domingo, 30 de julho de 2017

Joana Simeão, entrevistada pelo Jornalista Francisco Ribeiro Soares, RTP


Jornalista - Dra Joana Simeão é vice presidente do Grupo Unido de Moçambique, conhecido pela sigla  GUMO. É do conhecimento dos telespectadores a complexidade do quadro actual da vida política moçambicana. Temo-la hoje connosco para lhe perguntar precisamente qual o papel do GUMO neste momento da vida política moçambicana.

Joana - Eu não posso dar uma resposta quanto ao papel do GUMO neste momento sem fazer uma história do GUMO. Por que é que o GUMO apareceu? O GUMO apareceu há 18 meses no anterior regime e procurou encontrar  uma solução dentro do sistema que vigorava. Quer dizer, nós olhamos para a cena política, analisamos as contradições do regime e procuramos criar brechas. E essas brechas, seria encontrar aliados naqueles que nos pareceram mais liberais.
Jornalista - Concretamente

Joana - Dr. Rebello de Sousa. Quer dizer, não tenho nenhum pejo em dizer que Dr. Rebello de Sousa foi para nós, foi considerado por nós e ainda hoje pelas pessoas que eu disse, foi um dos elementos mais liberal do antigo sistema. Portanto, aliados no nosso desejo de querer fazer qualquer coisa dentro de Moçambique com vista a ajudar esses elementos a equacionar o problema da paz porque, realmente, os jovens e toda a população seja ela da metrópole como de Moçambique estava farta de guerra, 13 anos de guerra. Nós tivemos que nos apoiar, portanto, nesses elementos. Esse apoio não significa conluio com o regime. Simplesmente uma estratégia.

Jornalista- Esse apoio parte da iniciativa do Dr. Rebello de Sousa, aliás esse contacto, ou parte da vossa iniciativa?

Joana - Não. Quer dizer, nós tínhamos já organizado depois de um ano. Entretanto ele estava nas procurações, passou para Ministro do Ultramar porque nós não tínhamos nem podíamos ter contacto com o ministro Silva Cunha e pareceu-nos que podíamos tentar uma aproximação nesse sentido. Foi feito. E obtivemos dele um apoio cauteloso e discreto.

Jornalista - Que… de limitações havia até ao 25 de Abril na evolução política em Moçambique?

Joana - Primeiro, nós aparecemos apenas como  associação cívica (AC )na metrópole. Nós  queremos ser uma outra AC em Moçambique. Entretanto, nós queríamos ser um grupo de pressão. Não podíamos ser partido político, mas sim grupo de pressão com vista a criar uma corrente política nova, para fazer surgir elementos novos, dinâmicos, dentro da cena política social moçambicana, para criar hipóteses de diálogo. Isto que era possível e é o que vamos fazer.

Jornalista - E para conseguir isto, como uma associação cívica, que exemplos de actividades prosseguiam?

Joana - Primeiro nós tentamos arregimentar pessoas, divulgar o ideário. Naturalmente uma actividade semiclandestina, os ideários do GUMO do Norte a Sul, ver e falar às pessoas e estabelecemos estatutos como exigia nessa altura. Esses estatutos (aliás devo criar aqui parêntesis), esses estatutos foram até elaborados com ajuda do Dr. Almeida Santos. Eu fui ter com Dr. Almeida Santos, que eu sou amiga do Dr. Almeida Santos, devo muito a Dr. Almeida Santos e em Março nessa altura, havia atraso dos nossos colegas da Beira, eu fui ao escritório do Dr. Almeida Santos no prédio Lopes para lhe solicitar um apoio e ele mandou-me os estatutos que eu tenho a cópia.

Jornalista - Portanto a um determinado momento em que o quadro político em todo o território português se modifica. Qual é a vossa primeira reacção?

Joana - É como estão a ver, o GUMO, grupo de pressão com alto grau político mobilizou-se, posto que tínhamos uma estrutura flexível foi possível mobilizarmos e automaticamente nós aparecemos dentro de Moçambique ao lado dos democratas que até agora ainda não sabemos qual é o líder a fazer comícios que foram desde Xipamanine, Inhambane, a  Beira, Nampula até Porto Amélia. Naturalmente que o aparecimento do GUMO mobilizando populações dum momento para outro criou, da parte de indivíduos que não estão de acordo com o GUMO, manifestações e contra manifestações mas eu entendo que a democracia é justamente isso, quer dizer, dar-se a cada um a possibilidade de se exprimir e muitas vezes ela se exprime de maneira violenta.

Jornalista - Chegou-nos a tempos notícias, pelas agências noticiosas, de que pelo menos em Lourenço Marques se não estou em erro tenha havido uma manifestação organizada pelo GUMO que se teria transformado, digamos assim, numa manifestação da Frelimo. Quer nos contar rapidamente o que aconteceu…

Joana - Sim. A manifestação do Xipamanine que nós tivemos com mais de 20 mil pessoas, estavam lá os cameramen de várias agências, teles estrangeiras, naturalmente no meio da população apareceram cartazes pro Frelimo o que nós consideramos absolutamente natural. Frelimo foi até agora o único movimento que dirigiu a Luta nacionalista e portanto é e há seus partidários e eles quiseram, não conhecendo os ideários do GUMO, porque é como digo eles eram espalhados semiclandestinamente, que se quisessem manifestar mas nós consideramos absolutamente natural.

Jornalista - E qual é exactamente a vossa posição em relação a Frelimo?

Joana - Eu quero repetir o que foi e é realmente o lema do GUMO vis a vis Frelimo.  Nós consideramos, portanto, duas faces, posto que o movimento das Forças Armadas quer obter a paz. Nestas negociações só a Frelimo tem o direito de ser o interlocutor válido face à junta e hoje o Governo Provisório. No que respeita a nossa actividade futura para o destino político de Moçambique que é uma outra fase, nós entendemos explicar a Frelimo o porquê do aparecimento do GUMO e como equacionar o futuro político de Moçambique que deve ser elaborado por todos os moçambicanos sem excepção. E é nessa perspectiva e dentro dessa conjuntura que eu fui enviada há três dias precisamente 28 a Paris para tentar encontrar com o delegado da Frelimo que não vinha para o encontro comigo  mas sim para fazer parte aos festejos comemorativo do 25º aniversario do Congresso Mundial da Paz.

Jornalista - Portanto esse contacto que se integra já nessa segunda fase de pensar não propriamente nas tréguas, no eventual cessar-fogo entre a Frelimo e as Forças Armadas Portuguesas, mas já na segunda fase portanto duma estruturação política de Moçambique posterior a um cessar-fogo, se bem entendo. E desse contacto recente em Paris pode saber já alguma coisa?

Joana - Quer dizer, primeiro quero sublinhar o aspecto fraternal do nosso encontro. Isto mostra uma lição àqueles que nos tentam dividir, que o que … moçambicanismo, quer dizer panganir-se com a sua irmã independentemente das divergências que existem, divergências que aliás são conhecidas através das exigências pois nós não temos contactos directos. Eu fui lá para definir a posição do GUMO e para dizer que há problemas concretos que uma independência soleta levanta e que têm que ser resolvidos calmamente numa mesa redonda quadrada ou rectangular e que queremos saber o que a Frelimo pensa sobre muitos problemas. Por exemplo, qual vai ser o sistema económico que vai vigorar em Moçambique, qual é o sistema político que vai vigorar, qual será a posição dos grupos étnicos, não é questão de estar numa tendência tribal mas é preciso não negar as realidades do nosso país, qual será a política estrangeira, como resolver problemas financeiros e económicos, balança de pagamento deficitária, o problema do equipamento industrial, quer dizer nós queremos saber. Temos direito a saber, independentemente de ideologias porque isto o futuro concerne a todos e respeita a todos.
Jornalista - Um destes problemas não será precisamente a hipótese que se se falou há pouco em tribalismo se não estou em erro, a hipótese de num Moçambique eventualmente independente, a curto ou a médio prazo, de haver uma cisão do território em duas ou três ou quatro.
Joana - Não, ninguém. GUMO é contra o tribalismo, não quer balcanizar de Moçambique. Nós  queremos até o respeito das fronteiras políticas que estão a vigorar e que vão continuar a vigorar. Mas, para evitar exactamente, uma situação de luta interna e de caris tribal estilo Biafra teremos precisamente que ter em consideração a composição do governo futuro. Quer dizer, é necessário que as aspirações dos representantes dos grupos étnicos possam ter satisfação dentro da estrutura política do Estado. É preciso prevenir e para prevenir, nós queremos tentar dialogar.

Jornalista - Portanto, em relação a primeira fase em que a Joana Simeão me diz só a Frelimo é realmente interlocutor possível uma vez que só a Frelimo está em Armas contra as Forcas Armadas Portuguesas, na sua opinião pessoal que perspectivas há neste momento do cessar fogo em Moçambique?
Joana - Eu nada posso avançar porque não quero ter audácia de tomar a posição da Frelimo. GUMO está absolutamente ao lado, quer dizer não se pode imiscuir nestas discussões, respeitam os camaradas deles. Não estamos dentro do quadro. Será entre os emissários do governo provisório e os emissários da Frelimo, são eles os responsáveis. Eu creio qualquer afirmação hoje iria prejudicar o clima de concórdia que deve realmente presidir essas negociações.

Jornalista - Portanto, em relação a isso o GUMO vai aguardar?
Joana - Aguardar. Desejar simplesmente que se efective rapidamente possível.

Jornalista - E. por hipótese, se não chegar a uma solução de concordância de que resulte um armistício entre a Frelimo e as autoridades portuguesas, qual será o papel, nesse caso, do Grupo Unido de Moçambique?

Joana - Creio que o Grupo Unido de Moçambique vai tentar conciliar as partes, se deixarem.  Porque nós somos ai elementos secundários, fazer prevalecer, afinal , o desejo de paz que todos querem.

Jornalista - Quando me diz que são elementos secundários, está a pensar na vossa representatividade em termos de número de pessoas?

Joana - Não, não, não. Porque o problema têm vários aspectos, tem esta face, acho que … já foi claro. É preciso obter a paz; nessa fase GUMO não intervém. GUMO poderá dar conselhos de serenidade, de realmente pacifismo. Não pode, não tem direito de intervir. Não está em causa a nossa representatividade. Está em causa a nossa lucidez. Não querer aparecer como oportunistas.  Nessa fase! Agora, na fase da constituição do governo, duma estrutura política definitiva do país, nós pensamos como moçambicanos temos direito a ser consultados.  Como asiáticos nascidos em Moçambique, esse grupo também tem direito como o branco tem direito. Portanto nessa conjuntura é que nós apareceremos com direito de sermos ouvidos.

Jornalista - Precisamente por causa desse direito de todos serem ouvidos, qual é a posição do Grupo Unido de Moçambique em relação ao referendo claramente proposto pelo Presidente da República Portuguesa?

Joana - Há preâmbulos. Quer dizer. Não é a questão de o GUMO participar do Referendo é com a lei que vigora, por exemplo, a lei eleitoral. É preciso que o GUMO seja informado a tempo e hora sobre as condições de elegibilidade. Quem vai participar no GUMO. Segundo é preciso um saneamento da estrutura política e administrativa do Estado. Garantia dum meio de consultação honesta. São condições sine qua non.
Jornalista - Quer me parecer que partindo do princípio de que isso era possível de que realmente  o Grupo Unido de Moçambique chegava a conclusão de que esse referendo era possível nessas condições de isenção de honestidade aceitavam o referendo?

Joana - Sim. Eu penso que uma vez que a paz seria atingida, conseguida, bom entravamos no jogo democrático. Participaríamos na consulta. E la depende, se Frelimo aceita ou não a tal coalizão. Isso só o futuro dirá. Sabe, eu não queria. Temos que avançar realmente com muita cautela.

Jornalista - Uma primeira preocupação geral com certeza é a paz. Essa preocupação pode encontrar, de momento, solução num dialogo entre a Frelimo e as autoridades portuguesas.

Joana - Só pode ser conseguida dessa maneira a paz.

Jornalista - Se essa solução for conseguida, esperamos todos que seja…. (Joana interrompe para dizer--- Desejamos realmente com força),  jornalista continua ----se bem entendo a posição do GUMO é entrar no jogo democrático com vista a um futuro político de Moçambique que será necessariamente uma independência.

Joana - Uma independência, em diálogo com o Governo Português.

Jornalista - Portanto, uma entrada numa federação?

Joana - Não sei. Isso vai ser, quer dizer, vamos por etapas. Quer dizer, principio paz, segundo ver se é ou não possível o tal referendom, consulta popular, terceiro vamos ver o estilo de relações com o que será nessa altura a ex-metrópole. Eu gosto de etapas, para não criar as confusões. Portanto, vamos esperar.

Jornalista - Digamos, que não há uma posição irredutível em relação ao tipo futuro de relação.

Joana - GUMO defende o ponto de vista segundo o qual é preciso estudar o estilo de relações, digamos preferenciais ou privilegiadas da ex-metrópole. Mas claro isto também será o produto  de uma consultação aos moçambicanos

Jornalista - Pois é. Para terminar queria-lhe dar aqui uma boa notícia. Tenho aqui na mão um telegrama de Dar-Es-Saalam que diz: Frente de Libertação de Moçambique iniciará amanhã negociações em Lusaka com o Governo Português. Feito e anunciado em Dar-Es-Saalam por Samora Machel.

Joana - Bravo.


Transcrito por

Eusébio A. P. Gwembe

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Joana Simeão: uma entrevista


A primeira parte: Aqui

Joana Simeão: uma entrevista a “Seara Nova”, em Março de 1974


Poderia começar por falar-me um pouco da sua infância, do ambiente onde nasceu e cresceu.


- Nampula era então, há 36 anos, um burgo simples. A minha infância foi banal, embora começasse a sentir desde muito nova que alguma coisa estava mal na sociedade em que vivia. Pelas experiências que tive, pela discriminação que sentia. Papá pôs-me a estudar numa escola particular para me subtrair a um certo número de medidas discriminatórias que existiam, na época, no ensino oficial. Havia também um conjunto de regras sociais a que nos tínhamos que submeter. As raparigas não podiam brincar com rapazes, por exemplo e isso confundia-me. Frequentemente, Papá, que era um simples “choffeur”, apanhava-me no meio dos criados e ralhava.

No meio dos criados? Tinha criados?

- Sim, toda a gente tinha. Chegou a altura de ir para o liceu, e ai uma vez mais o Papá preferiu mandar-me para um colégio. Mas a irmã recusou a minha entrada. Pela primeira vez na história do lugar aparecia uma negra a querer fazer o liceu. E o Papá, que entretanto se tornou “choffeur” do bispo, falou com este e acabou por ser por sua influência que fui admitida. Fiz assim o primeiro e o segundo anos, mas em condições psicológicas péssimas: o dia a dia, a recusa na matricula, tal e tal.
A certa altura o Papá disse: “bem, isto está mesmo tão difícil que o melhor é ires para a metrópole, mais a tua irmã. E escreveu para o Colégio de Santa Cruz, em Coimbra, para onde acabei por entrar, graças a umas facilidades que obtivemos através do Ministério do Ultramar, e onde fizemos o sétimo ano, eu e a Nina.

- A Senhora foi uma negra que pôde estudar até à universidade. Isso é raro.
- Sim, foi um cometa, o meu caso.

- É Capaz de dizer-me se essa situação ainda se mantém?

- Não. Absolutamente não.

Saberá dizer-me quantos estudantes negros acabaram o sétimo ano em 1972-73 nos diversos liceus de Moçambique?

Não sei. Mas sei que é um número superior ao que existia no meu tempo.

Sim, naturalmente, mas não tem uma ideia?
- Não sei, com franqueza. Isso mostra a minha ignorância na matéria.

E na Universidade, qual é a frequência?

- É grande. Agora formaram-se três médicos. Pode dizer: é pouco. Pois é, mas antes não havia nada disso.

Tem muitos colegas negros, a senhora?

- Eu sou a única no meu Liceu.

- E noutros liceus?
- Há, isso há.
- Numerosos?
Numerosos não?
- E na universidade, tem muitos colegas?
- Só conheço um professor de românicas.
…………………………………………..
Gostaria que falássemos um pouco de si. Importa-se?
Mais?
- Sente-se cansada?
- Diga-la, diga la o que é que quer! Mas eu depois QUERO ler o que vai escrever, sabe?
- Pode confiar, o gravador não engana e eu limitar-me-ei a pôr no papel as suas afirmações e as minhas perguntas.

- Bom… portanto a senhora regressou a Portugal em 1971. Qual era a sua situação em paris, na altura?.

Trabalhava, era secretaria na Radiotelevisão Francesa…….

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Mario Soares e Joaquım Chissano: as correspondencias (1)



 


Mario Soares e Joaquım Chissano: as correspondencias (1)
Quando Samora morreu, as relações entre Moçambique e Portugal estavam atravessando momentos azedos, com acusações mútuas. Maputo mantinha cativos alguns portugueses, e Lisboa deixava a Renamo movimentar-se livremente. Mário Soares e Joaquim Chissano recriaram um novo clima de amizade. A condição de Maputo seria, naturalmente, o cerco aos então bandidos Armados, como revela a carta de Chissano, que anexo.
1. Carta de Mário Soares a Joaquim Chissano
Lisboa, 19 de Dezembro de 1986
É esta a primeira carta que dirijo a Vossa Excelência depois da sua eleição para a Presidência da Republica Popular de Moçambique. Gostaria de começar por lhe enviar os melhores votos de Feliz Natal e Bom Ano Novo e de reafirmar a minha firme vontade de ajudar ao reforço e consolidação dos laços de amizade fraterna que unem os nossos dois povos.
Estive recentemente em visita oficial em São Tomé e Príncipe e em Cabo verde e tive então oportunidade de, nas minhas declarações públicas, reafirmar o apoio que Portugal está disposto a dar a Moçambique e a si pessoalmente, Senhor Presidente.
Reafirmo-lhe a nossa inteira disponibilidade para quaisquer diligências que Moçambique eventualmente entenda conveniente realizarmos junto dos Estados Unidos da América ou mesmo da Africa do Sul no sentido de se criar um clima de paz e estabilidade na região.
Aproveito esta ocasião para lhe falar de um assunto que por várias vezes tive oportunidade de abordar com o Presidente Samora Machel e que diz respeito à situação dos cidadãos portugueses presos na Republica Popular de Moçambique.
Espero que compreenda que não é de maneira nenhuma minha intenção intrometer-me nos assuntos internos de um Estado soberano, nem tao pouco imiscuir-me numa área que é da exclusiva competência da Justiça da Republica Popular de Moçambique.
Quero tao somente manifestar-lhe a minha maior preocupação pelas notícias que me chegam sobre a situação e as condições em que se encontram os portugueses presos em cadeias moçambicanas, cujos direitos de defesa não estariam a ser devidamente salvaguardados. Falo-lhe, concretamente, dos que se encontram detidos sem culpa formada, dos que aguardam julgamento há já algum tempo e do direito de visita e assistência dos representantes diplomáticos e consulares portugueses que não estaria a ser garantido.
Trata-se, com efeito, de acontecimentos que têm tido na opinião pública portuguesa repercussões bastante negativas e que podem, de alguma forma, vir a ensombrar excelentes relações entre os nossos dois Estados.
Neste início do seu mandato, Senhor presidente, um gesto de Vossa Excelência no sentido de eliminar quaisquer situações daquela natureza, teria certamente o grato reconhecimento e apreço do povo português.
Penso, aliás, e salvo melhor opinião, que a solução ideal para aqueles casos em que cidadãos portugueses fossem culpados – com culpa reconhecida judicialmente – de actos puníveis com prisão ou pena mais grave pela lei moçambicana, seria a sua expulsão do território moçambicano, a menos que, evidentemente, preferissem cumprir a pena na Republica Popular de Moçambique. Eliminar-se-ia, assim, uma causa constante de fricções inúteis entre nós, o que me parece estar na linha que ambos os países procuram seguir de um entendimento fraterno e sem sombras.
2. Carta de Joaquim Chissano a Mario Soares
Maputo, 8 de julho de 1987
Caro Senhor Presidente Mário Soares
Permita-me, antes de mais, apresentar-lhe os meus mais calorosos cumprimentos.
Os ministros dos Negócios Estrangeiros da Republica de Cabo verde, da Guiné-Bissau, da Republica Popular de Moçambique, da Republica Democrática de São Tomé e Príncipe e das Relações Exteriores da Republica Popular de Angola, deslocaram-se a Portugal em missão oficial dos Cinco países africanos de língua oficial portuguesa. A decisão da sua visita a Portugal foi tomada na Sétima Conferência Cimeira dos Chefes de Estado de Angola, Cabo verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, realizada em Maputo, de 21 a 22 de Maio de 1987.
Nesta oportunidade gostaria de reafirmar a Vossa Excelência a vontade comum dos “Cinco” de desenvolver e aprofundar com Portugal relações bilaterais de amizade e de cooperação.
Este sentimento outrora manifestado, por diversas vezes, quer individualmente quer em conjunto, pelos “Cinco” países, tem conhecido na pratica dificuldades de concretização, devido à cumplicidade e conveniência de certos círculos, em Portugal, com os bandidos armados que actuam contra Angola e Moçambique.
Estes bandidos armados, como é do conhecimento de Vossa Excelência, semeiam a morte e a destruição em Angola e Moçambique prosseguindo a politica de Pretoria de promover uma guerra generalizada na Africa Austral. Esta actividade ganha eco em Portugal através do acolhimento e difusão de propaganda nociva a Angola e Moçambique e, em detrimento do Estado português.
Os cinco países africanos de língua oficial portuguesa estão convencidos de que Portugal pode jogar um papel importante na solução do conflito na Africa Austral quer proibindo as actividades hostis a Angola e Moçambique que têm lugar a partir do seu território quer através do esclarecimento e sensibilização dos demais países europeus sobre a realidade na Africa Austral.
Os ministros dos Negócios Estrangeiros/Relações Exteriores estão por nós devidamente mandatados e instruídos para informar as autoridades portuguesas e, em particular Vossa Excelência, das preocupações dos “CINCO”.
Ao terminar, gostaria de exprimir-vos em nome do Governo moçambicano a inteira disponibilidade da Republica Popular de Moçambique e ainda de Angola, cabo Verde, Guine Bissau e São Tomé e Príncipe de desenvolver com Portugal relações bilaterais amistosas, cordiais e de cooperação multifacetada.
Estou certo de que sobre estas os Cinco Ministros terão oportunidade de trocar opiniões com as autoridades portuguesas e particularmente com Sua Excelência o Primeiro-ministro.
Queira, Excelência, aceitar os protestos da minha mais Alta Consideração.
E os meus melhores votos
Joaquim Alberto Chissano
Presidente da Republica Popular de Moçambique

quarta-feira, 15 de março de 2017

Amurane, o ovo de ouro que o galo não quer perder


Da pomposa acusação contra Amurane, resultou uma crise angustiosa do MDM que mereceu uma resposta jocosa de Daviz Simango. A gravidade épica do caso, insensivelmente, leva a nossa pena, ao escrever do assumpto, a cair em ecos que fazem rimas, como se o argumento estivesse a pedir epopeia. Camões há bastantes anos que desapareceu na poeira do sepulcro, e é de recear que não apareça por aí cantor á altura do feito, vate á prova de novos traidores. Dentro das fileiras emedemistas, formou-se e consolidou-se este dogma que, como dogma, já ninguém discute: Amurane já está de saída. Isto é dogma para os apoiantes do Daviz Simango, porque lhes convém que assim seja. E são eles que teimam em esbaforir-se por causa da sua crença numa aurora de reconciliação interna que, realmente, não chegará a ser dia. A força de tanto se ouvir esse preceito, também ele tem sido para nós um dogma, simplesmente sem a lata interpretativa que lhe possamos dar. Resta saber se Amurane sai sozinho ou por uma ordem de expulsão.
Em apuros, pesadelo prolongado, desespero, são algumas das palavras honestas para classificar o clima no MDM. Os seus conselheiros espirituais, os seus adeptos virtuais e reais estão divididos. Não sabem se apoiam ao galo ofendendo o pinto ou se ao pinto ofendendo o galo. “Amai-vos uns aos outros” é o apelo do momento. Amurane, o edil de Nampula, exige do Simango, o edil da Beira, um pedido público de desculpas. Sinango fala em democracia interna. O pomo da questão reside no facto de o primeiro julgar-se vítima de calúnias, aparentemente promovidas por testas-de-ferro nativos do segundo. O ambiente é, por assim dizer, de cortar á faca. Uns dizem que Amurane é um corpo de ferro com pernas de barro. Qualquer movimento em direcção a água irá causar danos porque o barro com que se moldaram as suas pernas irá derreter. Para eles, Simango pode dizer “Pai, se for possível afasta de mim este cálice”. Outros, em número reduzido, continuam dando razão ao Amurane.
Para nós, trata-se de uma luta cultural. Para o bem do partido e para o bem do próprio Amurane, uma cisao quanto cedo melhor, antes que se criem danos mútuos maiores. Haverá coragem para tal? Pelo sim ou pelo não, com ou sem machado na mão, pronto a cortar o mal pela raiz, a marginalização de Amurane será sinónimo de uma afronta cultural entre os fantoches de Simango e os macuas da casa, não só da cidade de Nampula como também dos distritos daquela província. Na verdade, a luta não pode ser vista como entre Amurane e MDM ou entre aquele e Simango, mas o início de uma resistência e necessidade de afirmação da cultura e das lideranças macua ante a expansão Ndau, representada primeiro por Dhlakama e agora por Simango. Amurane pode ser desses ovos que não aparecem por acaso. Os ovos de ouro. Terá algum suporte e coragem? Por quanto tempo, ninguém sabe dizer.
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O estranho silêncio dos camaradas




Alarme! A Renamo mudou de água para vinho. E o MDM do vinho para a água. O momento histórico que vamos atravessando, não será, talvez, o prenúncio de ocasiões difíceis, mas é certamente um momento de graves preocupações dignos de reparo para quantos pensam no futuro duma Frelimo que foi grande, entre os maiores partidos libertários, e tem, nas páginas da história africana, mais duma epopeia brilhante. O telefone mágico de Dezembro passado trouxe consigo um fenómeno novo na história da Frelimo: o silêncio. De repente as vozes da reserva moral se calaram. O silêncio sepulcral. Uma armadilha ou uma harmonia? Pelo sim ou pelo não, há momentos em que é preciso falar. Ainda que a voz de quem fala seja insignificante para merecer a atenção da corte. Calou-se Joaquim Chissano. Já não fala Graça Machel. Já não fala Sérgio Vieira. Já não fala Jorge Rebelo, já não fala Teodato Hunguana. Já não fala Luísa Diogo. Todos eles, nem apoiam nem se opõem ao rumo das coisas. Harmonia ou submissão? Satisfeitos?  Será o silêncio de concordância ou de traição. O que nos diz a nossa história?

A Renamo que nos combate há quatro décadas se ergue. Pode ser com a nossa ajudinha, o que é mau! Pelo esforço e pela audácia dos nossos libertadores, soubemos conquistar o mais extenso quinhão das almas que Salazar ocultava à África, e chamar para o convívio da liberdade milhões de homens, avassalados pelo colonialismo. Desvendamos ao continente inteiro, que nos contemplava, este desejo genuíno que se acumulava para além duma simples resistência e se havia conservado por 477 anos sem que ninguém conseguisse aproveita-lo em benefício dos moçambicanos. Atingimos com vertiginosa rapidez o apogeu da glória. A bandeira moçambicana flutuou vitoriosa nas mais longínquas paragens onde se abriam representações diplomáticas. Cá dentro, os estrangeiros prestavam vassalagem aos heróis que, pelo esforço do seu braço poderoso e pela fina têmpera das suas alabardas e montantes, tinham conseguido impor-se ao número incalculável dos inimigos que pretendiam impedir-lhes o passo e evitar-lhes o predomínio.

Representávamos, então, o partido dominador e tínhamos nas veias esse sangue generoso e quente, que em Lusaka nos firmara a autonomia e nos assegurára a paz. Nessa época em que arrancamos o poderoso Portugal o senhorio de Moçambique, em que fizemos desta terra o porto mais importante da Linha da Frente, nem éramos mais numerosos. A nossa grandeza e a nossa força era-nos dada pela fé que nos alentava, pela esperança de que nos engrandeceríamos, pela convicção profunda e inabalável de que pela Pátria tudo deveríamos sacrificar. Mas sobretudo, pela crítica e pela autocrítica, como estatuado no nosso estatuto.

Infelizmente passaram esses tempos gloriosos; a pouco e pouco foi-se-nos enfraquecendo o braço, e a guarda avançada dos desastres começados em Tete, pela mão da então África Livre, alastrou-se como lepra que devia corroer-nos em dezasseis anos de triste e amargurada privação da felicidade. A tradição que havíamos sido, a vergonha do que éramos nesse período de lágrimas e de sangue, fez-nos tentar um esforço e o Leão de Dar-es-Sallam sentiu, que nos heróis da liberdade não se havia extinguido por completo o valor de antigas eras. E por mais de duas décadas pode acreditar-se que novamente readquiriríamos o prestígio abalado e a força perdida em tão cruéis e duras provações. Sucedeu-se, porém, a invasão de Moxungue, a luta fratricida que as novas ideias proclamadas em 2012 e desde então tinham ateado por toda a parte. Depois de implantada a nova liberdade, em Setembro de 2014, que era o fruto óptimo de tanto sangue derramado e de tanta incerteza, adormecemos serenamente a pensar em glórias e conquistas passadas, sem repararmos na evolução social, que ao nosso lado se erguia, para transformar os moçambicanos e desenvolver-lhes as ambições de confiarem em nós. Enquanto a Renamo e o MDM se preparavam para a conquista pelos processos mais práticos e mais eficazes, nós permanecemos nessa estática contemplação que nos colocou a beira do abismo e agora nos ameaça às conquistas, o poder, a tranquilidade e a autonomia.

Como o leão da fábula aqui estamos velhos e fracos, sujeitos as vaias, falsas acusações de roubo de votos e aos apupos dos que não souberam descobrir, mas que aprenderam, nesse código de astucia e ardis a que se chama esperteza, a aproveitar-se do trabalho alheio. Já fomos corridos de duas das três cidades principais do país. Em 2018 somos obrigados a defender o que temos e a reconquistar o que perdemos. É esta a nossa situação: difícil, dolorosa, terrível. É a lei da vida dos partidos, atingir as mais altas cumeadas para descer depois aos mais profundos vales. O que nos resta é subir novamente a encosta, por onde nos deixamos resvalar e, ganhar de novo às alturas só inacessíveis para os fracos e para os pusilânimes. Falem camaradas, quer concordem como não com o rumo das coisas. O nosso adversário já espreita e precisamos de defender o nosso período de glória. Em conjunto.  Algures no centro, estão três cidades, devidamente assinaladas. No Norte, uma. E todas elas estão ali naquelas mãos porque alguém decidiu dormir em serviço. Foram eles quem nos roubou os votos pelo excesso da nossa confiança. Mas são cidades por serem libertas, porque não fomos nós que apanhamos a oposição a dormir. Como as libertaremos em silêncio cúmplice?

Mas para que este novo período de engrandecimento recomece, para que possamos conservar com honra a tradição brilhante que até nós chegou, unamo-nos ao presidente Nyusi, dizendo-lhe algo, e convençamo-nos de que, se não temos legiões que cheguem para a conquista do que às outras foi dado assoberbar, nos hão-de chegar meia dúzia de centúrias para defender o que de direito nos pertence: Beira, Nampula, Quelimane, Gurue, Moçambique. Mas é necessário que falemos. Abandonar Nyusi não é solução certa. Mesmo que esta seja a vontade dele. Não fiquemos contentes com os dizeres do tipo “agora Nyusi está a começar dirigir”. São armadilhas, que nos custarão o alto preço. Se chegámos até onde chegamos foi porque éramos uma equipa. Vivíamos, dormíamos, comíamos e lutávamos em equipa. Essa conversa do herói individual é uma grande falha. Unamo-nos, sim, com um só pensamento, o engrandecimento da Frelimo e com ela, o de Moçambique. Mas nessa união, não esqueçamos um só instante de que somos os bons e os leais frelimistas doutras eras, e que o sangue que nos alimenta a vida e nos aquece o organismo, é esse sangue nobre e generoso, que pode ainda elevar-nos com a mesma fé e conseguir com a mesma esperança e que o momento psicológico para a nossa reabilitação seja a data gloriosa em que vai passar para nós a terra perdida.