sábado, 30 de janeiro de 2016

Primeiro Grupo da Frelimo que recebeu Treino Militar na Argélia (Janeiro - Julho de 1963)

Por 
Eusébio A. P. Gwembe

O regime colonial tinha identificado alguns homens tidos como «entusiastas da guerra»: Uria T. Simango, Marcelino dos Santos, Leo Milas e Filipe Magaia. Foram estes que se esforçaram a incutir nos restantes nacionalistas a ideia de uma luta armada. Há informações de que antes da primeira leva, pequenos grupos iam para diversos países onde faziam treinos militares, sem causar alarme para o regime colonial, embora soubesse destas movimentações. «Todavia, quando a seguir a partida para o Cairo de um dos últimos pequenos grupos (Dezembro de 1962), se anunciou a futura ida de contingentes em massa, convenceram-se muitos de que afinal se não tratava já de brincadeiras, para alimentar o fogo sagrado da propaganda e da política, mas sim de coisa a sério». A Constituição do Primeiro Grupo da Frelimo que recebeu Treino Militar na Argélia (Janeiro - Julho de 1963) era composta por 50 indivíduos dos quais 37 (74%) instruendos de Cabo Delgado; 7 (14%) de Gaza, 3 (6%) de Sofala e igual número de Maputo. Entre eles estavam agentes que serviam de «olho do Governo do Tanganhica» que, por sua vez e de forma indirecta, «era olho da PIDE». A prova, é a lista em anexo cujo remetente afirmou que «Depois de regressar continuei a receber o que estava a ser pago pelo Governo do Tanganyika, antes da minha ida a Argélia. Aqueles que, como eu, tinham família, o pagamento nunca foi suspenso durante a ausência para treinos».
O grupo para treino militar foi preparado por João Munguambe, ajudado por Leo Millas, Lourenço Mutaca, Filipe Samuel Magaia e Silvério Nungu. Para o efeito, João Munguambe chamava cada um ou em grupo dos que tinham sido previamente seleccionados para comunicá-los. Os que não concordaram, debandaram para casa de familiares ou de amigos; outros regressaram à terra. O primeiro grupo saiu de Dar-es-Salaam no dia 13 de Janeiro com destino a Nairobi, via terrestre, com paragens em Morogoro e Moshi para refeições. Em Nairobi foram conduzidos ao aeroporto e num jacto da United Arab Airlines seguiram para Argel com escala em Cairo e Tripoli. Chegaram no dia 16 a Argel. Leo Millas e Filipe Magaia que auxiliará na instrução do grupo de que era chefe os acompanhavam.  Foram alojados em duas camaratas num quartel e receberam sapatilhas, camisolas, um par de cuecas, um par de meias, dois fardamentos e uma camisa. De autocarro seguiram para o quartel da cidade de Oran onde receberam dois sabonetes, cobertores, cinturão, cinto, cartucheiras, mochila, cesto, pano de tenda individual. Depois, seguiram para o Quartel de Mornia, na fronteira com Marrocos. O treino foi intensivo, com exercícios práticos e aulas teóricas, técnicas e de aprendizagem de Francês. Na primeira semana praticaram os exercícios físicos; judo, corrida, saltos, transposição de barreiras e obstáculos, football que prosseguiram a intervalos durante toda a formação. A segunda semana incluiu exercícios de natação para todos; nomenclatura, mecânica e manejo de espingardas; para a terceira semana entraram com os exercícios de tiro, a alvos distanciados de 50 a 300 metros, em progressão de 50 em 50 metros, e prostrados na linha de tiro, em grupos de seis atiradores ao mesmo tempo. E foram sendo introduzidas novas aprendizagens, acompanhadas de revisões. Havia uma grande variedade de engenhos e armas, ligeiras e pesadas, não automáticas, automáticas e semi-automáticas. O programa do treino era de dois períodos diários; das 8 às 12 e das 14 às 17, excepto aos domingos que era dia livre. 
Na preparação para a sabotagem era recomendada a poupança, sempre que possível, das infra-estruturas, porque se tratava de bens materiais necessários na paz, quando ganha a guerra e obtida a independência. Por isso, o objectivo primeiro era a caça ao homem, a destruição sistemática dos seus veículos de transporte. Os conhecimentos dos instruendos em francês não estavam a altura do treino. Era Filipe Magaia que traduzia em Português aos chefes de grupos; estes transmitiam-na, de seguida, em Português aos chefes de peça e de equipa que, por sua vez, ou em Português ou em língua nativa (suahili ou maconde), a transmitiam aos instruendos. Foram seis meses de treino sob orientação de capitão, sargento  e ajudantes argelinos. Dos  50 instruendos, foi retido um grupo dos primeiros quinze da lista abaixo, a fim de se especializar em transmissões e muito especialmente em rádio-comunicações. Numa entrevista conduzida por OLÍVIA MASSANGOFeliciano Gundana, o 4º na lista, explicou outras razões nestes termos: Eu havia estado na Argélia, nos treinos militares, fui no primeiro grupo. Os treinos começaram em Janeiro e terminaram em Maio. Eu acabei por ficar lá, com o camarada Milagre Mabote, para recebermos os outros grupos. Ficámos lá mais um ano e só regressámos em 1964. fiquei na Argélia e participei no treinamento dos outros dois grupos que estiveram lá, como um dos intérpretes de francês para português, porque o treino era dado em francês. Eu viajei com Filipe Samuel Magaia da Beira até Dar-es-salaam. Estive com ele na Argélia, era o chefe do primeiro grupo, e, mais tarde, quando voltei a Dar-es-salaam, trabalhei com ele no Departamento da Segurança e Defesa» Jornal O País, 24 ABRIL 2012.
Os 35 seguiram para o aeroporto, aonde tomaram o avião «Comet» da East African Airways, fretado pela Frelimo e que fez percurso Argel-Nairobi na noite de 14 para 15 de Julho de 1963. Este mesmo avião no percurso de regresso conduziu o segundo grupo da Frelimo que foi treinar na Argélia, composto de 70 indivíduos (na realidade 68) que não teve contacto com os do primeiro grupo.
Eis a lista completa do grupo:

Constituição do Primeiro Grupo da Frelimo que recebeu Treino na Argélia (Janeiro - Julho de 1963)
Nome
Proveniência
1
Albino Estevão Anapyaila
Cabo Delgado
2
Albino Tomas Macavaca
Cabo Delgado
3
Bartolomeu Carlos Mbalica
Cabo Delgado
4
Feliciano Gundana
Sofala
5
Jacinto Sithole
Sofala
6
Jonas Rodrigues Chale
Gaza
7
João Eugênio Mchocho Ncuemba
Cabo Delgado
8
Ludovico Gaspar Tukawula
Cabo Delgado
9
Luis Anastácio Nobre Chilambo
Cabo Delgado
10
Lourenço Matola
Maputo
11
Mário Fernando Navilani
Cabo Delgado
12
Miguel Niquenti Sakoma
Cabo Delgado
13
Milagre Mabote
Gaza
14
Pedro Joaquim Sibindi
Sofala
15
Rafael José Pedro Mwakala
Cabo Delgado
16
Ali Juma
Cabo Delgado
17
Andre Mputa Walikalala Kulomba
Cabo Delgado
18
Antonio Chalalangasi Chapasa
Cabo Delgado
19
Baculu Simoni
Cabo Delgado
20
Bombarda Tembe
Maputo
21
Cartase Caetano Cumaco
Cabo Delgado
22
Cassiano Alato Nchawya
Cabo Delgado
23
Cristiano Pavão Damião Kunanengo
Cabo Delgado
24
Cristovão Tiago Mula
Cabo Delgado
25
Fernando Vasconcelos Mucavele
Gaza
26
Francisco Ludovico
Cabo Delgado
27
Frederico Antonio Almeida
Cabo Delgado
28
Gabriel Simeão Zandamela
Gaza
29
Hamisi Mohamed Ali
Cabo Delgado
30
Henrique Mandlati
Gaza
31
Hilario Candido Nekamwene Kwalembo
Cabo Delgado
32
Ibrahimi Abdullah
Maputo
33
Ibrahim Bakali
Cabo Delgado
34
Jameson Said
Cabo Delgado
35
João Alexandre Madunga
Cabo Delgado
36
José Covane
Gaza
37
José Frenando Napulula
Cabo Delgado
38
Jose Kaindi Jacob
Cabo Delgado
39
Lucas Elias Tiago
Cabo Delgado
40
Luis Assiam Cassiano
Cabo Delgado
41
Manuel Nagogo
Cabo Delgado
42
Mateus Chipanda Mtabuliwa
Cabo Delgado
43
Mulia Cristovão
Cabo Delgado
44
Omari Sultan Maulana
Cabo Delgado
45
Oreste Basilio Kalulu
Cabo Delgado
46
Oreste Juliao Nandanga Changala
Cabo Delgado
47
Tadeo Pascoal Muidumbe
Cabo Delgado
48
Valentino Mtumwa Sakusasa
Cabo Delgado
49
Vasco Musketo Matabele
Gaza
50
Zacarias Halawe Twalibu
Cabo Delgado

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Guebuza, um grande estadista que colocou a Renamo no seu lugar

Por vezes a História faz o homem, em vez de o homem fazer a História.  Quando os meus netos me perguntarem quem foi Guebuza terei muitas coisas para dizer. Para começar, todos os videntes da época falharam perscrutar os seus planos. Numa dessas vezes, tinham dito que ele não havia de deixar a presidência. Outras vezes diziam que ele queria acabar com os partidos da oposição, e até de dividir o próprio partido, enfim, muito sonambulismo.

Guebuza foi o eminente e humanitário homem de Estado, que consagrara toda a sua vida e toda a sua alma à causa da emancipação dos moçambicanos para confiarem nas próprias forças. Foi o terceiro presidente deste belo país. Vi-o inúmeras vezes e diferentes locais, mas o momento marcante foi aquele em que ele dava por terminada tão formosa como altruísta missão de dirigir os destinos deste país quando observou que "não é a alternância em si que dá vitalidade à democracia, é, isso sim, a sua possibilidade" reconhecendo que adversários da Frelimo "batalham, dia e noite para que o seu sonho seja materializado", mas que os membros da Frelimo deviam trabalhar "sempre unidos, coesos e firmes, para que esse seu sonho se transforme em pesadelo". Fazia inaugurações e despedia-se do povo que governara por uma década. A abolição da política de mão estendida em que foi mais uma vez o primeiro percursor, representou sem dúvida para nós o cumprimento dum dever de humanidade e a consequência lógica da política guebuziana e de que nos orgulhamos e voz orgulhareis por longos anos como dum brasão de família. Foi Guebuza que transformou milhões de homens moçambicanos em milhões de cidadãos moçambicanos. Alguns dos pais dos vossos amigos abriram olhos de criticar o Governo nessa época, coisa que era impensável, 23 anos antes.


E fi-lo sem hesitação, decidido a levar essa obra até às suas últimas consequências, a completá-la definitivamente, atraindo os seus críticos a uma civilização mais adiantada, aproximando-se deles com solicitude , respondendo-lhes as provocações e ferindo-lhes a imaginação e os sentidos com os exemplos mais impressionantes do que o homem pode conseguir com o seu trabalho e energia, ensinando-lhes, como se ensina a uma criança, o uso que devia fazer das forças e faculdades de que dispõem para sair da pobreza. De tempos a tempos alertava aos seus críticos, mas estes nem sempre se davam conta. Usava linguagem poética para criticar os seus críticos que muitas vezes não suportavam o peso dos adjectivos. Ah, netinhos, como é bom recordar os murmúrios dos apóstolos da desgraça daquele tempo; os tagarelas; os saudosistas; os intriguistas. Os tínhamos aos montes; uma espécie de homens, hoje da minha idade, que viam tudo o que provinha do Governo como errado.


Guebuza, cuja obra se impõe como um exemplo e merece ser devidamente estudada e apreciada, dera provas admiráveis do vigor do seu cérebro e da rara elevação da sua inteligência. Ele honrou brilhantemente o posto que lhe fora confiado, empenhou-se, sem cansaço, em divulgar a instrução aos moçambicanos por meio de escolas desde as de primeiras letras até universidades. Em apenas 10 anos aumentou o número de Universidades de 16 para 46, de meros 20 mil estudantes universitários para 120 mil, promoveu os estudos indispensáveis para a perfuração do solo, para a abertura das estradas, para a reconstrução dos caminhos-de-ferro, para a realização de todos os capítulos enfim duma grande obra de fomento e de progresso, em organizar e pôr em marcha, com esse destino, missões dos mais ilustres técnicos então no vigor da vida – como eu –, levados simultaneamente pelo amor à ciência e pelo espírito de aventura e sacrifício, em animar e tornar realizáveis os sonhos de muitos moçambicanos, em montar os pólos de desenvolvimento, para deixarmos de vez de nos concentrar exclusivamente nas cidades e irmos para os planaltos e planícies espalhar os benefícios do desenvolvimento, em proteger eficazmente a acção dos nossos beneméritos filhos e vocês netinhos. Entre as mais elevadas realizações, posso mencionar a reversão da Hidroeléctrica de Cahora Bassa de Portugal para o nosso país, depois de 30 anos independentes; a construção da ponte que leva o seu nome e outra, a da Unidade…, aeroporto de Nacala, etc. Ele esteve no Governo desde a independência nacional – vocês já sabem do ano, não é? E a História já vos ensinou que houve guerra dos três nomes: de desestabilização, dos 16 anos ou civil. Foi Guebuza quem negociou, em dois anos, os termos da paz, representando o Governo, como chefe da delegação.


· Avó, fale-nos qual foi o envolvimento dele na segunda guerra da Renamo?


Ah… os perigos vinham de todos os lados. Os disparos de metralhadoras haviam voltado pela mesma mão de há duas décadas. Já fluíam as conversações tendentes a minimizar o clima de tensões. E todo o diálogo obedecia ao objectivo de apressar a obra de progresso, que tínhamos a nosso cargo, e de melhorar, sucessivamente, as condições dos moçambicanos, na paz. Por toda a parte se desenvolvera então a ambição dos inimigos da Frelimo. A Renamo resolvera apossar-se do poder, embora para o conseguir tivesse de afrontar os princípios de justiça e de esquecer os deveres duma aliança de décadas, à sombra da qual obtivera sempre assinaladas vantagens. Apresentou o princípio de Paridade para equilibrar as coisas na Comissão Nacional de Eleições, nas Forças Armadas e mesmo na Segurança. Um articulista da CIP escrevia que «a intolerância política, a exclusão, o aumento da pobreza e das desigualdades foram amplamente apontados como sendo parte das possíveis causas do conflito».


Os que cobiçavam a felicidade dos frelimistas adquiriram deste modo uma arma poderosíssima para combaterem ali a sua influência e poderem guiar os moçambicanos ao sabor dos seus interesses. Souberam aproveita-la, sem sombra de escrúpulos. Por todo o sertão de Gorongosa, e principalmente em Moxungue, instalaram-se alguns lunáticos, possuidores de largos recursos materiais, contra os quais as reduzidas forças ali estacionadas em constantes movimentos mal podiam lutar. Dos órgãos de comunicação social surgiram homens empenhados quase exclusivamente em desenraizar do coração dos moçambicanos o amor a Pátria e em os levantar, em som de guerra, contra o seu próprio Governo. Um ano antes, penso, Guebuza, compreendendo a ociosidade que movia o espírito de muitos deles apelara que não usassem mal o instrumento de que se serviam para ridicularizar o Governo: o Facebook, para que não se tornasse em «fábrica de sonhos irrealizáveis». O espírito de rebelião lavrou intensamente, como uma queimada que se propaga através dos campos duma floresta virgem, em grande parte, do nosso país. Mas mais uma vez, Guebuza provou que era dos que acobardam facilmente e soube, em todas as conjunturas, arcar com as suas responsabilidades. Foi um ciclo heróico, em que o homem de que desejais conhecer, auxiliado eficazmente pelos homens de sua confiança, escreveu de novo, com o seu suor e o seu labor, páginas das mais belas de coragem e de patriotismo.


- O avó foi para a zona de conflito! O que ia lá fazer e o que viu?


Naqueles dias os renamistas continuavam a emboscar as viaturas como se fossem animais incapazes de regular as suas acções e destituídos da razão e campeavam desassombradamente nas florestas, matando homens e mulheres, crianças e velhos suspeitos de apoiarem o regime, sem leis que lhes impedissem as infames práticas, e considerando-se até como beneméritos, vangloriando-se da benéfica influência que diziam exercer na Grande Gorongosa. Até 11 de Abril de 2013 – eu encontrava-me na Europa – haviam morrido oito pessoas. O seu chefe, continuava ali, num local chamado Sadjunjira, a dar conferências de dia e a armar ciladas de tomada do poder pela força nas noites. Em 3 de Abril de 2013, em Moxungue, seis polícias revestidos da autoridade moral para proteger a área haviam sido mortos, a mando do chefe que nas próprias palavras «para salvaguardar a sua vida, a única solução que teve foi de dar ordens aos seus homens para responderem pela mesma medida, atacando o posto policial», tendo considerado os ataques a viaturas, assassinatos de civis e saque de bens de viajantes registados na EN-1, de «acidentes de percurso». Havia informações muito confusas sobre o curso dos acontecimentos e eu, como um Tucídides testemunhando uma guerra grega, lancei-me na aventura. No futuro irei contar-vos. Pouco tempo depois, em 17 de Junho daquele ano eram invadidos um Paiol das FADM na estrada de Inhaminga, e outro Paiol, entre Derunde e Muanza. O saldo de mortos nos dois incidentes às mãos da Renamo era de 13 militares. Desloquei-me a Savane onde colhi depoimentos dos que sobreviveram o terror daquele dia. Num deles conta-se que:


«É possível que os que vinham fazer obras de reabilitação do Paiol tenham sido quem deu detalhes da nossa segurança aos atacantes. Não compreendíamos como era possível entregar aos civis uma reabilitação de um centro encontrado numa zona tida como hostil. Mas também podem ter sido os desertores ou ainda aqueles reformados compulsivos, ainda descontentes. O que nos prejudicou foi que as nossas armas não disparavam por falta de manutenção, além de que nós apenas tínhamos treino com objecto fixo. Agora, as coisas mudaram. No dia do assalto dois colegas haviam ido a estrada – Dondo - onde notaram um movimento estranho. Quando voltaram ao Paiol reportaram o que haviam visto e como resposta, foram metidos na cela pois haviam chegado tarde e o que tinham reportado parecia, aos olhos da hierarquia, uma forma de justificarem a ausência injustificada. Eles só foram libertos durante o ataque quando mais de 100 homens invadiram o paiol, usando alicates para cortar o arame farpado. Mas não roubaram muito material bélico, salvo as armas e as fardas das vítimas e algumas munições. Todas as vítimas mortas eram despidas do seu fardamento. Mataram sete colegas a facada. Um era oficial-dia que veio em socorro, foi ferido e escondeu-se numa mata onde perdeu muito sangue. Foi descoberto no dia seguinte, levado ao Hospital Central da Beira onde veio a falecer duas semanas depois. Após aquilo recebemos o reforço de Maputo de todos os comandos, de todas as especialidades. Seguimos os passos dos atacantes mas não encontramos ninguém. Depois, houve ordem para queimar a mata. Num muchém encontramos um corpo de algum velho que fora atingido pelos nossos disparos, enrolado num dos nossos cobertores e numa capa de chuva. Era mesmo velho! O corpo já estava em estado de decomposição. Quando foram disparadas algumas armas pesadas foram obrigados a abandonar grandes quantidades de munições. Quanto aos nossos que atacaram as viaturas fingindo-se de agentes da Renamo é importante dizer que não foram os nossos colegas. Uma coisa importante a reter é que há muitas deserções dentro das FADM. Dos 83 que fomos no começo do ano, após os acontecimentos de Muxungue e de Savane ficamos vinte e pouco. Dizem-nos que foram transferidos para outras unidades, mas temos a certeza de que trataram-se de deserções, pois já recebemos cartas de familiares, namoradas, amigos e deles próprios (dos colegas de farda). O medo de morrer é maior que o gosto para servir a pátria. Não entendemos, não compreendemos, não queremos guerra. Por vezes esse desejo de deserção aparece por influência vinda de fora. O nosso salário de cerca de 2400 meticais é suficiente, uma vez que temos todo o necessário para viver em termos de alimentação e de roupa/higiene. Não é verdade que estejamos a ambicionar o salário dos homens da Força de Intervenção Rápida. Aliás, é preciso saber que a FIR não está autorizada a entrar para alguns terrenos. Por isso a nossa presença lado a lado com ela tornou-se essencial num assunto aparentemente policial. O ambiente é tenso, já não dormimos tranquilos. Um dos meus colegas morreu muito mal, com a facada na boca, golpes no corpo, etc. Os atacantes só usavam arma para quem tentasse resistir mas a facada era o seu modus operandi. Eles gritavam «ndamuona-ndamuona, phata na manja» que quer dizer, «já o vi, apanhe-o pelo braço» o que nos deixou apavorados».

Era preciso dar-lhes batalha formal, fossem quais fossem os inconvenientes políticos que resultassem da extinção dessa iniquidade, afrontosa para todos os princípios democráticos. A essa missão, tão digna das almas bem formadas, dedicou-se o espírito cavalheiresco de Guebuza, homem intemerato da causa liberal, lutador insigne, de tanta coragem e heroicidade, de crenças muito sólidas e uma tenacidade de aço. Nenhuma dificuldade conseguia amedrontar-lhe o ânimo, nenhum perigo era capaz de o fazer vacilar, não obstante ser diabolizado pelos Jornais da Direita. Nada, porém, conseguia quebrantar a tenacidade do apóstolo, entre nós, da libertação. Foi o que sucedeu na realidade. A partir dessa época os acontecimentos precipitaram-se porque a corrente já era muito impetuosa e a onda tornara-se tão alta que galgava sem custo todos os obstáculos. No momento em que entrava para Sofala a fim de proceder com a presidência aberta, ordenava a invasão de Sadjungira, a 21 de Outubro daquele ano. As Forças Armadas fizeram tudo o que esteve a seu alcance para evitar danos humanos, tendo usado, para o efeito, um amplificador de som que, à distância, comunicava «saiam, retirem-se, apenas queremos a base». O chefe, com os seus acólitos, retiraram-se sem oferecer resistência. Durante a fuga – isto me contaram no terreno - havia ordem para que ninguém usasse celular, mas um dos fugitivos acabou sendo apanhado a telefonar e, de imediato, foi considerado espião. Para salvaguardar os interesses do grupo pagou com a própria vida, mas o anúncio da sua morte viria dos próprios colegas em 25/10/2013. Ele era um deputado que na altura dos acontecimentos devia estar na Assembleia da República, como dissera o Ministro José Pacheco. 


O combate tinha de ser muito rude, porque, do outro lado da barricada, estavam prontos para se defenderem até a última extremidade todos os que tinham interesses ligados à odiosa Frelimo e perfilhavam a crença geral e enraizada de que só uma guerra marcaria o fim do regime. Para se avaliarem as resistências erguidas contra o esforço de Guebuza de estabelecer um verdadeiro Estado de Direito basta lembrar que dezenas de organizações que se diziam ser da Sociedade Civil levantaram as suas vozes criticando-o e atenuando afrontar directamente a Renamo, o que fez com que o porta-voz da presidência, Edson Macuacua, se pronunciasse amargamente nestes termos: «É de facto estranho que quando as Forças de Defesa e Segurança, que têm legitimidade e legalidade para actuarem em defesa da segurança do Estado, actuam, dirigentes das organizações da sociedade civil aparecem frenéticos com discursos inflamatórios de condenação. É caso mesmo para perguntar, a quem servem estes dirigentes das organizações da sociedade civil? Qual é a agenda destas organizações? Parece que perseguem objectivos e agendas inconfessáveis, contrários aos interesses nacionais”. Sim, isso netinhos foi escrito no CanalMoz, de 28/10/2013

E o exército continuou a dar o golpe de morte das bases da Renamo espalhadas pela savana atirando para o exílio os homens que nelas faziam a sua vida obscura, organizando os mais cruéis métodos de morte. A Renamo avançara para o Sul, na província de Inhambane, na esperança de fazer estremecer os alicerces do regime; mas nenhum obstáculo seria capaz de atemorizar o espírito de Guebuza ainda no momento em que os tratadistas mais eminentes e partidários do regime consideravam Dhlakama insusceptível de trabalhar para a paz a não ser pela coacção e pela força. E passando das palavras aos factos, em 24 de Abril do mesmo ano, apresentava argumentos cuja aplicação resultaria na criação de um grupo de negociações. Quando era geral a convicção de que o Presidente da República é que era arrogante, Guebuza, na sua prontidão admirável, proclamava já o mais nobre princípio, aquele a cuja aplicação se deveram os mais belos resultados da convivência política moderna, o diálogo, sintetizando-o nestas palavras: "Apesar da situação de Sadjundjira, estou pronto para receber o senhor Afonso Dhlakama para dialogar. As nossas delegações política e militar continuam prontas para acertos do nosso encontro".

Não é que disse isto na Soalpo, ali em Chimoio, numa presidência aberta! Fê-lo sem perder de vista que aos homens da Renamo era preciso dar-lhes completa segurança de pessoa e propriedade para se desenvolver entre eles a instrução, criando-lhes escolas numerosas e hospitais, abrindo-lhes vias de comunicação que facilitassem as transacções comerciais e pelas quais a força armada pudesse marchar sem embaraço para manter a ordem pública ou para repelir agressões estranhas. Havia convicção inabalável de que por estes e por outros meios que se empregariam, se faria aumentar as necessidades dos renamistas, as quais estimulariam os mesmos a buscar pelo seu trabalho meios de as satisfazer. Quem pensava deste modo não poderia deixar de honrar as suas opiniões, trabalhando quanto em suas forças coube para conseguir a completa emancipação do adversário. Mas a Renamo continuava defendendo a sua ideia de Paridade nos órgãos eleitorais, e não só. É aqui que surgiu aquilo que no provérbio local dizemos dar a mão e pegar o braço. 

A atmosfera nacional não estava ainda bem preparada. Os interessados, no estado de coisas estabelecidas, possuíam poderosos meios de influência e não queriam declarar-se vencidos, por isso, tudo fizeram para criar impasses. Guebuza não era homem para desanimar e ainda menos para desistir e logo, na semana seguinte renovava o apelo de negociar com o Senhor Dhlakama. Apesar disso, as suas ideias de uma revolução sem sangue continuavam a encontrar uma viva oposição. Viu-se forçado a criar ambiente propício para o diálogo, não num hotel de luxo mas no Centro de Conferências, para que ele pudesse triunfar. E a Renamo, atacou um camião em Nampula, aquela via que vai a Cuamba. Mas não foi a única vez. Os oportunistas também fizeram ataque a um empresário local, problema de dívidas com funcionários, segundo se comentava. Mas ai, os atacantes eram parte de guarda pessoal do Sr. Dhlakama que foram sendo capturados um a um e não se sabe se cumpriram cadeia ou não. Não sei o que lhes aconteceu lá no comando provincial, porque na Cadeia, perto de onde o vosso avô trabalhava, não havia mostras de terem entrado.

Os renamistas de outras latitudes, pelo seu lado, não se resignavam a perder os seus interesses, nem queriam sujeitar-se à derrota, apesar de a sentirem próxima. Acoitaram-se em Inhaminga, em Kaphiridzanje – lá na zona do vosso bisavo –, em Nkondedzi, entre outros locais, onde o domínio das forças armadas não estava ainda solidamente firmado e abriram ali, com o máximo impudor, sucursais escandalosos de treinos militares onde a miúdo eram vendidas, em ignóbil leilão, as almas dos jovens recrutados à força na cidade da Beira, recrutas prontamente atribuídos às forças armadas convencionais. E havia entre eles alguns mercenários interessados nas pedras preciosas. Um deles, lembro-me, chegou a pedir-me o contacto do Administrador da Gorongosa, a julgar que eu caia facilmente. A esse degradante espectáculo de recrutamento só meses depois é que se pôs um termo, precisando o Governo para isso de organizar uma expedição e conseguindo então que as forças armadas desactivassem algumas bases. Foi no ano seguinte, nos dias 2 e 3 e o vosso avô estava no local. Não imagineis quanto me doi o coração, de imaginar o sucedido naqueles dias. Chovia intensamente e eu desci em Caia tendo seguido, primeiro, a direcção do régulo Tinga Tinga. Deixemos isso para amanhã.

A verdade é que as campanhas de Gorongosa, de Inhaminga e de Moxungue, contra os inimigos numerosos e escondidos, incitados, instruídos e municiados pelos que queriam, acima de tudo, derruir o nosso domínio – eu nessa altura soube estar do lado certo –, ficaram famosas entre as mais notáveis campanhas de todos os tempos pela rapidez de execução, castigo exemplar dos rebeldes e forma completa como atingiram o seu objectivo. Os ataques de surpresa diminuíram drasticamente na EN1. As FADM foram duras no castigo, mas combateram sempre com nobreza e lealdade que, submetidos os renamistas, jamais os perseguiram com represálias cruéis. Terminados os combates, esqueciam-se do mal que eles, obedientes joguetes de ambições alheias, os quiseram causar. O compromisso das FADM aos renamistas, combatendo no fundo as suas tendências para a ociosidade e o seu amor à inércia e à matança, que levava muitos deles a viverem exclusivamente da mulher, não receava confrontos directos, caso fosse preciso. E o que é oportuno frisar é que a guerra de autodefesa que as forças armadas moviam contra o extermínio do povo era mal vista pelos adeptos da Renamo que já se orgulhavam de ter um defensor mais forte, capaz de submeter a temida Força de Intervenção Rápida.

Nessa ocasião, os apologistas silenciosos da violência viram com manifesta má vontade o enérgico correctivo que as forças infligiram aos criminosos de Moxungue, de Gorongosa, de Inhaminga, de Maringue, trocando a esse respeito uma demorada e azeda correspondência facebookiana entre si; desaprovando o que as FADM haviam feito e criando-lhes depois dificuldades à ocupação dos espaços, que indiscutivelmente lhes pertenciam. E mais tarde, as FADM não hesitavam em enxovalhar a Renamo da maneira mais civilizada obrigando-lhe a restituir-lhes as bases. Isso não impediu que ela, abusando da sua força, sujeitasse as populações à humilhação a que me referi e que fez brotar dos lábios de Gabriel Muthisse, sub-chefe da delegação governamental ao diálogo, as frases mais belas e de mais rubra indignação de quantas constituíram a glória da sua missão: «a Renamo deve enterrar o machado da guerra», disse ele.


O diálogo com esta organização classificada como «terrorista» por Gustavo Mavie, num programa «Café da manha da Rádio Moçambique, em meados de Abril de 2014, foi um trabalho portentoso de inteligência, de continuidade e de confiança nos nossos destinos. Um trabalho de ingente preparação e, ao mesmo tempo, de realizações imediatas, tanto que fomos nós os primeiros que abrimos às portas ao diálogo nacional e sem interferências externas nesta parte de África, não obstante a Renamo insistir na internacionalização do conflito. Até que numa destas vezes atacou o comboio de carvão, precisamente quando estava em ascensão, o que lhe causou danos irreparáveis presságios do seu fim. Tenho que tomar umas notas, amanhã retomamos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A Renamo e o MDM: Duas forças políticas violentas em luta.

Como todas as organizações trabalhistas formais, isto é, partidos e sindicatos, a oposição moçambicana desenvolveu tendências oligárquicas em que os interesses privados dos líderes são opostos aos interesses dos filiados. Porém, o povo é chamado para encobrir as verdadeiras intenções dos líderes. Robert Michels tinha razão quando a dado passo notou que a centralização do poder acaba nas mãos de poucos. Esses poucos – a oligarquia – irão usar todos os meios necessários para preservar e aumentar ainda mais o seu poder. No caso da Renamo e do MDM, este poder está em Afonso Dhlakama e em Daviz Simango. Quando o país precisa de uma oposição que formule projecto de como podemos sair do fundo do poço, vemo-la muda e centrada na violência, enquanto instrumento para aquisição do poder. Como todos os líderes políticos, Dhlakama e Simango também têm controle do seu poder sob sanções e recompensas. Eles tendem a promover aqueles que compartilham de suas opiniões, o que inevitávelmente reforça o espírito oligárquico auto-perpetuante. Eles controlam a informação que flui até os círculos mais baixos de comunicação, censurando o que ele não querem que os militantes e o povo comum saibam. Mas, sobretudo, dedica recursos significativos para persuadir a militância da justeza de suas posições.

Quando Dhlakama fala de dirigir o Centro/Norte a partir de Março próximo, há pessoas a se extasiarem. Confesso que causa-me perturbação o tom agressivo com que o eterno líder apregoa o advento de uma verdadeira democracia nas imaginárias regiões e proclama as virtudes da Renamo como uma organização verdadeiramente democrática. Ele que nunca passou por voto! Até parece estarmos perante um régulo que aspira a um estado de verdadeira beatitude democrática. Se virmos bem as coisas, o discurso ameaçador de Afonso, secundado por Daviz, não é novo e a pretensa ideia separatista nada tem de original. Vem de longe! Uma parte de fracassados políticos sempre revelou grande disponibilidade para aderir à uma retórica tribal-regionalista eunuca e moralmente demagógica. São utopias desacreditadas e ambições revolucionárias falhadas, de quando em quando ressuscitadas sob novos herdeiros daqueles que dirigem, a que Robert Michels tão bem definia, pela “Lei de Ferro da Oligarquia». A posição de Dhlakama não pode conduzir senão ao desastre político da Renamo e a emergência gloriosa do ainda dormente Movimento Democrático de Moçambique. Interessa ao MDM uma Renamo violenta, incapaz de se organizar politicamente, a fim de emergir na arena nacional. Um sonho adormecido mas potencialmente não esquecido! 

E não é de descartar que os meios a usar incluam a possibilidade deste partido estar a atiçar senão mesmo a financiar todos os focos de violência. Tudo para dificultar os processos que antecederão as eleições de 2019, mormente, o recenseamento, a formação, a capacitação e o próprio processo eleitoral. Está provado pelos olhos que estas duas formações políticas, ainda ligadas pelo cordão umbilical tribal, discutem os mesmos espaços e os mesmos eleitores. Se assim acontece do lado atávico do MDM para quem o adversário de peso é a Renamo, esta última tem interesse numa bipolarização política como via para derrotar o também adversário de peso: a Frelimo e, por via disso, ter acesso ao poder. Para tal, um ambiente de tensão constitui um meio para que a Frelimo não materialize o que está no seu projecto de governação e assim, poder ser desmentida pela ausência de obra. Em última instância, uma violência política assim organizada mostraria que a sua desorganização interna é obra do adversário e que a violência que os seus membros fazem quer em forma verbal quer por actos são em resposta às provocações de que são vítimas. É uma táctica de auto-flagelação. Um ambiente de paz e estabilidade seria compensado pelo voto, nas eleições de 2019 de que a Renamo e o MDM, mais uma vez, sairiam derrotados.


Façamos uma breve excursão histórica sobre o lado violento desta oposição, para percebermos como ela tem na violência um instrumento para manutenção e obtenção do poder. Existe uma relação intrínseca entre a violência e o insucesso político desta nossa oposição. Quando ela se sente incompreendida ou incapaz de formular políticas que vão para além dos membros beneficiários, a violência é o provável recurso no compasso de espera entre o processo geral desorganizado e o tempo necessário para se organizar. Mas isto se deve à própria origem da Renamo que, por força do ADN, não foi capaz de impedir que genes violentos passassem para o segundo filho, também surgido num contexto de violência: o MDM, para quem toda a diminuição do seu poder é um convite à violência. Sempre que sente que este lhe foge das mãos, é sempre difícil resistir à sua tentação. A violência praticada e financiada por esta oposição, sob várias formas, tem um carácter instrumental. Mas o poder nunca é propriedade de um indivíduo, como sucede sobretudo na Renamo; pertence a um grupo e só continua enquanto o grupo mantém a sua união. Qualquer tentativa de isolamento obrigará aos deputados deleitados nas mordomias da capital a ter que se separar do cordão umbilical. 


Aqui é onde entraria o MDM que havia de pescar na rede, coagindo aos deputados renegados a renunciarem a Renamo e aderirem ao galo. Até porque a distância entre galinha e perdiz apenas reside na esperteza. Porque a violência é, por natureza, instrumental, como todos os meios, requer sempre orientação e justificação através do fim que visa. Para a oposição, a combinação entre a violência e o poder é como se estivéssemos a falar de unha e dedo. Assim, a violência é uma pré-condição do poder. O MDM nunca foi capaz de condenar a Renamo quer pela sua linguagem ameaçadora do Estado de Direito quer pelos seus actos que retraem os investimentos. Quando a Renamo tem necessidade de justificar a violência, a partir da parte incerta, Simango diz «força Dhlakama». Ambos não dizem que o que precisam é o poder ilimitado porque este é um fim em si próprio, por isso, não necessita de justificação, mas sim de legitimidade. A violência destes dois partidos não depende do número praticado ou das opiniões, mas dos instrumentos. Mas tenhamos atenção! Os fortes sentimentos fraternais engendrados pela violência colectiva seduziram muita gente bem-intencionada com a esperança de ver essa violência dar origem a uma nova comunidade e a um homem novo. Ao fim, a desgraça daí resultante foi pior do que era de esperar. A violência, é mais frequentemente a arma da reforma do que da revolução. O seu perigo está sempre nos meios se sobreporem aos fins. Por isso, digamos não à violência.


Com efeito, a necessidade de fortalecimento do partido diante da classe dominante provoca a cristalização de interesses cultivados pelos chefes e a identifica­ção deles como interesses da organização. Assim, os interesses dos filhos, sobrinhos, primos e amigos dos primos dos membros próximos à cúpula da Renamo e do MDM, são identificados como sendo os interesses do povo. Mesmo aqueles que parecem terem sido eleitos de forma democrática, já se tornam conservadores e aferrados ao poder, sem disposição para enfrentar as urnas. Alguém poderá pensar que os pequenos chefes da oposição estão a trabalhar. Desengane-se visto que é pobreza que lhes move. Quando os chefes não possuem nem fortuna pessoal nem outras fontes suficientes de renda, eles se agarram com tenacidade, por razões econômicas, ao seu emprego, o qual terminam por considerá-lo como sua posse, como seu bem inalienável. A perda do cargo seria para eles um verdadeiro desastre financeiro

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A legitimidade para reclamar

O último relatório do índice de desenvolvimento humano coloca-nos na cauda do mundo. Estamos entre os dez piores países, em termos do rendimento percapita, da esperança de vida e do nível de educação. À primeira vista tive a sensação de que fomos injustiçados e se assim foi deve haver um culpado. De lá para cá, fiquei a procura do culpado. Porém, antes de o encontrar, comecei por avaliar o meu próprio desempenho durante o ano. É que, se os indicadores de que se serviram são distribuídos ao colectivo, este por sua vez é a soma dos vários «individuais» de que faço parte. Tratou-se de uma improdutividade colectiva mas com responsabilidade individual. 

Compreendi que as desculpas históricas de colonização, das calamidades naturais, da guerra e outras para justificar o meu fracasso são a almofada para a minha inércia. É verdade que teria N desculpas para me safar. Contudo, parece-me que já não é plausível culpar o colonialismo de todos os meus males. Embora a colonização tenha deixado cicatrizes profundas no imaginário colectivo, é claro que o colono também deixou para trás coisas úteis e boas como estradas, escolas, hospitais, fronteiras, a língua, as leis. Neste sentido, o colonialismo foi a base da Unidade Nacional. 

Mas hoje, em que mais de 70% dos africanos de hoje nasceram já depois da independência, começo a ter vergonha de evocar o colonialismo pela minha incompetência. O colonialismo não condena necessariamente um país à penúria eterna. A Correia, anexada pelo Japão em 1910 sofreu a destruição da sua cultura com o seu povo submetido à servidão. A língua coreana foi banida, os coreanos impedidos de aceder à universidades. Os jovens eram enviados para os trabalhos forçados nas minas e nas fábricas de munições no Japão, ou obrigados a servir no exército. Mais de cem mil mulheres foram submetidas a servidão sexual nos bordéis militares como «mulheres de conforto». 

Expulsos os japoneses, em 1945, eclodiu uma guerra civil que deixou divididos os coreanos em Norte e Sul. A parte Sul que era tão pobre como o Ghana em 1953, é hoje vinte vezes mais rica. Este país e os seus habitantes poderiam ter razões suficientes para culpar o passado. Como notou Robert Guest, o contraste é o Zimbabwe em que o Presidente, como Primeiro-ministro recebeu o país com uma das melhores economias da África. É claro que conseguiu disfarçar durante algum tempo. Porém, ao apreender a propriedade privada, deu um aviso surdo aos investidores internos como externos para que «não ponham o seu dinheiro no Zimbabwe[1]». 

Fixou o preço do petróleo abaixo do que custa a importar, pelo que as bombas secaram. Tentou criar dinheiro imprimindo mais notas causando hiperinflação. Usando políticas que falharam noutros lugares tornou os zimbabweanos muito mais pobres do que eram à data da independência. Medidas de contenção das despesas atingiam hospitais e escolas enquanto ministros ainda andavam de Mercedes Benz e o orçamento militar nunca sofria reduções. Leis sensatas eram aprovadas mas postas de lado logo que o cheque da ajuda entrasse nos cofres.  Os  zambianos também estão mais pobres do que quando o colono saiu de lá, porque a crença na acção afirmativa para aumentar o número de  negócios dirigidos por negros consistiu em distribuição massiva de lugares na função pública e empréstimos bancários para os amigos da nomenclatura. 

E a África do Sul, pode correr o mesmo risco em poucas décadas, se o ANC continuar com o que nos é dado a saber. Há bons exemplos na África. O Botswana tem sido consistentemente democrático e melhor gerido. A sua economia tem reforçado a sua democatização e é hoje  um dos poucos modelos de desenvolvimento democrático e económico numa África carente de exemplos. Mas para o conseguir, os Tswana tiveram que trabalhar duro. A sua liberdade não significou apenas o poder de votar. A sua liberdade significou reorganizar uma companhia na falência e colocá-la, juntamente com uma injecção maciça de capital, nas mãos de novos gestores, diferentes dos incompetentes que a tinham arruinado antes.  

Não serão os outros a fazer com que Moçambique figure entre os melhores. Tenho que ser eu, pelo esforço próprio. Os estrangeiros ou o Governo podem ajudar, mas o sucesso dependerá de mim. Quero ser diferente, apostar mais no que o país e os outros verdadeiramente necessitam. Os britânicos tornaram-se ricos produzindo têxteis melhores e mais baratos e outros produtos que tanto os nacionais como os estrangeiros estavam desejosos de comprar. O Japão melhorou técnicas de fabrico inventadas noutros países de forma a produzir carros melhores e mais baratos, semicodutores e aparelhos de fax; a América soube criar desejo de muita gente para passar a gostar de filmes americanos, remédios americanos, aviões americanos, serviços dos bancos americanos. Quero contribuir com ideias para criar condições de transformar as matérias-primas em produtos manufacturados. 

Quero a liberdade de cavar a minha fortuna sem embaraços oficiais. E vou trabalhar para isso. Não quero mais culpabilizar a guerra da Renamo pela minha improdutividade de hoje. Os angolanos ficaram muito mais tempo em guerra e, por conseguinte, têm menos anos de paz do que eu. Porém, longe de serem muito miseráveis, os problemas que hoje enfrentam dizem respeito as dinâmicas do seu desenvolvimento. Eu quero fazer alguma coisa para deixar de viver num país em que empresários e albinos são raptados, assassinados e onde as campas são vandalizadas, como meio de obter riqueza. 

Fui tentado a apontar as baterias para todos os lados: ao poder politico vigente que nada fez para alterar este estado de coisas; à oposição que desmobiliza, difama e vive vendendo a nossa desgraça, lá fora. Os corruptos foram outros moçambicanos, menos eu. A corrupção que tanto odeio foi obra dos outros. O que eu dei e recebi a mais e à margem de qualquer serviço foi tido como uma simples gratidão; os outros é que não trabalharam. Tenho muitos culpados em que não me revejo. Em 2015, não tive capacidade suficiente de definir as prioridades, por isso estou entre os piores. 

A Constituição define como base do desenvolvimento do meu país, a agricultura. Mas, eu não sou agricultor, portanto não me revejo nesta constituição pelo que, mais uma vez, a culpa é dos outros, os tais que deviam fazer tudo para dignificar a base do desenvolvimento. Eu e a minha actividade fomos excluídos e, por via disso, não posso ser culpabilizado porquanto a minha actividade era secundária. Mas no novo ano, quero ser diferente. Quero criar ou promover a criação de associações para acederem aos vários fundos que o Governo e Organizações diversas colocam ao dispor do povo comum, no lugar de culpar a pertença partidária como condição. No fundo, no fundo, o que quero é a legitimidade de reclamar.





[1] GUEST. Robert. África, Continente Acorrentado: O Passado, o Presente e o Futuro da África. Civilização Editora, Barcelona, 2005

sábado, 12 de dezembro de 2015

Que interesses defende a União Europeia em Moçambique?

Segundo a LUSA, «o chefe da delegação da União Europeia (UE) em Moçambique, Sven Burdsdorff, defendeu uma governação inclusiva no país». Sinceramente! Foi longe de mais e podemos apostar, aqui e agora, para que nos diga em que se baseia o seu conceito de «inclusão». Se a Renamo e o seu filho renegado, o MDM, desejam governar que trabalhem para que as regras democráticas os legitimem. Nesse momento, a Frelimo não irá reclamar a partilha do poder, tal como não reclama onde o MDM danosamente governa hoje. A campanha contra o Governo que está agora em curso não será a última. Outras virão tão suspeitas e parciais como esta. É preciso não as dar por inteiro ao desprezo. Como é que ele sabe que há, no país, o antónimo da inclusão? Temos a certeza de que viajantes pouco escrupulosos e apressados recolhendo fábulas do descontentamento popular, jornalistas das crises inventando notícias, analistas agitando o signo das guerras, democratas da fome e da podridão, à procura de antagonismos e contradições, continuarão a atirar às nuvens e a errar o alvo, a atacar uma mão suposta e fantasmagórica da exclusão em tudo o que é canto, com que pretendem vestir as realidades moçambicanas. O que se impugna, critica e rebate é precisamente o alvo movente do que não somos, do que não pensamos, nem fizemos ou representámos. Quantas vezes o PR se encontrou com diferentes seguimentos sociais na busca de caminhos para a inclusão? De que segmentos sociais se refere o Senhor Sven Burdsdorff?

A inclusão não pode nem deve confundir-se com coligações. Nós temos o nosso entendimento do que é inclusão. Por isso, temos empenho em ser visitados, analisados e estudados. Há quem não se sente feliz pelo facto de o povo estar insistentemente apostar na Frelimo. Por isso não faltam elementos de trabalho, de estatística e documentação – pelo contrário, os frelimistas, se queixam da grandeza dos elementos postos à sua disposição que não sobra o tempo para estudar melhor. Temos o direito a que nos apreciem em termos correctos, equilibrados e justos e que as campanhas intelectuais, difundidas com ajuda de uma certa imprensa, não sirvam para malsinar nossos propósitos, adulterar a verdade e contestar o nosso direito, à procura de uma porta especiosa ou falsa para entrar em nossa casa e nela ditar a lei dos grandes senhores – patrões estrangeiros – que brasonam de igualdade jurídica e política, mas à sua volta só semeiam ódios, procurando bater os ferros da mais negra servidão. Não obedecem a altos objectivos as mentiras que vem sendo forjadas com relação ao comportamento político da Frelimo: pelo contrário, há que tomá-las como verdadeiros crimes – e que crimes! -, porque ameaçam comprometer o futuro da pátria, visto que lhe apontam o caminho da perdição como se fora o da felicidade, o da salvação. As coligações não devem ser forçadas. Quem quer ser membro da Frelimo, que peça o cartão porque «na casa do Pai há muitas moradas». Bem sei que nem todas as verdades se dizem; mas, especialmente a homens públicos, há muitas que é criminoso calar. Chega de recados descabidos que podem dar a entender que estão para defender os interesses de uma parte dos moçambicanos quando é dever defender os interesses da UE.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A Renamo: entre a Luz e a Escuridão

O prodigioso ressurgimento da ala militar da Renamo mostra que os objectivos dela, desde o levantamento de 1976, nas matas de Manica, nunca viraram. Uma vez, Armando Guebuza disse: «A Renamo ainda não desistiu da sua intenção de chegar a uma solução por via militar, através da violência. A nossa experiência indica que a Renamo raramente cumpre os compromissos assumidos. Queremos garantias de que a Renamo vai respeitar um eventual acordo de paz. É do interesse de todas as formações políticas que a Renamo se transforme num partido político e cesse a violência no país. Notícias, 9 de Março de 1992. Estas palavras, ditas há mais de duas décadas, continuam actuais. A Renamo não cumpriu com os acordos de cessar as hostilidades, não entregou a lista dos seus homens para integração, não quer entregar, num espírito de boa fé as armas que detêm para se transformar em partido político e fazer política não a guerra. Uma escolha para a Renamo: ou faz a política ou faz a guerra porque um servo ao serviço de dois Senhores agradará a um em detrimento do outro. Com efeito, todos os homens que deram cara a este movimento, desde Orlando Cristina passando por Evo Fernandes e Raul Domingos até ao advento de Bissopo, se empenharam com tenacidade e o mesmo propósito, embora, através de processos diferentes, em anular a Frelimo, tendo como base a arma. Este facto não pode surpreender. Um oficial deste movimento disse-me que «o futuro da Renamo está nas armas». Já o próprio Dhlakama reagira a posição de Guebuza dizendo: «O meu movimento é contrário à discussão do cessar-fogo nesta altura, porque um acordo de cessação imediata da guerra iria levar o Governo a bloquear o processo das reformas políticas». Voz de América, 10 de Março de 1992. Segundo se veicula, recentemente, Dhlakama terá telefonado à um grupo restrito de deputados, para dar orientações do que deve ser defendido no Parlamento. Quer dizer, enquanto se discute no parlamento, os guerrilheiros vão fazendo pressão armada, amedrontando e ele, na tentativa de fugir da responsabilização, vai atiçando o fogo a partir da caverna do silêncio. 

O que, pelo contrário, não pode deixar de surpreender singularmente, é observar-se que o MDM tem sido, desde há algum tempo a esta parte, a grande propiciadora da cumplicidade. Voltemos à carga. De armas em punho, a Renamo, mais uma vez, está a destruir o país que, com muito sacrifício, se reergue dos escombros. Na sua propaganda, os dirigentes dessa organização apresentam-se como santos. Para eles, todos os males, incluindo as calamidades naturais, têm origem na Frelimo. Falam do povo desgraçando-o. Falam do povo emboscando-o. Falam do povo comendo-lhe o seu gado a preço simbólico de 100 Meticais, o que constitui roubo. Falam do povo sacrificando-o. O cumprimento da obrigação involuntariamente assumida, vence as razões que aconselham o silêncio e por isso é preciso falar, sem naturalmente esconder que o fazemos com a alma amargurada e revoltada pela agressão armada a que os nossos conterrâneos foram submetidos. Desculpai a referência neste momento e nestas circunstâncias a uma grata recordação que me assalta o espírito e que de algum modo me serve de credencial. Entre Junho e Agosto encontrava-me de férias em Tsangano com alguns amigos que se encontravam lá em defesa da pátria. O meu distrito estava sendo palco de confrontos armados. E recordo mais do que os meus sacrifícios, os sacrifícios e sofrimentos dos que por lá deixaram os ossos ou vieram morrer prematuramente na zona segura. Quando andei por essas terras a que criei eterno amor – talvez porque nasci lá o porque lá dei bastante sangue aos mosquitos - registei em cartas as observações que consolavam a minha curiosidade e, relendo essas observações, verifico que elas me fizeram conhecer praticamente a exactidão do pensamento do notável «visionário e filho mais querido»: «A Renamo ainda não desistiu da sua intenção de chegar a uma solução por via militar, através da violência». Lá, uma dezena de escolas foi fechada, afectando mais de 3 milhares de alunos e os hospitais funcionam a meio-gás; em Morrumbala, seis escolas foram fechadas, afectando quase duas milhares de alunos; e há outras tantas partes em que alunos estão fora das escolas e os professores continuam a auferir os seus salários sem trabalho, numa altura em que a produtividade se tornou imperativo nacional. 

Quando a Frelimo apela a Renamo para que entregue as armas, esta se recusa e acusa aquela de ser também um partido armado, numa clara demonstração de fuga para frente a fim de justificar a tragédia. O apelo da Frelimo deve ser tomado como um apelo ao repensar os caminhos que nos levem a viver na mais santa paz, respeitando-nos e estimando-nos. A Renamo agride o povo por causa das suas diferenças para com a Frelimo. Nós, o povo, pagamos preço alto às chantagens deste ainda partido político armado, tal qual o Hezbollah. Mas o Governo Libanês aceita o braço armado do Hezbollah por ser o único capaz de enfrentar Israel. E a Renamo, a quem quer enfrentar? Ao povo! É seguro dizer que fomos apenas vítimas e somos, portanto, acusadores e não réus. A Renamo quer dirigir, a todo o custo. Dirigir um país, como sabiamente foi sendo dirigido, não é tarefa para aventureiros, umbiguistas, intriguistas, divisionistas e, sobretudo, tribalistas. Recordemos que com a Frelimo, povoações que mal despontavam são agora grandes urbes. Estradas, aeroportos, caminhos-de-ferro, fábricas, centrais eléctricas, estabelecimentos comerciais, grandes fazendas agrícolas, universidades, escolas, hospitais, pontes, numa palavra, o progresso surge, irrompem por todos os lados e, apesar de tudo, cada vez com maior pujança. De resto, honestamente, não se percebe como, quando e por quem deve ser exercido o poder, senão a Frelimo. Na verdade, se é certo que a Renamo assentou no princípio de Autonomias Provinciais, doutrina que não nos trouxe qualquer novidade teórica ou prática, absteve-se de estabelecer uma definição prática sobre como ela própria a materializaria sem abolir os municípios. Trouxe um conceito fantasioso e nessa ordem de ideias faz de conceitos um programa político para dividir o povo. Aconselhada pelos seus patrões estrangeiros que vivem em estados federados, sugere uma mudança, dos nacionalistas aos tribalistas, portanto, inaplicável no nosso modelo de estado unitário, como tantas vezes tem sido dito e redito. Não foi o povo que disse à Renamo que quer autarquias provinciais, pelo contrário, foi a  Renamo quem disse ao povo, pelo que usar o povo para legitimar posições alheias a este é falta de escrúpulos. Mas admitindo por mera hipótese, que assim fosse, bastará uns tantos habitantes de determinado território segredarem na intimidade das suas casas ou mesmo na praça pública que desejam autarquias provinciais para se dever mudar?! 

Será razoável que missivas de uma ou de algumas dezenas de cidadãos dirigidas a uma praça, ou meia dúzia de tiros na Gorongosa, em Morrumbala, em Tsangano ou uma insurreição fabricada em Inhambane possam pesar de tal modo que ponham em jogo o destino da Unidade Nacional? Será correcto, será justo, será sequer admissível que em nome das mudanças assim concebidas se destrua a unicidade da nação por meio de autonomias locais? Vai para 20 anos que as populações do país realizam diariamente o mais autêntico, o mais eloquente e o mais exigente de quantos plebiscitos lhes poderiam ser pedidos para manifestação da sua vontade. Cada dia, o povo recorda com gratidão que foi a Frelimo quem libertou a terra e o homem. Podemos espreitar para os países vizinhos que tentaram provar o veneno da mudança. Se não recuaram, estão estagnados, se não venderam a soberania tiveram que recomeçar. Isso nos auxilia a interpretar o verdadeiro sentido e objectivos das supostas autonomias: substituição aparente do poder político e manutenção e extensão de zonas de influência sem responsabilidades da soberania, ou seja, um neocolonialismo de índole puramente materialista com recurso aos patrões estrangeiros. O progresso, como atrás me referi, processa-se a um ritmo verdadeiramente impressionante, na nossa terra. E porquê? Porque ao povo foi informado que a única forma de sair do retrocesso é pelo trabalho, pela auto-estima e pelo abandono da vida de mão estendida. Segundo narra o Génesis, Deus disse a Adão, depois do pecado original: “tirarás da terra o teu sustento com muitas fadigas todos os dias da tua vida. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que te tornes na terra de que foste tomado: porque tu és pó e em pó te hás-de tornar”. Movida pela escuridão, a Renamo é contra este preceito bíblico. Mesmo na luz, não quer ver o povo trabalhando a terra e quer desacreditar a Frelimo desgraçando o povo. Tal como um parasita que suga o hospedeiro até a morte conjunta, assim ela procede. Mas o homem expulso do paraíso, isto é, o homem entregue a si próprio, determinando-se por seu livre arbítrio, havia de edificar o mundo em que tinha de viver. Este penoso encargo constitui a história do nosso tempo. Paz e Trabalho! E são estes princípios, são estes os atalhos, são estes os valores supremos, as grandes armas de que nos temos servido em todas as épocas da nossa história recente e que ainda hoje empregamos com a mesma generosidade e a mesma fé nos duros combates em que estamos empenhados. Esperamos, sinceramente, que a Renamo faça escolha entre a luz e a escuridão antes que seja feito um pedido formal para a sua inclusão no grupo de organizações terroristas.  Disse!


Eusébio A. P. Gwembe

domingo, 1 de novembro de 2015

Na Contingência da Guerra e da Paz a liberdade vencerá

Na tradição Ngoni, quando somos testemunhas de uma agressão na rua, não podemos deixar impunemente o mais fraco sozinho face ao mais forte, virar costas e seguir o nosso caminho. Acreditamos que a não assistência aos indivíduos em perigo, embora não constitua um delito, é uma falha moral que já custou demasiadas mortes e demasiado sofrimento a demasiados indivíduos para que aceitemos cometê-la. No dia 10 de Julho, saindo de Tsangano em direcção a Mitengo-Mbalame, ao longo da picada um jovem aparentemente debilitado estava a ser espancado pelos populares que o acusavam de ter sido um dos autores dos incêndios às habitações de Monjo. Parei o carro e falei para o homem que aparentava ser chefe daquele espectáculo. Quando o homem se aproximou da porta do meu carro, mostrei-lhe uma nota de 500 Mts (Quinhentos Meticais). Se meter este jovem no carro dou-lhe essa nota. O homem não resistiu e carregou o jovem para lá atrás da viatura. A fúria popular era tal que não a consigo descrever. O jovem era membro das Forças Armadas de Defesa de Moçambique que tinha sido atingido por uma bala dos guerrilheiros da Renamo, no dia 7 daquele mês, tendo permanecido três dias no mato onde acabou sendo achado por aquele grupo de homens ávidos de vingança. Estava a ficar tarde. Antes de ir-me embora, o homem que me vendeu a liberdade do jovem fez-me uma advertência mais ou menos como se segue: tenha cuidado senhor, há muito fósforo por ai; ainda é possível andar mas... mas... mas... a guerra vai estalar dentro de breves meses ou até dentro de poucos dias. Limitei-me a sorrir, um gesto que ele correspondeu enquanto se dobrava em gestos de gratidão pelo dinheiro que acabava de conseguir. 

Hoje, três meses depois daquele encontro ocasional, é de cada vez mais difícil ter-se a convicção de que, mais hora menos hora, se não ouvirá a detonação apavorante da pólvora sobre que se anda a riscar fósforos. Se não for doutra maneira, pode acontecer até que as armas, a tanto tempo apertadas, desfechem por si mesmas, já enfadadas de esperar que as disparem. E, todavia, não deixamos de admitir, no momento em que escrevemos, que o género de paz em que se vive e que tanto amargura o país, não chegue a sofrer alteração para pior. Com o agravante de que as flutuações económicas o irão inflamar. Em suma, a despeito de tudo, ainda confiamos em que não haja guerra. Ninguém desconhece - até os que pensam em bater-se e preparam o esforço máximo para sustentar os combates mais temerosos - que a guerra seria para todos, vencedores e vencidos, a mesma catástrofe a prazo, a destruição apocalíptica do país e da obra reconstrutora que, através de duas décadas, nele ergueu o espírito de paz e de tolerância. E a aconselhar a prudência e o espírito de conciliação - não obstante os preparativos bélicos e as atitudes ameaçadoras - acresce também este factor psicológico, capaz de influir decisivamente no ânimo do povo como influi no dos indivíduos: o medo. Com efeito, o receio do que a guerra poderá ser para cada uma das partes em contenda é o que mais tem valido à manutenção da paz nestas horas incertas e sobremodo inquietantes. A forma como terminou o último conflito é força motriz para ainda pisar-se o travão da guerra pois a certeza numa vitória militar já teria feito desencadear o que nos parece um evitável conflito. 

Confiemos, pois, em que esse factor psicológico continue a exercer a sua acção pacificadora e salutar. Neste canto de África, os moçambicanos correm o perigo certo e iminente de os envolver a catástrofe, se a loucura se tornar mais forte do que o medo. Nada temos a ver com os antagonismos que dividem os políticos, nem com as reivindicações territoriais que põem agudamente o problema da paz ou guerra. Para o povo comum que somos não existem objectivos ocultos e perigosos, interesses políticos cuja preponderância exija imposição, e muito menos ódios que nos levem a admitir a necessidade duma guerra, quanto mais desejá-la. Em poucas palavras, quer isto dizer que, inalteravelmente fiéis aos interesses da nossa crença numa paz duradoura e justa, e nos termos em que ela significa para nós, não deixaremos de expressar o nosso repúdio às acções e discursos de propaganda da desordem. Não somos, por isso, dos povos que, tornado inevitável o pior e desencadeado, para mal de todos, o conflito, mais devam temer as suas consequências. Não somos de exigir reuniões sem resultado porque não temos mais razões para nos acautelarmos contra a paz, sobretudo se, para afastar o flagelo da guerra, os homens desavindos as convocarem. Um encontro convocado com fins de satisfazer e equilibrar as ambições e os interesses dos fortes, pode tornar-se mais traiçoeiro do que as contingências duma guerra. Moçambique tem razões de sobra para não esquecer o que representou para ele o vocábulo «guerra». A História diz-nos, através do que depois se soube, que as reuniões entre os grandes têm sido algumas vezes apenas a fachada jurídica de combinações inconfessáveis antes concertadas no segredo dos protagonistas. E as suas decisões apaziguadoras podem, afinal, mostrar-se ainda mais injustas do que a voz dos canhões. 

A entrega daquele jovem por aquele grupo de furiosos fez-me ter a certeza de que no lugar de acções que nos aniquilem, deveríamos conferir glória e esperança à liberdade conquistada. Da nossa experiência de um extraordinário e inexplicável desastre humano que durou tempo demais, deveria nascer uma sociedade da qual todos os moçambicanos se orgulhariam. Deveríamos compreender que cada um de nós está tão intimamente enraizado no solo deste país e que ninguém é mais moçambicano do que os demais. A sensação estranha que partilhamos explica a dor que trazíamos no coração quando víamos o nosso país a despedaçar-se num terrível conflito. Esperamos pelo dia em que estenderemos saudação fraterna: Aos humilhados das áreas em conflito, aos refugiados ao Malawi, aos exilados na própria terra, que querem viver e viver livres. Àqueles e àquelas que são amordaçados, perseguidos ou torturados por simples suspeita de pertencerem a este ou aquele grupo, que querem viver e viver livres. Aos sequestrados das cidades, aos desaparecidos do meio rural  e aos assassinados, que queriam viver e viver livres. Aos pastores/sacerdotes brutalizados, aos jornalistas silenciados, às viúvas e às órfãs que vendem o seu corpo para sobreviverem, aos trabalhadores sem direitos de irem trabalhar, aos camponeses sem terra, aos resistentes sem armas, que querem viver e viver livres. Esperamos ardentemente por esse dia. Enquanto esperamos dizemos a todos eles: coragem, a liberdade vencerá.


Eusébio A. P. Gwembe, Izmir, Turquia