quinta-feira, 20 de abril de 2017

Mario Soares e Joaquım Chissano: as correspondencias (1)



 


Mario Soares e Joaquım Chissano: as correspondencias (1)
Quando Samora morreu, as relações entre Moçambique e Portugal estavam atravessando momentos azedos, com acusações mútuas. Maputo mantinha cativos alguns portugueses, e Lisboa deixava a Renamo movimentar-se livremente. Mário Soares e Joaquim Chissano recriaram um novo clima de amizade. A condição de Maputo seria, naturalmente, o cerco aos então bandidos Armados, como revela a carta de Chissano, que anexo.
1. Carta de Mário Soares a Joaquim Chissano
Lisboa, 19 de Dezembro de 1986
É esta a primeira carta que dirijo a Vossa Excelência depois da sua eleição para a Presidência da Republica Popular de Moçambique. Gostaria de começar por lhe enviar os melhores votos de Feliz Natal e Bom Ano Novo e de reafirmar a minha firme vontade de ajudar ao reforço e consolidação dos laços de amizade fraterna que unem os nossos dois povos.
Estive recentemente em visita oficial em São Tomé e Príncipe e em Cabo verde e tive então oportunidade de, nas minhas declarações públicas, reafirmar o apoio que Portugal está disposto a dar a Moçambique e a si pessoalmente, Senhor Presidente.
Reafirmo-lhe a nossa inteira disponibilidade para quaisquer diligências que Moçambique eventualmente entenda conveniente realizarmos junto dos Estados Unidos da América ou mesmo da Africa do Sul no sentido de se criar um clima de paz e estabilidade na região.
Aproveito esta ocasião para lhe falar de um assunto que por várias vezes tive oportunidade de abordar com o Presidente Samora Machel e que diz respeito à situação dos cidadãos portugueses presos na Republica Popular de Moçambique.
Espero que compreenda que não é de maneira nenhuma minha intenção intrometer-me nos assuntos internos de um Estado soberano, nem tao pouco imiscuir-me numa área que é da exclusiva competência da Justiça da Republica Popular de Moçambique.
Quero tao somente manifestar-lhe a minha maior preocupação pelas notícias que me chegam sobre a situação e as condições em que se encontram os portugueses presos em cadeias moçambicanas, cujos direitos de defesa não estariam a ser devidamente salvaguardados. Falo-lhe, concretamente, dos que se encontram detidos sem culpa formada, dos que aguardam julgamento há já algum tempo e do direito de visita e assistência dos representantes diplomáticos e consulares portugueses que não estaria a ser garantido.
Trata-se, com efeito, de acontecimentos que têm tido na opinião pública portuguesa repercussões bastante negativas e que podem, de alguma forma, vir a ensombrar excelentes relações entre os nossos dois Estados.
Neste início do seu mandato, Senhor presidente, um gesto de Vossa Excelência no sentido de eliminar quaisquer situações daquela natureza, teria certamente o grato reconhecimento e apreço do povo português.
Penso, aliás, e salvo melhor opinião, que a solução ideal para aqueles casos em que cidadãos portugueses fossem culpados – com culpa reconhecida judicialmente – de actos puníveis com prisão ou pena mais grave pela lei moçambicana, seria a sua expulsão do território moçambicano, a menos que, evidentemente, preferissem cumprir a pena na Republica Popular de Moçambique. Eliminar-se-ia, assim, uma causa constante de fricções inúteis entre nós, o que me parece estar na linha que ambos os países procuram seguir de um entendimento fraterno e sem sombras.
2. Carta de Joaquim Chissano a Mario Soares
Maputo, 8 de julho de 1987
Caro Senhor Presidente Mário Soares
Permita-me, antes de mais, apresentar-lhe os meus mais calorosos cumprimentos.
Os ministros dos Negócios Estrangeiros da Republica de Cabo verde, da Guiné-Bissau, da Republica Popular de Moçambique, da Republica Democrática de São Tomé e Príncipe e das Relações Exteriores da Republica Popular de Angola, deslocaram-se a Portugal em missão oficial dos Cinco países africanos de língua oficial portuguesa. A decisão da sua visita a Portugal foi tomada na Sétima Conferência Cimeira dos Chefes de Estado de Angola, Cabo verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, realizada em Maputo, de 21 a 22 de Maio de 1987.
Nesta oportunidade gostaria de reafirmar a Vossa Excelência a vontade comum dos “Cinco” de desenvolver e aprofundar com Portugal relações bilaterais de amizade e de cooperação.
Este sentimento outrora manifestado, por diversas vezes, quer individualmente quer em conjunto, pelos “Cinco” países, tem conhecido na pratica dificuldades de concretização, devido à cumplicidade e conveniência de certos círculos, em Portugal, com os bandidos armados que actuam contra Angola e Moçambique.
Estes bandidos armados, como é do conhecimento de Vossa Excelência, semeiam a morte e a destruição em Angola e Moçambique prosseguindo a politica de Pretoria de promover uma guerra generalizada na Africa Austral. Esta actividade ganha eco em Portugal através do acolhimento e difusão de propaganda nociva a Angola e Moçambique e, em detrimento do Estado português.
Os cinco países africanos de língua oficial portuguesa estão convencidos de que Portugal pode jogar um papel importante na solução do conflito na Africa Austral quer proibindo as actividades hostis a Angola e Moçambique que têm lugar a partir do seu território quer através do esclarecimento e sensibilização dos demais países europeus sobre a realidade na Africa Austral.
Os ministros dos Negócios Estrangeiros/Relações Exteriores estão por nós devidamente mandatados e instruídos para informar as autoridades portuguesas e, em particular Vossa Excelência, das preocupações dos “CINCO”.
Ao terminar, gostaria de exprimir-vos em nome do Governo moçambicano a inteira disponibilidade da Republica Popular de Moçambique e ainda de Angola, cabo Verde, Guine Bissau e São Tomé e Príncipe de desenvolver com Portugal relações bilaterais amistosas, cordiais e de cooperação multifacetada.
Estou certo de que sobre estas os Cinco Ministros terão oportunidade de trocar opiniões com as autoridades portuguesas e particularmente com Sua Excelência o Primeiro-ministro.
Queira, Excelência, aceitar os protestos da minha mais Alta Consideração.
E os meus melhores votos
Joaquim Alberto Chissano
Presidente da Republica Popular de Moçambique

quarta-feira, 15 de março de 2017

Amurane, o ovo de ouro que o galo não quer perder


Da pomposa acusação contra Amurane, resultou uma crise angustiosa do MDM que mereceu uma resposta jocosa de Daviz Simango. A gravidade épica do caso, insensivelmente, leva a nossa pena, ao escrever do assumpto, a cair em ecos que fazem rimas, como se o argumento estivesse a pedir epopeia. Camões há bastantes anos que desapareceu na poeira do sepulcro, e é de recear que não apareça por aí cantor á altura do feito, vate á prova de novos traidores. Dentro das fileiras emedemistas, formou-se e consolidou-se este dogma que, como dogma, já ninguém discute: Amurane já está de saída. Isto é dogma para os apoiantes do Daviz Simango, porque lhes convém que assim seja. E são eles que teimam em esbaforir-se por causa da sua crença numa aurora de reconciliação interna que, realmente, não chegará a ser dia. A força de tanto se ouvir esse preceito, também ele tem sido para nós um dogma, simplesmente sem a lata interpretativa que lhe possamos dar. Resta saber se Amurane sai sozinho ou por uma ordem de expulsão.
Em apuros, pesadelo prolongado, desespero, são algumas das palavras honestas para classificar o clima no MDM. Os seus conselheiros espirituais, os seus adeptos virtuais e reais estão divididos. Não sabem se apoiam ao galo ofendendo o pinto ou se ao pinto ofendendo o galo. “Amai-vos uns aos outros” é o apelo do momento. Amurane, o edil de Nampula, exige do Simango, o edil da Beira, um pedido público de desculpas. Sinango fala em democracia interna. O pomo da questão reside no facto de o primeiro julgar-se vítima de calúnias, aparentemente promovidas por testas-de-ferro nativos do segundo. O ambiente é, por assim dizer, de cortar á faca. Uns dizem que Amurane é um corpo de ferro com pernas de barro. Qualquer movimento em direcção a água irá causar danos porque o barro com que se moldaram as suas pernas irá derreter. Para eles, Simango pode dizer “Pai, se for possível afasta de mim este cálice”. Outros, em número reduzido, continuam dando razão ao Amurane.
Para nós, trata-se de uma luta cultural. Para o bem do partido e para o bem do próprio Amurane, uma cisao quanto cedo melhor, antes que se criem danos mútuos maiores. Haverá coragem para tal? Pelo sim ou pelo não, com ou sem machado na mão, pronto a cortar o mal pela raiz, a marginalização de Amurane será sinónimo de uma afronta cultural entre os fantoches de Simango e os macuas da casa, não só da cidade de Nampula como também dos distritos daquela província. Na verdade, a luta não pode ser vista como entre Amurane e MDM ou entre aquele e Simango, mas o início de uma resistência e necessidade de afirmação da cultura e das lideranças macua ante a expansão Ndau, representada primeiro por Dhlakama e agora por Simango. Amurane pode ser desses ovos que não aparecem por acaso. Os ovos de ouro. Terá algum suporte e coragem? Por quanto tempo, ninguém sabe dizer.
Mostrar mais reações

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O estranho silêncio dos camaradas




Alarme! A Renamo mudou de água para vinho. E o MDM do vinho para a água. O momento histórico que vamos atravessando, não será, talvez, o prenúncio de ocasiões difíceis, mas é certamente um momento de graves preocupações dignos de reparo para quantos pensam no futuro duma Frelimo que foi grande, entre os maiores partidos libertários, e tem, nas páginas da história africana, mais duma epopeia brilhante. O telefone mágico de Dezembro passado trouxe consigo um fenómeno novo na história da Frelimo: o silêncio. De repente as vozes da reserva moral se calaram. O silêncio sepulcral. Uma armadilha ou uma harmonia? Pelo sim ou pelo não, há momentos em que é preciso falar. Ainda que a voz de quem fala seja insignificante para merecer a atenção da corte. Calou-se Joaquim Chissano. Já não fala Graça Machel. Já não fala Sérgio Vieira. Já não fala Jorge Rebelo, já não fala Teodato Hunguana. Já não fala Luísa Diogo. Todos eles, nem apoiam nem se opõem ao rumo das coisas. Harmonia ou submissão? Satisfeitos?  Será o silêncio de concordância ou de traição. O que nos diz a nossa história?

A Renamo que nos combate há quatro décadas se ergue. Pode ser com a nossa ajudinha, o que é mau! Pelo esforço e pela audácia dos nossos libertadores, soubemos conquistar o mais extenso quinhão das almas que Salazar ocultava à África, e chamar para o convívio da liberdade milhões de homens, avassalados pelo colonialismo. Desvendamos ao continente inteiro, que nos contemplava, este desejo genuíno que se acumulava para além duma simples resistência e se havia conservado por 477 anos sem que ninguém conseguisse aproveita-lo em benefício dos moçambicanos. Atingimos com vertiginosa rapidez o apogeu da glória. A bandeira moçambicana flutuou vitoriosa nas mais longínquas paragens onde se abriam representações diplomáticas. Cá dentro, os estrangeiros prestavam vassalagem aos heróis que, pelo esforço do seu braço poderoso e pela fina têmpera das suas alabardas e montantes, tinham conseguido impor-se ao número incalculável dos inimigos que pretendiam impedir-lhes o passo e evitar-lhes o predomínio.

Representávamos, então, o partido dominador e tínhamos nas veias esse sangue generoso e quente, que em Lusaka nos firmara a autonomia e nos assegurára a paz. Nessa época em que arrancamos o poderoso Portugal o senhorio de Moçambique, em que fizemos desta terra o porto mais importante da Linha da Frente, nem éramos mais numerosos. A nossa grandeza e a nossa força era-nos dada pela fé que nos alentava, pela esperança de que nos engrandeceríamos, pela convicção profunda e inabalável de que pela Pátria tudo deveríamos sacrificar. Mas sobretudo, pela crítica e pela autocrítica, como estatuado no nosso estatuto.

Infelizmente passaram esses tempos gloriosos; a pouco e pouco foi-se-nos enfraquecendo o braço, e a guarda avançada dos desastres começados em Tete, pela mão da então África Livre, alastrou-se como lepra que devia corroer-nos em dezasseis anos de triste e amargurada privação da felicidade. A tradição que havíamos sido, a vergonha do que éramos nesse período de lágrimas e de sangue, fez-nos tentar um esforço e o Leão de Dar-es-Sallam sentiu, que nos heróis da liberdade não se havia extinguido por completo o valor de antigas eras. E por mais de duas décadas pode acreditar-se que novamente readquiriríamos o prestígio abalado e a força perdida em tão cruéis e duras provações. Sucedeu-se, porém, a invasão de Moxungue, a luta fratricida que as novas ideias proclamadas em 2012 e desde então tinham ateado por toda a parte. Depois de implantada a nova liberdade, em Setembro de 2014, que era o fruto óptimo de tanto sangue derramado e de tanta incerteza, adormecemos serenamente a pensar em glórias e conquistas passadas, sem repararmos na evolução social, que ao nosso lado se erguia, para transformar os moçambicanos e desenvolver-lhes as ambições de confiarem em nós. Enquanto a Renamo e o MDM se preparavam para a conquista pelos processos mais práticos e mais eficazes, nós permanecemos nessa estática contemplação que nos colocou a beira do abismo e agora nos ameaça às conquistas, o poder, a tranquilidade e a autonomia.

Como o leão da fábula aqui estamos velhos e fracos, sujeitos as vaias, falsas acusações de roubo de votos e aos apupos dos que não souberam descobrir, mas que aprenderam, nesse código de astucia e ardis a que se chama esperteza, a aproveitar-se do trabalho alheio. Já fomos corridos de duas das três cidades principais do país. Em 2018 somos obrigados a defender o que temos e a reconquistar o que perdemos. É esta a nossa situação: difícil, dolorosa, terrível. É a lei da vida dos partidos, atingir as mais altas cumeadas para descer depois aos mais profundos vales. O que nos resta é subir novamente a encosta, por onde nos deixamos resvalar e, ganhar de novo às alturas só inacessíveis para os fracos e para os pusilânimes. Falem camaradas, quer concordem como não com o rumo das coisas. O nosso adversário já espreita e precisamos de defender o nosso período de glória. Em conjunto.  Algures no centro, estão três cidades, devidamente assinaladas. No Norte, uma. E todas elas estão ali naquelas mãos porque alguém decidiu dormir em serviço. Foram eles quem nos roubou os votos pelo excesso da nossa confiança. Mas são cidades por serem libertas, porque não fomos nós que apanhamos a oposição a dormir. Como as libertaremos em silêncio cúmplice?

Mas para que este novo período de engrandecimento recomece, para que possamos conservar com honra a tradição brilhante que até nós chegou, unamo-nos ao presidente Nyusi, dizendo-lhe algo, e convençamo-nos de que, se não temos legiões que cheguem para a conquista do que às outras foi dado assoberbar, nos hão-de chegar meia dúzia de centúrias para defender o que de direito nos pertence: Beira, Nampula, Quelimane, Gurue, Moçambique. Mas é necessário que falemos. Abandonar Nyusi não é solução certa. Mesmo que esta seja a vontade dele. Não fiquemos contentes com os dizeres do tipo “agora Nyusi está a começar dirigir”. São armadilhas, que nos custarão o alto preço. Se chegámos até onde chegamos foi porque éramos uma equipa. Vivíamos, dormíamos, comíamos e lutávamos em equipa. Essa conversa do herói individual é uma grande falha. Unamo-nos, sim, com um só pensamento, o engrandecimento da Frelimo e com ela, o de Moçambique. Mas nessa união, não esqueçamos um só instante de que somos os bons e os leais frelimistas doutras eras, e que o sangue que nos alimenta a vida e nos aquece o organismo, é esse sangue nobre e generoso, que pode ainda elevar-nos com a mesma fé e conseguir com a mesma esperança e que o momento psicológico para a nossa reabilitação seja a data gloriosa em que vai passar para nós a terra perdida. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O Galinho e o Escândalo na Capoeira


Um categorizado frelimista que tem uma grande simpatia pela nossa história, perguntava-nos aqui há tempo porque é que o nosso Partido se ocupava mais com a sua causa do que propriamente com o combate oposição que é necessário derrubar. A razão é simples e só não convencerá aqueles que se não quiserem convencer. A oposição demagógica proclamada em 1992, consequência natural de seu passado destruidor, encerra em si tais germes de destruição que outra coisa não tem feito do que aniquilar-se a si própria. A massa frelimista é hoje incomparavelmente maior do que em 23 de Outubro de 1994. Porquê? Porque a oposição se tem encarregado de demonstrar o absurdo das suas afirmações e o desastre que representa a sua existência. A Renamo combate o MDM, o MDM combate a Renamo, o PDD combate o PIMO, o PIMO combate o Partido Ecologista, o MDM combate-se a si próprio. A oposição é, portanto, a melhor organização de combate à oposição que podemos desejar. Neste capítulo, a Frelimo nada tem a acrescentar.
Está dando que falar um pronunciamento que um futuro antigo membro do Comité Central de um partido, ultimamente prestes a cair em desgraça, veio contar cá para fora o que se passava lá dentro enquanto não estavam de nucas apontadas com o chefe, como estes criados despedidos que, em se apanhando na rua, vão logo de porta em porta, ofendidos e queixosos, explicar o motivo melindroso porque saíram. O autor da fala pertence ao número dos “de costume” inculcados a nação por essa espécie de agência “avícolas Lda” que se chamou galináceo. Tendo falhado, como estes, como outros, como todos os que insultam o regime do dia, vem agora a futrica explicar o desastre do seu malogro, dando a entender com razoes de mau actor que se não representou melhor foi porque não deixaram – isto em 12 longos minutos da mais saborosa intriga, em que há visões de tudo, desde a da venda do terreno da igreja a um amigo da escola ate a de um chefe rodeados de melhores advogados do roubo ruminando infâmias.
A fala fez escândalo e, segundo o declara, cava e profundamente, o Jornal Magazine Independente, está destinada a imprimir um grave solavanco no sistema dinástico vigente no Chiveve. Diz-se que o galinho estará de malas feitas para o mato. A concretizar-se o que o respeitadíssimo Jornal escreve, estaremos diante de um espião que as aves do mato conseguiram fazer infiltrar-se na capoeira. Com um galinho de tanto fôlego como é o actual naquela capoeira, afigura-se-me ousado predizer-lhe o fim. Esforços convulsivos se fizeram. O galo fez uma viagem ao Sul, quebrando o costume, a fim de pedir conselhos do único filósofo do grupo. Quando, porém, o sistema linhageiro não soçobre sob o peso das inconfidências do seu antigo servo, o que já não é possível evitar, é que ele fique exposto, enquanto vivo for, à afronta permanente da opinião, dessa opinião de que todos desdenham, mas que no fundo todos temem.
Dizem certos jornais que o autor do tiro da divisão levantou uma ponta do véu. Levantar a ponta de um véu é praticar uma acção discreta e o que ele fez foi mais decisivo: rasgou-o, o que expõe d’ora avante a dinastia e o poder à uma vida devassada, como inquilinos da capoeira obrigados a viver nela sem portas e janelas. Resumindo, também são corruptos. Esta mesmo foi a única utilidade do escândalo. Assim, o dono da capoeira já sabe daqui para o futuro como conduzir-se. Um conselho genérico! Quando tiver em mãos correspondência privada de algum dos seus súbditos e queira, no uso das suas prerrogativas, viola-la, como o fez com tanta finura nos e-mails denunciados, procure refugiar-se em lugar escuso de sua casa e feche-se por dentro, porque do contrário será surpreendido. Nós estamos a ver. Quando houver de revelar-se, seja prudente, parco de palavras, sóbrio de gestos. Quando tenha de falar da má governação dos outros, volte para a parede. Não esqueça nunca que o estamos a ver. Cautela, muita cautela! As portas estão abertas. Pelas janelas vê-se tudo. Cautela com o que dizem, cautela com o que fazem! Conspirem, mas dissimulem, atraiçoem, se absolutamente lhes for mister, mas finjam sacrificar-se, quando irresistivelmente algum houver de encafuar a mão nas profundezas do erário, faça-o de forma que não se veja, faça-o com rapidez, seja presto, porque do contrário será apanhado ao retira-la de dentro. Numa palavra, muito olho. Tal a moralidade que os verdadeiros interessados devem tirar do escândalo da capoeira. Aqui estão duras verdades que quase toda a gente diz baixinho e que nós temos a coragem de dizer alto, porque temos a certeza de que assim é que se serve utilmente à nação.


Eusébio A. P. Gwembe 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017