúmplices. 

Para proteger o acesso ao acampamento principal, foi estabelecido um posto avançado em Morombodze, uma estação pecuária que antigamente pertencia a um inglês, guarnecendo-o com um efectivo calculado em cerca de 100 homens. Esta área tem a importância estratégica para a defesa das posições principais do grupo. É aqui que termina a picada quase intransitável que vai da Vila, a única via de acesso para viaturas a partir da pequena plataforma ali existente. No comunicado do Estado-Maior General de 2 de Novembro reconhece-se que «as condições de acesso terrestre a este local são de tal modo difíceis que, para se percorrer a pé os poucos quilómetros que o separam de Morombodze, são necessários cerca de três dias». No dia 11, as FPLM lançam uma ofensiva. Os combates são aqui particularmente violentos, com o efectivo inimigo cercado, encontrando-se instalado nas próprias instalações da estação pecuária. Os 100 homens resistem ao poder de fogo das forças atacantes, e lançam uma contra-ofensiva a partir das cinco horas da manhã do dia 12. 

O tiroteio, quase à queima-roupa, prolonga-se até às 11:00 horas, quando as FPLM reagrupam as suas forças para novos desenvolvimentos. A resistência sugere haver pessoas importantes no local. Aproveitando-se do reagrupamento das FPLM, o grupo dispersa-se pela mata adentro o que permite que no dia seguinte, 13, o posto seja ocupado, com resistência esporádica e localizada. Ocupada a posição estratégica de Morombodze, as FPLM preparam-se para a ofensiva final contra o acampamento inimigo na Serra. No dia seguinte, 14, os rebeldes desencadeiam uma série de acções, numa tentativa de fazer dispersar as forças agora ocupantes. A floresta nas cercanias de Gorongosa está em ebulição e o turbilhão de tudo isso é um grupo de 350 homens armados com armas ligeiras contra um exército armado até aos dentes. Nos dias 14, 15 e 16 os combates estão circunscritos nas cercanias do posto avançado ora ocupado. Para lá são mobilizados materiais de guerra e homens na tentativa de romper o cerco. A resistência tenaz dos rebeldes volta a sugerir haver entre eles os principais comandantes, mas ainda ninguém tem certeza. 

Pela manhã do dia 17, ataques coordenados saem de diferentes posições contra Morombodze o que força as FPLM a dividirem-se em pequenos grupos e a penetrar para o interior em perseguição aos adversários. Há muitas baixas do lado das FPLM, o Hospital da Vila já não é capaz de atender quantos feridos para lá chegam. Também há muitas mortes do lado dos rebeldes e só mais tarde saber-se-á que entre eles estava o próprio comandante, o André. No dia 17, entre os que combatem notam a ausência do comandante, pois estão divididos em pequenos grupos. A ira e a necessidade de certeza força-os a ter que aumentar a intensidade dos ataques. No dia seguinte, 18, aproxima-se da Vila, fustigando-a com um poder de fogo. Neste dia, 20 homens já tombaram e os 80 sobreviventes dividem-se em três grupos conforme fora traçado no dia anterior: o primeiro ataca directamente o quartel das FPLM, criando um pânico entre os habitantes da vila; o segundo ataca uma área residencial, criando uma debandada geral e o terceiro ataca a zona do hospital, deixando doentes desprotegidos. As FPLM estão sob fogo intenso em todas as frentes. Pela mata ainda há resistência, mas não tanta. Há que redobrar esforços para proteger a vila. Os combates iniciam-se cerca de dez horas da manhã, e prosseguem até às cinco da tarde. Por um pouco a vila não cai. Os rebeldes querem ver se no Hospital haverá alguns elementos feridos entre eles o seu comandante. 

A percepção de um dos comandantes das FPLM é de que «o grupo inimigo julgou provavelmente que, como um importante efectivo moçambicano se encontrava na serra a proceder a operação de «limpeza», a vila estaria pelo menos parcialmente desguarnecida. Por outro lado, tentou aproveitar-se ao máximo das características da vila, particularmente da grande dispersão das casas e instalações ali existentes». Tempo, idem. Ao fim do dia os dois primeiros grupos são rechaçados com numerosas baixas, deixando feridos que são capturados pelas FPLM, e o terceiro consegue atingir as paredes do hospital com balas, e um roquete destrói por completo a casa mortuária, situada a cerca de 20 metros do hospital. A vila está momentaneamente dividida com os rebeldes a controlar uma parte nos dias 19, 20 e 21. Apesar de todas as tentativas de romper o cerco, e dos reforços importantes recebidos as FPLM instalam a artilharia na plataforma de Morobodze. No dia 22, procedem ao bombardeamento sistemático do campo no topo da montanha, que será completamente arrasado. 

No dia 23, as forças de infantaria iniciam a escalada da montanha, cujo cimo atingem a 26, limpando completamente a encosta. Os sobreviventes dispersam-se em pequenos grupos, fugindo em direcção à fronteira ou, abandonando armas e uniformes, fazendo-se passar por elementos da população. Na montanha numerosas ligaduras cheias de sangue são ali encontradas. Cadáveres também são encontrados mais tarde em áreas vizinhas, nomeadamente num rio que corre nas proximidades. O saldo global da operação é de mais de 100 baixas do lado dos rebeldes, um número elevado de feridos e 22 prisioneiros, sendo ainda abatido um helicóptero quando tenta evacuar oficiais rodesianos, na zona de Manica. Do lado das FPLM o número de baixas é estimado em cerca de 136 mortes, 45 feridos e, 37 desaparecidos em combate, entre mortos, capturados e desertores. A tentativa de estabelecer um campo militar no interior de Gorongosa, para servir de base para o desencadeamento de acções de terrorismo e sabotagem, fracassou mas abriu espaço para que Maringue, já sob liderança de Afonso Dhlakama, emergisse como símbolo de resistência da Renamo até ao Acordo Geral de Paz, de 1992.


Nota: Na foto, André Matsangaissa e Pedro Marangoni, Arquivo de  Pedro Marangoni
Eusébio A. P. Gwembe, Historiador

terça-feira, 16 de junho de 2015

A Renamo e sua nova ameaça à Paz

Nestes dias de intensa luta contra os inimigos da paz que há duas décadas tentam escravizar as nossas populações para permanecerem na insegurança no  próprio solo, aprouve a Deus nosso Senhor enviar à Moatize uma nova e difícil atribulação. O pérfido ataque militar ao exército, no passado domingo se confirma. A Renamo continua a avançar com a ideia de criar um  exército próprio, lançando novas forças ao ataque. Os distúrbios provocados na região ameaçam ter um efeito  desastroso sobre a situação futura deste persistente braço de ferro, se o exército responder. O destino de Moatize e de Tsangano, o bem estar do povo e todo o futuro da nossa querida província de Tete exigem que o sossego seja reestabelecido. Mas o sossego só pode aparecer se as armas à solta forem recolhidas e extirpado o fantasma do reinício de uma nova e, talvez, prolongada guerra. Ninguém duvida que a Renamo, não hesita em recorrer a ela e a qualquer provocação, tal como nos demonstram os seus actos, na realidade uma passagem para o lado da negação ao povo do direito à paz, no momento em que o recurso à violência para se chegar ao poder está em colapso por todo o mundo que se preze civilizado. Esta situação pode ser atraente para certos espíritos que acalentam a esperança de vingar as suas mágoas e o seu ódio à Frelimo, através de uma nova catástrofe. Nunca, como nesta hora histórica, revelou o governo moçambicano tanta força de carácter -  e é este governo ao qual todos devemos nossa maior conquista, que a Renamo se atreve a ameaçar com ataques.

A Renamo sempre chamou de democracia  à liberdade dos seus homens armados continuarem pobres e de morrerem à fome no mato, enquanto os chefes levam uma vida boa nas cidade, quando podiam enquadrar-se na vida civil com todos os seus benefícios. São anos perdidos! Os seus defensores oficiais e oficiosos enganam o povo com frases agradáveis, sonantes e bonitas mas totalmente falsas, tentando dissuadir as massas da tarefa histórica concreta da  Renamo para libertar o povo da má governação imaginária. Os progressos da última década mostram que, apesar dos esforços desestabilizadores da Renamo contra a governação da Frelimo, a roda do destino e o impulso da calma e determinação do povo avançam em direcção a um objectivo: desenvolvimento. Nestes últimos meses, o ritmo aumentou e já nada a pode parar. Há muitos anos o exército e o governo têm sido pacientes com a Renamo, mas esta, em vez de reconhecer os direitos das forças armadas circularem em todo o território nacional, atreve-se a falar de «nossas bases» e lança-se ao ataque, num acto de provocado suicídio. Até provas em contrário, recuso-me a acreditar que os verdadeiros democratas vivam com exércitos paralelos em seus países. Mais de um milhão de mortos em 16 anos cujo erro foi terem nascido e vivido no nosso solo pátrio; dariam voltas nas suas sepulturas. E até provas em contrário, recuso-me a acreditar que a Renamo defende a paz destruindo-a.

Um povo digno do seu passado e do seu nome entre as nações civilizadas não pode viver perpétuamente o fantasma do retorno da guerra. Quando a Renamo recebe apoio expresso vindo de certos segmentos, não é voto de confiança garantido. Pode estar para ser usada por  verdadeiros anarquistas e ela pagará a factura mais pesada da História: o desaparecimento. Estes segmentos são mais movidos pelo ódio contra a harmonia do que o amor à Renamo. Deixai-me repetir categoricamente que apesar das provocações da renamo, o juramento sagrado do nosso Presidente que fez perante todos nós é que fará tudo o que estiver ao seu alcance para impedir que moçambicanos matem outros moçambicanos. Entregou-se à tarefa com entusiasmo e esperança porque tem um coração de paz. Assim seja!